Esta rubrica nasceu sem plano, sem calendário e sem pretensão de ser série – e isso nota-se bem na genuinidade destes primeiros três conjuntos de textos. E começou como tantas boas conversas começam no motociclismo: com uma moto, uma memória e vontade de contar uma história. Rapidamente ficou claro que não se tratava apenas de falar de máquinas, e sim de revisitar um tempo — as décadas de 80 e 90 do século passado — em que as motos não eram apenas produtos, eram catalisadores de sonhos, identidades e percursos de vida.
O road book é simples de ler. Cada entrada segue uma estrutura simples e deliberada: há um olhar objetivo sobre a moto — o que era, como era feita, o lugar que ocupou no mercado e no seu tempo; depois, há um comentário pessoal, assumidamente subjetivo, onde a técnica cede lugar à memória, às pessoas, às viagens, às circunstâncias e às marcas invisíveis que estas motos nos deixaram. Não haverá aqui uma linha temporal rígida nem a ambição de cobrir tudo. Há histórias soltas, contadas como devem ser: quando fazem sentido ser contadas.
O ESCAPE enquanto blogue passa agora a cumprir o seu papel natural de arquivo e repositório. Estes textos, publicados inicialmente na pagina de Facebook que suporta o blogue, ficam aqui organizados, preservados e disponíveis para leitura futura, revisão e aprofundamento. São motos dos anos 80 e dos anos 90, sim — e são sobretudo fragmentos de uma geração, de um modo de viver o motociclismo e de uma relação com as motos que dificilmente se repetirá da mesma forma.
8E90
Há épocas que ficam gravadas na memória coletiva, não por acaso, e sim porque marcaram um ponto de viragem. Para muitos de nós, os anos 80 e 90 do século XX foram precisamente isso: um período em que o motociclismo encontrou o equilíbrio raro entre inovação, simplicidade mecânica e carácter. Assistimos ao nascimento de motos que, sem pretensão, moldaram gerações e abriram caminhos que ainda hoje seguimos. Motos que não precisavam de eletrónica para serem vivas, nem de fichas técnicas exuberantes para deixarem marca.
É daí que nasce esta vontade de olhar para trás com atenção — não para alimentar saudosismos fáceis, e sim para revisitar peças de engenharia e cultura que ajudaram a definir o motociclismo moderno. Talvez isto venha a tornar-se uma rúbrica, talvez seja apenas uma sequência de mergulhos ocasionais no passado. O importante é o impulso: celebrar motos que contaram histórias, ensinaram lições e continuam a ter algo para dizer a quem as vê com olhos de hoje
HONDA DOMINATOR NX650
Quando a Honda revelou a Dominator em 1988, o mundo das trail começava a dividir-se entre máquinas puramente utilitárias e monstros de rali inspirados no Dakar. A Dominator surgiu precisamente no meio dessa fenda, oferecendo algo surpreendente para a época: uma trail leve, urbana, viajante e moderna, capaz de falar tanto à cidade como ao campo. Foi isso que a tornou imediatamente distinta — uma moto que não pedia explicações nem extremismos.
A génese da Dominator é simples e inteligente. A Honda percebeu que muitos motociclistas queriam o espírito aventureiro das grandes trails de competição, mas sem o peso, o preço ou a complexidade delas. Assim, pegou na plataforma XBR/XL e criou uma máquina polivalente, com linhas contemporâneas, ergonomia relaxada e uma identidade que fugia ao “puro e duro” das trails tradicionais. A ideia era clara: trazer o ADN do off-road para dentro das cidades europeias.
Tecnicamente, a estrela era o monocilíndrico de 644 cc, arrefecido a ar, capaz de cerca de 45 cv — um motor que privilegiava binário baixo e médio, robustez e manutenção simples. O quadro misto em aço, a suspensão dianteira convencional de longo curso e a travagem justa mas competente completavam o conjunto. Nada era radical, e tudo trabalhava com coerência. Foi essa moderação inteligente que a tornou tão eficaz e durável.
Em andamento, a Dominator tinha aquele pulsar característico das grandes monocilindricas: firme, honesto, sempre pronto a puxar desde baixas rotações. Nas curvas, mostrava leveza e previsibilidade; fora de estrada, fazia o essencial sem dramas; na cidade, era surpreendentemente ágil. Não era a rainha de nada, mas era boa em quase tudo — e isso é raríssimo.
O legado da Dominator é enorme. Tornou-se símbolo de fiabilidade, escola de aventura para milhares de motociclistas e referência estética de uma era em que as trails ainda eram simples e humanas. Hoje, continua desejada por quem procura autenticidade sem complicações. E lembra-nos uma verdade que a indústria tende a esquecer: às vezes, basta uma boa ideia executada com sensatez para criar uma moto intemporal.
“CABO DA ROCA”
Parece que os fãs e leitores do ESCAPE gostaram do texto de arranque, desta que pode, de facto, vir a ser uma nova rúbrica. E isto coloca-me aqui vários desafios. Se a primeira moto foi escolhida ao “calhas”, como se costuma dizer, esta, ao “calhas”, também foi escolhida.
Todavia, é uma moto muito importante na história das nossas vidas. Nascemos e crescemos para o motociclismo com ela nos anos 80 e nos anos 90 do século passado. Uma moto que não era bem uma moto, era apenas um ciclomotor. Mas todos nós, quando o nome dela vem à baila, levantamos as orelhas, até aqueles que não são motociclistas.
Tão épica foi para os portugueses que chegou a ter uma edição especial chamada “Cabo da Roca”. Bom, não sei muito bem para onde vamos depois daqui, mas, se continuarmos esta rúbrica, vou ter que lhe dar uma ordem. É um equilíbrio delicado: revisitar estas máquinas, respeitar a sua memória e impacto, e ao mesmo tempo organizar cada escolha de forma que faça sentido para quem lê e para quem viveu aquela época.
YAMAHA DT50 LC
Quando a Yamaha lançou a DT50 LC em 1987, pouco se imaginava que uma monocilíndrica de 50 cc pudesse deixar uma marca tão profunda no motociclismo jovem europeu. Mais do que uma simples “mini-trail”, a DT50 LC oferecia acesso a liberdade, aventura e independência, tornando-se para muitos a primeira moto real e o ponto de partida de uma paixão que duraria décadas.
O conceito da DT50 LC era direto: motor de 49 cc a dois tempos, refrigeração líquida, numa combinação que privilegiava fiabilidade, performance dentro da categoria e manutenção simples. O quadro leve e as suspensões de curso generoso permitiam um comportamento ágil tanto na cidade como em trilhos ligeiros. Cada detalhe era pensado para ensinar o jovem motociclista a sentir a moto e a estrada, sem exageros nem complicações.
Conduzir a DT50 LC era uma lição de mecânica viva: resposta rápida do motor, ritmo cadenciado nas mudanças e um equilíbrio instintivo entre aceleração e travagem. A suspensão surpreendia pela suavidade e confiança, enquanto o desenho compacto do guiador e assento tornava a moto intuitiva e quase inseparável do piloto em aprendizagem. A experiência não se limitava à mobilidade — formava caráter.
O legado da DT50 LC permanece intacto. Muitos motociclistas dos anos 80 e 90 recordam-na como a primeira moto que realmente lhes permitiu explorar caminhos e limites, sem riscos desnecessários. Hoje, colecionadores e entusiastas valorizam-na como símbolo de uma era em que o motociclismo juvenil combinava simplicidade, diversão e engenharia eficaz. No fundo, a DT50 LC ensina uma verdade intemporal: não é a cilindrada que define o impacto de uma moto, mas a liberdade e as experiências que oferece a quem a conduz.
A PRIMEIRA NUNCA SE ESQUEÇE
Quando escrevi o primeiro texto daquilo que hoje começa a ganhar forma como rúbrica, não sabia que o viria a ser. A moto foi escolhida ao calhas, como disse. No segundo post, já imaginava que isto pudesse ter continuidade, embora a escolha também tenha sido quase casual. Disse então que, se isto avançasse, teria de encontrar uma ordem. A verdade é que as duas primeiras motos diziam-me algo — mas esta disse-me muito mais do que algo.
Disse-me cerca de 80 mil quilómetros, um país corrido de lés a lés em apenas dois anos, entre 1992 e 1994. Foi a minha primeira moto. Não por romantismo, mas porque era o que havia e o que o dinheiro permitia. Eu tinha receio de motos altas, receio de conduzir, receio de me aleijar.
Esta era baixa, previsível, deixava-me estar perto do chão e, sobretudo, permitiu-me conhecer o mundo. A viraguinho, como lhe chamava, foi um dia entregue para dar lugar a outra moto — essa ficará para mais tarde. Ficou a saudade. Mas a história não começou propriamente aqui. Quem estiver atento perceberá que isto é apenas mais um capítulo de uma saga que ainda agora começou a ser contada.
YAMAHA XV250 VIRAGO
Quando a Yamaha lançou a XV250 Virago, no final dos anos 80, o universo custom parecia reservado a grandes cilindradas, motores intimidantes e uma estética que afastava quem estava a começar. A Virago 250 veio quebrar esse paradigma: uma custom compacta, acessível, com proporções equilibradas e uma atitude que não exigia experiência prévia. Foi, para muitos, o primeiro contacto com o imaginário cruiser — sem excessos nem dramatismos.
A intenção da Yamaha era clara. Criar uma moto de iniciação que mantivesse a linguagem estética das Virago maiores, mas com um comportamento dócil, custos controlados e grande facilidade de utilização. Num mercado dominado por utilitárias e desportivas de entrada, a XV250 oferecia uma alternativa identitária, quase emocional, para quem queria algo diferente logo desde o início.
Tecnicamente, a Virago 250 recorria a um motor V-twin a quatro tempos, simples, fiável e afinado para suavidade em vez de números impressionantes. Com cerca de 21 cv, quadro em aço e uma ciclística pensada para estabilidade, tudo nela privilegiava previsibilidade e conforto. Não havia tecnologia revolucionária — havia coerência mecânica, e isso foi a sua maior virtude.
Na estrada, a XV250 revelava um carácter tranquilo e honesto. A posição de condução baixa, o guiador largo e a entrega linear do motor tornavam-na acessível a qualquer um, independentemente da estatura ou experiência. Não convidava a pressas; convidava a aprender, a ganhar confiança e a desfrutar do ritmo próprio do motociclismo custom.
O legado da Virago 250 é discreto, mas profundo. Foi escola para milhares de motociclistas, abriu portas a um estilo até então distante e mostrou que uma custom não precisa de cilindrada excessiva para ter alma. Hoje, continua a ser lembrada como uma das melhores motos de iniciação ao mundo cruiser — simples, elegante e fiel ao seu propósito.




















































