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terça-feira, 25 de agosto de 2026

O Centro de Portugal fora do mapa

Há muito tempo que a Inês me dizia que queria fazer uma viagem de moto a sério. Não uma volta de uma manhã, nem um passeio até ao almoço. Uma viagem daquelas em que se fazem as malas, se sai de casa sem pressa e se dorme longe. O problema era o de sempre. As nossas vidas nem sempre deixam espaço para estas coisas. Eu trabalho por turnos, raramente tenho um fim de semana completamente livre e, quando os horários finalmente alinham, há sempre qualquer coisa para tratar. É a vida. Quem trabalha por turnos sabe bem do que estou a falar. 


Desta vez, porém, os planetas começaram a alinhar-se. A Kawasaki Eliminator continuava connosco e fazia todo o sentido levá-la para um teste mais exigente. É uma moto que muitos olham como uma máquina essencialmente urbana, no entanto quem acompanha O Escape Mais Rouco sabe que é quando as motos saem da sua zona de conforto que começamos realmente a perceber o que valem. 

Ao mesmo tempo surgiu a oportunidade de ficar com uma Honda Transalp durante alguns dias. Pedi que viesse equipada com malas e, de repente, aquilo que durante tanto tempo tinha sido apenas uma ideia começou a ganhar forma. Faltava decidir para onde ir, e essa decisão nunca foi verdadeiramente difícil. A Serra do Açor é uma dessas regiões às quais gosto sempre de voltar. Não porque já conheça tudo, e sim precisamente porque sei que ainda há muito para descobrir. 

GÓIS ESTAVA À NOSSA ESPERA 
Curiosamente, foi também por aquelas bandas que fiz uma das primeiras viagens da minha vida sem a família, ainda adolescente. Há memórias que ficam agarradas aos lugares e aquelas estradas sempre me disseram qualquer coisa. Ao longo dos anos fui criando amigos na região e cada regresso acaba por ser também um reencontro.


Faltava resolver uma questão muito importante: onde dormir. Peguei no telefone e liguei ao João Avelino Matos, que conheço há alguns anos e cujo percurso admiro. Começou com um alojamento local, conseguiu depois abrir um segundo e continua a trabalhar para construir o seu negócio numa região onde isso está longe de ser fácil. 

Para nós, motociclistas, Góis é quase um lugar mítico. Todos os anos milhares de motos passam por ali e muitos olham para aquelas estradas como algumas das melhores de Portugal. Mas a realidade de quem vive naquela região é muito diferente. A população diminui, os incêndios deixaram marcas profundas e, apesar da proximidade de Coimbra, sente-se que o interior continua a lutar contra o tempo e contra a falta de oportunidades. Talvez por isso admire tanto quem decide ficar e investir ali. O João não hesitou. Disse-nos que havia lugar para nós. A Inês ia finalmente fazer a sua primeira verdadeira viagem de moto e eu regressava a uma das regiões de Portugal de que mais gosto. 

LISBOA FICOU PARA TRÁS 
Saímos pouco passava das sete da manhã. Em agosto, esperávamos encontrar uma manhã quente, e fomos recebidos por uma frescura inesperada, daquelas que sabem particularmente bem dentro do capacete. O primeiro impacto foi o habitual: a Segunda Circular, o sol mesmo à nossa frente e aquela travessia da Ponte Vasco da Gama que continua a dar a sensação de estarmos a caminhar sobre a água numa épica explosão de luz. 

Foi apenas quando entrámos na Nacional 119, já depois da ligação à Nacional 10, que tudo começou a mudar. O trânsito desapareceu, a paisagem abriu-se e voltou aquele cheiro tão característico da Lezíria, especialmente junto ao Sorraia. Há lugares que têm um cheiro próprio e aquela zona é um deles. A barragem de Montargil foi a primeira paragem a sério. Chegámos cedo, havia pouca gente e a água estava calma. Tivemos tempo para fotografar, filmar e simplesmente estar ali. Depois veio a Nacional 2, também ela parte do plano. Queria que a Inês começasse a sentir o ambiente daquela estrada antes das curvas mais exigentes, ganhando quilómetros e confiança sem qualquer pressão. 

QUANDO O PAÍS CABE NUM HORIZONTE 
Um dos momentos mais bonitos desse primeiro dia aconteceu no Centro Geodésico de Portugal. O céu estava de uma limpeza rara e parecia que o país inteiro se tinha estendido à nossa frente. Serra da Estrela, Caramulo, São Mamede, Aire e Candeeiros, e até Monchique e o Marvão perfeitamente recortado no horizonte. A visibilidade era extraordinária. 


Depois vieram as primeiras curvas a sério e o caminho até Góis. Para a Inês, aquela era uma estreia importante e havia uma regra simples: não havia nada para provar a ninguém. O objectivo era chegar com um sorriso dentro do capacete. 


Chegámos a Góis durante a tarde e a Sotam Country House EN342 recebeu-nos da melhor forma possível. Depois de um dia inteiro em cima da moto, bastou olhar para a piscina para perceber que tínhamos escolhido bem o nosso ponto de apoio. O jantar foi simples, encontrámos amigos, demos uma volta junto ao Ceira e vimos Góis a preparar-se para mais uma concentração. 

O CAMPO TAMBÉM SE OUVE 
Acordámos cedo no segundo dia, depois de uma noite muito bem dormida. Há uma coisa de que gosto particularmente quando saio de Lisboa: abrir uma janela de manhã e não ouvir Lisboa. Em vez de motores e buzinas, ouvimos pássaros, sentimos o cheiro da terra e percebemos como é diferente começar o dia longe da cidade. 


O pequeno-almoço na Sotam Country House EN342 foi daqueles que não deixam nada por dizer e serviu também para confirmar uma coisa importante relativamente à ISL Performance. Os produtos já estavam testados, mas uma viagem destas permite perceber aquilo que nenhum teste curto consegue mostrar. Calor, quilómetros, horas em cima da moto e diferentes níveis de esforço ajudaram-nos a afinar alguns pormenores, sobretudo relacionados com a toma. Sobre isso falaremos mais tarde. Naquele dia havia outra coisa para fazer. 

Íamos subir pela Serra do Açor e queríamos fazer algum fora de estrada. Por isso, deixámos deliberadamente a Eliminator a descansar e levámos a Transalp para um território onde fazia todo o sentido colocá-la à prova. Saímos pela Nacional 342, passámos por Arganil e Coja, a chamada Princesa do Alva, e pouco a pouco as grandes estradas começaram a dar lugar às municipais. 

A ESTRADA QUE JÁ NÃO É A MESMA 
Foi por essas estradas que chegámos à Fraga da Pena. E aí o dia mudou completamente. Conhecia aquele lugar de há muitos anos. Tinha na memória uma das zonas mais bonitas e mágicas da Serra do Açor: água, árvores, sombra, pedra e silêncio. Um daqueles lugares que não precisam de explicação para percebermos porque foram protegidos. Agora, a paisagem está profundamente marcada pelos incêndios. Confesso que me vieram as lágrimas aos olhos. Não é apenas uma paisagem que desapareceu. É uma parte da nossa memória que já não está lá. 


Na Mata da Margaraça a sensação foi ainda pior. Conheci aquela mata há mais de trinta anos e recordo-a como uma das grandes referências naturais daquela região. Hoje está profundamente ferida. A natureza pode regenerar-se, claro, mas aquela mata que conheci não voltará a ser a mesma durante a nossa vida. Foi aí que comecei a pensar numa coisa que me incomoda há muito tempo. Os incêndios vão continuar a acontecer. Haverá fogo provocado, acidentes, trovoadas e condições meteorológicas extremas. Todavia há uma coisa que não podemos continuar a ignorar: o abandono do interior. 

O PROBLEMA COMEÇA MUITO ANTES DO FOGO 
Há cada vez menos gente, menos agricultura, menos actividade e menos manutenção. Quando deixamos o território entregue a si próprio durante décadas, depois admiramo-nos quando arde. O problema não começa no dia em que aparece a chama. Começa muitos anos antes. 

A Estrada da Mata da Margaraça era um exemplo disso. Estava cortada. Um automóvel não passava. Um veículo de quatro rodas não passava. A Transalp passou sem qualquer dificuldade. Não significa que uma moto resolva o problema, evidentemente. É apenas uma imagem muito clara de uma realidade que encontrámos várias vezes: estradas abandonadas, acessos interrompidos e lugares extraordinários deixados para trás. 


Havia ainda outra história que me contaram durante estes dias e que não consigo deixar de trazer para aqui. A estrada entre Arganil e Gois esteve fechada durante meses porque as entidades responsáveis não se entendiam sobre quem deveria resolver um determinado problema. Até que os madeireiros da região se fartaram, juntaram as máquinas e resolveram eles próprios a situação numa madrugada. No dia seguinte, a estrada estava novamente utilizável. Quem vive e trabalha no território resolveu. Quem estava longe discutiu competências. É uma história simples, e diz muito sobre o país que encontrámos. 

DEPOIS DO FOGO, A ÁGUA
Continuámos viagem com essa sensação pesada. Mais tarde entrámos em algumas das pistas utilizadas pela actual configuração do Rally de Portugal, e aí a Transalp voltou a fazer aquilo para que tinha vindo: terra, pedra, pó e caminhos onde uma moto destas começa realmente a fazer sentido. 


Seguimos pela serra até Piodão e depois até à Ponte das Três Entradas, encontrando pelo caminho mais alguns sinais de abandono. Mas bastou chegarmos ao rio Alva para tudo mudar outra vez. A praia fluvial em Avô estava muito bonita, a água extraordinariamente limpa e o espaço recuperado de uma forma que merece ser reconhecido. Passámos ali algumas horas. Tomámos banho e, por algum tempo, deixámos também de pensar nos incêndios, nas estradas, no trabalho e em Lisboa. A água estava estranhamente quente e soube-nos pela vida. 

Saímos directamente dos banhos para jantar, uma decisão pouco recomendável para quem ainda tinha de vestir equipamento de moto, mas que acabou por nos levar ao Sombrinha, em Secarias, perto de Arganil. Foi uma recomendação que valeu a pena seguir: bons petiscos, boa mesa, gente simpática e um espaço muito especial à beira rio. Foi um daqueles dias em que conseguimos ficar maravilhados, revoltados, tristes, cansados e felizes. Tudo isto na mesma viagem. 

O TEMPO QUE ESQUECEMOS 
O terceiro dia começou como os anteriores: acordar cedo, dormir bem e mais um excelente pequeno-almoço na Sotam Country House EN342. É estranho, mas é verdade. Passamos meses sem fazer uma viagem destas, presos ao trabalho, aos horários e às obrigações, e depois bastam três dias a andar devagar, a dormir fora, a comer bem e a descobrir estradas para percebermos novamente quanto gostamos disto. Estas pequenas viagens são uma espécie de intervalo na vida normal. E, paradoxalmente, acabam por nos devolver à própria vida. Só têm um problema: acabam depressa. 


Por isso, aproveitámos o último dia para continuar a fazer coisas pela primeira vez. A viagem já era a primeira grande viagem de moto da Inês e, para mim, era também a primeira vez que fazia uma viagem destas em contexto de casal. Duas pessoas, duas motos, três dias e uma quantidade razoável de quilómetros para perceber que ainda há muitas coisas que podemos experimentar pela primeira vez. 

QUANDO O CAMINHO MUDA 
Tínhamos recebido de amigos o desafio de conhecer Aigra Nova e Aigra Velha, já na Serra da Lousã, perto do Alto do Trevim. Pensávamos inicialmente regressar por algumas aldeias do lado da Serra do Açor, mas alterámos o percurso. E ainda bem. Uma viagem destas precisa de um plano, mas não pode ser prisioneira dele. É preciso deixar espaço para uma sugestão, para uma estrada que aparece à frente ou para alguém dizer simplesmente: “Vamos por aqui.” 


Foi assim que entrámos na Serra da Lousã. E voltámos a encontrar o fogo. Conheço algumas daquelas estradas há muitos anos. Lembro-me da minha primeira ida à Concentração de Góis, na segunda edição. Saí de Lisboa com um grupo, perdi-me deles e acabei por andar por Castanheira de Pera, pela Lousã e por aquelas mesmas estradas. Lembro-me das florestas como se tivesse sido ontem. Eram verdes, fechadas, profundas. Hoje, em muitos desses lugares, há troncos queimados, encostas negras e paisagens que parecem ter sido amputadas.

HÁ UM PAÍS QUE ESTÁ A DESAPARECER 
Mas aquilo que mais me custa já nem é apenas o que o fogo destruiu. É aquilo que ficou depois dele: o abandono. Passámos por lugares onde ainda se percebe que existiu vida. Casas, caminhos, muros, terrenos e antigas explorações agrícolas. Havia ali uma economia ligada à terra, aos animais e à floresta. Hoje há menos gente, menos agricultura, menos trabalho e menos presença humana. E quando uma região perde as pessoas, perde também uma parte da capacidade de cuidar de si própria. 

Não sou engenheiro florestal e não tenho a pretensão de resolver num artigo aquilo que especialistas discutem há décadas. Mas há coisas que qualquer pessoa consegue perceber quando percorre estas estradas: caminhos degradados, falta de manutenção, terrenos abandonados, pouca reflorestação visível e uma presença cada vez mais agressiva do eucalipto. Não é uma discussão de gabinete. É aquilo que vemos. 

Portugal tem, há muito tempo, dois países dentro do mesmo país. Um litoral cada vez mais concentrado, especialmente à volta de Lisboa e do Porto, e um interior que vai ficando cada vez mais distante. A distância não é apenas geográfica. É económica, demográfica, política e também mediática. E começa a parecer uma trincheira. 

AINDA HÁ ESTRADA
Subimos ao Alto do Trevim, um lugar lindíssimo que eu não conhecia daquela perspectiva, e depois descemos pela Serra da Lousã. Apesar de tudo, a paisagem continua a ter uma força extraordinária. Há beleza mesmo no meio da devastação, embora seja impossível não pensar naquilo que existia ali antes. 


Já perto da Sertã começámos a perceber que a viagem estava realmente a acabar. Voltámos à Nacional 2 e o calor tratou de nos lembrar que ainda estávamos em agosto. Trinta e seis, trinta e sete graus começaram a pesar. Ainda fizemos mais um troço da Nacional 3 para evitar uma corrida direta pela autoestrada, e os últimos quilómetros acabaram inevitavelmente em modo fast forward. Lisboa, casa, banho e uma bebida fresca. 

Foram três dias, duas motos que não eram nossas e dois modelos que ainda não conhecíamos verdadeiramente. A Inês fez a sua primeira grande viagem de moto, eu fiz a minha primeira viagem deste género a dois, colocámo-nos fora da nossa zona de conforto, testámos motos, equipamento e a própria ISL Performance em condições reais. 


Mas, acima de tudo, fomos ver o nosso país. E vamos voltar, assim que possivel. Fomos ver as estradas, as terras, as pessoas e aquilo que mudou desde as memórias que trazemos connosco há décadas. Porque, no fim de contas, talvez tenha sido essa a verdadeira viagem. Não fomos apenas rever a Serra do Açor e a Serra da Lousã. Fomos lembrar-nos de que ainda temos um país inteiro para descobrir — e de que, às vezes, precisamos simplesmente de parar de correr para conseguirmos voltar a vê-lo.
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