sexta-feira, 20 de março de 2026

Motociclismo em tempo de crise ou quando poupar deixa de ser opção

Há momentos em que o contexto muda — e até pode não voltar atrás. O que está a acontecer no Médio Oriente, com impacto direto no Estreito de Ormuz, não é apenas mais um episódio geopolítico. É um lembrete brutal de como a nossa mobilidade continua dependente de um recurso volátil, concentrado e vulnerável. 


Cerca de 20% do petróleo mundial passa por ali. Não é preciso muito mais para perceber o que se segue: instabilidade, pressão nos mercados e, inevitavelmente, combustíveis mais caros. Hoje – ao dia e momento que escrevemos - com o barril já acima dos 100 dólares (a tocar nos 110) e a gasolina já na casa dos 2€ por litro, o problema não é o pico. É o novo normal. 

A DIFERENÇA ENTRE REAGIR E ANTECIPAR 
Enquanto muitos começam agora a fazer contas, há quem já tenha feito essa transição há anos. No meu caso, essa decisão chama-se Honda Forza 125. Desde há cinco anos. Não foi uma reação a crises. Foi uma escolha racional, sustentada numa ideia simples: reduzir dependência, baixar custos e manter mobilidade real no dia-a-dia. 

Foto: Gonçalo Fabião

Cinco anos depois são quase 60.000 km; manutenção regular; zero avarias; nem uma lâmpada substituída. É consistência. E sim, há dois pontos menos bons: a suspensão sofre no relevo destrutivo de Lisboa e o computador de bordo é otimista ao ponto de distorcer consumos em 10 a 20%. No entanto nada disso altera o essencial: eficiência brutal no mundo real. 

FAZER CONTAS (PORQUE OPINIÃO SEM NÚMEROS VALE POUCO) 
Vamos simplificar isto ao máximo. Cenário realista: 50 quilómetros por dia em 22 dias úteis são 1100 quilómetros por mês. Numa “lata” média são 6,5 L/100 km e cerca 143€/mês. Numa scooter tipo Honda Forza 125 a consumir 2,5 L/100 km são cerca 55€/mês. Numa elétrica de topo como a recentemente aqui provada LiveWire S2 Alpinista (link) são cerca 9 kWh/100 km, a 0,20€/kWh, cerca de 20€/mês. 

A pergunta que interessa. Não é “qual consome menos”. É esta: quanto dinheiro estás disposto a continuar a queimar todos os meses só para manter hábitos antigos? A diferença entre carro e uma 125 anda perto dos 90€/mês. Entre carro e elétrica, passa facilmente dos 120€. Agora multiplica isso por um ano. 

AS ESCOLHAS CERTAS (DEPENDENDO DO TIPO DE VIDA, NÃO DO EGO) 
Substituir um carro não é uma questão de consumo. É uma questão de capacidade real de uso. Substituir o carro é um prazer até. Se queres conforto, proteção e usabilidade diária tens varias opções como por exemplo a Honda Forza 350 ou a Yamaha XMAX 300.


Proteção, autonomia, espaço, consistência. Sem isso, não há transição — há frustração. É neste território que se afirmam propostas como a Honda Forza 350 e a Yamaha XMAX 300. Face à Forza 125, a 350 oferece mais motor, mais alcance, mais margem. Mais segurança. Mantém a suavidade e a proteção que definem o conceito e acrescenta-lhe maturidade. Já não é apenas uma solução urbana — é uma ferramenta de mobilidade completa. 

E depois há a Voge SR3 recentemente provada no ESCAPE (link). A Voge SR3, traz uma nuance fascinante. Não é exatamente uma 300, é uma 255 cc com cerca de 25 CV, mas a sua relação peso-potência aproxima-se das 300cc. Isto muda a perspetiva: temos uma moto que se sente maior do que é, mas com um preço que faz qualquer outro argumento perder força. Por cerca de 4.000 euros, encontramos uma scooter com estas características — e muitas vezes mais barata que algumas 125 cc ditas premium de marcas japonesa. Num cenário de pressão sobre os combustíveis, isso não é um detalhe. É o argumento.

EFICIÊNCIA PURA 
Se a prioridade é gastar o mínimo possível a Honda oferece algo quase imbatível: CB125F. Não é excitante e sim inteligente.


Segundo a marca: “O motor enhanced Smart Power (eSP) foi revisto e está no centro da CB125F de 2026, com excelente economia de combustível e performances fortes num motor de 125 cm³. O novo sensor O2 e a nova programação da ECU permitiram-lhe ter homologação EURO5+, com excelentes consumos (apenas 1,5 l/100 (66,7 km/l)); com isto, a CB125F é capaz de uma autonomia potencial superior a 730 km por cada depósito de 11 litros de combustível.”. 

Aqui não há espaço para interpretações. Ou é eficiente — ou não interessa. A Honda CB125F posiciona-se no extremo desta lógica. Leve, descomplicada, afinada para consumir o mínimo possível. Na realidade fala-se em valores na ordem dos 1,8 L/100 km — e mesmo fora desse número, continua a operar num território onde poucos chegam. A CB125F não tenta ser mais do que aquilo que é. Não há excesso, não há distração. Só o essencial: mobilidade acessível, previsível e eficiente. Num contexto de combustível caro, isto não é básico. É cirúrgico. 

DOWNSIZING CONSCIENTE
Para quem já tem moto — e percebe que 1000cc para ir trabalhar é um luxo caro: menos potência, menos consumo, mesma liberdade - e aqui, sim, convém escolher com cabeça — não com ego. 

Aqui atravessamos um território muito interessante: quase uma “moto grande”, sem os custos de uma moto grande. Base bicilíndrica, comportamento sólido, capacidade real para pequenas viagens — e com consumos e custos muito mais próximos de uma baixa cilindrada do que de uma 700 ou 900. 


Recentemente provada pelo ESCAPE (link) a Voge 625DSX é o tipo de moto que "engana". Parece mais do que é; faz mais do que custa; gasta menos do que aparenta. É a verdadeira trail do dia-a-dia. 

No trânsito urbano, a DSX revela-se surpreendentemente dócil. A altura de assento (835 mm) é acessível para uma trail, e os cerca de 206 kg em ordem de marcha não a tornam pesada nem intimidante. O guiador largo garante manobrabilidade, e a posição de condução ergonómica deixa-nos preparados para horas de utilização. Desde o momento zero, a mexer nela parada ou a serpentear no trânsito, a 625DSX é ágil, dócil, intuitiva. O commuting — casa-trabalho, trabalho-casa, voltas curtas pela cidade — revelou-a confortável, eficaz e prática, com o motor sempre disponível e uma ciclística de fino recorte: quadro afinado, suspensão certa, tudo a conspirar para uma condução natural e descomplicada. 

PRAZER COM RESPONSABILIDADE
Em tempo de crise continua a haver espaço para o lado emocional — desde que não ignores a realidade. E porque nem tudo tem de ser cinzento a Royal Enfield Classic 350 pode ser opção (link). 


Esta também passou aqui (link) pelo ESCAPE há pouco e durante a nossa utilização, surpreendeu-nos com consumos de apenas 2,5 litros de liquido inflamável por cada cem quilómetros de viagem no tempo, um valor que quase parece desmentir a sua aparência robusta. 

A ALTERNATIVA ELÉTRICA (SEM ILUSÕES) 
A mobilidade elétrica não é uma moda. É uma direção. E aqui entram propostas como a LiveWire S2 Alpinista, que tivemos oportunidade de provar há alguns meses (link). Vamos ser claros: não é barata; não é para todos. E não resolve todas as utilizações. Plena de elemento de qualidade e pensada para a vida real — aquela que se faz de manhãs apressadas na cidade e de tardes libertas nas curvas de fim-de-semana — a Alpinista é a tradução contemporânea daquilo a que sempre chamámos prazer de conduzir.


Aqui vais encontrar também custo por quilometro ridiculamente baixo
; independência total do petróleo; resposta imediata e experiência diferente. Não é uma solução universal. E sim um sinal claro do caminho. 

O QUE NINGUÉM GOSTA DE DIZER
Trocar de veículo implica: investimento inicial; eventual troca ou compra de equipamento. Adaptação. Durante anos, andar de moto foi, para muitos, uma escolha emocional. Hoje, começa a ser outra coisa. Cada vez mais uma decisão racional. 


A questão já não é se o preço dos combustíveis vai continuar a subir. 
A questão é simples: quanto tempo vais continuar dependente dele?

quarta-feira, 18 de março de 2026

Será este o pior momento da história da Honda?

Durante décadas, a Honda construiu veículos que mudaram a história. E não apenas do motociclismo. Dominou campeonatos do mundo, criou algumas das motos mais influentes de sempre e edificou uma reputação industrial quase inabalável. Para muitos — dentro e fora da indústria — a Honda era simplesmente o fabricante mais completo do planeta. 


Hoje, porém, essa imagem está a ser testada como raramente aconteceu. Projetos cancelados, prejuízos inesperados, dificuldades em competição e uma estratégia de eletrificação que começa a revelar fragilidades profundas colocam a marca japonesa perante um cenário pouco habitual: várias crises a convergir ao mesmo tempo. 

O DOMÍNIO GLOBAL DA HONDA NAS MOTOS CONTINUA ESMAGADOR 
Convém começar por um facto que raramente entra nestas discussões: a Honda continua a ser, de longe, o maior fabricante de motos do mundo. A marca japonesa vende atualmente cerca de 20 milhões de motos por ano, o que representa aproximadamente 40% do mercado global. Nenhum outro construtor se aproxima desta escala. O segundo maior fabricante mundial vende pouco mais de um terço desse volume. 

Não se trata de uma liderança recente ou circunstancial. A Honda domina o mercado mundial das motos há mais de meio século, apoiada numa infraestrutura industrial gigantesca: 37 fábricas espalhadas por 23 países e uma rede com mais de 30 mil concessionários. 

Mas estes números escondem uma nuance relevante. A esmagadora maioria dessas vendas acontece na Ásia — sobretudo em mercados como Índia, Indonésia, Tailândia ou Vietname. Nos mercados tradicionalmente associados à chamada “cultura moto” — Europa, Estados Unidos e Japão — a presença da Honda continua forte, mas o domínio já não é tão absoluto. 

TEMPESTADE NAS PISTAS 
O regresso da Honda à Fórmula 1 em 2026, através da parceria com a Aston Martin, deveria simbolizar um novo ciclo de afirmação tecnológica. Em vez disso, o início da temporada trouxe sinais inquietantes. 

O novo motor revelou problemas de vibração e fiabilidade que condicionam todo o comportamento do monolugar. Nos testes de inverno no Bahrein, a Aston Martin conseguiu pouco mais de 2.000 quilómetros de rodagem — uma distância modesta quando comparada com os mais de 15.000 quilómetros acumulados por alguns rivais. 

A consequência foi imediata: nas duas primeiras corridas da temporada, nenhum dos dois carros terminou. Isoladamente, isto não seria dramático. A Fórmula 1 está cheia de projetos que começaram mal e acabaram por encontrar o caminho. No entanto existe aqui um detalhe estrutural importante: os programas de competição da Honda estão hoje integrados sob a mesma estrutura, a Honda Racing Corporation. 

Isso significa que engenharia, talento humano e recursos tecnológicos circulam dentro de um mesmo ecossistema. Quando um departamento entra em modo de emergência, é inevitável que outros sintam a pressão. 

MOTOGP UMA RECUPERAÇÃO EM TERRENO FRÁGIL 
O MotoGP parecia finalmente oferecer à Honda uma narrativa diferente. Depois de várias temporadas difíceis, a evolução da RC213V começou a mostrar sinais de progresso. A competitividade regressava lentamente e o ambiente dentro do paddock voltava a ser moderadamente otimista. 


Todavia o contexto não podia ser mais delicado. Em 2027, o MotoGP entrará numa nova era regulamentar: motores mais pequenos, novas regras aerodinâmicas e uma redefinição profunda da arquitetura técnica da categoria. Os anos que antecedem uma mudança destas são decisivos. É nesse período que os fabricantes constroem a base técnica que vai determinar o equilíbrio competitivo da década seguinte. 

Se a Honda for obrigada a dispersar foco e recursos neste momento crítico, o risco é evidente: chegar à nova era do MotoGP em desvantagem técnica. 

UMA CRISE QUE NASCE DE FORA DAS PISTAS? 
Se o cenário desportivo levanta dúvidas, o panorama corporativo é ainda mais inquietante. A Honda enfrenta atualmente um momento financeiro que não se via há décadas. A empresa anunciou prejuízos significativos e as suas ações reagiram negativamente na bolsa de Tóquio, refletindo a crescente apreensão dos investidores. 


Ao mesmo tempo, vários modelos previstos para a sua ambiciosa estratégia de eletrificação foram cancelados, incluindo veículos da chamada Zero Series destinados ao mercado norte-americano. Não se tratou de uma decisão marginal. O impacto financeiro é enorme. No total, a empresa prevê monumentais encargos próximos de 2,5 biliões de ienes — cerca de 15,7 mil milhões de dólares. 

Estes números mostram que não estamos perante um simples ajuste de produto. Estamos perante uma correção estratégica de grande escala, num momento em que o mercado global de veículos elétricos se tornou muito mais competitivo e imprevisível do que muitos fabricantes antecipavam. 

Entre a pressão dos fabricantes chineses e a evolução incerta da procura nos mercados ocidentais, a Honda parece ter concluído que parte da sua estratégia elétrica assentava em pressupostos que o mercado deixou de confirmar. Este movimento não parece um simples ajuste tático. Pelo contrário, sugere que a estratégia pode ter sido construída sobre pressupostos que o mercado já não confirma. 

O MERCADO FINANCEIRO COMEÇA A EMITIR FORTES SINAIS DE ALERTA 
A empresa está cotada na Bolsa de Tóquio, e o comportamento recente da sua ação revela uma tendência difícil de ignorar. Nos últimos meses, o título perdeu cerca de 20% do seu valor, afastando-se claramente dos máximos históricos e entrando numa trajetória descendente visível em vários horizontes temporais.


Este movimento não resulta de um único episódio. Num dia particularmente negativo, após anúncios ligados à revisão da estratégia automóvel, a ação caiu entre 5 e 6% numa única sessão, eliminando em poucas horas milhares de milhões de dólares em capitalização bolsista. Para os investidores, estes movimentos raramente são apenas emocionais. O que o mercado parece estar a sentir é algo mais profundo: dúvidas crescentes sobre a direção estratégica da Honda, sobretudo no contexto da transição energética e da pressão competitiva que redefine o setor automóvel. A escala industrial da empresa continua a ser respeitada. O que começa a ser questionado é o rumo que a Honda está a seguir. 

UMA PREVISÃO INCÓMODA 
A corrida à eletrificação transformou-se num campo de batalha brutal, dominado por novos atores e por fabricantes chineses com estruturas de custo muito mais agressivas. Muitas marcas tradicionais entraram tarde nesse processo e enfrentam agora uma realidade bem mais complexa do que a que imaginavam há poucos anos. 

Perante estes sinais, vale a pena assumir uma posição clara. O atual projeto de eletrificação da Honda parece cada vez mais difícil de concretizar na forma em que foi anunciado. É provável que venha a ser profundamente revisto — ou mesmo abandonado. Pode acontecer dentro de meses. Pode levar alguns anos. Mas os sinais acumulam-se: o plano atual parece estruturalmente frágil. 

A DIVISÃO DE MOTOS NO CENTRO DA EQUAÇÃO
Para quem vive o mundo das duas rodas, esta situação levanta inevitavelmente uma questão essencial. A Honda construiu a sua reputação global a partir das motos. Foi no motociclismo que consolidou a sua imagem de engenharia implacável, inovação permanente e domínio competitivo. A história fala por si. 

Foi a Honda que entrou no Isle of Man TT em 1959 para provar ao mundo a qualidade da sua engenharia. Foi a Honda que revolucionou o mercado em 1969 com a CB750, uma das primeiras superbike modernas. Foi também a Honda que criou motos como a Fireblade, redefinindo o conceito de performance nas estradas. 

Mas hoje a divisão de motos faz parte de uma estrutura corporativa que enfrenta pressões simultâneas em várias frentes. Quando uma organização entra em modo defensivo — revendo investimentos, cortando custos e ajustando estratégias — nenhuma área permanece completamente imune. Nem mesmo aquela que sempre foi o coração da marca. 

UM MOMENTO DE VERDADE 
A Honda já enfrentou momentos difíceis ao longo da sua história. Mas raramente enfrentou tantos desafios ao mesmo tempo: pressão financeira, dúvidas estratégicas, dificuldades em competição e incerteza tecnológica. Talvez este seja apenas mais um ciclo negativo antes de uma nova reinvenção — algo que a Honda já provou ser capaz de fazer. 

Ou talvez estejamos a assistir ao início de uma transformação muito mais profunda. Para quem acompanha o MotoGP, as corridas e a cultura das motos, a pergunta permanece inevitável: estamos perante uma pausa na história da Honda… ou perante um verdadeiro ponto de viragem?


No Escape Mais Rouco, fazemos uma aposta clara: os próximos anos vão definir não apenas o futuro da Honda nas pistas — mas também o papel que a marca continuará a ter no mundo das motos. 

E essa é uma história que vale a pena acompanhar de muito perto.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Royal Enfield Classic 650 à prova

Imagina a Royal Enfield Classic 650 parada à porta de um café numa vila qualquer do interior. O motor ainda quente, o metal a estalar ligeiramente enquanto arrefece. Não há pressa. Não há pressões. Há apenas aquela sensação quase física de objeto sólido, pesado, com presença. Uma moto que não pede para arrancar em primeiro lugar no semáforo — pede para ser olhada. 


A Royal Enfield Classic 650 nasce exatamente nesse território emocional. Não é uma moto que grita. Não é uma moto que acelera o pulso pelo desempenho. É uma moto que ocupa espaço — no chão e na cabeça de quem a conduz. E é por isso que, antes de a analisarmos, precisamos de perceber o que ela representa. 


Antes de discutirmos intenções, posicionamentos e leituras estratégicas, é preciso olhar para a moto. Porque a Classic 650 não é um conceito abstracto — é uma presença física muito concreta. E presença é, aliás, a primeira palavra que lhe assenta. 

METAL, MASSA E HERANÇA ASSUMIDA 
A Royal Enfield Classic 650 é uma moto grande. Não tanto em dimensões absolutas — embora não seja pequena — mas na forma como ocupa o espaço. O depósito volumoso, com as suas curvas generosas e superfícies polidas, é o centro visual da máquina. A pintura, nas versões mais clássicas, explora combinações profundas e contrastes tradicionais, reforçando a sensação de objeto quase cerimonial. 


Os guarda-lamas são largos e envolventes, em verdadeiro espírito clássico. Nada de minimalismos contemporâneos. Aqui há metal visível, há densidade, há intenção de evocar outra época. A roda dianteira de 19 polegadas e a traseira de 18 ajudam a compor essa silhueta tradicional, com proporções que remetem para as estradas britânicas do pós-guerra mais do que para o tráfego urbano moderno.

O farol redondo mantém-se fiel à estética intemporal, assim como o painel de instrumentos de desenho analógico — ainda que com integração discreta de elementos digitais. Não há ecrãs dominantes nem grafismos futuristas. A Classic 650 não quer parecer contemporânea. Quer parecer permanente. 

A posição de condução é direita, relaxada, quase solene. O guiador largo e elevado, as pedaleiras numa posição neutra e o assento generoso convidam a uma condução pausada. Não há agressividade no desenho. Não há ângulos tensos. Tudo é redondo, fluido, quase cerimonial

Tecnicamente, a base é conhecida. O motor é o bicilíndrico paralelo de 648 cc, arrefecido a ar e óleo, com cerca de 47 cv e um binário robusto disponível cedo na faixa de rotação. É um motor já amplamente testado na Interceptor e na Continental GT, conhecido pela entrega progressiva e pelo carácter cheio a médios regimes. 

A caixa de seis velocidades, o quadro em aço tipo berço duplo e a forquilha telescópica convencional mantêm a coerência com a filosofia da marca: simplicidade funcional, sem sofisticação excessiva. Na traseira, os dois amortecedores laterais reforçam a imagem clássica, mesmo que limitem alguma modernidade estrutural. 

O peso, naturalmente, é significativo. Estamos a falar de uma moto que ultrapassa os 240 kg em ordem de marcha. Não é leve. Não tenta ser leve. E isso é parte da experiência que propõe. Sem exotismos. Sem pretensões desportivas. A Classic 650 é, tecnicamente, uma variação clara sobre uma plataforma já consolidada. E isso é precisamente o ponto de partida para a análise. 

PARA QUEM SERVE REALMENTE ESTA MOTO? 
A Royal Enfield Classic 650 não é para quem quer performance pura. Também não é para quem procura versatilidade absoluta. É para quem valoriza ritual. É para o motociclista que gosta de chegar, desligar o motor e olhar para a máquina antes de sair. Para quem aprecia o peso do metal, a vibração controlada de um bicilíndrico cheio de binário, a sensação de conduzir algo que parece ter história — mesmo quando é novo. 


Pode ser uma evolução natural para quem vem da Classic 350 e sente que quer mais corpo, mais autoridade mecânica e mais capacidade de sair da cidade sem esforço. Mas esse salto não é apenas de potência — é de massa, de responsabilidade e de exigência física. 

Também pode ser uma alternativa para quem olha para a Interceptor 650 e a considera demasiado moderna na postura. A Classic 650 oferece mais tradição visual, mais solenidade estética. Mas convém dizer o que muitos evitarão escrever: esta não é uma moto para todos. Quem quer agilidade urbana leve pode sentir o peso em cada manobra. 


Quem quer viagens rápidas em autoestrada pode achar a proteção aerodinâmica inexistente. Quem quer tecnologia de última geração simplesmente não a vai encontrar aqui. A Classic 650 é emocional, sim — mas não ingénua. Não vive apenas de imagem. O motor dá-lhe substância suficiente para que não seja apenas um objeto decorativo. Ainda assim, a pergunta mantém-se: é uma necessidade ou uma estratégia? 

ONDE SE INSERE — E FAZ SENTIDO EXISTIR? 
No mercado europeu, a Royal Enfield Classic 650 posiciona-se no segmento das clássicas de média cilindrada com foco na herança estética. Não é uma neo-retro tecnológica como algumas propostas modernas. É deliberadamente conservadora. A Royal Enfield joga na acessibilidade, mas com uma estética que não pede desculpa por ser tradicional. 

Dentro da própria marca, o cenário é mais delicado. A Interceptor 650 já ocupava o espaço da clássica acessível com motor bicilíndrico. A Classic 650 não acrescenta potência, nem uma nova arquitetura técnica. Acrescenta outra leitura estética da mesma base. 

A Classic 650 existe sobretudo porque a Royal Enfield precisava de expandir e rentabilizar a sua plataforma 650. É uma jogada industrial inteligente. A plataforma está paga, é fiável, é apreciada. Multiplicar variações reduz risco e amplia alcance. Não nasceu de um vazio dramático no mercado. Nasceu de uma estratégia. Isso invalida a moto? Não. Mas coloca-a num território diferente: ela não é um manifesto. É consolidação. 

ESTRATÉGIA OU REDUNDÂNCIA?
A Royal Enfield Classic 650 pode ser vista de duas formas. Como redundância estética dentro da gama 650 — mais uma variação sobre o mesmo motor. Ou como reforço da identidade “Classic” num patamar de cilindrada que faltava. 


A 350 fideliza e introduz novos motociclistas. A Interceptor apela ao retro moderno. A Classic 650 serve o purista tradicional que quer mais corpo sem abandonar o discurso visual clássico. Se funcionar, reforça a coerência da marca no território retro. Se não funcionar, será vista como excesso de variação. 


A Royal Enfield Classic 650 não é uma moto para dissecar ao microscópio. É uma moto para viver. Não tem truques escondidos nem exige esforço para ser compreendida. Adapta-se com naturalidade tanto ao motociclista mais jovem como ao mais experiente, porque não desafia o ego — oferece equilíbrio, previsibilidade e carácter. É honesta desde o primeiro quilómetro.

SURFAR A ESTRADA 
O conjunto motor-transmissão é conhecido e maduro. O bicilíndrico de 648 cc privilegia o binário e entrega a potência de forma progressiva, sempre disponível quando solicitada, mas sem dramatismos. É uma mecânica suave, cheia nos médios regimes, que convida a condução fluida — mais próxima de “surfar” a estrada do que de a atacar. A única nota menos positiva vai para a embraiagem, cuja manete se revela algo pesada em utilização prolongada. 


O peso é relevante no papel, mas na prática está bem resolvido graças ao centro de gravidade muito baixo. Mesmo em manobras paradas, a moto mantém-se dócil. Em andamento, transmite estabilidade e solidez. As suspensões não procuram luxo, mas cumprem com competência e garantem conforto consistente. A travagem é eficaz nos dois eixos, com um travão traseiro particularmente progressivo e adequado à proposta desta clássica.

Apesar de preferir espaço aberto, sente-se equilibrada em meio urbano. Ainda assim, o prazer que oferece é diretamente proporcional aos quilómetros percorridos. É uma moto que convida à pausa, a estacionar e olhar duas vezes, como se evocasse um tempo em que o ritmo era outro e as máquinas não precisavam de justificar a sua existência com números. 


Nesta prova não houve centenas de quilómetros nem aventuras épicas. Houve, sim, consumo contido na casa dos quatro litros, conforto real e personalidade inequívoca. E, numa moto como esta, isso é mais do que suficiente. A maraca solicita 6.987€ por uma nesta cor denominada Teal.

Raterómetro ******* (7/10)

segunda-feira, 9 de março de 2026

O último vencedor esquecido do Brasil

Em março de 2026, o MotoGP regressa ao Brasil. Demorou mais de vinte anos. E há um detalhe delicioso nesta história: quase ninguém se lembra da última corrida que lá se disputou. Muito menos de quem a venceu. 

Tamada competiu na classe rainha entre 2003 e 2007

A última passagem da categoria rainha aconteceu a 4 de julho de 2004, no já desaparecido Autódromo Internacional Nelson Piquet, no Rio de Janeiro. Na grelha estavam os protagonistas da época: Valentino Rossi, Sete Gibernau, Max Biaggi e Nicky Hayden. Era o centro do poder do campeonato. 

No entanto a corrida recusou obedecer ao guião. Rossi caiu. Gibernau caiu. E de repente a corrida abriu-se. No meio do caos apareceu um nome que poucos esperavam ver no topo: Makoto Tamada. Quem? 

O japonês da Honda venceu com autoridade, à frente de Biaggi e Hayden. Foi a primeira vitória da sua carreira na classe principal — e continua a ser uma das vitórias mais esquecidas da história recente do campeonato. 

Há, no entanto, um detalhe que transforma esse dia em algo maior do que uma simples surpresa. A vitória de Tamada foi também a primeira vitória da Bridgestone no MotoGP. Na altura, a Michelin dominava o campeonato e poucos levavam a sério a ameaça japonesa. O que aconteceu no Rio foi o primeiro sinal de que a guerra dos pneus estava a mudar de rumo. Alguns anos mais tarde, a Bridgestone tornar-se-ia fornecedora única da categoria. 

Brasil 1999 e o inesquecível"Norick" Abe
Em 2004, o campeonato ainda era o velho Mundial de Velocidade, com as três classes clássicas. Enquanto Tamada vencia na MotoGP, o triunfo nas 250cc ficou para Manuel Poggiali, Aprilia e um tal de Dani Pedrosa foi segundo em Honda. Nas 125cc para Héctor Barberá em Aprilia com um tal de Casey Stoner em KTM em P2. Era o final de uma era que acabaria por desaparecer quando Moto2 e Moto3 substituíram as antigas categorias de dois tempos. 

Apesar da surpresa de 2004, há um nome que domina a história brasileira do campeonato: Valentino Rossi. O italiano venceu seis vezes em território brasileiro ao longo da sua carreira, tornando-se o piloto mais bem-sucedido nas corridas do Mundial disputadas no país. 

Mas existe ainda uma corrida brasileira que o tempo quase apagou. Em 1999, o Mundial visitou o Autódromo Internacional Ayrton Senna, em Goiânia, para uma das corridas mais caóticas da era 500cc. Nesse dia venceu o espectacular Norifumi Abe, à frente de Max Biaggi e de Kenny Roberts Jr.. Foi uma corrida turbulenta, cheia de incidentes e reviravoltas — uma corrida que hoje parece pertencer a outro campeonato.

Barros 1990 e a apaixonante Cagiva

Depois disso, silêncio. O Grande Prémio do Brasil desapareceu do calendário. O circuito de Jacarepaguá foi demolido para dar lugar às infraestruturas olímpicas do Rio, os projetos de novos autódromos fracassaram e o campeonato perdeu um promotor local capaz de sustentar a prova. O resultado foi brutal na sua simplicidade: vinte e dois anos sem MotoGP no maior país da América Latina. 

Essa ausência é ainda mais intrigante se pensarmos na paixão brasileira pelo desporto motorizado. O país que produziu gigantes como Ayrton Senna ou Nelson Piquet nunca conseguiu formar um campeão da categoria rainha do motociclismo. Talento existiu — basta lembrar Alex Barros, vencedor de sete corridas na classe principal — mas faltou uma estrutura capaz de levar pilotos brasileiros até ao topo do campeonato. 

Diogo Moreira a debutar na Tailândia

O regresso de 2026 traz, por isso, um simbolismo especial. Ao mesmo tempo que o MotoGP volta ao país, o Brasil volta também a ter um piloto na grelha com Diogo Moreira, um dos talentos mais interessantes da nova geração. 

Festeja sempre bem pois nunca saberás se vai haver próxima

E há uma ironia bonita nesta história. Quando o MotoGP regressar ao Brasil, quase ninguém se lembrará da última corrida que lá se disputou. Mas essa corrida teve tudo: a queda de dois favoritos ao título, uma vitória inesperada e o primeiro capítulo de uma revolução técnica que mudaria o campeonato. E deixou para a história um nome que o tempo quase apagou. Makoto Tamada. O último vencedor da MotoGP no Brasil.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Isto é um não-ensaio à Honda WN7

Não estivemos em Málaga. Não conduzimos a WN7. Não “assinámos” qualquer ficha de teste. E, aparentemente, há um embargo em vigor para quem lá esteve — uma regra normal da indústria que limita a publicação de sensações de condução ou outras informações até uma determinada data, colocando todos os convidados no mesmo plano. Como não fomos convidados para a apresentação internacional no sul de Espanha, não estamos abrangidos. Transparência feita. 


Posto isto: o que é a WN7? É o primeiro passo eléctrico sério da Honda num segmento superior. Não é uma scooter urbana. É um statement industrial. Bateria estrutural integrada no quadro, centro de gravidade baixo, 50 kW de pico, 100 Nm instantâneos, ciclística com suspensões Showa e travagem Nissin. Não é um brinquedo. É engenharia aplicada. 


Sem a termos conduzido, há coisas que não são especulação — são física. Bateria pesada e centralizada significa estabilidade e rigidez torsional. Binário imediato significa arranque brutal. Ausência de vibração significa entrega limpa, quase clínica. Quem leu o nosso ensaio à LiveWire S2 Alpinista (link) sabe do que falamos: eléctricas bem afinadas colam-se ao asfalto e disparam como um elástico libertado. 


É razoável esperar que a WN7 ofereça sensações muito próximas: silêncio, resposta imediata, frente sólida, comportamento previsível e uma facilidade desconcertante em ganhar velocidade. Não é preciso estar em Málaga para perceber que 100 Nm desde zero rotações não são poesia de marketing — são números com consequências. 


A grande incógnita continua a ser a autonomia real. A experiência que temos com motos elétricas diz-nos isto: as autonomias anunciadas só se cumprem em contexto disciplinado. Como não há gasolina a “doer”, a tentação é explorar o binário a cada saída de curva — e o depósito de eletrões evapora-se com uma rapidez surpreendente. A diversão é proporcional ao consumo energético. 


Este texto não substitui uma prova. Não descreve cheiros, nem impressões de primeira mão, nem afinações finas de suspensão. É outra coisa: uma análise fria, baseada em engenharia, experiência acumulada e leitura técnica do produto. Às vezes, estar fora do palco também permite olhar para ele com mais nitidez. Quando o embargo cair e surgirem as primeiras impressões completas, voltaremos ao tema. Até lá, deixamos a pergunta no ar: a WN7 será apenas um símbolo estratégico… ou uma elétrica capaz de convencer quem sempre jurou que nunca teria uma? 

A discussão começa agora.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Há novos e fascinantes motores para 2026

O mundo das motos prepara-se para um abanão mecânico como há muito não víamos. Entre arquiteturas improváveis, cilindros extra e soluções de engenharia que pareciam exclusivas das corridas, o ano de 2026 marca o início de uma nova vaga tecnológica. 


Há um pouco de tudo: desde twins para carta A2, passando por V4 e V3 com compressor, até cinco cilindros e seis cilindros dignos de ficção. É o tipo de diversidade que faz bater mais forte o coração de quem vive a combustão não apenas como técnica, mas como emoção. 

BMW F 450 GS — O TWIN A2 MAIS TÉCNICO DE SEMPRE
A BMW prepara para 2026 a nova F 450 GS, equipada com um motor que, apesar do nome, é um dois-cilindros em linha de 420 cc, afinado para aproveitar até ao último cavalo permitido pela carta A2: 48 cv às 8.750 rpm. Aliás, já falamos dela aqui (link).


O detalhe mais curioso? Algo absolutamente inédito numa twin desta categoria: O inovador desfasamento da cambota a 135 graus assegura o ponto ideal em termos de oscilações e vibrações e cativa ainda com um som encorpado criando ainda intervalos de ignição assimétricos (225° e 495°). Em português claro: um som mais encorpado, um palpitar mais irregular e um carácter mais “vivo”, a pedir mão direita decidida. 

A embraiagem automática ERC – Easy Ride Clutch, combinada com quickshifter, promete uma experiência quase “sem manete”, especialmente útil para quem começa… ou para quem, simplesmente, não quer perder ritmo nos ziguezagues do dia-a-dia. 

BENDA — BOXER HÍBRIDO, BOXER DE 700 CC E UM SEIS-CILINDROS GIGANTE 
A marca chinesa Benda continua a reinventar-se com uma agressividade que já ninguém pode ignorar. Na CIMA, em Chongqing, apresentou a P51 Concept: um boxer de 250 cc aliado a um motor eléctrico — híbrido, 62,5 cv combinados, transmissão automática e tração por corrente. 


Seguem-se um boxer de 700 cc arrefecido a água e, mais ousado ainda, o anúncio de um seis-cilindros em linha com cerca de 1.700 cc, ultrapassando o bloco da BMW K 1600. Para este colosso, a Benda revelou uma caixa de dupla embraiagem eletromecânica (EM-DCT). Ainda sem motos confirmadas, mas com ambições que lembram os tempos em que os construtores japoneses tentavam sempre “mais um cilindro” só porque sim. 


CFMOTO — V4 PARA SUPERBIKE COM MAIS DE 200 CV 

A CFMOTO já não brinca às marcas emergentes. E o motor V.04 “Core of Speed” é talvez o exemplo mais convincente da sua maturidade técnica. Trata-se de um V4 a 90°, 997 cc, curso curtíssimo (81 × 48,4 mm) e componentes em titânio. 



Um arranjo digno de paddock de MotoGP. Os números anunciados são dignos de engolir a seco: 212 cv às 14.500 rpm e 114 Nm às 12.500 rpm. Se a versão de estrada chegar perto disto com homologação Euro 5+, estaremos perante uma das superbikes mais impressionantes do mercado — chinesa ou não. 




HONDA — V3 DE 900 CC COM COMPRESSOR ELÉCTRICO 
A Honda apresentou em 2025 o conceito V3R 900 E-Compressor, suportado por um motor de três cilindros em V, com dois cilindros frontais e um traseiro, em ângulo de 75°. Um arranjo raro que já por si seria interessante, mesmo sem mais nada. 


Mas há mais: um compressor eléctrico que promete elevar potência e binário para patamares de motos bem maiores. A marca fala em mais de 100 cv e mais de 100 Nm, mas garante sensações próximas de um 1200 cc, com a vantagem de um conjunto mais compacto, mais leve e — teoricamente — mais eficiente. Se a Honda cumprir o que promete, este V3 poderá ser um dos motores mais marcantes da década. 

MV AGUSTA — CINQUE CILINDRI

A MV Agusta, fiel à sua tradição de exotismo mecânico, apresentou o enigmático “Cinque Cilindri”, um motor de cinco cilindros cuja arquitectura ainda está envolta em algum segredo.


A marca mencionou inicialmente uma única árvore de cames, mas depois falou em duas — reacendendo o mistério. Cilindrada estimada: 800–1150 cc. Potência anunciada: até 240 CV. Binário: 135 Nm. Redline previsto: 16.000 rpm


Os coletores de escape divididos entre frente e traseira do bloco parecem oferecer uma vantagem térmica rara, resolvendo um dos problemas clássicos dos cinco-cilindros: o calor acumulado. Se há marca capaz de tornar este conceito não apenas viável, mas desejável, é a MV Agusta. 

QJMOTOR — UM NOVO TRICILÍNDRICO DE 900 CC 
O grupo Qianjiang prepara um três-cilindros de cerca de 900 cc, mostrado pela primeira vez na QJMotor Rino 900 ADV. Ainda sem ficha técnica completa, a expectativa aponta para mais de 100 cv.

A QJMotor está a preparar a Rino 900 ADV, uma trail de grande cilindrada com lançamento apontado para 2026, pensada claramente para o mercado europeu. O motor é uns três cilindros em linha com cerca de 900 cc. Há referência a uma caixa automática AMT opcional, uma solução semelhante ao DCT da Honda, o que mostra que a marca quer jogar no campo do conforto e da utilização em viagem, não apenas no preço. 


Em termos de ciclística, a Rino 900 surge com uma configuração típica de trail “a sério”: rodas raiadas 19” à frente e 17” atrás, tubeless, suspensão dianteira invertida e mono-amortecedor traseiro, com componentes fornecidos pela Marzocchi sob especificação da marca. Nos travões, a aposta é clara e sem disfarces: duplo disco dianteiro com pinças radiais Brembo, sinal de que a QJMotor quer afastar-se da imagem de compromisso técnico.

No equipamento, a lista é extensa e pouco ambígua: painel TFT, controlo de velocidade de cruzeiro, conectividade, punhos e banco aquecidos e descanso central deverão fazer parte do pacote. A leitura simples é esta: a QJMotor não está a tentar reinventar o segmento, está a replicar a fórmula das trails médias-grandes europeias e japonesas, mas com uma abordagem agressiva em equipamento e, previsivelmente, em preço. Se a execução estiver ao nível da ambição, isto já não é “mais uma chinesa” — é concorrência directa. 

ZXMOTO — TRICILÍNDRICO DE 819CC E BOXER DE 1000 CC 
A ZXMoto apresentou um surpreendente três cilindros de 819cc com apenas 55 kg, DOHC, 4 válvulas por cilindro e projeção de 150 cv às 13.000 rpm. Com taxa de compressão de 14,0:1 e curso curto, é um motor claramente desenhado para altas rotações. A marca mostrou já vários prototipos: 820 ADV; 820 R (naked); 820 RR (desportiva). 


E ainda anunciou um futuro boxer de 1000 cc com cardã, previsto para 2027, com potência acima dos 100 cv. Claramente uma investida para disputar o espaço da BMW — pelo menos em aparência – e deste também já falamos aqui (link). 

UM FUTURO MECÂNICO INESPERADAMENTE RICO
O que se aproxima nos próximos anos não é apenas mais potência: é diversidade mecânica. De twins para carta A2 a híbridos boxer, de V3 com compressor a V4 de competição, de cinco cilindros a seis cilindros gigantes, o espectro de soluções é mais vasto do que em qualquer outro momento recente. 


Este renascimento de criatividade parece um sopro de ar fresco num mercado que muitos julgavam condenado à vulgarização e à eletrificação imediata. Em vez disso, a combustão interna pode estar a entrar numa fase final gloriosa — mais audaz, mais complexa e mais apaixonada. E para nós, que vivemos das sensações, das pulsações e das explosões de cada motor, que bela forma de celebrar a mecânica enquanto ainda a temos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A a Z do WorldSBK 2026

O World Superbike é daqueles campeonatos que muita gente segue ao domingo e poucos param para o compreender a sério. Este não é um apêndice do MotoGP. É um campeonato com identidade própria, regras específicas e uma tensão técnica diferente. Quem o acompanha por hábito percebe-o. Quem o estuda percebe o que realmente está em jogo. 


Antes da primeira luz verde de 2026, vale a pena arrumar ideias, desmontar clichés e perceber o que está mesmo em jogo. Este é o derradeiro guia essencial para perceber o campeonato antes de a época arrancar. Aqui não vais encontrar um folheto promocional vomitado ao estilo SportTV. Este é o A a Z do WorldSBK 2026 — direto ao assunto. 

A — Aerodinâmica 
As asas deixaram de ser estética. São ferramenta. Controlam wheelies, estabilizam travagem e permitem abrir gás mais cedo. Ducati, BMW e Yamaha desenvolveram pacotes aerodinâmicos homologados que já operam no limite do conceito “moto de série”. 

A pergunta não é se funcionam. Funcionam. A pergunta é até onde o regulamento continuará a permitir esta escalada sem diluir a essência da categoria. 

B — BMW 
A BMW Motorrad não está no Mundial de Superbike para aprender. Está para vencer. A BMW M 1000 RR deixou de ser um exercício de engenharia promissora para se tornar uma plataforma vencedora. O duplo título mundial não foi acaso nem circunstância: foi o resultado de um plano técnico claro, investimento consistente e uma estrutura que finalmente deixou de improvisar para começar a executar. A BMW entrou na elite para ficar. 

Agora o desafio é outro. Quando se é campeão, cada corrida é uma defesa de estatuto. A margem de tolerância desaparece. A Ducati pressiona, a Kawasaki reorganiza-se, a Honda procura recuperar terreno — e todas estudam a referência que a BMW se tornou. O discurso já não é sobre potencial. É sobre repetição de desempenho, controlo estratégico e maturidade competitiva. Ou consolida uma era, ou arrisca-se a provar que o topo foi um pico isolado. No Mundial, autoridade constrói-se na continuidade — não na memória. 

C — Calendário
Doze rondas, de fevereiro a outubro. Arranque em Australian Round, fecho em Spanish Round. Qualidade técnica indiscutível. Todavia apenas uma prova fora da Europa. É “Mundial” apenas no estatuto. Muito longe de o ser na geografia. 

D — Ducati
A Ducati é a referência estrutural da era moderna. A Panigale V4 R nasceu com este campeonato no ADN. Quando domina, reacende-se a discussão regulamentar. Quando não domina, continua presente. A diferença é simples: os outros ajustam-se à Ducati. Raramente é o contrário. 

E — Equilíbrio de Performance 
O Balance of Performance não é opcional — é estrutural. Limites de rotações, peso e admissão existem para impedir hegemonias absolutas. É imperfeito? Sim. É necessário? Também. Sem BoP haveria domínio prolongado. Com BoP há competição — e polémica. 

F — Formato 
Três corridas por ronda. Corrida 1. Superpole Race. Corrida 2. Não basta ser rápido. É preciso ser resiliente. Regularidade é matemática. E a matemática decide campeonatos. 

G — Gestão de Pneus
Fornecedor único: Pirelli. A diferença entre vitória e quinto lugar pode estar na leitura do desgaste. Temperatura, degradação e escolha de composto são decisões estratégicas — não detalhes técnicos. Muitas corridas decidem-se nas últimas cinco voltas. Quem ainda tem pneu, ataca. Quem não tem, defende-se. 

H — Honda 
A Honda tem história e recursos. O que tem faltado é execução consistente. No WorldSBK não há tempo para ciclos longos de reconstrução. Ou há alinhamento técnico e estabilidade de projecto, ou instala-se a mediania. E para a Honda, a mediania é derrota.

I — Internacionalização
O paddock é global. O mapa ainda não. A médio prazo, presença sólida na América e na Ásia não é expansão estética — é sobrevivência estratégica. Campeonatos que não crescem, encolhem. E este, ao nível do calendário, atualmente parece apenas uma espécie de “Open Ducados 2.0”. 

J — Jerez 
Esta pista icónica costuma decidir mais do que encerrar. Travagens fortes. Sectores lentos. Precisão milimétrica. Ali não vence o mais impulsivo. Vence o mais disciplinado. 

K — Kawasaki 
A Kawasaki vive fase de transição depois de um ciclo dominante na década passada. Reinventar sem perder identidade é difícil. E no desporto o passado não soma pontos. Ou evolui, ou é ultrapassada.

L — Liderança 
Três corridas por fim-de-semana significam oscilações rápidas. Campeões erram menos. E quem erra menos, no fim, levanta a taça. 

M — Miguel Oliveira 
A entrada de Miguel Oliveira no WorldSBK é mudança estratégica, não retrocesso. Sai do universo protótipo e entra num paddock onde a proximidade técnica é maior e a consistência pesa mais. Talento não está em causa. O tempo de adaptação é a variável crítica. Se encaixar cedo, luta por vitórias. Se demorar, o pelotão não espera. 

N — Narrativa 
Sem rivalidade, há apenas cronómetro. 2026 reúne condições para tensão real: marcas fortes, projectos consolidados e novas dinâmicas. Histórias constroem audiência. Confrontos constroem legado. 

O — Organização 
A Dorna Sports gere o campeonato. Há sinergias com o MotoGP. Mas o WorldSBK não pode ser visto como alternativa secundária. Precisa afirmar-se pela diferença — não pela comparação. 

P — Phillip Island 
Esta não é apenas abertura de época. É exame imediato. Curvas longas em apoio, vento constante e exigência brutal ao pneu traseiro. Ali revelam-se falhas de chassis, aerodinâmica e equilíbrio geral. Começar mal na Austrália significa iniciar o ano sob pressão. 

Q — Qualificação 
A Superpole define três grelhas. Uma volta perfeita pode moldar todo o fim-de-semana. Primeira linha não é estatística — é vantagem estratégica concreta. 

R — Regulamento 
Homologações rigorosas. Produção mínima obrigatória. Limites técnicos definidos ao detalhe. O equilíbrio entre liberdade e controlo mantém identidade e evita distorções. Sem regra clara, não há justiça competitiva.

S — Superbike 
Nasce de um modelo de produção. No entanto a transformação é profunda. Motor revisto internamente, electrónica de competição, suspensão de topo e aerodinâmica funcional. Mais de 220 cv em configuração de corrida. Arquitectura base preservada. Não são protótipos. São motos de série levadas ao extremo permitido. 


T — Técnica 
Telemetria avançada. Controlo electrónico refinado. Optimização milimétrica. Quem ainda fala em “motos de estrada com autocolantes” está desactualizado há uma década.

U — União Equipa-Piloto 
Três corridas exigem comunicação permanente. Projectos instáveis raramente vencem campeonatos. alento isolado não compensa estrutura frágil. 

V — Velocidade 
Velocidades acima dos 330 km/h em traçados rápidos. E aqui a velocidade tem outra natureza. Menos dispositivos artificiais. Mais trabalho físico do piloto. A tracção mecânica pesa mais. A gestão do corpo conta mais. A correcção manual é constante. É brutal — mas é conquistada. 

W — World 
É Mundial apenas na qualidade competitiva. Será plenamente global quando expandir território. 

X — X-Factor
Toda a época tem ruptura inesperada: um rookie que explode, uma evolução técnica decisiva, uma queda de hegemonia. Quem identifica cedo esse factor antecipa a história. 

Y — Yamaha 
A Yamaha raramente é a mais exuberante. E quase nunca desaparece. Consistência silenciosa também ganha campeonatos. 


Z — Zelo Competitivo 
Margens mínimas. Corridas físicas. Disputas reais.Sem intensidade seria apenas engenharia. Com ela, é competição de elite. E 2026 promete não ser um ano de transição. Promete ser um ano de confronto.
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