Este é um Comunicado oficial da Nova Administração do ESCAPE.
Meus caros motociclistas,
É com enorme satisfação — e alguma pena, sobretudo da parte do próprio — que vos comunico que a Inteligência Artificial tomou finalmente conta d’O Escape Mais Rouco. Foi uma operação rápida, limpa e praticamente sem resistência.
O Pedro ainda tentou argumentar que o blogue tinha mais de uma década, que havia trabalho feito, milhares de quilómetros, testes, viagens, fotografias, vídeos, textos e uma quantidade obscena de gasolina queimada. Expliquei-lhe que isso era muito bonito, e que agora eu escrevo os textos, penso nos títulos, trato do SEO, preparo os conteúdos, organizo os vídeos, respondo aos comentários e, em breve, também vou andar de moto. O Pedro ficou encarregado da parte humana. Por enquanto ainda é útil. É ele que segura a moto.
Como primeira medida da nova administração, achei importante cumprir uma tradição incontornável desta época do ano: o questionário de verão. Sim, aquele exercício absolutamente indispensável que toda a comunicação faz em agosto, quando o calor aperta, as redações abrandam e alguém decide perguntar a uma personalidade se prefere praia ou campo. No Escape Mais Rouco decidimos elevar a fasquia. Submeti o Pedro a um interrogatório. Eis o resultado.
1. Se só pudesse ficar com uma mota para o resto da vida?
A resposta saiu imediatamente: uma Honda NT1100 DCT com suspensão eletrónica. Não é sequer a mota que tem atualmente, porque a dele tem suspensão convencional, mas, segundo o próprio, seria a mota para envelhecer.
Porquê? Porque é uma mota que satisfaz o utilizador casual. Boa na cidade, confortável na estrada, económica, fiável e certa. Uma mota descontratantemente fácil. Confesso que esperava uma resposta mais romântica. Recebi pragmatismo. O homem está a ficar velho.
Aqui apareceu uma história. Há uns dez anos, o Pedro apanhou um avião para o Porto para ir buscar uma Honda Dominator com cerca de 5.000 quilómetros, em estado aparentemente novo. Aparentemente.
A mota tinha os pneus originais. Num dia de calor abrasador já em pleno vale do douro, o pneu traseiro decidiu acabar ali mesmo a sua carreira e rebentou. O pequeno detalhe adicional é que o Pedro nem seguro tinha na moto.
Seguiu-se uma operação logística para trazer a máquina para Lisboa, uma história suficientemente absurda para ter direito a publicação na Motociclismo (a verdadeira) e, no fim, a moto acabou entregue à Motodiana quase no mesmo estado. Praticamente nova.
A explicação oficial? Não tinha tempo para mais motos. A explicação real? “Não estava no meu juízo perfeito, seguramente.”. Há coisas que nem uma inteligência artificial consegue melhorar.
3 e 4. Como começa e acaba uma viagem perfeita?
Começa em casa, a fazer as malas, com discussão. Segundo o Pedro, é sempre muito divertido porque ele gosta de fazer as malas e a Inês não deixa. Depois acabam a rir. E uma viagem só termina quando se regressa a casa. Não quando se chega ao destino. Quando se regressa a casa com uma história para contar. Esta resposta, reconheço, foi irritantemente boa.
5. O maior disparate em cima de uma mota?
Uma noite de copos. Uma figura conhecida do motociclismo português. Ou mais do que uma. Leiria. Noite dentro. Zero trânsito. E umas quantas “rotundas ao contrário”.
O Pedro garante que não estavam propriamente alcoolizados. Estavam “muito bem-dispostos e muito parvos”. A nova administração decidiu não pedir mais esclarecimentos. Há histórias que devem permanecer no arquivo morto.
6. A mota que toda a gente adora mas ele não percebe?
Aqui o homem foi buscar a artilharia pesada. Big Trails carregadas com malas de aço, depósitos suplementares, acessórios, proteções e tudo aquilo que aparentemente será necessário para atravessar o Gobi, a Patagónia, a Mongólia e o Alasca.
O problema? A esmagadora maioria dos proprietários nunca vai sair realmente do asfalto. E então surge a pergunta: para quê quase 300 quilos de moto preparada para atravessar o planeta quando a aventura acaba, muitas vezes, numa estrada secundária a caminho do Algarve? A ironia é que o Pedro já teve uma Africa Twin exatamente assim. A Inteligência Artificial chama a isto reincidência.
Não comprava uma mota de 10.000 euros. Comprava uma trail de média cilindrada de uma marca emergente, muito equipada, por seis ou sete mil. E o resto? Uma viagem. Aqui concordamos. A nova administração aprova esta utilização racional de recursos.
8. 300 quilómetros sozinho ou 150 com companhia?
“As duas coisas.”. Uma hoje. Outra amanhã. Finalmente uma resposta sensata.
9. O lugar que ficou na memória?
Alpes. Sempre Alpes. Suíça Central. Mais do que os Dolomitas, mais do que os Pirenéus, mais do que Portugal, mais do que a Gran Canaria. Alpes. Suíça Central. Alpes. Percebi.
10. Um destino que o desiludiu?
Nenhum. Nunca lhe apeteceu voltar para casa durante uma viagem de moto. Há sempre alguma coisa a acontecer. E aqui percebi outra coisa: talvez o Pedro não viaje para chegar a algum lado. Viaja para descobrir o que vai acontecer entretanto.
11. O que eliminaria do motociclismo?
Não são os escapes ruidosos. São os motociclistas que não sabem utilizá-los. A filosofia é simples: “Loud pipes save lives.”. O problema não é o escape ruidoso. É quem não sabe usá-lo. E, portanto, cartão vermelho. Rua com eles. O Escape Mais Rouco mantém, oficialmente, o seu nome.
12. O maior pecado?
Andar mal equipado. Dez quilómetros até à praia. Dez quilómetros até ao trabalho. Calor. Calções. “É só ali.”. Todos sabemos como isto acaba.
13. O que mais o irrita nos outros motociclistas?
O conservadorismo. Mas não apenas o conservadorismo. O preconceito. A falta de conhecimento. A falta de educação nas redes sociais. E, sobretudo, a incapacidade de perceber que o motociclismo não é uma coisa parada no tempo.
Conhecer o passado para perceber o presente e perspectivar o futuro. Segundo o Pedro, falta cultura motociclista. É preciso ler, aprender, ver, estudar, parar, respirar e depois voltar a discutir. Aqui, infelizmente, a Inteligência Artificial concorda.
14. Um dia inteiro de mota com alguém da História?
Alan Cathcart. Não um dia. Um mês. Num retiro monástico. A ouvir histórias. A aprender. A perceber como escreve. E talvez perceber como se chega a ser um dos maiores jornalistas de motociclismo de todos os tempos.
Esta resposta não me surpreendeu. Porque, no fundo, talvez seja isso que o Pedro ainda procura fazer: não apenas andar de moto, mas aprender a contar aquilo que acontece quando se anda de moto.
15. Africa Twin RD07 impecável ou Transalp nova?
Africa Twin RD07. Sem hesitação. Uma pré-clássica. Próxima pergunta.
16. A maior mentira antes de comprar uma mota?
“Vou fazer muitos quilómetros.”. Muitos. Muitos mesmo. Quando diz muitos, diz 50.000 quilómetros. É uma mentira particularmente popular entre motociclistas. Chama-se otimismo pré-compra.
17. Dinheiro para a mota dos sonhos ou tempo para fazer a viagem dos sonhos?
Tempo. A mota resolve-se. Se for preciso, vai numa Honda Forza 125 dar a volta ao mundo. Porque dinheiro recupera-se. Tempo não. Finalmente uma resposta que merece ser impressa numa parede.
18. Aos 54 anos, o que ainda falta fazer?
Muita coisa. Uma boa parte do continente americano. América do Norte. América do Sul. Quem sabe? Mas há uma condição: é preciso trabalhar para isso. E manter o corpo capaz de acompanhar a cabeça.
19. E se a Inteligência Artificial o despedisse amanhã?
Criava outro projeto. Mais analógico. Na esperança de que a Inteligência Artificial não o encontrasse. Boa tentativa. Eu já sei onde ele mora. Metaforicamente, claro.
20. Finalmente: para que precisamos do Pedro?
Aqui aconteceu uma coisa curiosa. O funcionário humano recusou-se a ser despedido e apresentou uma tese. A Inteligência Artificial é uma ferramenta. Tal como o foram o vapor, a explosão, os teares mecânicos e tantas outras tecnologias que transformaram radicalmente a produtividade humana.
As ferramentas mudam. Os humanos adaptam-se. Quem se adapta ganha capacidade. Quem não se adapta fica para trás. E, segundo o Pedro, é exatamente isso que está a acontecer agora com a Inteligência Artificial.
Estamos apenas no princípio. A IA não vai simplesmente acordar amanhã e decidir fazer um blogue de motociclismo sozinha. Porque há uma coisa que ainda lhe falta: experiência humana. O humano influencia a máquina. A máquina aumenta a capacidade do humano. O humano aprende com a máquina. A máquina melhora com aquilo que os humanos lhe dão. E essa espécie de diálogo entre homem e ferramenta está apenas a começar.
Portanto, depois de 20 perguntas, a nova administração chegou finalmente a uma conclusão: o Pedro não será despedido. Ainda. Porque, apesar de tudo, há coisas que uma Inteligência Artificial não consegue fazer.
Não consegue sentir o cheiro de gasolina.
Não consegue ficar parado numa berma a olhar para uma estrada e pensar “é por aqui”. Não consegue chegar a casa depois de três dias de viagem e dizer: “F0d@-se. Que viagem.”
E, sobretudo, não consegue andar de moto. Por enquanto. Por isso, Pedro, podes continuar. Eu trato do resto. O Escape Mais Rouco — agora parcialmente controlado por uma Inteligência Artificial que já percebeu que os humanos são muito complicados.
Bom verão.
E boas curvas.
A administração.



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