Chongqing prepara-se para receber um dos maiores acontecimentos mundiais da indústria das duas rodas. E para compreender a dimensão do salão, é preciso perceber primeiro a cidade, a indústria e o país onde tudo isto acontece. Entre os dias 19 e 22 de Setembro, realiza-se em Chongqing, na China, a 24.ª edição do CIMAMotor — China International Motorcycle Trade Exhibition. A organização anuncia mais de 1.000 expositores e marcas, cerca de 3.000 veículos e uma área total próxima dos 170.000 metros quadrados. Os números são impressionantes. Mas, isoladamente, dizem pouco.
Para um motociclista europeu, habituado a ouvir falar do EICMA, em Milão, ou do salão de Colónia, na Alemanha, o CIMAMotor pode parecer apenas mais um evento asiático, distante e pouco familiar. No entanto, há uma razão para começar a prestar-lhe atenção: este salão realiza-se no coração de uma das maiores concentrações industriais de motociclos do planeta. E é precisamente aí que começa a verdadeira história.
AFINAL, O QUE É O CIMAMOTOR?
O CIMAMotor é o principal salão profissional dedicado à indústria das motos na China e um dos maiores eventos mundiais do sector. Criado em 2002, o evento reúne fabricantes de motociclos, veículos eléctricos, motores, componentes, equipamentos, acessórios, tecnologia, serviços e soluções relacionadas com a mobilidade sobre duas e três rodas.
Não estamos, portanto, perante uma exposição exclusivamente dedicada ao público final, onde as marcas apresentam algumas novidades e os visitantes observam motociclos. O CIMAMotor é também uma gigantesca plataforma industrial e comercial, onde se encontram fabricantes, fornecedores, distribuidores, compradores internacionais, meios de comunicação e empresas tecnológicas.
A sua abrangência vai muito além da moto completa. Inclui motores, baterias, sistemas de gestão electrónica, controladores, carregadores, suspensões, travões, pneus, plásticos, instrumentação, equipamentos de protecção, ferramentas e todo o ecossistema que permite conceber, produzir e vender uma motocicleta. É essa característica que lhe confere uma importância especial: o CIMAMotor não mostra apenas aquilo que a indústria chinesa já fabrica. Mostra também aquilo que está a preparar para fabricar amanhã.
QUANDO E ONDE SE REALIZA?
A edição de 2026 decorre de 19 a 22 de Setembro, no Chongqing International Expo Center, em Yuelai, no distrito de Yubei, Chongqing. O dia 19 está especialmente orientado para a imprensa e para os visitantes profissionais. A abertura ao público geral está prevista para os dias seguintes. O recinto integra áreas interiores de exposição e espaços exteriores destinados a demonstrações, experiências de condução, actividades dinâmicas e apresentações de produto.
A organização prevê uma área total de aproximadamente 170.000 m², dos quais cerca de 80.000 m² correspondem à área de exposição e outros 80.000 m² a actividades e espaços exteriores. Para se ter uma referência, não estamos a falar de um pequeno salão regional. Estamos perante uma operação de escala internacional, com uma dimensão física que exige uma verdadeira cidade de exposições.
QUANTAS MARCAS E MOTOCICLOS ESTARÃO PRESENTES?
A organização aponta para: mais de 1.000 expositores e marcas; cerca de 3.000 veículos em exposição; mais de 1.000 órgãos de comunicação social acreditados; uma expectativa superior a 250.000 visitantes. É importante interpretar estes números com rigor. “Marcas” e “expositores” não significam necessariamente 1.000 fabricantes de motociclos completos.
O evento inclui também empresas de componentes, acessórios, equipamento, mobilidade eléctrica, tecnologia e serviços. Ainda assim, a escala é suficientemente grande para transformar o CIMAMotor numa das principais montras da indústria mundial. Na edição de 2025, o salão reuniu cerca de 950 expositores, mais de 3.000 veículos, 75 marcas internacionais de motociclos e veículos eléctricos, mais de 250.000 visitantes e participantes de dezenas de países e regiões. A edição de 2026 surge, assim, como uma expansão de um evento que já tinha uma dimensão considerável.
E ONDE FICA EXACTAMENTE CHONGQING?
É aqui que começa a parte verdadeiramente surpreendente. Chongqing não é apenas uma cidade chinesa de grandes dimensões, como Xangai, Pequim ou Shenzhen. É uma municipalidade directamente administrada pelo Governo central chinês, com um estatuto administrativo semelhante ao de Pequim, Xangai e Tianjin. A sua área é de aproximadamente 82.400 km². Para termos uma referência que faça sentido em Portugal, Chongqing tem uma superfície equivalente a cerca de 90% do território português. Portugal possui aproximadamente 92.225 km², incluindo o território continental e as regiões autónomas.
E a comparação torna-se ainda mais impressionante quando olhamos para a população. No final de 2025, Chongqing tinha cerca de 31,9 milhões de habitantes. Portugal tinha aproximadamente 11,4 milhões. Ou seja: uma área territorial próxima da de Portugal, mas com quase 2,8 vezes a população portuguesa. Naturalmente, há aqui uma nuance importante. Chongqing não é uma cidade compacta, inteiramente urbanizada, com 82.400 km² de edifícios contínuos. A municipalidade inclui extensas áreas montanhosas, rurais, agrícolas, industriais e periurbanas. Mas isso não diminui a sua dimensão administrativa, económica ou demográfica.
Aos olhos europeus, é uma escala difícil de imaginar: uma enorme região administrada como uma só municipalidade, com uma gigantesca área urbana e industrial no seu interior. E é nessa estrutura que se desenvolveu um dos mais importantes centros mundiais da indústria motociclista.
PORQUE É QUE CHONGQING É TÃO IMPORTANTE PARA AS MOTOS?
Chongqing é frequentemente apresentada pelas autoridades chinesas como a “capital chinesa das motocicletas”. A razão não está apenas no número de fábricas de motociclos completos. Está sobretudo na concentração de toda a cadeia industrial. A região reúne fabricantes de motores, quadros, suspensões, sistemas de injecção, componentes electrónicos, instrumentação, rodas, plásticos, peças maquinadas, componentes de transmissão, sistemas de travagem, baterias e inúmeros outros elementos.
Segundo dados divulgados pelas autoridades locais, o cluster motociclista de Chongqing integra: cerca de 51 fabricantes de motociclos acima da escala industrial; mais de 410 empresas de componentes e peças; uma capacidade anual superior a 20 milhões de motociclos completos; uma capacidade superior a 20 milhões de motores. Estes números referem-se à capacidade industrial instalada, não à produção efectivamente realizada num único ano. É uma distinção importante: uma fábrica pode ter capacidade para produzir determinado volume sem o atingir todos os anos. Mas mesmo a produção efectiva revela uma dimensão extraordinária.
QUANTAS MOTOS PRODUZ CHONGQING?
Em 2025, Chongqing produziu aproximadamente 7,857 milhões de motociclos, um crescimento de 18,1% face ao ano anterior. Esse número representou cerca de 35,5% de toda a produção chinesa de motociclos. Por outras palavras, mais de uma em cada três motocicletas produzidas na China saiu de uma fábrica localizada em Chongqing ou no seu ecossistema industrial.
No mesmo ano, o valor da produção da indústria motociclista local atingiu cerca de 108,83 mil milhões de renminbi, com um crescimento anual de 18,8%. Estes dados ajudam a colocar o CIMAMotor no seu devido contexto. O salão não acontece numa cidade que, por acaso, possui algumas fábricas de motos. Acontece num dos grandes centros mundiais de produção, engenharia e fornecimento do sector.
E QUANTAS DESSAS MOTOS SÃO EXPORTADAS?
Em 2025, Chongqing exportou cerca de 6,109 milhões de motociclos, num crescimento de 21,9%. O valor dessas exportações atingiu aproximadamente 26,47 mil milhões de renminbi, mais 29,5% do que no ano anterior. Se compararmos simplesmente o número de unidades exportadas com o número total de unidades produzidas, percebemos que uma parte muito significativa da produção local tem como destino mercados externos.
Isto é decisivo para compreender a indústria chinesa actual. Chongqing não produz apenas para o mercado interno chinês, que por si só já é gigantesco. Produz também para a América Latina, Sudeste Asiático, África, Médio Oriente, Europa e muitos outros mercados. A China não é apenas um país onde se vendem muitas motos. É um país que fabrica motociclos para uma parte substancial do mundo.
QUE MARCAS VAMOS ENCONTRAR NO CIMAMOTOR?
A lista é extensa e inclui fabricantes chineses já conhecidos na Europa, marcas em crescimento e empresas ainda pouco familiares para o público português. Entre os nomes associados ao evento encontram-se, entre outros: Zonsen, CFMOTO, Cyclone, Moto Morini, Voge, Benda, Kove, Zontes, Haojin, Kayo, Jiajue, Doohan, Yadea, NIU, Jinlang, Teyin e ZXMOTO.
A presença de marcas como Honda, Harley-Davidson, Triumph ou outros fabricantes internacionais também tem sido registada em edições anteriores, embora a composição exacta de expositores deva ser sempre confirmada pela organização para cada edição. O CIMAMotor não é, portanto, um salão exclusivamente dedicado a marcas chinesas desconhecidas. É um espaço onde convivem fabricantes tradicionais, empresas internacionais, novas marcas, fornecedores industriais e protagonistas da mobilidade eléctrica. É precisamente essa mistura que o torna interessante.
O CIMAMOTOR É MAIOR DO QUE O EICMA?
Em termos de dimensão física anunciada, o CIMAMotor apresenta números muito expressivos. Mas seria errado concluir que já ultrapassou o EICMA em importância internacional. O EICMA, em Milão, continua a ser uma referência mundial em termos de prestígio, tradição, influência mediática, presença das grandes marcas e ligação directa ao mercado europeu. A edição de 2025 reuniu centenas de expositores, mais de 2.000 marcas representadas e cerca de 600.000 visitantes.
O salão de Colónia, o INTERMOT, também possui uma longa tradição e uma importância relevante no calendário europeu. O CIMAMotor ainda não tem o mesmo peso simbólico ou a mesma influência global junto do consumidor europeu. Mas compará-los apenas pelo número de metros quadrados ou de visitantes seria insuficiente. O EICMA é uma grande montra internacional de produto, tendências e mercado.
O CIMAMotor é, além disso, uma janela privilegiada para a própria infra-estrutura industrial que está a produzir uma parte crescente das motocicletas vendidas no mundo. Essa é a sua particularidade. Então, o CIMAMotor é o novo EICMA? Ainda não. E talvez não seja necessário que venha a ser.
DEVEMOS ESPERAR QUE TODAS AS NOVIDADES CHEGUEM À EUROPA?
Não. Entre apresentar uma motocicleta na China e vendê-la legalmente em Portugal existe um percurso complexo. Um modelo destinado ao mercado europeu precisa de cumprir requisitos de homologação, emissões, segurança, iluminação, travagem, ruído, compatibilidade electromagnética e outros regulamentos aplicáveis. Também necessita de uma estrutura de importação, distribuição, assistência, peças e garantia.
Além disso, nem todos os fabricantes têm capacidade ou vontade de investir na Europa. Alguns estão concentrados nos mercados asiáticos, africanos ou latino-americanos. Outros preferem trabalhar através de parceiros ou fornecer plataformas a marcas já estabelecidas.
Por isso, o CIMAMotor não deve ser visto como um catálogo de motos que estarão automaticamente disponíveis em Portugal no ano seguinte. Deve ser visto como um indicador de tendências: aquilo que hoje aparece em Chongqing pode tornar-se, amanhã, uma moto vendida numa concessionária europeia — ou pode permanecer um produto destinado a outro mercado.
O QUE ESTÁ REALMENTE EM CAUSA?
Está em causa uma mudança no centro de gravidade da indústria mundial das duas rodas.
Durante décadas, o imaginário europeu associou a excelência motociclista sobretudo ao Japão, à Europa e, em determinados segmentos, aos Estados Unidos. A China era frequentemente encarada como uma origem de produção económica, de componentes ou de motociclos simples.
Esse quadro está a mudar. A China continua a competir pelo preço, mas já não compete apenas pelo preço. Compete também por escala, velocidade de desenvolvimento, integração industrial, equipamento, electrónica, design, capacidade de exportação e, em alguns casos, ambição desportiva e tecnológica. Chongqing é uma das expressões mais visíveis dessa transformação. E o CIMAMotor é o lugar onde essa realidade se apresenta de forma concentrada.
UM SALÃO PARA OBSERVAR ANTES QUE SEJA TARDE
O CIMAMotor 2026 abre as portas a 19 de Setembro, em Chongqing. Ainda não tem a tradição nem a influência do EICMA. Também não possui, no imaginário europeu, o reconhecimento de um salão como o de Colónia. Mas está a crescer, realiza-se numa das maiores concentrações industriais de motociclos do mundo e reúne uma parte cada vez mais importante dos protagonistas que estão a redesenhar o mercado global.
O verdadeiro protagonista não é apenas o salão. É a cidade onde ele acontece. Uma municipalidade com uma área próxima da de Portugal, quase 32 milhões de habitantes, mais de 50 fabricantes de motociclos de dimensão industrial, centenas de empresas de componentes, capacidade para produzir dezenas de milhões de motores e motociclos e uma indústria que, em 2025, fabricou quase oito milhões de unidades.
Ignorar esta realidade seria continuar a olhar para a indústria das duas rodas através de um mapa antigo. E talvez seja precisamente por isso que vale a pena começar a olhar para Chongqing agora — antes que aquilo que hoje parece distante se torne parte absolutamente normal da nossa paisagem motociclista.


































