quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Voltar à estrada não é só rodar a chave

O inverno vai longo. Anómalo. Janeiro registou das menores médias de horas de sol na Península Ibérica desde meados da década de 90. Semanas de chuva contínua, por todo o país. Motos imobilizadas. Estradas destruídas. Rotinas interrompidas. Corpo e moto em pausa. 


Enfim o céu abre. O primeiro fim-de-semana de sol está a dias de distância. O Carnaval vem logo a seguir. Esta combinação repete-se com frequência - e todos os anos produz o mesmo resultado. Meses de contenção seguidos de libertação súbita. Entusiasmo sem transição. Confiança acima do nível real de preparação. É aqui que começam os erros. 

Os primeiros dias de sol após períodos prolongados de paragem concentram, historicamente, um aumento de sinistralidade entre motociclistas. Não é coincidência. É previsível. A técnica perde-se quando não é usada. A sensibilidade cega. A leitura da estrada deixa de ser instintiva. E depois há o Carnaval. Convívio. Excesso. Álcool. Em cima de uma moto não pode existir “é só um copo”. Existe lucidez ou não existe. Ponto final. 

ESTAMOS A FALAR DOS PRÓXIMOS DIAS
O Regresso deve ser um processo. Voltar à estrada não começa quando se roda o punho. Começa antes. Pressão dos pneus: se a moto esteve parada um mês ou mais, assume que a pressão não está correta. Verifica antes de rolar. A diferença entre estabilidade e susto pode estar em meio bar. Estado dos pneus: procura fissuras, zonas achatadas, envelhecimento da borracha. Travões: sente o toque da manete e do pedal antes de ganhar velocidade. Discos com oxidação superficial limpam-se, mas convém confirmar resposta. Corrente (se aplicável): tensão e lubrificação. Bateria: arranque lento é sinal de aviso. Luzes: visibilidade é sobrevivência. Ignorar tudo isto não é romantismo. É negligência. 

O regresso responsável passa também pelo equipamento. Capacete dentro do prazo. Viseira limpa. Protecções intactas. Luvas e botas adequadas. Não se sai para a estrada em modo “logo se vê”. Isso é mentalidade de amador. 

ESTE É O PONTO QUE SEPARA MATURIDADE DE EGO. 
O teu ritmo habitual não é o teu ritmo de hoje. Não ainda. Os primeiros quilómetros devem ser deliberadamente contidos. Travagens progressivas. Curvas lidas com margem. Aceleração com intenção, não com impulso. Reaprende a moto. Recalibra o corpo. A confiança deve acompanhar a competência — nunca precedê-la. 

Há ainda a Ilusão do Sol. O sol cria uma falsa sensação de controlo. Mas o piso pode continuar frio. Pode haver gasóleo acumulado nas rotundas. Pode haver gravilha deslocada pelas chuvas. E haverá, inevitavelmente, condutores pouco habituados a partilhar a via com motos nesta altura do ano. A estrada não sabe que estiveste parado. Não ajusta o risco à tua euforia. 

REGRA SIMPLES PARA ESTES PRÓXIMOS DIAS 
Percurso curto. Grupo reduzido. Ritmo abaixo do habitual. Zero álcool. Regresso antes da fadiga. Não é limitação. É estratégia. Motociclismo é liberdade, sim. E liberdade sem disciplina é apenas imprudência com estética


O primeiro sol do ano não é uma celebração. É um teste. A estrada vai continuar lá. O Carnaval vai passar. O bom tempo vai estabilizar. A pergunta relevante é outra: vais estar cá para aproveitar os próximos? Sai. Mas sai com intenção. E volta inteiro.

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