terça-feira, 25 de novembro de 2025

Crossover: uma palavra que não devia existir no mundo das motos?

Há palavras que nascem com propósito, mas morrem de abuso. “Crossover” é uma delas. Vinda do mundo dos automóveis, significava — no seu berço — uma fusão entre duas espécies: o carro de estrada e o SUV (veiculo utilitário desportivo, em português europeu). Um cruzamento que, nos anos 90, parecia inovador e até lógico. Surgia uma nova categoria que queria a postura elevada do 4x4 e o conforto de um utilitário, mas sem o peso e a rusticidade de nenhum deles. No papel, fazia sentido. Na prática, virou lugar-comum. 

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E o chavão, como sabemos, é o parente pobre da linguagem técnica. Quando a moda passou do automóvel para a moto, “crossover” deixou de significar o que quer que fosse. Tornou-se uma palavra-tampão, uma espécie de cola conceptual usada para tapar buracos de marketing: quando uma moto não se encaixa bem em nenhuma gaveta, chama-se-lhe “crossover” e pronto. Já está. É scooter? É trail? É sport-touring? É turismo de média cilindrada? É tudo e não é nada. 

A ORIGEM DO CRUZAMENTO 
A etimologia é clara: to cross over — atravessar, misturar, fundir. No automóvel, designava um veículo que cruzava a estrutura de um turismo com a postura de um utilitário. No motociclismo, porém, o cruzamento raramente acontece no plano técnico; acontece no plano visual. Plásticos “aventureiros”, rodas ligeiramente maiores, pneus com um toque de taco e pronto — está feito o “crossover”. 

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Ora, a essência da engenharia motociclista não vive de aparências. Vive de geometrias, de pesos, de distribuição de massas, de transmissões, de equilíbrio entre conforto e precisão. E é por isso que chamar “crossover” a uma scooter é uma incongruência. Pode ter pneus mistos e guarda-lamas alto, mas continua a ser uma scooter. Com variador, quadro compacto, baixo centro de gravidade, rodas pequenas e uma vocação urbana inegável. Chamar-lhe “crossover” não a transforma noutra coisa — apenas a disfarça de algo que não é. 

A SPORT-TOURER, O SACO GIGANTE 
Outro equívoco nasce nas médias e grandes cilindradas. Há quem diga que uma Sport-Tourer de 150 cv “é uma crossover”. E a verdade é que o saco do Sport-Touring é largo o suficiente para albergar tudo isso — desde as mais desportivas, com um toque de estrada, às mais turísticas com uma ponta de adrenalina. Não há aqui cruzamento, há nuance. 

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Não é preciso inventar uma categoria nova para justificar uma ergonomia intermédia ou uma suspensão ajustável. As Sport-Tourers são, por natureza, isso mesmo: um equilíbrio entre o conforto de viajar e o prazer de curvar. 

A X-ADV: A EXCEPÇÃO QUE CONFIRMA A REGRA 
Admitamos: há um caso em que a designação híbrida tem alguma legitimidade. A Honda X-ADV. Quando nasceu, houve quem lhe chamasse “SUV das motos” — Sport Utility Vehicle. E, pela primeira vez, havia fundamento: uma estrutura de moto, um ambiente de scooter, um comportamento dinâmico genuinamente misto. 


A X-ADV não era apenas estética; era engenharia a cruzar fronteiras. Mesmo assim, ela é a X-ADV — ponto final. Não é “crossover”, nem “SUV”, nem “trail urbana”. É um conceito próprio, autónomo, que criou o seu espaço sem precisar de rótulos emprestados. 

ENTRE OS 300 E OS 400 CC — O LIMBO DO MARKETING 
Mais recentemente, assistimos à proliferação das scooters de 300-400 cc, com pneus de desenho misto e suspensões ligeiramente mais altas. Todas, invariavelmente, rotuladas de “crossover”. E nenhuma deixou de ser scooter. E, verdade seja dita, não há mal nenhum nisso. O problema não é ser scooter. 

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O problema é fingir que é outra coisa para agradar a um público que quer parecer aventureiro sem o ser. O marketing transformou o “crossover” numa espécie de passaporte para a ilusão: uma forma de vender quotidiano embrulhado em aspiração. 

A PALAVRA QUE É MELHOR APAGAR? 
Por tudo isto, talvez o melhor que o mundo das motos tem a fazer é simples: apagar o termo “crossover” do léxico motociclista. Porque no fim do dia, uma scooter é uma scooter. Uma Sport-Tourer é uma Sport-Tourer. Uma Light-Trail é uma Light-Trail. E uma X-ADV é uma X-ADV. As motos são, antes de tudo, honestas — mesmo quando o marketing insiste em confundi-las. Se o mundo automóvel precisa de híbridos para se reinventar, o mundo das motos precisa apenas de clareza. E de uma palavra a menos. 

Este texto pode vir a integrar uma série de reflexões críticas sobre o léxico contemporâneo do motociclismo — onde o marketing tende a gritar mais alto do que a engenharia. No Escape Mais Rouco, acreditamos que as palavras importam tanto como as curvas: ambas devem ter direção, consistência e verdade.

1 comentário:

  1. Meu caro Pedro, é sempre um gosto ler o que o meu amigo escreve. Porém, noto que o motociclismo actual parece necessitar de discussões que irão muito para além do léxico. Grande abraço PS. e trns razão, a X-Adv não é coisa alguma ;-)

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