Há nomes no motociclismo que são mais do que uma designação comercial. Transalp é um deles. Basta pronunciá-lo para surgir imediatamente uma ideia de viagem, de montanha, de estrada aberta e de uma moto preparada para levar o seu proprietário para longe de casa. É um nome que nasceu há quase quatro décadas e que, apesar das profundas transformações sofridas pelo modelo ao longo dos anos, continua associado a uma determinada forma de entender o motociclismo.
A história começou em 1986, quando a Honda apresentou a primeira XL600V Transalp, então equipada com um motor V-twin de 583 cm³. A comercialização arrancaria em 1987 e rapidamente ficaria definido o carácter que viria a marcar o modelo: uma trail polivalente, confortável, robusta e suficientemente capaz para viajar durante muitos quilómetros sem exigir ao seu proprietário uma especialização num determinado tipo de utilização.
A Transalp foi evoluindo. Em 2000 surgiu a XL650V e, em 2008, a XL700V, já com injecção electrónica, 680 cm³ e uma roda dianteira de 19 polegadas. Esta última geração permaneceria em produção até 2012. Depois disso, o nome desapareceu durante mais de uma década, até a Honda decidir recuperá-lo em 2023 com uma interpretação completamente nova do conceito.
QUATRO DÉCADAS DEPOIS O NOME CONTINUA A VIAJAR
A actual XL750 Transalp não é, portanto, uma simples evolução da antiga Transalp. É uma reconstrução do conceito para o motociclismo contemporâneo. O tradicional V-twin deu lugar a um bicilíndrico paralelo de 755 cm³, com cambota a 270 graus, arquitectura derivada da família que também deu origem à CB750 Hornet. São 91,8 cv às 9.500 rpm e 75 Nm às 7.250 rpm, valores que colocam esta Transalp muito longe, em termos de prestações, das suas antecessoras.
A fórmula, contudo, mantém uma característica essencial: a tentativa de fazer muitas coisas bem sem se especializar excessivamente numa só. A XL750 Transalp posiciona-se entre as adventure de vocação eminentemente estradista e as propostas mais orientadas para o todo-o-terreno. A roda dianteira de 21 polegadas, as suspensões de longo curso e a posição de condução dão-lhe capacidade para sair do asfalto, mas a filosofia do modelo continua a apontar sobretudo para a versatilidade e para a utilização em viagem.
Esteticamente, a XL750 recupera alguns códigos visuais que permitem reconhecer imediatamente a linhagem Transalp, mas fá-lo através de uma linguagem contemporânea. A moto é relativamente estreita, a frente assume uma presença claramente adventure e a ergonomia privilegia uma postura natural aos comandos. Nesta unidade, o acabamento Pearl Deep Mud Grey (NH-C47) reforça precisamente essa leitura mais sóbria e funcional da moto.
E-CLUTCH É UMA NOVIDADE QUE MERECE PARTICULAR ATENÇÃO
A tecnologia não transforma a Transalp numa moto automática. A caixa continua a ser manual e o motociclista continua a seleccionar as seis velocidades através do pedal. A diferença está na gestão da embraiagem. O sistema electrónico permite arrancar, parar e efectuar mudanças sem necessidade de utilizar permanentemente a manete esquerda, mantendo simultaneamente a possibilidade de intervenção convencional do motociclista.
É uma solução diferente do DCT. No DCT, a própria caixa pode assumir a selecção das relações. Na E-Clutch, a relação continua a ser escolhida pelo motociclista. O sistema limita-se a tornar a operação da embraiagem muito mais simples. Para quem chega de uma utilização tradicional, a primeira experiência pode exigir alguma habituação, mas a lógica é precisamente essa: acrescentar facilidade sem retirar ao motociclista a sensação de estar a comandar uma caixa manual.
UMA VELHA IDEIA, UMA NOVA VIDA
O meu percurso enquanto motociclista praticamente se confunde, no tempo, com o percurso comercial da Transalp. Nunca tive uma, é verdade, mas convivi com muitas, conduzidas por amigos e companheiros de estrada que sempre defenderam apaixonadamente o conceito. E, curiosamente, o coração de uma Transalp não me é assim tão estranho.
Entre 1994 e 1998 tive uma Honda NTV, cujo extraordinário V-twin derivava diretamente da arquitetura mecânica da Transalp. Foi um motor que ficou na memória pela robustez quase absurda e pela capacidade de fazer quilómetros sem pedir grandes contemplações. Nunca fui proprietário de uma Transalp, mas durante quatro anos tive na garagem uma espécie de prima mecânica muito próxima.
Talvez por isso tenha sido particularmente interessante reencontrar este nome tantos anos depois, agora transformado numa XL750 completamente diferente daquela primeira XL600V que lhe deu origem. O V-twin desapareceu, deu lugar ao bicilíndrico paralelo de 755 cm³, chegaram a electrónica, os modos de condução e uma ciclística contemporânea e, nesta versão 2026, a tecnologia E-Clutch. Mas há uma coisa que não desapareceu: a tentativa de construir uma moto que sirva para quase tudo.
UMA TRAIL QUE NÃO QUER SER ESPECIALISTA
Bastaram poucos quilómetros para perceber que esta é uma das propostas mais eclécticas que atualmente encontramos entre as trail. A XL750 não parece querer escolher entre ser uma moto de viagem, uma commuter ou uma adventure. Quer ser as três coisas.
O desenho ajuda a perceber essa intenção. Há dimensão suficiente para transmitir a presença de uma moto preparada para viajar, sobretudo quando equipada com as três malas que pedimos para este ensaio. E, quando nos aproximamos e começamos a mexer nela, desaparece rapidamente aquela sensação de “moto grande”. A Transalp é relativamente fácil de tratar. É uma moto alta, sim, mas não intimidante, e a posição de condução contribui decisivamente para isso.
Há qualquer coisa de familiar naquela ergonomia. O guiador é relativamente baixo e largo e a postura tem qualquer coisa das trail de outras épocas. Em determinados momentos fez-me lembrar a velha Dominator: uma posição descontraída e natural, que nos permite rapidamente deixar de pensar na moto e começar simplesmente a andar. O painel de instrumentos não é particularmente grande, no entanto reúne a informação necessária de forma clara. E rapidamente começamos a tratar a Transalp por tu.
O MOTOR QUER MAIS ROTAÇÃO
O bicilíndrico paralelo de 755 cm³ é uma das peças fundamentais desta moto. Os 91,8 cv e os 75 Nm colocam a XL750 num patamar muito interessante dentro da categoria, e a questão não está apenas nos números. A nossa sensação foi a de um motor que gosta claramente mais de rotação do que de trabalhar em regimes baixos e médios.
Há força disponível, naturalmente, mas não sentimos aquela facilidade quase tractoriana que alguns motociclistas procuram numa trail. Em determinadas situações, sobretudo a baixa rotação, gostaríamos de encontrar um pouco mais de músculo e uma resposta mais cheia. Há também uma sonoridade e uma resposta algo metálicas, particularmente percetíveis quando procuramos mais do motor. Não chega a ser desagradável, mas está longe da suavidade mecânica que encontramos noutros produtos da marca. É um motor que pede para ser explorado. Quanto mais subimos de regime, mais parece acordar, e aí a Transalp ganha outra personalidade.
UMA CICLÍSTICA QUE FAZ TUDO MUITO BEM
Se há uma área onde a XL750 dificilmente nos dá argumentos para grandes críticas é na ciclística. O quadro, que a Honda identifica como uma estrutura de tipo diamante, transmite solidez e confiança. A moto muda de direcção com naturalidade, mantém uma trajectória consistente e não transmite qualquer sensação de fragilidade quando começamos a andar mais depressa.
As suspensões também nos pareceram claramente acima da média. Têm curso suficiente para aquilo que se espera desta categoria, são ajustáveis e conseguem conciliar conforto e controlo de forma bastante convincente. A travagem acompanha o conjunto sem sobressaltos e os modos de condução cumprem aquilo que prometem, com duas possibilidades de personalização que permitem adaptar a resposta da moto às preferências do motociclista.
Nada disto é particularmente revolucionário. E talvez essa seja uma das melhores maneiras de explicar a Transalp: não é extraordinária numa área específica, mas é extraordinariamente competente em quase todas. É muito Honda.
MAS PORQUÊ UMA RODA DE 21 POLEGADAS?
Há, contudo, decisões da Honda que nos deixam a pensar. A roda dianteira de 21 polegadas é uma delas. Não porque seja uma má solução, pelo contrário. Funciona, dá à Transalp capacidade para enfrentar estradas degradadas e caminhos de terra e contribui para o carácter adventure da moto. A questão é outra: quantas Transalp vão efectivamente fazer off-road de forma significativa e durante quantos quilómetros da sua vida?
A Transalp será sobretudo utilizada em estrada, em viagens, nas deslocações quotidianas e, ocasionalmente, em caminhos não asfaltados. A Honda já tem na sua gama a Africa Twin, claramente mais vocacionada para uma utilização adventure. Por isso fica a pergunta: não faria sentido existir uma Transalp ainda mais orientada para a estrada, equipada com roda dianteira de 19 polegadas?
Não dizemos que a opção de 21 seja errada. Dizemos apenas que uma versão mais rodoviária poderia aproximar ainda mais o conceito Transalp daquilo que muitos dos seus utilizadores realmente fazem.
A TRANSALP TAMBÉM SABE VIAJAR
Foi precisamente para isso que pedimos esta unidade equipada com malas. Queríamos viajar com ela, não simplesmente dar algumas voltas à cidade. E viajámos. Houve estrada, quilómetros, utilização a dois e também uma incursão bastante mais significativa fora do asfalto do que inicialmente tínhamos previsto, na Serra do Açor.
A Transalp mostrou-se muito consistente. A dois, com bagagem e num contexto de viagem, transmite segurança, mantendo-se estável, previsível e confortável. Sozinha, torna-se mais leve de espírito e permite explorar melhor o seu lado divertido. Foi precisamente em alguns troços fora do asfalto e com um ritmo mais vivo que percebemos que aquela roda de 21 polegadas não está ali apenas para efeitos de catálogo.
E-CLUTCH É UMA BOA IDEIA QUE AINDA PODE MELHORAR
Chegamos à grande novidade desta versão: a Honda E-Clutch. A caixa continua a ser manual, continuamos a seleccionar as mudanças com o pé e, quando queremos, podemos utilizar a embraiagem como numa moto convencional. A diferença é que o sistema electrónico pode assumir a sua gestão. E funciona. Mas não nos apaixonou.
A nossa principal reserva não está na inteligência do sistema, e sim na forma como trabalha. Mesmo seleccionando a configuração mais suave, sentimos alguma aspereza nas passagens de caixa. Há uma actuação demasiado metálica e evidente que nos parece desnecessária. Curiosamente, quando conduzimos de forma mais viva, o sistema parece fazer mais sentido e a sua actuação torna-se mais natural.
Ainda assim, é uma mais-valia. Tivemos oportunidade de perceber isso em situações muito concretas. Sem Via Verde, fomos obrigados a parar várias vezes em portagens e, numa sequência de parar-arrancar, filas e pequenos avanços, a E-Clutch revelou uma das suas maiores virtudes: permite conduzir de forma muito mais descontraída. Não é uma tecnologia exclusiva para quem vive dentro da cidade; pode ser útil no trânsito, em manobras, em determinados momentos de condução fora de estrada ou simplesmente sempre que queremos reduzir o trabalho repetitivo da mão esquerda.
E há uma característica que consideramos importante: se quisermos utilizar a embraiagem normalmente, podemos fazê-lo. Por isso, a nossa recomendação é simples: não pensem demasiado na E-Clutch. Usem-na, experimentem e deixem o sistema fazer o seu trabalho. Quando vos apetecer, voltem à utilização convencional. A E-Clutch merece, contudo, respeito. É uma solução inteligente, útil e com potencial para evoluir, sobretudo ao nível da suavidade de funcionamento.
A QUESTÃO DOS EXTRAS
Chegamos aqui a uma das poucas áreas em que a nossa avaliação deixa de ser apenas crítica para passar claramente a negativa: a política de acessórios da Honda. A Transalp tem uma versão base com um posicionamento de preço bastante competitivo. O problema começa quando queremos transformá-la exactamente na moto que imaginamos. Um para-brisas mais alto está num determinado pack, o top case aparece noutro, as malas laterais noutro e há ainda protecções, bancos, descanso central, faróis auxiliares e uma extensa lista de possibilidades.
A ideia, em teoria, parece interessante: cada motociclista constrói a sua moto. Na prática, para nós, transforma-se num exercício próximo de montar um Lego ou jogar Tetris. Admitimos que haja motociclistas que gostem desse processo, que se divirtam a configurar a moto ao detalhe e a escolher cada acessório. Nós não.
Queremos comprar uma moto para viajar e utilizá-la. Quando descobrimos que o equipamento necessário para determinada utilização está espalhado por diferentes packs, a experiência torna-se desnecessariamente confusa. E quando alguns desses equipamentos representam um investimento adicional significativo, a questão deixa de ser apenas estética ou de gosto pessoal. É uma política que nos distancia do produto.
E O CRUISE CONTROL, HONDA?
Há outra ausência que nos parece ainda mais difícil de compreender: cruise control. Numa moto desta categoria e com esta vocação, custa-nos perceber a sua ausência. E não estamos a falar apenas de grandes viagens ou de passar horas numa auto-estrada. Portugal está cada vez mais cheio de vias rápidas, zonas de controlo de velocidade, radares de velocidade média e trajectos onde manter uma velocidade constante é uma tarefa diária.
O cruise control não serve apenas para descansar a mão direita. Ajuda a manter uma velocidade estável e pode contribuir para uma utilização mais eficiente. Numa Transalp equipada e preparada para viajar, a sua ausência é difícil de justificar, sobretudo quando a própria Honda oferece na sua gama modelos onde essa tecnologia está disponível. É uma daquelas decisões que gostaríamos de perceber melhor.
ENTÃO, AFINAL, PARA QUEM É ESTA TRANSALP?
Quanto mais quilómetros fizemos, mais nos pareceu que a resposta está precisamente naquilo que ela não tenta ser. Não é a melhor trail em off-road, não é a mais potente, não é a mais equipada e não é a mais tecnológica. Também não é, em todas as situações, a mais emocionante. E é muito competente em quase tudo. E isso, num mundo onde as fichas técnicas parecem cada vez mais uma competição de números, tem valor.
A XL750 Transalp é uma moto honesta. Uma moto que não precisa de fazer barulho para mostrar aquilo que sabe fazer. Uma moto muito Honda, no melhor sentido da expressão: equilibrada, previsível, competente e suficientemente versátil para acompanhar diferentes momentos da vida de quem a conduz. É commuter durante a semana, companheira de viagem ao fim-de-semana, capaz de levar duas pessoas e bagagem e suficientemente competente para sair do asfalto. E, quando estamos sozinhos e lhe damos espaço, também sabe divertir-se. Talvez seja precisamente por isso que o nome Transalp continua a fazer sentido.
A Honda não tentou ressuscitar a velha Transalp. Tentou perceber o que havia de essencial naquele conceito e transportá-lo para o motociclismo actual. Nem tudo nos convenceu. A ausência de cruise control é difícil de compreender, a política de acessórios parece-nos excessivamente complexa e a E-Clutch ainda precisa de ganhar suavidade. Continuamos também a perguntar-nos se uma roda dianteira de 19 polegadas não faria mais sentido para uma parte significativa dos seus utilizadores.
No entanto nenhuma dessas reservas apaga a realidade mais importante. Depois de vários dias, muitos quilómetros, estrada, viagem, condução a dois, ritmo mais vivo e até mais off-road do que inicialmente prevíamos, a Transalp deixou-nos uma impressão muito clara: é uma moto que sabe fazer quase tudo.
Esta Pearl Deep Mud Grey – adoro estes nomes que ninguém diz – foi ainda muito generosa nos consumos, reclamando sempre menos de quatro litros por cem quilómetros de sobriedade e eficácia. A marca solicita pela versão base uma transferência bancária de 9.990€. E os extras? Honestamente? Não faço ideia. É uma politica estranha, nebulosa e que assenta numa plataforma de configuração na Internet que nem sempre funciona de forma eficaz. Não foi esta Honda que nos habituamos a conhecer…
Raterómetro ******** (8/10)





































