Gran Canaria. À primeira vista é só mais uma ilha no Atlântico. Geograficamente não há discussão possível. Mas essa definição explica muito pouco do que se sente quando se começa a rodar por ali. Porque o erro começa logo aí: tratá-la como um destino. A Gran Canaria não se visita. Percorre-se. E mesmo isso é curto.
O que existe ali é outra coisa. Um sistema. Um organismo rodoviário vivo, construído não por intenção humana, e sim por camadas de tempo, vulcões, erosão e necessidade. E quando se entra nele de moto, a leitura muda por completo.
Não há linhas retas suficientes para ganhar conforto. Não há sequência previsível de curvas para criar rotina. Não há, sequer, a ideia de “acabou”. Há apenas continuidade. E decisões.
DIA 1 OU QUANDO A ILHA PARECE CONTROLÁVEL
O primeiro dia começa sempre com um erro silencioso: a ilusão de controlo. Maspalomas, no extremo sul da ilha, recebe-nos como recebe quase todos os que chegam ao ali — sol, calor, previsibilidade. Tudo parece simples. Tudo parece alinhado com a ideia de um passeio bem planeado.
Levantar a moto, ajustar equipamento e parca bagagem, sair. Sem pressa. Sem suspeita.
E é exatamente aí que Gran Canaria começa a trabalhar.
A subida pela GC-60 é a primeira escolha e o primeiro aviso sério, ainda que disfarçado de prazer. É uma estrada que seduz. Curva após curva, ritmo após ritmo, vai construindo confiança. Há fluidez, há asfalto consistente, há visibilidade. Tudo o que um motociclista interpreta como “está a correr bem”. Mas esse é o truque.
A estrada liga a zona de Maspalomas à pitoresca vila de Tejeda, no centro da ilha. É um trajeto de contrastes extremos: começas ao nível do mar entre dunas e palmeiras e terminas a cerca de 1.000 metros de altitude, rodeado por picos vulcânicos e florestas de pinheiros.
Ao longo da GC-60, encontras alguns dos locais mais emblemáticos da ilha. Destaques? Mirador de la Degollada de la Yegua é uma paragem clássica logo no início da subida, com vistas panorâmicas sobre o Barranco de Fataga e as dunas ao fundo. San Bartolomé de Tirajana, uma vila charmosa que serve de porta de entrada para as altas montanhas e é famosa pela sua produção de cerejas e damascos.
Tejeda é o destino final da estrada, sendo frequentemente eleita uma das vilas mais bonitas de Espanha, está situada numa enorme caldeira vulcânica. A GC-60 não é difícil. É convincente. E isso é mais perigoso do que qualquer dificuldade técnica.
O plano do dia ditava que terminada a GC-60, seria tempo de percorrer a icónica GC-210. A GC-210 é uma das estradas mais cénicas, dramáticas e desafiantes da ilha de Gran Canaria, muitas vezes referida como a estrada "mais solitária" ou uma das mais "insanas" da ilha. Localizada no coração da montanha, oferece uma experiência de condução radical, longe das praias turísticas, ligando áreas como Artenara e La Aldea de San Nicolás
Aqui muda tudo. Até Artenara, a estrada ainda cumpriu a promessa: isolamento, paisagem dramática, sensação de altitude crescente. Mas a partir daí, a ilha mudou de linguagem sem aviso. O nevoeiro fechou. A luz desapareceu. A humidade entrou no asfalto e até nos ossos. A visibilidade reduzida ao essencial.
Não foi uma mudança climática. É sim uma mudança de regras. E nessa altura há uma decisão que separa experiência de teimosia: continuar a insistir ou recuar. Nem todas as estradas existem para serem concluídas no mesmo dia. E esse é um ponto difícil de aceitar para quem gosta de “fechar percursos”. Não estávamos preparados para aquelas condições e nem sequer estávamos equipados para tal. Visibilidade zero implica parar.
Segue-se a GC-15, quase como um intervalo. Mais larga, mais relaxada, menos exigente. A GC-15, também muito frequentada pelos motoiclcistas locais, é a principal estrada que liga a capital, Las Palmas, às terras altas do interior e ao centro montanhoso da Gran Canaria. É conhecida como a "Rota do Norte" para o cume da ilha, oferecendo uma transição impressionante entre paisagens costeiras e picos que ultrapassam os 1500 metros de altitude.
O recuo pela GC-15 e a descida pela GC-42 – outra classica de montanha, caracterizada por ser muito sinuosa, com sucessivas curvas apertadas não foram um desfecho épico do dia. E sim uma adaptação pura. Vistas à distância, acabam por ser mais importantes do que qualquer vitória forçada. Porque ali percebe-se uma coisa simples: nesta ilha, o plano é sempre negociável.
A moto — neste caso a BMW F900XR — esteve sempre no meio disto tudo como deve estar uma boa máquina: a cumprir. Sem drama. Sem protagonismo. Apenas resposta ao que o terreno exigia. No fim do dia, confesso, não houve sabor a conquista. Sobrevivemos a uma aventura que não pedimos – tanto…
DIA 2 OU QUANDO A ILHA MOSTRA O QUE REALMENTE É
Se o primeiro dia testou a nossa confiança, o segundo começou a testar a compreensão. E começou de forma estranha: sem o sol que tanta gente associa automaticamente ao arquipélago. Cinzento, fresco, instável. Um cenário que não encaixa na ideia turística da “ilha perfeita”.
A GC-500 abria o dia com uma função clara: colocar-nos dentro do ritmo. Não impressiona. Não desafia. Não marca memória pela técnica. Mas prepara.
A GC-500 é uma das estradas costeiras mais cénicas da ilha de Gran Canaria. É famosa por serpentear ao longo da costa sul, oferecendo vistas impressionantes sobre o Oceano Atlântico e passando por várias das principais estâncias turísticas da ilha. A estrada estende-se por aproximadamente 50 quilómetros, ligando zonas como Maspalomas/Meloneras a Puerto de Mogán, passando por Arguineguín e Patalavaca. Historicamente, era a principal via de ligação do sul antes da construção da autoestrada GC-1.
Seguiu-se a GC-200. E aqui já não há espaço para linguagem moderada. A GC-200 é uma das estradas mais completas que se podem fazer numa ilha desta dimensão. Não por ser apenas bonita, e sim por ser variável de forma constante: falésias sobre o Atlântico, curvas sucessivas, mudanças de ritmo, zonas abertas seguidas de segmentos técnicos, tudo encostado à costa oeste como se a estrada estivesse sempre a negociar com o mar.
Há momentos em que se conduz sobre a linha da costa. Outros em que se entra quase num túnel natural de rocha e vegetação. E isso repete-se sem aviso. Não há monotonia possível.
É uma estrada que exige atenção contínua, não por perigo, mas por intensidade. Amiúde é comparada a um cenário do tipo Parque Jurassico pela imponência e dramatismo.
La Aldea aparece pelo meio como uma espécie de pausa estrutural. Não acrescenta emoção, mas também não precisa de acrescentar. Funciona como intervalo entre blocos mais exigentes.
Pelo meio não resistimos a uma incursão no que está aberto da GC-605. Aqui o tom muda outra vez. A estrada promete algo raro: subida e descida técnica, acentuada, com ritmo próprio, quase cirúrgico. Um daqueles segmentos onde a condução deixa de ser turística e passa a ser precisa. A comparação com o Stelvio italiano é real e não é gratuita — não pela semelhança estética, mas pela exigência de leitura contínua do traçado. O problema é simples: está interrompida por um deslizamento brutal. E isso muda tudo.
Ainda assim, o que existe já é suficiente para perceber o tipo de conversa que ali se poderia ter com qualquer moto. Travagem, transferência de massas, consistência de suspensão. Sem margem para erro. Aqui a resposta da a BMW F 900 XR foi sólida e surpreendente sobretudo na eficácia da travagem que levei ao limite possível numa condução a dois.
O dia encerrou em Puerto de Mogán. Um contraste quase artificial depois da intensidade da GC-200 e da promessa interrompida da GC-605. Um espaço de pausa mais mental do que mecânico. Puerto de Mogán, situada no sudoeste da Gran Canaria, é uma encantadora vila piscatória e estância turística, frequentemente chamada de "Pequena Veneza" devido aos seus canais, pontes pitorescas e arquitetura mediterrânica. É conhecida pelo seu ambiente tranquilo, ruas floridas, casinhas brancas e por ter um dos melhores climas da Europa.
O regresso a “casa” pela GC-500 não precisa de análise. Serve apenas para reorganizar o que o dia deixou em aberto.
O QUE FICA DESTES DOIS DIAS
Dois dias depois, a conclusão não é de conquista. É de aprendizagem incompleta — e isso é importante assumir. Fizemos mais de 500 km. Vimos muito. No entanto, mais relevante ainda, percebemos o quanto ficou por ver.
A Gran Canaria não se comporta como um destino fechado. Não se esgota em itinerários. Não se deixa reduzir a “melhores estradas”. Funciona como sistema aberto: altitude que muda o jogo em minutos, microclimas que quebram qualquer plano, estradas que alteram carácter sem aviso. Num momento estás em verão. No seguinte, em inverno.
Talvez por isso a sensação dominante não seja de conclusão, mas de continuidade interrompida. Há contas por acertar. E isso, neste tipo de território, é o que mais interessa.
Porque isto, no fundo, confessamos não foi uma viagem completa. Foi apenas o primeiro contacto sério com uma ilha que não aceita ser tratada como ilha.
A LOGÍSTICA TAMBÉM DEFINE A QUALIDADE DA VIAGEM.
Nascida em Maspalomas pela mão de dois irmãos viciados em asfalto, a Pic y Poc não é apenas mais uma rent-a-bike frio. É um projeto de família onde a transparência e o estado impecável do material são a prioridade — algo que qualquer motociclista que se preze valoriza antes de se atirar à primeira curva.
Nada de motos cansadas ou manutenção duvidosa. A frota é moderna, focada em modelos BMW e scooters para quem quer algo mais descontraído.
O aluguer já inclui o "kit de sobrevivência" essencial: capacete e luvas; suporte de telemóvel com carregamento (fundamental para o GPS não te deixar pendurado); localizador GPS e cadeado de segurança. Com varias classificações de 5 estrelas, o feedback é unânime; o atendimento é próximo e o conhecimento técnico da ilha é impar.
A moto atribuída — escolhida em articulação com o ESCAPE — chegou em excelente estado, com cerca de 15.000 km, e sem sinais de desgaste relevante. Não é sobre luxo, é sobre adequação: uma moto equilibrada, razoavelmente confortável para dois e amplamente competente para as estradas técnicas da ilha.
Um detalhe simples acabou por fazer diferença no uso: a inclusão de uma top case. Espaço extra para bagagem leve, organização mais fácil e um nível adicional de segurança nas paragens. No essencial, a experiência confirma o que interessa neste tipo de serviço: funciona. Sem distrações, sem falhas.
[Este é apenas o primeiro de vários textos sobre a Gran Canaria. Ainda vamos entrar em detalhes importantes e nas decisões de condução que realmente marcam esta viagem]




















































