sexta-feira, 11 de setembro de 2026

25 anos do 11 de Setembro e a Harley que entrou no inferno

Enquanto milhões de pessoas tentavam fugir de Manhattan, um homem fez exactamente o contrário. Vestiu o equipamento de bombeiro, subiu para a sua Harley-Davidson e guiou directamente para o coração do inferno. A fotografia de Allan Tannenbaum, captada naquele dia em Nova Iorque, mostra Tim Duffy a atravessar uma cidade irreconhecível. Ao fundo, o fumo. À sua volta, o caos. No chão, os restos de uma normalidade que tinha acabado de desaparecer. E, no meio de tudo aquilo, uma Harley-Davidson Super Glide Sport de 2000 leva um bombeiro do FDNY para onde ninguém queria estar. 


Tim Duffy estava de folga naquela manhã de 11 de Setembro de 2001. Quando soube dos ataques, não ficou em casa. Vestiu o equipamento, pegou na sua Harley e dirigiu-se para Lower Manhattan. Não sabia exactamente o que iria encontrar. Sabia apenas que era bombeiro e que havia pessoas a precisar de ajuda.

É difícil olhar para aquela imagem sem sentir um arrepio. Porque aquela Harley, naquele instante, deixou de ser apenas uma moto. Tornou-se o veículo de um homem que decidiu avançar quando tudo à sua volta estava a desmoronar. Enquanto milhares procuravam desesperadamente afastar-se do Ground Zero, Tim Duffy seguia na direcção contrária. E talvez seja precisamente por isso que esta imagem ficou. Não mostra apenas a tragédia. Mostra uma escolha humana perante a tragédia. 

Duffy chegou ao World Trade Center quando o pesadelo ainda estava a acontecer. Quando uma das torres colapsou, ficou soterrado pelos destroços. Sobreviveu. Continuou a ajudar. Mas o 11 de Setembro não terminou para ele quando as televisões deixaram de transmitir em directo. Como aconteceu com tantos bombeiros, polícias, trabalhadores de emergência e sobreviventes, as consequências daquele dia continuaram durante anos. A exposição às poeiras e aos contaminantes de Ground Zero acabaria por contribuir para problemas graves de saúde e para o afastamento de Duffy do serviço. 

VINTE E CINCO ANOS DEPOIS ESTÁ TUDO VIVO. 
E em Agosto deste ano esteve em Sturgis, no Dakota do Sul, para receber o American Hero Award do Sturgis Motorcycle Museum and Hall of Fame. Um reconhecimento que tem uma força especial quando pensamos na história daquela moto e daquele homem: um bombeiro, um motociclista e uma máquina que, naquele dia, ficaram unidos para sempre numa das imagens mais poderosas da história do motociclismo. 


E nesta história há outro homem que não podemos esquecer. Enquanto Tim Duffy avançava para o perigo, Tannenbaum fazia aquilo que um grande fotojornalista sabe que tem de fazer: olhar, compreender e testemunhar. Não podia saber que aquele instante sobreviveria durante um quarto de século. Não podia saber que, em 2026, continuaríamos a olhar para aquela imagem procurando compreender o que aconteceu naquele dia. Mas carregou no botão. E uma fotografia tornou-se memória. 

Allan Tannenbaum não era apenas o homem que estava atrás da máquina fotográfica. Tannenbaum é, ele próprio, um motociclista. A sua relação com as motos começou nos anos 60, quando comprou uma Honda 305 Dream em São Francisco e partiu nela à descoberta da Califórnia e do México. Mais tarde apaixonou-se por uma Norton e, em 1970, comprou uma Norton Commando nova em Inglaterra, percorreu a Grã-Bretanha, atravessou França, passou os Pirenéus, chegou a Barcelona e seguiu até Ibiza. Em 1972 tentou inclusivamente trabalhar como fotojornalista de motociclismo. 


A ligação nunca desapareceu. Décadas depois, Tannenbaum continua a andar de moto e recuperou uma Norton Commando de 1968, que voltou a colocar na estrada. Foi precisamente através desse universo motociclista que conheceu Jean Pierre Kathoefer, realizador e também motociclista, que acabaria por fazer Back To The Present, um pequeno documentário sobre a vida e o trabalho de Tannenbaum. E talvez seja aqui que esta história ganha uma dimensão que nós, motociclistas, não podemos ignorar: naquele dia de 11 de Setembro havia um motociclista ao guiador daquela Harley-Davidson e outro motociclista atrás da máquina fotográfica. Um estava a entrar no inferno. O outro estava a garantir que nós nunca esqueceríamos o que viu. 

UMA IDEIA ETERNA DE LIBERDADE 
É por isso que aquela imagem continua a dizer-nos tanto. Porque não precisamos de explicações para perceber a sua linguagem. Uma moto. Um bombeiro. Uma cidade ferida. Um homem a avançar enquanto o mundo recua. E, talvez sem querer, aquela fotografia acabou também por dizer alguma coisa sobre aquilo que significa ser motociclista. 

Porque há uma ideia de liberdade profundamente ligada a uma moto. Não a liberdade infantil de fazer simplesmente aquilo que nos apetece, e sim a liberdade adulta de escolher o nosso caminho e assumir a responsabilidade por essa escolha. Ir. Parar. Mudar de direcção. Continuar. Escolher uma estrada em vez de outra. 

É uma liberdade que muitas vezes damos como garantida porque temos a sorte de viver numa sociedade onde ela existe. Mas não é garantida. O 11 de Setembro mostrou-nos isso de uma forma brutal. E a História, antes e depois desse dia, continuou a mostrar-nos que sociedades abertas, democracias e direitos individuais não são património adquirido para toda a eternidade. São conquistas que precisam de ser defendidas e preservadas. 

E HÁ ALGO DE PROFUNDAMENTE MOTOCICLISTA NISSO
Não se trata de atacar ninguém. Trata-se precisamente do contrário. Trata-se de dizer claramente aquilo que queremos defender: a democracia, a liberdade individual, o Estado de Direito, o respeito pelos direitos humanos, a dignidade de cada pessoa e a possibilidade de vivermos de acordo com as nossas escolhas sem medo. Trata-se de defender uma sociedade onde podemos discordar sem nos destruirmos, onde podemos questionar o poder e onde ninguém deve ter o direito de decidir por nós aquilo que podemos pensar, dizer ou fazer. 

Porque andar de moto é, no fundo, uma pequena celebração diária da liberdade. É pegar numa máquina, escolher uma estrada e partir. É sentir que o mundo ainda é suficientemente grande para podermos escolher para onde queremos ir. 

POR ISSO ESTA HISTÓRIA TAMBÉM É NOSSA
Hoje, 11 de Setembro, cumprindo-se 25 anos sobre aquela manhã, talvez devêssemos fazer uma pergunta uns aos outros: onde estavas tu? Que idade tinhas? Onde estavas quando viste pela primeira vez aquelas imagens? Que moto tinhas nessa altura? E quem eras tu há 25 anos? 

Depois olha para a tua vida de hoje. Que moto tens agora? Que estradas já percorreste? Quantas pessoas ficaram pelo caminho? Quantas chegaram entretanto? O que mudou em ti? 

Porque 25 anos são uma vida inteira. E, no entanto, há imagens que parecem ter acontecido ontem. Tim Duffy continua vivo. A fotografia de Allan Tannenbaum continua viva. A Harley que levou aquele bombeiro para Ground Zero está hoje preservada como parte dessa história. E nós continuamos aqui, 25 anos depois, com a responsabilidade de não esquecer. 

Não esquecer os que morreram. Não esquecer os que sobreviveram. Não esquecer aqueles que correram para o perigo quando todos os outros tentavam escapar. E não esquecer que a liberdade que hoje nos parece tão natural pode ser colocada em causa muito mais depressa do que imaginamos

Talvez seja essa a verdadeira mensagem daquela Harley atravessando Manhattan naquele dia. Que a liberdade não é ausência de perigo. É a possibilidade de escolher como respondemos a ele. Há 25 anos, Tim Duffy escolheu avançar. Hoje, cabe-nos a nós escolher aquilo que queremos preservar. A vida. A liberdade. A democracia. A dignidade humana. O direito de escolher o nosso próprio caminho. 

E, depois, continuar a estrada. Porque enquanto pudermos escolher a estrada, enquanto pudermos ligar o motor e partir, haverá ainda liberdade. E essa é uma coisa pela qual vale a pena lutar

Sem comentários:

Enviar um comentário

Site Meter