O primeiro contacto ficou para trás — dois dias intensos, cerca de 500 km de estrada e uma sucessão de impressões que na verdade ainda não assentaram totalmente. Esse primeiro registo serviu para fixar o impacto inicial da viagem: o ritmo, o ambiente, a surpresa e aquilo que inevitavelmente fica por fechar quando o tempo não chega para tudo. Pode ser recordado aqui (link).
Este segundo texto nasce de outra necessidade. Já não é sobre o que sentimos no momento, e sim sobre o que aprendemos no terreno. Não é um guia no sentido clássico, nem uma lista de recomendações formatadas. É antes um conjunto de observações práticas, úteis para quem pensa repetir o percurso ou simplesmente quer perceber melhor como se entra e se circula nesta realidade. Uma leitura mais fria e não menos viva — porque vem sempre de quem esteve lá dentro.
Por outras palavras é uma espécie de “tudo o que precisas de saber para fazer uma das melhores viagens de moto da tua vida”. Porque há destinos que parecem ter sido desenhados de propósito para motociclistas.
A GRAN CANARIA NÃO É APENAS MAIS UMA ILHA
No meio do Atlântico, a apenas um par de horas de voo de Portugal, existe uma ilha onde as estradas de montanha se enrolam como serpentes sobre um território vulcânico brutal, criando um dos cenários mais extraordinários da Europa para quem gosta de andar de moto.
A Gran Canaria não é apenas uma ilha. É, na prática, um gigantesco circuito natural de montanha. Alguns números ajudam a perceber porquê. Mais de 2000 curvas concentradas em menos de 200 km de estradas de montanha. Altitudes que sobem rapidamente até quase 2000 metros. Asfalto geralmente em excelente estado. Clima estável praticamente todo o ano.
O resultado é simples de explicar. Numa única manhã a rodar em Gran Canaria, um motociclista pode fazer mais curvas do que em vários dias nos Alpes. Não é por acaso que alemães, britânicos e escandinavos viajam para lá de propósito apenas para andar de moto. Para muitos deles, Gran Canaria é algo muito específico: um enorme Nürburgring natural perdido no Atlântico. E, curiosamente, continua a ser um destino praticamente desconhecido entre motociclistas portugueses.
ONDE FICA GRAN CANARIA E COMO CHEGAR
A Gran Canaria faz parte do arquipélago das Ilhas Canárias, território espanhol situado no Atlântico, ao largo da costa noroeste de África. Apesar da localização geográfica, é território europeu, o que significa algumas vantagens imediatas: não há qualquer formalidade especial de entrada para cidadãos portugueses; usa-se o euro; a infraestrutura turística é moderna e altamente desenvolvida.
Chegar à ilha é simples. Existem voos diretos regulares a partir de Lisboa com duração aproximada de duas horas e meia. Em muitos períodos do ano é possível encontrar bilhetes a preços bastante razoáveis, sobretudo com alguma antecedência.
Outra possibilidade, menos comum mas interessante para quem queira fazer uma grande aventura, é viajar com a própria moto através de ferry a partir da Península Ibérica. É um cenário mais complexo e que merece análise própria, mas existe. Para a maioria dos viajantes, no entanto, a fórmula será sempre a mesma: avião até Gran Canaria e moto alugada na ilha.
COMO ANDAR DE MOTO NA ILHA?
Aqui entra um ponto fundamental. A Gran Canaria tem uma cultura motociclística muito forte entre turistas europeus, e isso criou um pequeno ecossistema muito eficiente de rent-a-bike especializados. Ou seja: não estamos a falar de alugueres improvisados. Há empresas dedicadas exclusivamente a motociclistas.
Normalmente oferecem: motos recentes e bem mantidas; capacetes e equipamento opcional; mapas com rotas recomendadas; apoio técnico caso exista algum problema. Para quem chega de avião, isto transforma toda a experiência numa operação extremamente simples. Chegas de manhã, levantas a moto, e meia hora depois estás no meio das montanhas.
A nossa escolha foi a Pic y Poc Motos Canarias (link). Direta e sem ruído. Desde o primeiro contacto, ainda em Lisboa, até à entrega no local e hora combinados, tudo funcionou com precisão. Sem atrasos, sem improvisos, sem fricção desnecessária. Pode saber mais aqui (link).
POR QUE RAZÃO GRAN CANARIA É UM PARAÍSO PARA MOTOS
Há três razões fundamentais. A Geografia é brutal; a ilha é essencialmente um enorme maciço vulcânico. Isso significa que as estradas não seguem linhas retas — sobem, descem, contornam ravinas e serpenteiam constantemente. Daí a sensação quase permanente de estar dentro de um circuito de montanha interminável.
Algumas estradas tornaram-se verdadeiramente iconicas entre motociclistas europeus, como: GC-200 – se só poderes fazer uma faz esta; GC-210 e a GC-60 em parte um troço do WRC. Três exemplos perfeitos daquilo que faz desta ilha algo tão especial. Curvas encadeadas, paisagens dramáticas e troços que parecem feitos à medida de quem gosta de conduzir. Gran Canaria começa agora parecer menos uma ilha; e mais um gigantesco circuito natural de montanha no meio do Atlântico.
Segunda razão: clima. A Gran Canaria tem um dos climas mais estáveis da Europa. É possível andar de moto praticamente todo o ano. Mesmo no inverno, as temperaturas são normalmente muito agradáveis, sobretudo no lado sul da ilha.
Terceira razão. As distâncias curtas. Este é um dos segredos da ilha. Gran Canaria parece pequena no mapa — e é. No entanto a quantidade de curvas faz com que cada quilómetro renda muito mais. Em dois dias de moto é perfeitamente possível fazer 500 ou 600 km absolutamente memoráveis.
SERÁ A GRAN CANARIA A MADEIRA DO ESPANHOL? :)
Para perceber Gran Canaria, às vezes é preciso começar pela Madeira. Para muitos portugueses, quando se fala de uma grande ilha atlântica europeia, a referência imediata é a Madeira. É um destino conhecido, visitado e relativamente fácil de imaginar. Sabemos como é o relevo, percebemos a dimensão da ilha e temos uma ideia clara da sua escala.
Gran Canaria, nas Ilhas Canárias, é menos familiar para a maioria dos portugueses — apesar de ser um destino turístico muito maior e com uma presença internacional muito forte. Antes de falar de estradas, curvas e da experiência de andar de moto, vale a pena olhar para alguns números simples que ajudam a perceber melhor a dimensão de cada uma destas ilhas. A Gran Canaria tem mais do dobro da área da Madeira e mais de três vezes a população. A Gran Canaria tem aproximadamente o dobro da rede rodoviária da Madeira. Para quem gosta de conduzir — e especialmente para quem anda de moto — isto significa algo muito simples: muito mais estrada para explorar.
Outro contraste visível entre as duas ilhas surge quando se olha para a costa. Madeira cerca de 25 praias; Gran Canaria cerca de 120 praias, distribuídas ao longo de 236 km de costa. A Gran Canaria tem uma linha costeira muito mais extensa e aberta, com praias de vários tipos — desde pequenas enseadas até grandes extensões de areia. A Gran Canaria tem mais de quatro vezes a capacidade turística da Madeira, recebendo vários milhões de visitantes todos os anos, sobretudo vindos do norte da Europa.
A GEOGRAFIA QUE MUDA TUDO E TRÊS ESTRADAS QUE EXPLICAM TUDO
É quando olhamos para o interior da ilha que Gran Canaria começa verdadeiramente a revelar a sua natureza. O ponto mais alto da ilha, o Pico de las Nieves, atinge 1 949 metros de altitude. Isto significa que, em poucos quilómetros, as estradas podem subir praticamente do nível do mar até quase 2000 metros.
Para quem conduz uma moto, esta mudança de altitude traduz-se numa sequência quase contínua de curvas, desníveis e paisagens dramáticas. Estima-se que as estradas de montanha da ilha concentrem mais de 2000 curvas em menos de 200 km. Na prática, sublinhamos, isto significa algo bastante simples. Na Gran Canaria é possível fazer, numa única manhã, mais curvas do que em vários dias de viagem nos Alpes.
Algumas das estradas mais conhecidas da ilha ajudam a perceber melhor esta realidade. E estimativas informais feitas por motociclistas e ciclistas que percorrem regularmente estas rotas apontam para números impressionantes:
GC-200 – cerca de 200 a 300 curvas ao longo do percurso costeiro;
GC-210 – aproximadamente 150 curvas nas secções de montanha;
GC-60 – facilmente mais de 200 curvas entre o sul da ilha e o interior montanhoso.
Quando se ligam vários destes troços numa única volta pela ilha, não é difícil perceber de onde vem a reputação do lugar. Sem entrar em comparações sobre qual é melhor ou pior, estes números ajudam a perceber uma coisa essencial: a escala da experiência.
A Madeira é uma ilha atlântica compacta, intensa e profundamente montanhosa. Gran Canaria é maior, mais populosa e com uma infraestrutura turística muito mais ampla. E é precisamente dentro desse território que existe algo inesperado: centenas de quilómetros de estradas de montanha extraordinárias.
QUANTO CUSTA REALMENTE ESTA AVENTURA?
Aqui está talvez a maior surpresa. Apesar de parecer uma viagem exótica, Gran Canaria é um destino relativamente acessível. A gasolina nas Canárias é mais barata do que em Espanha continental – abasteci a 1,30€ o litro na Petroprix - devido a um regime fiscal próprio do arquipélago. Além disso, existe outro detalhe importante para quem gosta de conduzir: não há portagens nas estradas da ilha.
Voos. Aqui dependendo da época e da antecedência da reserva, é possível encontrar voos a preços bastante competitivos a partir de Lisboa, por cerca de 150€. Ao nível do alojamento Gran Canaria tem uma oferta turística enorme: existem opções para praticamente todos os orçamentos. A nossa escolha é reserva via airbnb d eum apartamento complero e equpado que rodas os 70€ dia.
Alimentação? Outro ponto positivo: comer bem na ilha não é caro. Existem cadeias de supermercados conhecidas pelos portugueses e uma grande variedade de restaurantes locais com preços muito razoáveis. Ou seja, com algum planeamento, esta pode ser uma das viagens motociclísticas mais intensas — e surpreendentemente acessíveis — que se podem fazer na Europa.
A PERGUNTA FINAL
Depois de perceber tudo isto, surge inevitavelmente a pergunta. Se a Gran Canaria tem: algumas das melhores estradas da Europa; clima quase perfeito; distâncias ideais para motos e custos relativamente acessíveis…, por que razão tão poucos motociclistas portugueses falam dela?
Essa é precisamente a pergunta que nos levou até lá. E é também o ponto de partida para o verdadeiro relato desta viagem – que podem ler ou recordar aqui (link). Porque há lugares que não se explicam apenas com mapas e dicas.

















































