Há ideias que envelhecem sem que ninguém dê por isso. Não porque deixem de ser repetidas. Pelo contrário. Envelhecem precisamente porque continuam a ser repetidas durante tanto tempo que deixam de ser questionadas.
A análise de motos baseada na ficha técnica é uma dessas ideias. Em algum momento, algures entre os anos oitenta e noventa, convencionou-se que conhecer uma moto era conhecer os seus números. Potência. Binário. Peso. Distância entre eixos. Curso das suspensões. Altura do banco. Ângulo da coluna de direcção. Consumos. A lista tornou-se infinita e, pior do que isso, tornou-se suficiente.
Criou-se uma ilusão colectiva: a de que uma moto podia ser compreendida antes mesmo de ser conduzida. Foi assim que nasceu aquilo a que chamo a ditadura da ficha técnica. Não de um documento. Mas de uma forma de pensar.
Desde então, gerações inteiras de jornalistas, comentadores, influenciadores e consumidores foram educadas a acreditar que analisar uma moto consiste, essencialmente, em reorganizar uma folha de especificações em forma de texto. Mudam-se os adjectivos, acrescentam-se duas fotografias, uma ou outra impressão superficial e publica-se mais um “ensaio” que, afinal, nunca saiu do papel onde o fabricante imprimiu os números.
É um labirinto. Entramos pelos cavalos. Viramos no peso. Seguimos pelo binário. Comparamos milímetros. Discutimos décimas. E quando finalmente encontramos a saída percebemos que continuamos exactamente no mesmo lugar. Sabemos apenas aquilo que o engenheiro escreveu antes de a moto tocar no asfalto. Nada mais.
A ficha técnica nunca nos diz como uma moto entra numa curva. Não nos diz se transmite confiança ou insegurança. Não nos explica porque há motos com mais de duzentos quilos que parecem bicicletas e outras com menos cento e oitenta que parecem blocos de granito. Não consegue medir a forma como um acelerador responde à mão direita. Nem a delicadeza de uma embraiagem. Nem a naturalidade de uma posição de condução. Nem aquele instante em que, sem percebermos porquê, deixamos de pensar na moto e começamos simplesmente a conduzi-la.
E é precisamente nesse instante que começa o motociclismo. Não antes. Uma moto não é uma equação. É uma experiência. É frio às sete da manhã. É calor preso dentro do equipamento em pleno Agosto. É o cheiro da terra molhada. É o sal do suor. É o amargo dos insectos que insistem em lembrar-nos que estamos vivos.
É o silêncio de uma estrada sem trânsito. É a fadiga ao fim de seiscentos quilómetros. É aquele sorriso involuntário quando desligamos a ignição e, antes de entrar em casa, olhamos uma última vez para a moto.
Nenhuma destas coisas aparece numa ficha técnica. Nem nunca aparecerá. Porque não são mensuráveis. E talvez seja precisamente isso que incomoda tanta gente. Vivemos numa época obcecada por medir tudo. Medimos produtividade. Medimos alcance. Medimos seguidores. Medimos consumo. Medimos potência. Medimos tempos.
Confundimos medir com compreender. Mas medir nunca foi compreender. Os números oferecem conforto porque parecem objectivos. Só que objectividade não é sinónimo de verdade.
Uma moto pode ter mais potência e ser menos divertida. Pode pesar mais e inspirar mais confiança. Pode ter suspensões menos sofisticadas e comunicar melhor com quem a conduz. Pode ter menos electrónica e proporcionar uma ligação mais intensa entre homem e máquina.
A experiência humana recusa-se, felizmente, a caber numa tabela. É por isso que tantas comparações falham redondamente. Porque comparam números quando deviam comparar sensações. Porque procuram respostas em folhas de cálculo quando elas vivem na estrada.
A ficha técnica não é inútil. Nunca foi. É uma referência. Um ponto de partida. Um enquadramento. Serve para informar. Nunca servirá para sentir.
O problema começa quando lhe entregamos um papel que ela nunca pediu para desempenhar. Quando transformamos um índice em conclusão. Quando fazemos da nota de rodapé o texto principal. E é aqui que a comunicação que se diz de si mesma especializada precisa, urgentemente, de olhar para si própria.
Durante demasiado tempo confundiu-se rigor com acumulação de especificações. Confundiu-se conhecimento com memória. Confundiu-se análise com descrição. O resultado está à vista.
Artigos diferentes que dizem exactamente o mesmo. Vídeos diferentes que repetem exactamente os mesmos argumentos. Comparativos que poderiam ser escritos sem nunca sair da secretária. Como se conduzir fosse um detalhe. Não é. É tudo. O motociclismo não nasceu numa folha de Excel. Nasceu na estrada. Nasceu da curiosidade. Da aventura.
Da vontade de descobrir o que existe depois da curva seguinte. Nasceu da emoção. E é essa emoção que deve continuar a ser o centro da forma como falamos de motos.
Não defendemos o desaparecimento da ficha técnica. Defendemos algo muito mais simples. Que ela volte ao lugar que sempre lhe pertenceu. Ao fundo da página. Como contexto. Nunca como protagonista.
Porque uma moto nunca será definida pelos cavalos que declara. Será sempre definida pelas histórias que ajuda a escrever. E talvez tenha chegado o momento de a comunicação motociclística deixar finalmente de contar números. Para voltar a contar viagens. É aí que vivem as motos. E é aí que vive, verdadeiramente, o motociclismo.

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