A QJ Motor SRT 900SX chega com uma presença que não deixa margem para dúvidas: “estou aqui para trabalhar, não para picar o ponto”. Aqui não há, desde logo, artifícios nem exageros desnecessários. A SRT900 SX veste-se sólida, funcional e carregada de argumentos que saltam à vista e à experiência: promete motor cheio, electrónica completa, equipamento pensado para viajar, malas de série e seis anos de garantia. Tudo isto com um preço que desafia a lógica do segmento.
A QJ Motor SRT 900SX é o tipo de moto que, logo à primeira vista, te diz que não veio para ser mais uma. Vem para fazer diferença com o seu suor e isso sente-se mesmo antes de a ligar.
QUE MOTO É ESTA, AFINAL?
A QJ Motor SRT 900SX é uma Adventure/Touring de média-alta cilindrada, equipada com um bicilíndrico paralelo de 904 cc, claramente pensada para quem quer viajar longe, com conforto, autonomia, capacidade de carga e uma margem de potência séria — sem entrar no território financeiro das grandes trails “premium”. Não é uma trail extrema. Não é uma estradista disfarçada. É uma moto de compromisso inteligente, com vocação turística assumida e capacidade real para sair do asfalto (pelo menos nesta versão SX) quando o caminho o exige — desde que não se confunda aventura com enduro.
Visualmente, a SRT900 SX cumpre aquilo que promete. A postura é alta, sólida, musculada. A frente impõe-se com uma óptica full-LED moderna, bem integrada, flanqueada por proteções aerodinâmicas eficazes. O guarda-lamas dianteiro elevado, o guiador largo e a roda de 19 polegadas à frente colocam-na imediatamente no universo trail — sem ambiguidades.
O quadro tubular em aço fica visível e assume um papel estrutural e estético., elementos como os handguards reforçados e o conjunto de três malas em alumínio (de série) não são adereços: são declarações de intenção. Aqui não há maquilhagem leve. Há equipamento funcional, pensado para uso real.
O painel TFT de grandes dimensões, a iluminação integralmente em LED, os acabamentos corretos e a sensação geral de robustez colocam a SRT900 SX claramente acima do que, há poucos anos, esperaríamos de uma proposta neste preço.
É no capítulo técnico que a QJ Motor decide não ser discreta. O bicilíndrico paralelo de 904 cc, com refrigeração líquida e dupla árvore de cames à cabeça, debita cerca de 95 cv e um binário robusto, disponível cedo e com especial expressão nos regimes médios — exatamente onde uma moto destas deve ser forte.
A entrega é cheia e progressiva, pensada para viajar carregado, com pendura, sem stress mecânico nem fadiga do condutor. A caixa de seis velocidades conta com quick-shifter bidireccional, e a embraiagem assistida e deslizante ajuda tanto na condução descontraída como nas reduções mais decididas.
O quadro é acompanhado por um braço oscilante em alumínio. As suspensões são Marzocchi, totalmente ajustáveis na dianteira e parcialmente atrás (pré-carga e extensão) — um detalhe que não é de somenos e que revela ambição técnica. Aqui não se poupa onde faz diferença.
ELECTRÓNICA - AQUI ESTÁ A SURPRESA
Na travagem contem à frente com dois discos de grande diâmetro com pinças radiais Brembo, apoiados por ABS Bosch. Atrás, um disco generoso – e muito agradável e eficaz - igualmente com assinatura Brembo. É um sistema de travagem ao nível do que se exige a uma moto que pesa, viaja e anda depressa. Rodas 19”/17”, pneus tubeless de vocação mista e um depósito de 24 litros colocam a autonomia no centro da equação. Esta é uma moto pensada para fazer quilómetros — muitos.
A QJ Motor SRT 900SX apresenta um nível de equipamento que, honestamente, desconcerta pelo preço reclamado: modos de condução; controlo de tracção; cruise control; painel TFT com conectividade; punhos e banco do condutor aquecidos; sensores de pressão dos pneus; sistema de aviso de ângulo morto; tomadas USB; conjunto de três malas em alumínio e de qualidade incluído de série. Nada disto é decorativo. Tudo isto soma valor real na utilização diária e, sobretudo, em viagem.
Falar de ADAS numa moto ainda soa estranho para muitos motociclistas. Durante décadas, a segurança activa resumiu-se a bons travões, bom tacto de acelerador e, mais recentemente, a ABS e controlo de tracção. A QJ Motor decidiu ir mais longe na SRT 900SX e integrar um verdadeiro sistema de assistência avançada ao condutor — não como truque de marketing, mas como ferramenta real de apoio à condução.
O sistema ADAS da SRT 900SX assenta numa lógica simples: ver antes de nós, avisar antes de ser tarde e ajudar sem se impor. Para isso, recorre a sensores dedicados, sobretudo na traseira da moto, que monitorizam constantemente o que acontece à nossa volta, cruzando essa informação com a electrónica central da moto. Na prática, isto traduz-se num conjunto de funções que actuam sobretudo na prevenção — e esse é o ponto mais importante.
Uma das componentes centrais é o controlo de ângulo morto. O sistema monitoriza as zonas laterais e traseiras que escapam ao campo visual direto do condutor, algo particularmente crítico em estrada rápida ou em trânsito denso. Quando um veículo se aproxima numa dessas zonas, o sistema emite um alerta visual no painel, chamando a atenção para um risco que, de outra forma, só seria detetado tarde demais. Não impede a manobra, não toma decisões por nós — avisa, que é exatamente o que se pede.
Associado a isto surge a assistência à mudança de faixa. Sempre que a moto inicia uma trajetória lateral potencialmente perigosa, sem indicação clara ou com um veículo detetado na proximidade, o sistema alerta o condutor. Não há aqui correções automáticas de direção — estamos numa moto, não num automóvel —há sim um reforço claro da consciência situacional.
FUTURISTA E AMBICIOSO
Outro pilar do ADAS da SRT 900SX é a travagem automática de emergência assistida. Em situações de risco iminente de colisão — diferença brusca de velocidade para o veículo da frente ou surgimento inesperado de um obstáculo — o sistema atua em dois tempos: primeiro alertando o condutor, depois assistindo a travagem caso a reação humana não seja suficientemente rápida. Importa sublinhar: não se trata de uma travagem autónoma total, mas de uma intervenção de apoio, integrada com o ABS Bosch, pensada para reduzir velocidade e gravidade do impacto.
Existe ainda deteção de obstáculos à retaguarda, particularmente útil em circulação urbana ou em desacelerações rápidas, onde a aproximação de veículos por trás pode passar despercebida. Mais uma vez, o sistema não substitui espelhos nem experiência — complementa.
Tudo isto funciona em articulação com o restante pacote eletrónico da moto: ABS de dois canais, controlo de tração, cruise control e sistema de monitorização da pressão dos pneus. O ADAS não vive isolado; faz parte de um ecossistema eletrónico coerente, algo pouco comum neste segmento de preço. Convém também ser honesto quanto às limitações. Este não é um sistema autónomo nem pretende ser. A eficácia depende de condições ambientais, da limpeza dos sensores e, sobretudo, da atenção do condutor. O ADAS da SRT 900SX não conduz por nós, mas aumenta de forma clara a margem de segurança — e isso, em estrada real, conta.
O resultado final é simples de explicar, mas difícil de ignorar: a QJ Motor está a trazer para este segmento tecnologias que até há pouco tempo eram exclusivas de motos muito mais caras. Não como promessa futurista, mas como equipamento funcional, utilizável no dia-a-dia. E isso diz muito sobre a ambição deste projeto.
PRIMEIRO ESTRANHAS...
Saltei de uma moto com números semelhantes — cilindrada, potência, promessa no papel — e de repente nada bateu certo aqui nos primeiros metros. É por isso que continuo a insistir: larguem as fichas técnicas, larguem o marketing, larguem sobretudo aquilo que o megafone vetusto da comunicação dita social vos diz que estas motos são. Os números são só números. A experiência real é outra conversa.
Dias depois, comecei a olhar para a SRT 900SX com menos preconceito e mais atenção. Sim, tem jante raiada à frente, sim, tem jante 19, sim, parece uma trail. Mas basta esquecer os rótulos para perceber que estamos muito mais perto de uma turística disfarçada do que de uma verdadeira “Adventure”. Chega a ser desconcertante ver esta moto — e até a versão S com jante 17 — a ser tratada como “Adventure” por alguma comunicação social especializada. Não é. Pelo menos, não na forma como anda, como se sente e como se entrega.
A posição de condução é cavada, o banco é largo, a ergonomia é neutra e correta, mas exige adaptação. Especialmente no primeiro arranque. Antes mesmo de rolar, há duas verdades difíceis de contornar: é uma moto alta e larga. A acessibilidade não é o seu ponto forte. Obriga a levantar bem a perna, obriga a atenção. Imagino-a com três malas montadas — e a dificuldade cresce. Essa primeira sensação, parada, não é simpática. E tudo muda quando a moto rola.
DEPOIS VAIS ENTRANHAR
Em andamento, a SRT900SX apaga quase por completo o peso que denuncia parada. Mais: revela equilíbrio. Basta um exercício banal — uma inversão de marcha a baixa velocidade — para perceber que a ciclística está bem resolvida. É estável, previsível e surpreendentemente fácil de manobrar. Ultrapassada a fase de desadaptação, comecei a deixar-me envolver pelo conjunto. E aqui há coisas muito bem feitas. A suspensão não é apenas competente: é confortável. Absorve, dialoga com o piso e não se mostra nervosa. A travagem, com destaque para o travão traseiro — que uso muito — transmite qualidade e confiança.
A eletrónica merece um parágrafo à parte. O ADAS exige, sim, um período de adaptação, mas rapidamente começa a fazer sentido. Especialmente em contextos suburbanos e de vias rápidas — IC19, Segunda Circular, Eixo Norte-Sul — aquele território fértil de entradas e saídas constantes que quem anda em Lisboa conhece bem. Quando se percebe o sistema, ele passa de estranho a aliado.
Quanto ao motor, não concordo com a ideia de que “não é cheio”. É. E é desde baixo. Os modos de condução são bem diferenciados. Curiosamente, o Rain revelou-se excelente em cidade: entrega de potência suave, moto mais dócil, menos vibrações a baixa rotação. Fica a sugestão. O Sport, por outro lado, é quase feroz. É um motor que gosta de rodar, que sobe rápido e que pede estrada aberta.
Nem tudo é ideal. A proteção aerodinâmica fica aquém das ambições turísticas da moto. Falta envolvência e, sobretudo, falta regulação. O quickshifter, quando sujeito a pressão — como tantos outros — falha pontualmente. A acessibilidade e o peso parado já foram referidos como pontos menos positivos. E depois há o painel de instrumentos: completíssimo, mas esteticamente infeliz. Gráficos que fazem lembrar jogos eletrónicos baratos dos anos 80, excesso de informação e zero elegância. Está tudo lá, mas podia estar muito melhor. É claramente um ponto a evoluir.
DESEJO DE VIAGEM
No final, a experiência é clara: esta moto começa como um ponto de interrogação e revela-se rapidamente como aquilo que é — uma turística, ou até uma sport-turismo, com roupagem de trail. Pede viagem. Pede estrada. É confortável, divertida e tem uma eletrónica bem integrada.
E depois há o fator absolutamente decisivo: o preço. 9.000 euros. Com três malas de qualidade incluídas — facilmente 1.500 euros poupados— e seis anos de garantia. Isto não é detalhe. É um statement. Brembos, Marzocchis, ADAS, 95 cv, equipamento a sério.
É muita moto. Muita mesmo. E uma relação preço-qualidade das mais agressivas do mercado. Uma marca que continua a surpreender — e que, se cumprir o que promete para 2026, vai obrigar muita gente a rever certezas.
A QJ Motor SRT900SX é uma moto para quem quer andar, não para quem quer apenas mostrar e solicitou cerca de cinco litros e meio de liquido inflamável dos nossos sonhos por cada cem quilómetros de asfalto deglutido com gosto. Contem aqui com uma proposta madura, tecnicamente sólida e comercialmente muito bem pensada. Uma moto que não reinventa o segmento, mas que o obriga a justificar preços e escolhas.
Raterómetro ******** (8/10)























































