Fundada em Bolonha, em 1937, por Alfonso Morini, a Moto Morini faz parte daquele grupo restrito de fabricantes italianos que ajudaram a construir a identidade do motociclismo europeu. Ao longo de décadas, destacou-se pela produção de motos com forte personalidade mecânica, motores V2 de grande carácter e uma ligação muito próxima à competição, onde desenvolveu parte da tecnologia que mais tarde chegaria aos modelos de estrada.
Como tantas outras marcas italianas independentes, atravessou períodos difíceis, mudanças de propriedade e até processos de insolvência. O renascimento começou em 2018, quando foi adquirida pelo grupo chinês Zhongneng Vehicle Group. A estratégia passou por preservar a identidade italiana da marca, mantendo o desenvolvimento e o design em Itália, enquanto aproveita a capacidade industrial chinesa para produzir motos tecnologicamente competitivas e com uma relação qualidade/preço muito interessante.
Hoje, a Moto Morini procura afirmar-se como uma alternativa credível às marcas mais estabelecidas, apostando sobretudo no segmento adventure. A chegada da Multimoto como importador oficial para Portugal representa um passo importante nessa estratégia e poderá dar à marca a visibilidade e a rede comercial necessárias para conquistar um espaço consistente no mercado nacional.
FORTE APOSTA
A Moto Morini decidiu regressar ao segmento das grandes trails com uma proposta que não procura copiar as referências do mercado, e sim construir uma identidade própria. A nova Moto Morini X-CAPE 1200 representa um passo muito importante para a marca italiana e assume-se como a nova porta-estandarte da sua gama.
Apesar da estética adventure, a Moto Morini X-CAPE 1200 foi claramente concebida para privilegiar a utilização em estrada. Basta olhar para a ciclística para perceber essa filosofia: roda dianteira de 19 polegadas, uma posição de condução confortável, elevada proteção aerodinâmica e uma ergonomia orientada para quem pretende percorrer muitos quilómetros sem sacrificar o prazer de condução.
No centro de toda esta nova experiência está um dos elementos mais interessantes da moto: o motor bicilíndrico em V 87º Corsa Corta EVO de 1187 cc - 129 CV, 106Nm. Trata-se de uma evolução do conhecido projeto desenvolvido por Franco Lambertini, um dos nomes históricos da engenharia da Moto Morini. Mais do que os números de potência ou binário, é a personalidade deste motor que marca a diferença, oferecendo uma entrega de potência cheia, uma resposta direta ao acelerador e uma sonoridade tipicamente italiana que contribui decisivamente para o envolvimento do condutor.
A componente ciclística acompanha esta filosofia. O quadro em alumínio e aço, as suspensões totalmente ajustáveis, travagem Brembo e um pacote eletrónico moderno - shifter bidirecional, radar de angulo morto, câmara frontal e ABS com função de auxilio em curva - procuram oferecer um equilíbrio entre estabilidade, conforto e eficácia em condução turística. A Moto Morini X-CAPE 1200 não pretende ser uma verdadeira aventureira para enfrentar trilhos exigentes, e sim uma grande estradista de posição elevada, capaz de lidar naturalmente com estradas degradadas ou caminhos ocasionais.
Outro dos argumentos fortes da Moto Morini é o posicionamento comercial: 11.990 euros por tudo isto. A marca pretende oferecer um nível de equipamento muito competitivo por um preço significativamente inferior ao de muitas rivais. A Moto Morini X-CAPE 1200 não procura ser a mais radical nem a mais tecnológica do segmento. Procura ser uma grande moto para viajar, com forte personalidade, uma imagem distinta e um motor capaz de transformar cada quilómetro numa experiência bastante envolvente.
SUPERBIKE DE SALTOS ALTOS
Vale a pena começar por aqui, porque o preço é a primeira surpresa da nova Moto Morini X-CAPE 1200. Num mercado onde as maxi-trail parecem empenhadas numa corrida permanente para ultrapassar a barreira dos 20 mil euros, a marca italiana chega com uma proposta que obriga a olhar duas vezes para a ficha técnica.
Mas o mais curioso nesta moto não é aquilo que custa. É aquilo que não é. A X-CAPE 1200 não é uma dual sport. Não é uma trail leve, descontraída e pronta para trocar alcatrão por terra ao primeiro desvio. Não é uma japonesa racional, económica e desprovida de carácter. Não é mais um híbrido criado para agradar a toda a gente.
A X-CAPE 1200 é uma estradista pura e dura. Uma moto à antiga, construída em torno de um enorme motor V-twin, assistido por toda a electrónica moderna que hoje consideramos indispensável. Uma espécie de superbike de saltos altos, criada para devorar quilómetros de asfalto com personalidade a transbordar por todos os lados.
E personalidade é coisa que não lhe falta. Basta aproximarmo-nos da moto para perceber isso. A presença é esmagadora. A estética é musculada, agressiva e extremamente bem conseguida. Independentemente do ângulo por onde se olhe, há sempre qualquer coisa que capta a atenção. É uma moto que ocupa espaço. Impõe respeito.
Depois carregamos no botão de arranque. E tudo sobe mais um nível. O som do bicilíndrico em V é absolutamente viciante. Grave, encorpado e cheio de carácter. Daqueles motores que não precisam de acelerar para marcar presença. A moto ganha vida com uma intensidade rara nos dias de hoje, onde tantos motores parecem ter sido afinados para agradar às folhas de cálculo.
Foi com esse cenário de fundo que tivemos o primeiro contacto com a nova Moto Morini X-CAPE 1200 durante a apresentação ibérica da Moto Morini que teve o Douro como moldura luxuosa. Um contacto breve, pouco mais de uma centena de quilómetros, e realizado em estradas particularmente sinuosas, capazes de revelar rapidamente os pontos fortes e as limitações de qualquer moto.
EXPERIÊNCIA ENVOLVENTE
E a verdade é que a italiana deixou uma impressão muito positiva. O motor mostrou-se sólido e cheio de potencial. As unidades disponíveis para teste tinham ainda poucos quilómetros, pelo que fica a sensação de que este V2 ainda tem bastante margem para se soltar. Mesmo assim, a entrega revelou-se consistente, vigorosa e sempre acompanhada por uma sonoridade que convida a abrir o acelerador.
A ciclística merece igualmente elogios. A afinação do conjunto transmite confiança desde os primeiros quilómetros e a moto inscreve-se em curva com uma naturalidade surpreendente para as suas dimensões. Existe qualidade nos componentes, existe rigor na forma como tudo trabalha em conjunto e existe um dinamismo que nem sempre associamos a motos desta dimensão.
O quickshifter também deixou boa impressão, funcionando de forma eficaz e contribuindo para uma condução mais fluida nos troços mais exigentes. Todavia seria injusto falar apenas das virtudes. A Moto Morini X-CAPE 1200 tem massa. Muita massa. Parada, o peso - cerca de 260 Kg a seco que podem chegar aos 285 em ordem de marcha - até não assusta tanto quanto seria de esperar. O desafio surge nas manobras lentas e nos momentos em que a velocidade baixa. Aí sente-se claramente que estamos perante uma moto grande, alta e imponente. Não é uma moto que esconda os seus quilogramas.
Também o sistema de navegação pelos menus do painel exige alguma habituação. O ecrã apresenta muita informação e transmite boa qualidade visual, mas a lógica de utilização não é imediatamente intuitiva e requer algum tempo de adaptação.
Curiosamente, houve uma crítica que esperávamos fazer e que acabou por não surgir. O calor. Rolámos durante um dia clássico de Douro já no verão particularmente quente e, apesar da cilindrada generosa, nunca sentimos desconforto térmico significativo proveniente do motor. Um detalhe que muitos utilizadores irão certamente valorizar.
Já o consumo merece uma reflexão mais séria. As médias registadas ultrapassaram os oito litros por cada cem quilómetros. É um valor elevado para os padrões actuais e uma das poucas notas verdadeiramente negativas deste primeiro contacto. É certo que estamos perante um motor cheio de carácter, é certo que o depósito tem capacidade generosa, mas continua a ser gasolina a mais numa época em que quase todas as concorrentes conseguem fazer melhor. A autonomia não será um problema dramático, no entanto fica inevitavelmente condicionada.
No final do dia, a conclusão acaba por ser simples. A Moto Morini X-CAPE 1200 não é uma trail para todos, nem para todos os cenários; nem pretende ser. Quem procurar leveza, versatilidade absoluta ou consumos de referência encontrará alternativas mais adequadas.
No entanto quem valorizar personalidade, presença, emoção mecânica e prazer de condução encontrará aqui algo cada vez mais raro. Porque esta não é uma moto construída para impressionar uma folha de especificações. É uma moto construída para fazer sentir.
E isso, nos dias que correm, vale cada vez mais.
O QUE FICOU POR DESCOBRIR
O percurso escolhido para esta apresentação foi absolutamente extraordinário. Estradas de montanha, curvas atrás de curvas e paisagens de cortar a respiração. Foi o cenário ideal para perceber a personalidade da Moto Morini X-CAPE 1200; ainda assim talvez não tenha sido suficiente para a conhecer verdadeiramente. Ficaram a faltar troços de curva rápida, onde a ciclística promete revelar ainda mais do seu potencial, bem como alguns quilómetros de autoestrada para avaliar o conforto em viagem, a proteção aerodinâmica e a resposta do motor a velocidades de cruzeiro.
Há ainda uma questão que merece ser esclarecida: os consumos. As médias superiores a 8 l/100 km deixaram-nos surpreendidos, mas é legítimo admitir que o computador de bordo destas primeiras unidades a chegar ao mercado possa estar a indicar valores acima da realidade. Só um ensaio completo, em diferentes tipos de percurso e com medições feitas à bomba, permitirá tirar conclusões definitivas.
Por agora, fica a certeza de uma coisa: a imponente, charmosa e plena de personalidade vincada Moto Morini X-CAPE 1200, deixou-nos com vontade de voltar a subir para o seu banco. E isso é, provavelmente, o maior elogio que se pode fazer a uma moto depois de um primeiro contacto.


























































