quinta-feira, 17 de setembro de 2026

CIMAMotor 2026 é o salão de motos que acontece numa cidade quase do tamanho de Portugal

Chongqing prepara-se para receber um dos maiores acontecimentos mundiais da indústria das duas rodas. E para compreender a dimensão do salão, é preciso perceber primeiro a cidade, a indústria e o país onde tudo isto acontece. Entre os dias 19 e 22 de Setembro, realiza-se em Chongqing, na China, a 24.ª edição do CIMAMotor — China International Motorcycle Trade Exhibition. A organização anuncia mais de 1.000 expositores e marcas, cerca de 3.000 veículos e uma área total próxima dos 170.000 metros quadrados. Os números são impressionantes. Mas, isoladamente, dizem pouco.


Para um motociclista europeu, habituado a ouvir falar do EICMA, em Milão, ou do salão de Colónia, na Alemanha, o CIMAMotor pode parecer apenas mais um evento asiático, distante e pouco familiar. No entanto, há uma razão para começar a prestar-lhe atenção: este salão realiza-se no coração de uma das maiores concentrações industriais de motociclos do planeta. E é precisamente aí que começa a verdadeira história. 

AFINAL, O QUE É O CIMAMOTOR? 
O CIMAMotor é o principal salão profissional dedicado à indústria das motos na China e um dos maiores eventos mundiais do sector. Criado em 2002, o evento reúne fabricantes de motociclos, veículos eléctricos, motores, componentes, equipamentos, acessórios, tecnologia, serviços e soluções relacionadas com a mobilidade sobre duas e três rodas. 

Não estamos, portanto, perante uma exposição exclusivamente dedicada ao público final, onde as marcas apresentam algumas novidades e os visitantes observam motociclos. O CIMAMotor é também uma gigantesca plataforma industrial e comercial, onde se encontram fabricantes, fornecedores, distribuidores, compradores internacionais, meios de comunicação e empresas tecnológicas. 

A sua abrangência vai muito além da moto completa. Inclui motores, baterias, sistemas de gestão electrónica, controladores, carregadores, suspensões, travões, pneus, plásticos, instrumentação, equipamentos de protecção, ferramentas e todo o ecossistema que permite conceber, produzir e vender uma motocicleta. É essa característica que lhe confere uma importância especial: o CIMAMotor não mostra apenas aquilo que a indústria chinesa já fabrica. Mostra também aquilo que está a preparar para fabricar amanhã

QUANDO E ONDE SE REALIZA? 
A edição de 2026 decorre de 19 a 22 de Setembro, no Chongqing International Expo Center, em Yuelai, no distrito de Yubei, Chongqing. O dia 19 está especialmente orientado para a imprensa e para os visitantes profissionais. A abertura ao público geral está prevista para os dias seguintes. O recinto integra áreas interiores de exposição e espaços exteriores destinados a demonstrações, experiências de condução, actividades dinâmicas e apresentações de produto. 


A organização prevê uma área total de aproximadamente 170.000 m², dos quais cerca de 80.000 m² correspondem à área de exposição e outros 80.000 m² a actividades e espaços exteriores. Para se ter uma referência, não estamos a falar de um pequeno salão regional. Estamos perante uma operação de escala internacional, com uma dimensão física que exige uma verdadeira cidade de exposições. 

QUANTAS MARCAS E MOTOCICLOS ESTARÃO PRESENTES? 
A organização aponta para: mais de 1.000 expositores e marcas; cerca de 3.000 veículos em exposição;  mais de 1.000 órgãos de comunicação social acreditados; uma expectativa superior a 250.000 visitantes. É importante interpretar estes números com rigor. “Marcas” e “expositores” não significam necessariamente 1.000 fabricantes de motociclos completos. 

O evento inclui também empresas de componentes, acessórios, equipamento, mobilidade eléctrica, tecnologia e serviços. Ainda assim, a escala é suficientemente grande para transformar o CIMAMotor numa das principais montras da indústria mundial. Na edição de 2025, o salão reuniu cerca de 950 expositores, mais de 3.000 veículos, 75 marcas internacionais de motociclos e veículos eléctricos, mais de 250.000 visitantes e participantes de dezenas de países e regiões. A edição de 2026 surge, assim, como uma expansão de um evento que já tinha uma dimensão considerável

E ONDE FICA EXACTAMENTE CHONGQING? 
É aqui que começa a parte verdadeiramente surpreendente. Chongqing não é apenas uma cidade chinesa de grandes dimensões, como Xangai, Pequim ou Shenzhen. É uma municipalidade directamente administrada pelo Governo central chinês, com um estatuto administrativo semelhante ao de Pequim, Xangai e Tianjin. A sua área é de aproximadamente 82.400 km². Para termos uma referência que faça sentido em Portugal, Chongqing tem uma superfície equivalente a cerca de 90% do território português. Portugal possui aproximadamente 92.225 km², incluindo o território continental e as regiões autónomas. 


E a comparação torna-se ainda mais impressionante quando olhamos para a população. No final de 2025, Chongqing tinha cerca de 31,9 milhões de habitantes. Portugal tinha aproximadamente 11,4 milhões. Ou seja: uma área territorial próxima da de Portugal, mas com quase 2,8 vezes a população portuguesa. Naturalmente, há aqui uma nuance importante. Chongqing não é uma cidade compacta, inteiramente urbanizada, com 82.400 km² de edifícios contínuos. A municipalidade inclui extensas áreas montanhosas, rurais, agrícolas, industriais e periurbanas. Mas isso não diminui a sua dimensão administrativa, económica ou demográfica.

Aos olhos europeus, é uma escala difícil de imaginar: uma enorme região administrada como uma só municipalidade, com uma gigantesca área urbana e industrial no seu interior. E é nessa estrutura que se desenvolveu um dos mais importantes centros mundiais da indústria motociclista. 

PORQUE É QUE CHONGQING É TÃO IMPORTANTE PARA AS MOTOS? 
Chongqing é frequentemente apresentada pelas autoridades chinesas como a “capital chinesa das motocicletas”. A razão não está apenas no número de fábricas de motociclos completos. Está sobretudo na concentração de toda a cadeia industrial. A região reúne fabricantes de motores, quadros, suspensões, sistemas de injecção, componentes electrónicos, instrumentação, rodas, plásticos, peças maquinadas, componentes de transmissão, sistemas de travagem, baterias e inúmeros outros elementos. 

Segundo dados divulgados pelas autoridades locais, o cluster motociclista de Chongqing integra: cerca de 51 fabricantes de motociclos acima da escala industrial; mais de 410 empresas de componentes e peças; uma capacidade anual superior a 20 milhões de motociclos completos; uma capacidade superior a 20 milhões de motores. Estes números referem-se à capacidade industrial instalada, não à produção efectivamente realizada num único ano. É uma distinção importante: uma fábrica pode ter capacidade para produzir determinado volume sem o atingir todos os anos. Mas mesmo a produção efectiva revela uma dimensão extraordinária. 

QUANTAS MOTOS PRODUZ CHONGQING? 
Em 2025, Chongqing produziu aproximadamente 7,857 milhões de motociclos, um crescimento de 18,1% face ao ano anterior. Esse número representou cerca de 35,5% de toda a produção chinesa de motociclos. Por outras palavras, mais de uma em cada três motocicletas produzidas na China saiu de uma fábrica localizada em Chongqing ou no seu ecossistema industrial. 


No mesmo ano, o valor da produção da indústria motociclista local atingiu cerca de 108,83 mil milhões de renminbi, com um crescimento anual de 18,8%. Estes dados ajudam a colocar o CIMAMotor no seu devido contexto. O salão não acontece numa cidade que, por acaso, possui algumas fábricas de motos. Acontece num dos grandes centros mundiais de produção, engenharia e fornecimento do sector. 

E QUANTAS DESSAS MOTOS SÃO EXPORTADAS? 
Em 2025, Chongqing exportou cerca de 6,109 milhões de motociclos, num crescimento de 21,9%. O valor dessas exportações atingiu aproximadamente 26,47 mil milhões de renminbi, mais 29,5% do que no ano anterior. Se compararmos simplesmente o número de unidades exportadas com o número total de unidades produzidas, percebemos que uma parte muito significativa da produção local tem como destino mercados externos.

Isto é decisivo para compreender a indústria chinesa actual. Chongqing não produz apenas para o mercado interno chinês, que por si só já é gigantesco. Produz também para a América Latina, Sudeste Asiático, África, Médio Oriente, Europa e muitos outros mercados. A China não é apenas um país onde se vendem muitas motos. É um país que fabrica motociclos para uma parte substancial do mundo. 

QUE MARCAS VAMOS ENCONTRAR NO CIMAMOTOR? 
A lista é extensa e inclui fabricantes chineses já conhecidos na Europa, marcas em crescimento e empresas ainda pouco familiares para o público português. Entre os nomes associados ao evento encontram-se, entre outros: Zonsen, CFMOTO, Cyclone, Moto Morini, Voge, Benda, Kove, Zontes, Haojin, Kayo, Jiajue, Doohan, Yadea, NIU, Jinlang, Teyin e ZXMOTO. 


A presença de marcas como Honda, Harley-Davidson, Triumph ou outros fabricantes internacionais também tem sido registada em edições anteriores, embora a composição exacta de expositores deva ser sempre confirmada pela organização para cada edição. O CIMAMotor não é, portanto, um salão exclusivamente dedicado a marcas chinesas desconhecidas. É um espaço onde convivem fabricantes tradicionais, empresas internacionais, novas marcas, fornecedores industriais e protagonistas da mobilidade eléctrica. É precisamente essa mistura que o torna interessante. 

O CIMAMOTOR É MAIOR DO QUE O EICMA?
Em termos de dimensão física anunciada, o CIMAMotor apresenta números muito expressivos. Mas seria errado concluir que já ultrapassou o EICMA em importância internacional. O EICMA, em Milão, continua a ser uma referência mundial em termos de prestígio, tradição, influência mediática, presença das grandes marcas e ligação directa ao mercado europeu. A edição de 2025 reuniu centenas de expositores, mais de 2.000 marcas representadas e cerca de 600.000 visitantes. 

O salão de Colónia, o INTERMOT, também possui uma longa tradição e uma importância relevante no calendário europeu. O CIMAMotor ainda não tem o mesmo peso simbólico ou a mesma influência global junto do consumidor europeu. Mas compará-los apenas pelo número de metros quadrados ou de visitantes seria insuficiente. O EICMA é uma grande montra internacional de produto, tendências e mercado. 

O CIMAMotor é, além disso, uma janela privilegiada para a própria infra-estrutura industrial que está a produzir uma parte crescente das motocicletas vendidas no mundo. Essa é a sua particularidade. Então, o CIMAMotor é o novo EICMA? Ainda não. E talvez não seja necessário que venha a ser. 

DEVEMOS ESPERAR QUE TODAS AS NOVIDADES CHEGUEM À EUROPA? 
Não. Entre apresentar uma motocicleta na China e vendê-la legalmente em Portugal existe um percurso complexo. Um modelo destinado ao mercado europeu precisa de cumprir requisitos de homologação, emissões, segurança, iluminação, travagem, ruído, compatibilidade electromagnética e outros regulamentos aplicáveis. Também necessita de uma estrutura de importação, distribuição, assistência, peças e garantia. 

Além disso, nem todos os fabricantes têm capacidade ou vontade de investir na Europa. Alguns estão concentrados nos mercados asiáticos, africanos ou latino-americanos. Outros preferem trabalhar através de parceiros ou fornecer plataformas a marcas já estabelecidas. Por isso, o CIMAMotor não deve ser visto como um catálogo de motos que estarão automaticamente disponíveis em Portugal no ano seguinte. Deve ser visto como um indicador de tendências: aquilo que hoje aparece em Chongqing pode tornar-se, amanhã, uma moto vendida numa concessionária europeia — ou pode permanecer um produto destinado a outro mercado. 

O QUE ESTÁ REALMENTE EM CAUSA?
Está em causa uma mudança no centro de gravidade da indústria mundial das duas rodas. Durante décadas, o imaginário europeu associou a excelência motociclista sobretudo ao Japão, à Europa e, em determinados segmentos, aos Estados Unidos. A China era frequentemente encarada como uma origem de produção económica, de componentes ou de motociclos simples. 

Esse quadro está a mudar. A China continua a competir pelo preço, mas já não compete apenas pelo preço. Compete também por escala, velocidade de desenvolvimento, integração industrial, equipamento, electrónica, design, capacidade de exportação e, em alguns casos, ambição desportiva e tecnológica. Chongqing é uma das expressões mais visíveis dessa transformação. E o CIMAMotor é o lugar onde essa realidade se apresenta de forma concentrada. 

UM SALÃO PARA OBSERVAR ANTES QUE SEJA TARDE 
O CIMAMotor 2026 abre as portas a 19 de Setembro, em Chongqing. Ainda não tem a tradição nem a influência do EICMA. Também não possui, no imaginário europeu, o reconhecimento de um salão como o de Colónia. Mas está a crescer, realiza-se numa das maiores concentrações industriais de motociclos do mundo e reúne uma parte cada vez mais importante dos protagonistas que estão a redesenhar o mercado global. 

O verdadeiro protagonista não é apenas o salão. É a cidade onde ele acontece. Uma municipalidade com uma área próxima da de Portugal, quase 32 milhões de habitantes, mais de 50 fabricantes de motociclos de dimensão industrial, centenas de empresas de componentes, capacidade para produzir dezenas de milhões de motores e motociclos e uma indústria que, em 2025, fabricou quase oito milhões de unidades. 

Ignorar esta realidade seria continuar a olhar para a indústria das duas rodas através de um mapa antigo. E talvez seja precisamente por isso que vale a pena começar a olhar para Chongqing agora — antes que aquilo que hoje parece distante se torne parte absolutamente normal da nossa paisagem motociclista.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Kawasaki Eliminator 500 à prova

Uma moto duas experiências. Durante cerca de um mês, a Kawasaki Eliminator 500 fez parte da nossa garagem, da nossa rotina e das nossas viagens. Não foi uma passagem rápida “pela redação”, nem aquelas poucas centenas de quilómetros que permitem formar uma primeira impressão e pouco mais. Eu e a Inês andámos nela, separadamente e juntos, em cidade, em estrada e em viagem. Tivemos tempo para nos habituarmos à moto, para perceber os seus consumos, a sua resposta, a sua agilidade e também aquilo que nos agradou menos. Ultrapassámos os mil quilómetros e, nessa altura, já não estávamos a falar de uma novidade: estávamos a falar de uma moto que conhecíamos.


E foi precisamente aí que esta experiência ganhou um interesse especial. Porque a Kawasaki Eliminator 500 foi vivida por duas pessoas muito diferentes. Eu cheguei a ela com muitos anos de motociclismo, milhares de quilómetros e hábitos muito definidos. A Inês chegou com uma experiência muito mais curta e com uma relação ainda em construção com as duas rodas. E as nossas primeiras impressões não podiam ter sido mais diferentes. 

Inicialmente, estranhei a posição de condução. O guiador relativamente fechado, os pés algo avançados, o banco muito baixo e aquela relação particular entre o depósito, o guiador e o corpo fizeram-me sentir, nos primeiros quilómetros, que estava sentado numa moto que ainda não conseguia entender. A Inês, pelo contrário, adaptou-se quase imediatamente. Aquilo que para mim exigiu algum tempo tornou-se, para ela, uma fonte de confiança. 


Isso acabou por ser uma das coisas mais interessantes desta experiência. A mesma moto pode transmitir sensações completamente diferentes dependendo de quem está sentado nela. E a Eliminator obrigou-me, de certa forma, a fazer aquilo que nem sempre é fácil para um motociclista experiente: deixar de comparar uma moto com todas as outras que já conduzi e tentar percebê-la pelo que ela realmente é. E antes de falarmos da nossa experiência, vale a pena perceber o que é esta Eliminator e porque é que este nome tem tanto peso na história da Kawasaki.

UM NOME COM HISTÓRIA
O nome Eliminator ocupa um lugar muito particular na história da Kawasaki. Não nasceu agora, nem é uma invenção da atual vaga de motos de estilo “custom”. Pelo contrário, remonta à década de 1980, quando a marca japonesa procurava afirmar-se no segmento das cruisers através de uma abordagem diferente daquela seguida pelos fabricantes americanos. A primeira Eliminator surgiu em 1985. Em vez de privilegiar apenas o conforto e a imagem clássica, a Kawasaki decidiu criar uma moto de linhas longas e baixas, mas equipada com motores derivados das suas desportivas e naked de quatro cilindros. Daí nasceram modelos como a ZL400, ZL600, ZL900 e a impressionante ZL1000 Eliminator, equipada com o motor da Ninja GPZ1000RX. 

Quase quarenta anos depois, a Kawasaki recuperou esta designação para uma nova geração de motociclistas. A Eliminator regressa profundamente diferente das suas antecessoras. Já não pretende ser uma muscle cruiser extrema. Em vez disso, assume-se como uma cruiser moderna, acessível, leve e fácil de conduzir, construída para conquistar novos utilizadores e para responder às exigências da carta A2. 

LIMPA E MINIMALISTA 
A Kawasaki Eliminator apresenta uma linguagem estética extremamente limpa e minimalista. À primeira vista destaca-se pela silhueta muito longa e baixa. O depósito prolonga-se visualmente até ao banco, criando uma linha contínua que conduz naturalmente o olhar até à traseira curta e bastante depurada. Não existem elementos decorativos em excesso. Quase todas as superfícies são lisas, tensas e desprovidas de ornamentos, transmitindo uma imagem moderna em vez de retro. 

Na frente encontra-se um farol circular totalmente em LED. Embora mantenha uma forma clássica, o seu interior possui uma assinatura luminosa contemporânea que denuncia imediatamente tratar-se de um modelo atual. As forquilhas convencionais de 41 mm apresentam um acabamento escurecido, reforçando a imagem sóbria da moto. O depósito possui formas suaves, sem vincos agressivos, privilegiando elegância em detrimento da agressividade. O banco situa-se apenas a 735 mm do solo, praticamente fundindo-se com a restante carroçaria. A posição extremamente baixa constitui um dos elementos visuais mais marcantes da Eliminator. 


A traseira é curta, limpa e compacta. O escape surge colocado numa posição baixa e paralela ao solo, sem chamar excessivamente a atenção, reforçando o carácter discreto do conjunto. Grande parte da mecânica permanece visível. O motor bicilíndrico é assumido como elemento integrante da estética, ocupando visualmente o centro da moto sem recurso a coberturas plásticas. O resultado final transmite uma imagem equilibrada entre o universo cruiser tradicional e o design contemporâneo japonês. 

PLATAFORMA COMPLETAMENTE MODERNA. 
O quadro é um tubular em aço de elevada rigidez torsional, desenvolvido especificamente para privilegiar facilidade de condução, estabilidade e baixo peso. No seu interior encontra-se um motor bicilíndrico paralelo de 451 cm³, refrigerado por líquido, com dupla árvore de cames à cabeça (DOHC) e quatro válvulas por cilindro. A potência máxima situa-se nas 45 cv, valor perfeitamente enquadrado no limite da carta A2. 

O peso em ordem de marcha ronda os 176 kg, valor extremamente competitivo dentro da categoria. O depósito de combustível possui capacidade para aproximadamente 13 litros. A ergonomia constitui um dos aspetos mais trabalhados da Eliminator. O banco muito baixo permite que praticamente qualquer motociclista consiga apoiar ambos os pés no solo com facilidade, aumentando significativamente a confiança durante manobras e circulação urbana. A iluminação é integralmente em tecnologia LED. 

PERSONALIDADE DINÂMICA 
Apesar da imagem cruiser, a Eliminator não se conduz como uma cruiser tradicional. A geometria da ciclística aproxima-se muito mais da de uma naked do que da maioria das motos deste segmento. A direção é rápida. O peso reduzido facilita - uns "anoreticos" 176 Kg em ordem de marcha -   mudanças de trajetória. O centro de gravidade é muitíssimo baixo e transmite enorme sensação de controlo. O motor revela uma resposta particularmente agradável em utilização quotidiana, permitindo circular em cidade praticamente sem esforço e oferecendo capacidade suficiente para viagens em estrada nacional e autoestrada. 

É precisamente aí que reside uma das maiores virtudes da Eliminator. A Kawasaki Eliminator não pretende competir diretamente com cruisers tradicionais de maior cilindrada. O seu verdadeiro objetivo consiste em oferecer uma porta de entrada para o universo cruiser sem os compromissos habituais associados a motos pesadas, difíceis de manobrar ou excessivamente especializadas. 


E se para um motociclista experiente a Eliminator pode exigir algum tempo de adaptação, a história da Inês, a Miss Yoshimura, começou de uma forma completamente diferente. Quando recebeu a chave daquela Kawasaki com zero quilómetros, ainda estava a dar os primeiros passos no motociclismo. Tinha a sua Honda CL500, tinha já alguma experiência, no entanto continuava a existir uma enorme diferença entre saber conduzir uma moto e sentir que somos realmente capazes de conduzi-la em qualquer situação. 


Foi nesse contexto que começou esta experiência. E talvez seja por isso que o testemunho da Inês seja tão importante para perceber esta Kawasaki. Não é o olhar de quem procura potência, prestações ou tecnologia. É o olhar de alguém que procura, antes de tudo, confiança. E foi precisamente aí que a Eliminator começou a surpreendê-la. 

“A PRIMEIRA VEZ” COMEÇOU AINDA ANTES DA ELIMINATOR 
No dia 14 de julho saí de casa sabendo que ia viver uma experiência nova. Na verdade, ainda não sabia quantas primeiras vezes caberiam nos 30 dias seguintes. A primeira começou logo antes de conhecer a Kawasaki Eliminator. Pela primeira vez, saí de casa na minha Honda CL500 para atravessar Lisboa e ir buscar outra moto. Para quem tem muitos anos de motociclismo isto provavelmente não significa absolutamente nada. Para uma recém-encartada como eu, significa autocarros, semáforos, carros mal estacionados, buzinas, trânsito e uma quantidade considerável de pensamentos a acontecer ao mesmo tempo dentro do capacete. 

Cheguei ao stand da Kawasaki com o Pedro e com aquele misto estranho de entusiasmo e nervosismo. À minha frente estava uma Kawasaki Eliminator novinha em folha. Quilómetro zero. Matriculada para começar precisamente ali esta experiência. E eu ia levá-la. A ideia destes 30 dias era simples: dar-me oportunidade de ganhar quilómetros, experiência e confiança numa moto da mesma cilindrada da minha Honda CL500, no entanto mais baixa e particularmente fácil de conduzir. Na teoria parecia uma excelente ideia. Na prática, significava que alguém me estava a entregar a chave de uma moto com zero quilómetros e a dizer: “Agora vai.” 

O PRIMEIRO VERMELHO 
Não precisei de muitos quilómetros para perceber que alguma coisa estava a acontecer. A primeira sensação foi física. A moto é baixa, permite-me colocar os pés no chão com enorme naturalidade e, para a minha estrutura, a posição de condução revelou-se extremamente confortável. 

O banco, que sei que não provoca exatamente a mesma sensação em todas as pessoas, para mim foi uma surpresa muito positiva. Mesmo depois de várias horas em cima da moto, senti-me confortável na zona lombar e na coluna, e a posição das mãos no guiador nunca me obrigou a andar tensa ou excessivamente inclinada. Isto pode parecer um detalhe, mas quando ainda estamos a ganhar experiência, sentirmo-nos fisicamente bem em cima da moto liberta-nos mentalmente para aquilo que realmente interessa: conduzir. 


E houve outro pormenor que, enquanto mulher e enquanto condutora ainda recente, valorizei imenso: os comandos no guiador. Estavam exatamente onde eu precisava que estivessem. Os piscas, os quatro piscas, os sinais de luzes, os travões, o botão de emergência — tudo me pareceu intuitivo, acessível e adequado ao tamanho normal de uma mão feminina. 

Nesta fase, em que ainda estou a transformar muitos destes gestos em automatismos, isso é muito importante. Ainda existe aquele pequeno milésimo de segundo em que o cérebro pensa “onde está o pisca?” ou “qual é o botão que quero carregar?”. Na Eliminator, senti que tudo estava disposto de forma muito natural


Também gostei muito da suavidade geral da moto. Na travagem, nunca senti respostas bruscas ou intimidantes. Nas irregularidades da estrada, a suspensão transmitia-me uma sensação de conforto e estabilidade que, para alguém ainda a construir confiança, vale muito. Não sei explicar estas coisas como alguém que faz ensaios técnicos de motos — e também não quero. Consigo apenas explicar aquilo que senti. E o que senti foi uma moto que não me obrigava a lutar com ela. 


Saímos da RG Motor Lisboa em direção ao centro da cidade e, no primeiro semáforo vermelho em que fiquei lado a lado com o Pedro, olhei para ele com um sorriso impossível de esconder. 
— Isto é muito giro! 
A resposta dele foi imediata: — Eu avisei-te.
E tinha avisado.

A ELIMINATOR COMEÇOU A FAZER PARTE DOS MEUS DIAS 
Seguimos até à Praia da Torre e, poucas horas depois de me sentar naquela moto pela primeira vez, eu tinha a estranha sensação de que já a conhecia. É talvez esse o primeiro grande elogio que consigo fazer à Eliminator: não exige que lutemos com ela para começarmos a divertir-nos. E, para alguém que ainda tem receios e que não esconde que conduzir no centro de Lisboa continua a exigir bastante concentração, isso faz uma diferença enorme. No regresso, com o trânsito de verão acumulado na Marginal, dei por mim a circular naturalmente entre o movimento, a trocar cumprimentos com outros motociclistas e a sentir uma coisa que até então ainda aparecia apenas em pequenos momentos: eu pertencia ali.


Depois veio a missão: “Agora vais andar nela.”. E andei. Por coincidência, o meu ginásio habitual estava em obras e eu tinha decidido treinar noutro local. De repente, aquilo que poderia ser apenas um inconveniente tornou-se a desculpa perfeita. Mochila às costas, equipamento vestido, chave na mão. Casa-ginásio. Ginásio-casa. Pequenos percursos, é verdade. Mas quando estamos a ganhar experiência numa moto, são precisamente esses quilómetros aparentemente insignificantes que começam a mudar tudo.

Instalei também um suporte de telemóvel no guiador. Sou do Porto e, apesar de já me orientar bastante bem em Lisboa, conduzir uma moto exige de mim uma atenção diferente. Quero estar concentrada na estrada, nos outros veículos, em ser vista e em antecipar o que acontece à minha volta. Não quero gastar parte dessa atenção a tentar lembrar-me se era na próxima saída ou na seguinte. O GPS deu-me liberdade. E, pouco a pouco, a Eliminator deixou de ser “a moto que me emprestaram” para se tornar simplesmente a moto em que eu saía de casa. 

ATÉ QUE APARECEU UMA IDEIA. 
“E se formos os dois, cada um na sua moto?”. O Pedro tinha alguns dias livres e outra moto para ensaiar. Porque não fazermos uma pequena viagem? E desta vez de uma forma que nunca tínhamos feito. Cada um na sua moto. Curiosamente, também seria uma primeira vez para ele. Em tantos anos de viagens de moto juntos, nunca tínhamos feito uma viagem em que eu conduzisse ao lado dele. 

O destino surgiu rapidamente: Góis. Encontrámos alojamento, desenhámos o percurso e, algures entre o entusiasmo da decisão e a chegada a casa, ocorreu-me uma pequena questão: no que é que eu me fui meter? Até então, a minha viagem maior enquanto condutora tinha sido até Évora. Agora falávamos de centenas de quilómetros. Estradas nacionais. Curvas. Serra. Calor. Vários dias. 

IA MESMO ACONTECER.
Eu estava a conduzir a minha própria viagem. Na manhã da partida estava tudo preparado. Equipamento completo, cinta lombar, luvas, capacete, viseira limpa, telemóvel no suporte e uma regra muito simples entre nós: cada um faria a viagem ao seu ritmo. O Pedro marcou previamente cada paragem no GPS. Eu sabia para onde ia e não precisava de tentar acompanhá-lo. Se ele chegasse primeiro, esperava por mim. Se eu chegasse primeiro, esperava eu. 

Essa liberdade acabou por ser uma das coisas mais importantes de toda a viagem. Eu estava a conduzir a minha própria viagem. Ponte Vasco da Gama. Camiões. Estrada nacional. O ar fresco da manhã. Paisagens que eu já conhecia de outras circunstâncias, mas que pareciam completamente diferentes vistas de cima de uma moto que era eu a conduzir. E houve um pensamento que me acompanhou várias vezes: “Inês, vais fazer 50 anos daqui a pouco tempo e estás a fazer coisas pela primeira vez.”

Talvez tenha sido isso que tornou tudo tão especial. Eu já fiz milhares de quilómetros de moto enquanto passageira. Conheço o prazer de viajar atrás. Conheço a paisagem, os cheiros, as paragens, a sensação de estrada. Mas desta vez eram as minhas mãos no guiador. Era eu que travava. Era eu que acelerava. Era eu que decidia quando reduzir. Era eu que escolhia a trajetória. E comecei finalmente a perceber uma parte daquilo que o Pedro sente há tantos anos. 

VIAJAR DE MOTO A CONDUZIR É OUTRA COISA. 
Viajar de moto como passageira é maravilhoso. Viajar de moto a conduzir é outra coisa. Paramos, fotografámos, conversámos, encontrámos pessoas. E comecei também a viver uma imagem que tantas vezes tinha observado do lado de fora: aquele grupo de motociclistas que chega a algum lado e, no meio deles, está uma mulher na sua própria moto. Agora essa mulher era eu. 


Depois chegaram as curvas. E com elas chegou provavelmente a parte mais importante da experiência. Não tinha ninguém no ouvido a dizer-me como devia fazer uma curva. Não havia instruções constantes sobre quando travar, quando reduzir ou que trajetória escolher. Tinha aquilo que tinha aprendido, algum bom senso e uma Kawasaki Eliminator debaixo de mim. E fui fazendo. Às vezes mais devagar. Às vezes sabendo perfeitamente que um carro atrás de mim provavelmente gostaria que eu fosse mais depressa. 

E aprendi uma coisa importantíssima: não me deixar pressionar. Fiz a minha estrada ao meu ritmo. O Pedro esperava por mim sem me apressar. Nunca me pressionou. Nunca tentou obrigar-me a acompanhar um ritmo que não era o meu. E, para minha surpresa — e também para a dele — muitas vezes a espera era bastante mais curta do que imaginávamos.

Cheguei a Góis cansada, naturalmente. O joelho direito já protestava um pouco contra tantas horas na mesma posição e o corpo lembrava-me que aquilo também era esforço. Mas cheguei. Na minha moto. Depois de centenas de quilómetros. E com uma enorme vontade de voltar a fazê-lo. 

O MEU PEQUENO STELVIO PORTUGUÊS 
No segundo dia deixámos as motos descansar. No terceiro regressámos a Lisboa. E, como aparentemente já não bastava tudo aquilo que eu tinha feito pela primeira vez, escolhemos um percurso ainda mais longo e desafiante. Serra. Subidas. Descidas. Curvas fechadas. Daquelas estradas em que olhamos em frente e pensamos: “Eu vou passar por ali?” 

Passei. Com calma. Com respeito. Com algum medo, evidentemente. Mas passei. Em alguns momentos senti que estava a fazer o meu pequeno Stelvio português. E aconteceu então uma coisa difícil de explicar racionalmente. Durante muitos anos pratiquei hipismo e conheço aquela sensação em que cavalo e cavaleiro deixam de parecer duas entidades separadas. Há uma altura em que começamos simplesmente a funcionar em conjunto. Foi algo parecido que senti com a Eliminator. 

TRINTA DIAS DEPOIS 
O mês passou demasiado depressa. Ainda fizemos uma sessão fotográfica antes da despedida e aconteceu uma coisa curiosa: sempre que voltava a sentar-me na Eliminator havia ainda aquele pequeno frio na barriga. Só que agora vinha acompanhado de outra sensação. Confiança. 

Eu não fui entregá-la ao stand e – quando vos escrevo - ainda não voltei a conduzir a minha Honda CL500 desde então. Por isso ainda não sei exatamente tudo aquilo que estes 30 dias vão mudar quando voltar à minha moto. Mas há coisas que já sei. Sei que fiz uma viagem que, poucas semanas antes, provavelmente me pareceria demasiado grande. Sei que atravessei cidades, enfrentei trânsito, fiz nacionais, conduzi durante horas, subi e desci serras, fiz curvas que me assustavam e aprendi a não conduzir ao ritmo dos outros. Sei que continuo a ter respeito — e algum medo — por andar de moto. 

Só que agora sei também que consigo fazer muito mais do que imaginava. A Kawasaki Eliminator não veio substituir a minha Honda. Veio ensinar-me a ser melhor motociclista. Talvez tenha sido esse o verdadeiro objetivo destes 30 dias. Há motos que experimentamos e devolvemos. E depois há motos que ficam associadas a uma fase da nossa vida. Esta vai ficar para sempre ligada às minhas primeiras vezes. 

E existe ainda um pequeno pormenor de que gosto particularmente: aqueles primeiros quilómetros daquela matrícula foram feitos por mim. Esses já ninguém mos tira. Estou quase a fazer 50 anos. E se estes 30 dias me ensinaram alguma coisa que vá muito além do motociclismo, foi isto: ainda tenho imensas primeiras vezes para viver. 


Nestes 30 dias percebi também que ensinar alguém a ganhar confiança numa moto não é dizer-lhe para acelerar mais, fazer melhor ou ter menos medo. Às vezes é simplesmente estar lá. Dar espaço. Esperar. Respeitar. E deixar a outra pessoa descobrir, quilómetro após quilómetro, aquilo de que é capaz. Eu não teria vivido esta experiência da mesma forma sem ti. 

À Kawasaki Portugal e à RG Motor, um enorme obrigada pela confiança e pela cedência desta Eliminator. Trouxe quilómetros. Trouxe histórias. Trouxe primeiras vezes. Trouxe confiança. E trouxe uma ligação muito especial a uma moto que ficará para sempre associada a esta fase da minha vida. Por isso, obrigada por me terem permitido viver tudo isto. Há experiências que terminam quando entregamos a chave. Esta não terminou. 

SIMPLICIDADE E CARISMA
Sublinho. Durante cerca de um mês, a Kawasaki Eliminator 500 fez parte da nossa garagem, da nossa rotina e das nossas viagens. Não foi uma passagem rápida “pela redação”, nem aquelas poucas centenas de quilómetros que permitem formar uma primeira impressão e pouco mais. Mais do que uma prova, esta foi uma autentica experiencia criada por nós, para vos oferecer uma visão global desta moto. 


Esta Kawasaki Eliminator 500 Metallic Flat Spark Black reclamou, em média, cerca de três litros e meio de combustível por cada cem quilómetros de prazer tranquilo que nos ofereceu. Notem que este consumo é cerca de dez por cento abaixo do anunciado pela marca. Existe ainda um conjunto de acessórios que podem enriquecer ainda mais a vossa Eliminator, sendo que destaco um banco ainda mais baixo e um Escape Arrow preto mate com proteção térmica em carbono e ponteira em carbono, um sistema mais leve em comparação com o sistema de escape de série e que promete oferecer um som profundo e desportivo. A Kawasaki pede-vos uma transferência bancara de 6.890€ por esta moto simples todavia carregada de crisma.

Raterómetro ******** (8/10)

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

25 anos do 11 de Setembro e a Harley que entrou no inferno

Enquanto milhões de pessoas tentavam fugir de Manhattan, um homem fez exactamente o contrário. Vestiu o equipamento de bombeiro, subiu para a sua Harley-Davidson e guiou directamente para o coração do inferno. A fotografia de Allan Tannenbaum, captada naquele dia em Nova Iorque, mostra Tim Duffy a atravessar uma cidade irreconhecível. Ao fundo, o fumo. À sua volta, o caos. No chão, os restos de uma normalidade que tinha acabado de desaparecer. E, no meio de tudo aquilo, uma Harley-Davidson Super Glide Sport de 2000 leva um bombeiro do FDNY para onde ninguém queria estar. 


Tim Duffy estava de folga naquela manhã de 11 de Setembro de 2001. Quando soube dos ataques, não ficou em casa. Vestiu o equipamento, pegou na sua Harley e dirigiu-se para Lower Manhattan. Não sabia exactamente o que iria encontrar. Sabia apenas que era bombeiro e que havia pessoas a precisar de ajuda.

É difícil olhar para aquela imagem sem sentir um arrepio. Porque aquela Harley, naquele instante, deixou de ser apenas uma moto. Tornou-se o veículo de um homem que decidiu avançar quando tudo à sua volta estava a desmoronar. Enquanto milhares procuravam desesperadamente afastar-se do Ground Zero, Tim Duffy seguia na direcção contrária. E talvez seja precisamente por isso que esta imagem ficou. Não mostra apenas a tragédia. Mostra uma escolha humana perante a tragédia. 

Duffy chegou ao World Trade Center quando o pesadelo ainda estava a acontecer. Quando uma das torres colapsou, ficou soterrado pelos destroços. Sobreviveu. Continuou a ajudar. Mas o 11 de Setembro não terminou para ele quando as televisões deixaram de transmitir em directo. Como aconteceu com tantos bombeiros, polícias, trabalhadores de emergência e sobreviventes, as consequências daquele dia continuaram durante anos. A exposição às poeiras e aos contaminantes de Ground Zero acabaria por contribuir para problemas graves de saúde e para o afastamento de Duffy do serviço. 

VINTE E CINCO ANOS DEPOIS ESTÁ TUDO VIVO. 
E em Agosto deste ano esteve em Sturgis, no Dakota do Sul, para receber o American Hero Award do Sturgis Motorcycle Museum and Hall of Fame. Um reconhecimento que tem uma força especial quando pensamos na história daquela moto e daquele homem: um bombeiro, um motociclista e uma máquina que, naquele dia, ficaram unidos para sempre numa das imagens mais poderosas da história do motociclismo. 


E nesta história há outro homem que não podemos esquecer. Enquanto Tim Duffy avançava para o perigo, Tannenbaum fazia aquilo que um grande fotojornalista sabe que tem de fazer: olhar, compreender e testemunhar. Não podia saber que aquele instante sobreviveria durante um quarto de século. Não podia saber que, em 2026, continuaríamos a olhar para aquela imagem procurando compreender o que aconteceu naquele dia. Mas carregou no botão. E uma fotografia tornou-se memória. 

Allan Tannenbaum não era apenas o homem que estava atrás da máquina fotográfica. Tannenbaum é, ele próprio, um motociclista. A sua relação com as motos começou nos anos 60, quando comprou uma Honda 305 Dream em São Francisco e partiu nela à descoberta da Califórnia e do México. Mais tarde apaixonou-se por uma Norton e, em 1970, comprou uma Norton Commando nova em Inglaterra, percorreu a Grã-Bretanha, atravessou França, passou os Pirenéus, chegou a Barcelona e seguiu até Ibiza. Em 1972 tentou inclusivamente trabalhar como fotojornalista de motociclismo. 


A ligação nunca desapareceu. Décadas depois, Tannenbaum continua a andar de moto e recuperou uma Norton Commando de 1968, que voltou a colocar na estrada. Foi precisamente através desse universo motociclista que conheceu Jean Pierre Kathoefer, realizador e também motociclista, que acabaria por fazer Back To The Present, um pequeno documentário sobre a vida e o trabalho de Tannenbaum. E talvez seja aqui que esta história ganha uma dimensão que nós, motociclistas, não podemos ignorar: naquele dia de 11 de Setembro havia um motociclista ao guiador daquela Harley-Davidson e outro motociclista atrás da máquina fotográfica. Um estava a entrar no inferno. O outro estava a garantir que nós nunca esqueceríamos o que viu. 

UMA IDEIA ETERNA DE LIBERDADE 
É por isso que aquela imagem continua a dizer-nos tanto. Porque não precisamos de explicações para perceber a sua linguagem. Uma moto. Um bombeiro. Uma cidade ferida. Um homem a avançar enquanto o mundo recua. E, talvez sem querer, aquela fotografia acabou também por dizer alguma coisa sobre aquilo que significa ser motociclista. 

Porque há uma ideia de liberdade profundamente ligada a uma moto. Não a liberdade infantil de fazer simplesmente aquilo que nos apetece, e sim a liberdade adulta de escolher o nosso caminho e assumir a responsabilidade por essa escolha. Ir. Parar. Mudar de direcção. Continuar. Escolher uma estrada em vez de outra. 

É uma liberdade que muitas vezes damos como garantida porque temos a sorte de viver numa sociedade onde ela existe. Mas não é garantida. O 11 de Setembro mostrou-nos isso de uma forma brutal. E a História, antes e depois desse dia, continuou a mostrar-nos que sociedades abertas, democracias e direitos individuais não são património adquirido para toda a eternidade. São conquistas que precisam de ser defendidas e preservadas. 

E HÁ ALGO DE PROFUNDAMENTE MOTOCICLISTA NISSO
Não se trata de atacar ninguém. Trata-se precisamente do contrário. Trata-se de dizer claramente aquilo que queremos defender: a democracia, a liberdade individual, o Estado de Direito, o respeito pelos direitos humanos, a dignidade de cada pessoa e a possibilidade de vivermos de acordo com as nossas escolhas sem medo. Trata-se de defender uma sociedade onde podemos discordar sem nos destruirmos, onde podemos questionar o poder e onde ninguém deve ter o direito de decidir por nós aquilo que podemos pensar, dizer ou fazer. 

Porque andar de moto é, no fundo, uma pequena celebração diária da liberdade. É pegar numa máquina, escolher uma estrada e partir. É sentir que o mundo ainda é suficientemente grande para podermos escolher para onde queremos ir. 

POR ISSO ESTA HISTÓRIA TAMBÉM É NOSSA
Hoje, 11 de Setembro, cumprindo-se 25 anos sobre aquela manhã, talvez devêssemos fazer uma pergunta uns aos outros: onde estavas tu? Que idade tinhas? Onde estavas quando viste pela primeira vez aquelas imagens? Que moto tinhas nessa altura? E quem eras tu há 25 anos? 

Depois olha para a tua vida de hoje. Que moto tens agora? Que estradas já percorreste? Quantas pessoas ficaram pelo caminho? Quantas chegaram entretanto? O que mudou em ti? 

Porque 25 anos são uma vida inteira. E, no entanto, há imagens que parecem ter acontecido ontem. Tim Duffy continua vivo. A fotografia de Allan Tannenbaum continua viva. A Harley que levou aquele bombeiro para Ground Zero está hoje preservada como parte dessa história. E nós continuamos aqui, 25 anos depois, com a responsabilidade de não esquecer. 

Não esquecer os que morreram. Não esquecer os que sobreviveram. Não esquecer aqueles que correram para o perigo quando todos os outros tentavam escapar. E não esquecer que a liberdade que hoje nos parece tão natural pode ser colocada em causa muito mais depressa do que imaginamos

Talvez seja essa a verdadeira mensagem daquela Harley atravessando Manhattan naquele dia. Que a liberdade não é ausência de perigo. É a possibilidade de escolher como respondemos a ele. Há 25 anos, Tim Duffy escolheu avançar. Hoje, cabe-nos a nós escolher aquilo que queremos preservar. A vida. A liberdade. A democracia. A dignidade humana. O direito de escolher o nosso próprio caminho. 

E, depois, continuar a estrada. Porque enquanto pudermos escolher a estrada, enquanto pudermos ligar o motor e partir, haverá ainda liberdade. E essa é uma coisa pela qual vale a pena lutar

domingo, 6 de setembro de 2026

As grandes Adventure do momento ou o confronto entre duas formas de entender a viagem

Tal como aconteceu no anterior Confronto publicado pelo O Escape Mais Rouco aqui (link), este texto existe porque foram os leitores que o pediram. Desde que a CFMOTO 1000MT-X e a Moto Morini X-CAPE 1200 chegaram ao mercado português, as perguntas repetiram-se vezes sem conta: qual escolher? Qual delas comprarias? Qual é, afinal, a melhor? 


A resposta mais cómoda seria dizer que não faz sentido colocá-las frente a frente. Tecnicamente, até seria uma resposta defensável. Não pertencem exatamente ao mesmo segmento, não foram concebidas com a mesma filosofia e nem sequer procuram conquistar o motociclista pelos mesmos argumentos.  Todavia o mercado raramente respeita fronteiras desenhadas em catálogos. Quem procura hoje uma grande Adventure olha inevitavelmente para ambas. Estão no mesmo momento, geram a mesma curiosidade e acabam por disputar o mesmo lugar na garagem de muitos motociclistas. 


É precisamente por isso que este texto não é um comparativo. Não pretende medir fichas técnicas ao milímetro, nem transformar números em vencedores. Também não é um encontro diplomático onde todas acabam empatadas para que ninguém fique incomodado. É um Confronto. E um Confronto implica assumir uma posição, explicar porquê e aceitar que nem todos concordarão com ela. Continuo a acreditar que a escolha mais importante é aquela que cada leitor fará depois de perceber quem é enquanto motociclista e aquilo que realmente espera de uma moto. Mas seria intelectualmente desonesto esconder a minha própria decisão quando são precisamente os leitores que ma pedem há meses. 

AFINAL O QUE É ISSO DO CONCEITO ADVENTURE
A CFMOTO 1000MT-X e a Moto Morini X-CAPE 1200 representam duas interpretações muito diferentes do conceito Adventure. Curiosamente, essa diferença percebe-se antes mesmo de rodar um metro. Basta aproximarmo-nos de cada uma delas. A CFMOTO transmite imediatamente uma sensação de robustez e maturidade. A frente larga, o depósito generoso, a proteção aerodinâmica desenvolvida, as linhas sólidas e a postura imponente fazem-nos perceber que estamos perante uma moto construída para viajar muito. Não procura chamar a atenção através do excesso de exuberância estética. O seu discurso é outro. Tudo parece ter sido desenhado para servir um objetivo muito concreto: transformar milhares de quilómetros numa experiência confortável, estável e despreocupada. É uma moto que transmite confiança antes mesmo de se carregar no botão de arranque.


A Moto Morini X-CAPE 1200 segue um caminho completamente diferente. Também impressiona pela presença, mas fá-lo através da personalidade. Existe uma evidente paixão italiana em cada linha daquela moto. O enorme bicilíndrico em V domina visualmente todo o conjunto e deixa desde logo claro qual é o verdadeiro protagonista deste projeto

A estética Adventure existe, naturalmente, no entanto rapidamente percebemos que estamos perante uma estradista de posição elevada, construída em torno de um motor cheio de carácter e não de uma ambição de conquistar trilhos difíceis. Quando o V2 Corsa Corta EVO ganha vida, tudo aquilo que os olhos antecipavam confirma-se. A sonoridade grave, cheia e profundamente mecânica envolve imediatamente o condutor e cria uma ligação emocional rara nos dias de hoje. Foi precisamente por isso que, durante a apresentação ibérica realizada no Douro, me ocorreu uma definição que continua a parecer-me perfeita: a X-CAPE 1200 é uma superbike de saltos altos. Tem porte de Adventure, mas alma de grande desportiva de estrada. 

É precisamente aqui que nasce a grande diferença entre estas duas motos. A CFMOTO foi desenhada para colocar a viagem em primeiro lugar. Tudo nela trabalha para reduzir o cansaço, aumentar a confiança e permitir que o motociclista pense menos na máquina e mais na estrada que tem pela frente. É uma moto que quase desaparece debaixo do condutor. Parece uma contradição, mas numa grande viajante isso é um elogio enorme. Quanto menos a moto exige a nossa atenção, mais liberdade temos para apreciar a paisagem, acumular quilómetros e viver a experiência da viagem. 


A Moto Morini faz exatamente o contrário. Nunca desaparece. Está constantemente presente. O motor faz questão de recordar a sua existência em cada aceleração, a ciclística convida a explorar mais uma curva e a personalidade mecânica acompanha permanentemente a condução. Não é uma moto construída para ser discreta. É uma moto construída para fazer sentir. Cada quilómetro tem um sabor próprio, cada saída de curva é acompanhada por uma resposta viva do V2 e cada viagem transforma-se inevitavelmente numa experiência mais emocional do que racional. 

IDENTIDADE ASSUMIDA 
É curioso verificar que ambas cumprem muito bem aquilo a que se propõem, precisamente porque recusam seguir o mesmo caminho. Enquanto muitas motos modernas parecem procurar um equilíbrio universal que agrade a toda a gente, estas duas assumem claramente a sua identidade. A CFMOTO acredita que uma grande Adventure deve ser uma extraordinária companheira de viagem. A Moto Morini acredita que uma grande Adventure deve continuar, acima de tudo, a emocionar quem a conduz. 


A diferença entre estas duas propostas torna-se ainda mais evidente quando deixamos a contemplação estética para trás e começamos verdadeiramente a conduzir. É aí que percebemos que, apesar de partilharem a designação Adventure, cada uma interpreta essa palavra de forma muito própria. A CFMOTO 1000MT-X encara a aventura como uma viagem longa, feita de dias consecutivos em cima da moto, onde o conforto, a estabilidade e a facilidade de condução acabam por valer mais do que uma explosão ocasional de adrenalina. Não é uma moto construída para impressionar nos primeiros cinco quilómetros. É uma moto que vai conquistando o motociclista à medida que os quilómetros se acumulam. Quanto mais tempo passamos aos seus comandos, mais percebemos o cuidado colocado na ergonomia, na afinação da ciclística e na forma como toda a moto trabalha para reduzir o desgaste físico do condutor. 

Foi precisamente essa a sensação que retirei do ensaio completo realizado pelo O Escape Mais Rouco. Existe uma enorme honestidade naquele projeto. A CFMOTO não tenta parecer mais desportiva do que realmente é, nem procura convencer através de soluções artificiais. Assume-se como uma grande viajante, robusta, tecnologicamente muito bem equipada e preparada para enfrentar praticamente qualquer estrada sem transformar a condução numa prova de resistência. É uma moto que transmite serenidade. E essa serenidade acaba por contagiar quem a conduz. Ao fim de algumas horas percebemos que deixámos de pensar na posição de condução, na proteção contra o vento ou no comportamento da ciclística. Estamos simplesmente a viajar. Parece um detalhe, mas talvez seja o maior elogio que se possa fazer a uma moto desta categoria.


A Moto Morini X-CAPE 1200 segue um caminho quase oposto. Também ela sabe viajar, naturalmente. Também oferece conforto, uma posição de condução muito conseguida e um equipamento capaz de enfrentar grandes distâncias. No entanto nunca permite que nos esqueçamos da máquina que estamos a conduzir. O enorme V2 italiano faz questão de marcar presença em cada aceleração. Existe uma ligação quase física entre o punho direito e a resposta do motor. Não é apenas uma questão de potência ou binário; é uma questão de personalidade. Hoje, numa época em que muitos motores parecem afinados para cumprir normas de emissões e agradar a folhas de cálculo, encontrar um bicilíndrico com este carácter acaba por ser uma lufada de ar fresco. A X-CAPE 1200 lembra-nos constantemente que conduzir uma moto também pode ser um exercício emocional.

Essa personalidade sente-se igualmente na ciclística. Durante a apresentação ibérica, realizada nas extraordinárias estradas do Douro, a italiana revelou um comportamento muito convincente. Inscreve-se em curva com naturalidade, transmite confiança desde os primeiros quilómetros e deixa perceber que existe qualidade na forma como quadro, suspensões e travões trabalham em conjunto. O quickshifter revelou-se eficaz, contribuindo para uma condução particularmente fluida nas sucessões de curvas. Não é difícil imaginar esta moto a devorar estradas nacionais, serras ou percursos de montanha, onde o prazer da condução acaba por ser tão importante como o destino. 

E NÃO HÁ MOTOS PERFEITAS 
Seria, contudo, injusto transformar qualquer uma destas motos numa sucessão de elogios. Ambas têm limitações e, curiosamente, essas limitações ajudam-nos a compreender ainda melhor a filosofia de cada projeto. 


Na CFMOTO, o peso existe e faz-se sentir quando o piso desaparece ou quando as manobras exigem maior precisão. Apesar de surpreender pela facilidade com que esconde os seus quilogramas em andamento, continua a ser uma moto grande, pensada sobretudo para privilegiar a estabilidade e o conforto. É perfeitamente capaz de enfrentar estradões, pisos degradados e caminhos de terra sem dramatismos, mas nunca tenta convencer-nos de que nasceu para procurar trilhos técnicos ou obstáculos difíceis. O seu território natural continua a ser o grande turismo, aquele que liga cidades, países e horizontes.


Na Moto Morini, a principal limitação surge precisamente onde menos gostaríamos que surgisse: o peso e os consumos. As manobras a baixa velocidade exigem atenção, porque a massa da moto está sempre presente. Não chega a intimidar, mas obriga a respeitá-la. Também os consumos registados durante esta primeira apresentação deixaram algumas reservas, ultrapassando os oito litros por cada cem quilómetros. É verdade que as unidades de ensaio tinham ainda muito poucos quilómetros e que só um teste completo permitirá confirmar esses valores, mas a questão fica naturalmente em aberto. Não chega para colocar em causa o enorme potencial da X-CAPE 1200, mas é um aspeto que qualquer futuro comprador deverá acompanhar com atenção. 

No fundo, aquilo que este confronto começa a revelar é uma realidade muito simples: estas motos não estão a disputar o mesmo conceito de aventura. Estão, isso sim, a disputar dois tipos completamente diferentes de motociclistas. É precisamente aí que este Confronto ganha verdadeiro sentido.

QUAL DELAS É PARA TI? 
É precisamente aqui que este Confronto deixa de falar de motos e começa a falar de pessoas. Ao longo dos anos habituámo-nos a discutir potência, binário, suspensões, peso, eletrónica ou consumos, como se a escolha de uma moto pudesse ser reduzida a uma folha de especificações. 


Pode parecer estranho dizê-lo num espaço dedicado ao motociclismo, todavia continuo convencido de que a ficha técnica raramente escolhe a moto certa. Quem escolhe é o motociclista. A sua experiência, a forma como conduz, aquilo que procura quando veste o equipamento e, sobretudo, a honestidade com que consegue responder a uma pergunta muito simples: que utilização vou realmente dar à moto? É precisamente por isso que duas motos aparentemente próximas podem fazer sentido para pessoas completamente diferentes. 


A CFMOTO 1000MT-X é a escolha natural para o motociclista que olha para um mapa e vê possibilidades. Para quem sonha com viagens de vários dias, férias sobre duas rodas, travessias internacionais e jornadas onde o conforto deixa de ser um luxo para passar a ser uma necessidade. É uma moto para quem gosta de acumular quilómetros sem acumular cansaço, para quem transporta passageiro com frequência, uma ciclística previsível e uma máquina que transmite serenidade mesmo quando o destino ainda está a centenas de quilómetros de distância. 

É também uma excelente opção para quem utiliza a moto de forma muito regular e procura uma companheira versátil, capaz de enfrentar a cidade durante a semana e desaparecer rumo a outro país ao fim de semana seguinte. Não exige que o motociclista esteja constantemente concentrado na máquina; pelo contrário, trabalha para que toda a atenção seja dedicada à viagem. Existe nela uma maturidade difícil de explicar, mas muito fácil de sentir. 

A Moto Morini X-CAPE 1200 dirige-se a um perfil diferente. É a moto de quem continua a acreditar que conduzir é muito mais do que deslocar-se. De quem ainda valoriza um motor cheio de carácter, uma resposta imediata ao acelerador, uma sonoridade capaz de provocar um sorriso debaixo do capacete e uma personalidade mecânica que nunca desaparece da experiência de condução. 

É uma moto para quem aprecia estradas nacionais bem desenhadas, serras repletas de curvas e viagens onde o prazer de conduzir vale tanto como o destino. Não é a escolha mais racional, nem pretende sê-lo. Também não procura agradar a todos. Procura seduzir um tipo muito específico de motociclista: aquele que continua a procurar emoção sempre que liga a ignição. 

Apesar da estética Adventure, convém não interpretar mal a sua missão. A X-CAPE 1200 não foi concebida para andar permanentemente à procura de trilhos difíceis. Aceita perfeitamente um eventual caminho de terra, uma estrada degradada ou um desvio ocasional, mas o seu verdadeiro palco continua a ser o asfalto. É aí que o seu motor, a sua ciclística e toda a sua personalidade encontram espaço para respirar. No fundo, este Confronto demonstra que a escolha entre estas duas motos não depende da cilindrada, nem da potência, nem sequer do equipamento. Depende da forma como cada um vive o motociclismo. 


Se a viagem é o centro da experiência, se a prioridade passa por chegar mais longe, mais confortável e com a sensação de que a moto trabalhou sempre a nosso favor, a CFMOTO 1000MT-X apresenta argumentos extremamente difíceis de contrariar. Se, pelo contrário, aquilo que verdadeiramente nos faz sair da garagem é o prazer de conduzir, a ligação emocional ao motor e a sensação de que cada curva faz parte da viagem tanto quanto o destino, então a Moto Morini X-CAPE 1200 tem uma capacidade de sedução muito rara no panorama atual. 

SE FOSSE EU A ESCOLHER 
Chega finalmente a pergunta que motivou este texto. Se tivesse de abrir a carteira e escolher apenas uma destas duas motos para viver comigo durante os próximos anos, qual levaria para casa? 

A resposta é clara. Escolheria a CFMOTO 1000MT-X. Não porque seja a mais potente. Não porque seja a mais barata. Não porque seja tecnicamente perfeita. E muito menos porque a Moto Morini tenha desiludido. Muito pelo contrário. A X-CAPE 1200 foi uma das motos que mais prazer me deu conhecer este ano e trouxe para o mercado uma personalidade que faz falta num tempo em que demasiadas motos parecem ter sido afinadas para agradar a folhas de Excel. Todavia quando afasto a emoção do primeiro contacto e penso na utilização real que dou às minhas motos, a resposta torna-se inevitável. 

Utilizo a moto na cidade. Viajo com frequência. Gosto de turismo. Gosto de percorrer estradas nacionais sem destino definido. Gosto de desaparecer durante dias. E, quando abandono o asfalto, faço-o para explorar, não para competir. Não procuro trilhos extremos nem desafios físicos. Procuro liberdade. É precisamente aí que a CFMOTO 1000MT-X responde de forma mais completa ao meu perfil.

É uma moto que me pede muito pouco e me entrega muito. Não tenta ser o centro das atenções. Trabalha para que eu desfrute da viagem, para que chegue menos cansado ao destino e para que cada quilómetro seja vivido com naturalidade. Essa competência discreta acabou por conquistar-me mais do que qualquer explosão de carácter. 

NOTA FINAL
Este Confronto termina da mesma forma que começou: sem proclamar uma verdade absoluta. A CFMOTO 1000MT-X e a Moto Morini X-CAPE 1200 não representam apenas duas motos. Representam duas formas muito distintas de entender a aventura. Uma acredita que viajar é acumular horizontes, quilómetros e memórias, oferecendo ao motociclista conforto, equilíbrio e uma confiança quase inesgotável. A outra acredita que viajar também é sentir, ouvir, acelerar e criar uma ligação emocional com a máquina que conduzimos. Nenhuma anula a outra. Nenhuma torna a outra irrelevante. Pelo contrário. São precisamente as suas diferenças que enriquecem um segmento cada vez mais interessante. 


No fim, a CFMOTO 1000MT-X conquista o meu voto porque responde melhor àquilo que hoje procuro numa moto. Não é a mais apaixonada, nem a mais exuberante. É simplesmente aquela que melhor se adapta à forma como vivo o motociclismo. 

E talvez seja essa a maior conclusão deste Confronto. A melhor moto nunca é a que vence uma discussão na Internet. É aquela que, muitos anos depois da compra, continua a fazer-nos ter vontade de abrir a porta da garagem, colocar o capacete e partir sem saber exatamente quando regressamos.
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