Num dos mercados motociclistas mais exigentes da Europa, Espanha, esta scooter tornou-se uma das protagonistas do segmento, liderando as vendas entre os modelos de média e cilindrada, excluindo naturalmente as 125 cc. Um feito que merece ser analisado com atenção. Porque, quando o maior mercado da Península Ibérica começa a escolher uma determinada moto de forma tão expressiva, a pergunta deixa de ser “o que é isto?” e passa a ser “o que é que esta moto tem que as outras não têm?”.
A Zontes pertence ao grupo Guangdong Tayo Motorcycle Technology. Em vez de construir apenas motos acessíveis, optou por investir fortemente na tecnologia, na automatização da produção e na integração vertical dos seus processos industriais. Grande parte dos componentes é desenvolvida e fabricada dentro do próprio grupo, desde motores a quadros, passando por componentes eletrónicos e sistemas de produção altamente robotizados.
Esta estratégia permitiu-lhe apresentar produtos tecnologicamente muito completos sem atingir os valores praticados pelos fabricantes japoneses ou europeus. A Zontes 368G representa, provavelmente, o melhor exemplo dessa filosofia.
UMA NOVA GERAÇÃO DE SCOOTERS
Seria impossível olhar para a Zontes 368G sem pensar imediatamente na Honda X-ADV.
Foi a Honda que criou este conceito híbrido entre scooter e trail, demonstrando que existia espaço para uma proposta capaz de juntar o conforto de uma scooter à imagem aventureira de uma moto de aventura.
A Zontes não procurou esconder essa inspiração. Pelo contrário. Interpretou o conceito segundo a sua própria visão. O resultado foi uma scooter que mantém a transmissão automática CVT, aposta numa posição de condução descontraída, aumenta o diâmetro da roda dianteira, reforça a proteção aerodinâmica e acrescenta uma lista de equipamento que, até há poucos anos, seria impensável nesta faixa de preço. Mais do que copiar uma ideia, a marca procurou democratizá-la.
PRESENÇA QUE IMPÕE RESPEITO
Ao vivo, a Zontes 368G parece significativamente maior do que aquilo que os números deixam antever. A frente alta, as linhas muito vincadas, a iluminação integral em LED, o para-brisas elevado, os protetores de mãos e as barras de proteção conferem-lhe uma presença que se aproxima mais de uma pequena trail do que de uma scooter tradicional.
O desenho aposta claramente numa linguagem musculada. Não existem superfícies gratuitas. Cada elemento parece contribuir para transmitir robustez e capacidade de enfrentar muito mais do que simples deslocações urbanas. As jantes raiadas reforçam essa personalidade aventureira, ao mesmo tempo que ajudam a distinguir visualmente a Zontes 368G da maioria das scooters presentes no mercado.
ENGENHARIA ANTES DO MARKETING
É fácil cair na tentação de resumir esta scooter à quantidade impressionante de equipamento que oferece. Seria um erro. A base mecânica merece igual atenção. No centro da moto encontramos um motor monocilíndrico de 368 centímetros cúbicos, arrefecido a líquido, injeção eletrónica Bosch e uma potência próxima dos 39 cavalos, acompanhada por um binário máximo de 40 Nm.
São números que colocam a Zontes 368G entre as scooters mais potentes da sua categoria e que ajudam a explicar o seu posicionamento no mercado. E talvez mais interessante do que os números seja a filosofia.
Este motor foi claramente desenvolvido para privilegiar a disponibilidade em médios regimes, precisamente onde uma scooter passa a maior parte da sua vida útil. A transmissão automática CVT encarrega-se depois de manter essa entrega de potência sempre disponível para o condutor.
UMA CICLÍSTICA DIFERENTE
Há outro detalhe técnico que merece destaque. Enquanto muitas scooters continuam a apostar em rodas dianteiras de menor diâmetro, a Zontes escolheu uma roda de 17 polegadas à frente e uma de 14 polegadas atrás. Esta decisão altera profundamente o comportamento esperado da moto.
Uma roda dianteira maior tende a oferecer maior estabilidade, melhor capacidade para absorver irregularidades e maior confiança em pisos degradados. Não transforma a 368G numa moto de enduro, naturalmente. Mas aproxima-a de uma utilização muito mais versátil do que aquela que normalmente associamos ao universo das scooters.
A travagem acompanha essa ambição. Discos generosos, pinças J.Juan e sistema ABS trabalham em conjunto com o controlo de tração para oferecer um pacote de segurança que há poucos anos seria reservado a segmentos bastante superiores.
O ARGUMENTO MAIS DIFÍCIL DE IGNORAR
Existe, contudo, um aspeto que tem alimentado grande parte da discussão em torno desta scooter. O equipamento. Punhos aquecidos. Controlo de tração. Monitorização da pressão dos pneus. Ecrã TFT. Chave de proximidade. Tomadas USB. Iluminação integral em LED. Para-brisas regulável.
São elementos que muitos fabricantes continuam a reservar para versões mais equipadas ou listas de opcionais. Na 368G surgem integrados no conjunto. Naturalmente, quantidade não significa automaticamente qualidade. É precisamente essa a questão que torna esta scooter tão interessante. Porque já não basta perguntar quanto equipamento oferece. A verdadeira pergunta é outra. Será que toda esta tecnologia funciona tão bem como promete? É uma resposta que apenas os quilómetros conseguem dar.
E é precisamente por isso que a Zontes 368G desperta hoje tanta curiosidade junto dos motociclistas europeus. Não porque seja perfeita. Não porque venha substituir automaticamente as referências estabelecidas. E sim porque representa talvez o maior desafio que os fabricantes tradicionais enfrentaram nos últimos anos: provar que continuam a justificar a diferença de preço perante uma nova geração de marcas que já não compete apenas pelo custo, mas também pela tecnologia, pelo equipamento e pela ambição.
A ZONTES 368G NÃO É APENAS MAIS UMA SCOOTER.
O primeiro contacto visual é francamente impactante. É impossível contorná-lo. Há quem procure imediatamente comparações e, neste caso, é inevitável: a inspiração na Honda X-ADV 750 está à vista de todos. Muito mais do que na ADV350. Mas inspiração não é clonagem. Aliás, se o objetivo fosse fazer um clone, então também teriam copiado o preço e o nível de equipamento. E não foi isso que aconteceu.
A 368G tem identidade própria. A “enorme” roda dianteira de 17 polegadas domina completamente a frente da moto e altera-lhe a presença. Qualquer motociclista minimamente experiente percebe imediatamente que esta scooter foi pensada para fazer mais do que simples deslocações urbanas. A estética transmite robustez, confiança e uma inesperada vontade de sair do asfalto perfeito.
DEPOIS CHEGA A PRIMEIRA REALIDADE PRÁTICA.
Quem nunca conduziu uma scooter deste conceito pode pensar que a acessibilidade é idêntica à de uma scooter tradicional. Não é. O túnel central obriga sempre a um movimento diferente para entrar no posto de condução. É uma característica deste tipo de conceito híbrido, situado algures entre uma scooter convencional e uma trail. Não é um defeito da Zontes; é simplesmente a natureza deste tipo de veículo.
Basta, porém, começar a andar para perceber porque é que esta scooter está a conquistar tantos motociclistas. Aquilo que mais marca a condução não é o motor. Nem sequer o impressionante nível de equipamento. É a frente.
A roda de 17 polegadas lê muito bem o piso, transmite confiança desde os primeiros metros e torna a entrada em curva extremamente natural. A agilidade é uma constante, independentemente do ambiente em que circula. No trânsito urbano muda de direção com facilidade. Em estrada mantém sempre uma sensação de segurança muito interessante.
A suspensão merece igualmente destaque. A unidade ensaiada mantém a afinação de origem e, na minha opinião, revela um compromisso claramente orientado para um lado mais desportivo. É um conjunto relativamente firme, talvez mais do que alguns utilizadores esperem, mas essa firmeza tem uma vantagem evidente quando o piso começa a degradar-se. Lancis, tampas de saneamento, paralelos, pequenas aventuras urbanas ou pisos menos perfeitos são absorvidos com competência, transmitindo sempre uma sensação de solidez muito agradável.
Também a proteção aerodinâmica surpreendeu positivamente. A regulação do para-brisas produz diferenças facilmente percetíveis durante a condução, permitindo adaptar a proteção ao tipo de utilização. Outro aspeto que merece referência é a travagem.
Confesso que nunca fui um grande entusiasta dos conjuntos J.Juan. No entanto, nesta Zontes 368G, a sensação transmitida foi francamente positiva. A potência está presente, a resposta é previsível e o conjunto parece evidenciar a evolução que este fabricante tem vindo a demonstrar nos últimos anos.
Se há área onde a Zontes decidiu não facilitar foi no equipamento. É difícil encontrar outra scooter deste segmento que ofereça tanto de série. O acesso ao espaço sob o banco é simples, o compartimento revela uma boa capacidade e toda a sensação de qualidade percebida supera claramente aquilo que muitos ainda esperam encontrar numa moto chinesa.
E CHEGAMOS TALVEZ AO PONTO MAIS POLÉMICO
Há quem continue a afirmar que esta scooter “só tem quarenta cavalos”. Sinceramente, custa-me perceber essa crítica. Estamos perante uma scooter de cerca de 350 centímetros cúbicos, pensada para utilização diária, deslocações urbanas, estrada e alguma aventura ligeira. Dentro desse contexto, a desenvoltura com que acelera e acompanha o trânsito pareceu-me perfeitamente adequada. Não senti, em momento algum, que lhe faltasse capacidade para cumprir aquilo que lhe é pedido. Também os pneus deixaram uma primeira impressão bastante positiva, contribuindo para uma confiança geral que se instala muito rapidamente.
Naturalmente, nem tudo é perfeito. Gostaria de encontrar um cruise control, um equipamento que faria todo o sentido numa scooter com esta vocação. E, apesar de cumprir a sua função, acredito que um banco um pouco mais confortável elevaria ainda mais a experiência em viagens longas.
AINDA EXISTE PRECONCEITO?
A Zontes 368G não está a vender apenas porque custa menos do que algumas rivais. Essa explicação é demasiado simplista. Está a vender porque oferece um produto competente, muito bem equipado, tecnologicamente atual e capaz de obrigar muitos motociclistas a rever ideias que durante anos pareciam inquestionáveis.
Ainda existe preconceito? Claro que existe. Basta recordar uma imagem que encontrei recentemente: uma 368G cujo proprietário retirou toda a identificação da marca e substituiu-a por autocolantes de uma conhecida marca de suspensões. Como se esconder o nome “Zontes” tornasse a moto melhor. Na minha opinião, isso diz muito mais sobre alguns motociclistas do que sobre a própria moto. A realidade é simples. A Zontes 368G é uma scooter chinesa. E é precisamente por ser uma scooter chinesa, com este nível de qualidade, que está a obrigar o mercado a mudar de discurso.
Por último, uma nota que não pode ficar por escrever. Em Portugal, esta scooter continua a apresentar uma relação qualidade/preço muito interessante. No entanto é impossível ignorar que, em Espanha, custa cerca de mil euros menos. Estamos a falar de uma diferença próxima dos vinte por cento.
É uma disparidade difícil de compreender e que merece reflexão. Não é uma questão de apontar o dedo. É simplesmente um facto que existe e que qualquer consumidor tem o direito de conhecer. Apesar disso, uma coisa parece já suficientemente clara. A Zontes 368G não está a conquistar o maior mercado da Península Ibérica por acaso. E, sobretudo, não o está a fazer apenas porque é barata.
A Zontes 368G solicitou apenas três litros e meio de liquido inflamável doirado por cada cem quilómetros de cidade conquistados, pedindo a marca neste momento 5.821,94€ preço “chave na mão”, com oferta de top case respetiva base e suporte. A excelência do valor não está em causa; e podia ser ainda melhor.
Raterómetro ******* (7/10)
Nota de atualização: A unidade ensaiada pelo O Escape Mais Rouco corresponde à versão 2025 da Zontes 368G. Entretanto, já foi anunciada para o mercado português a nova Zontes 368G ETC 2026, que introduz um conjunto de melhorias relevantes, entre as quais acelerador eletrónico (Ride-by-Wire), cruise control, modos de condução revistos, um novo painel TFT de 8 polegadas, banco aquecido para condutor e passageiro e uma redução de peso. Estas evoluções vão ao encontro de alguns dos aspetos que identificámos durante o ensaio, reforçando a competitividade de um modelo que já se destacava pela sua relação entre equipamento, comportamento e preço.















Obrigado, Pedro, pela publicação do ensaio.
ResponderEliminarSão perfeitamente claras as sensações que teve no ensaio durante esses vários dias com a mota.
Abraço
Muito obrigado pelas tuas palavras e, acima de tudo, pelo tempo que dedicaste a ler o ensaio.
ResponderEliminarEsse é sempre o meu principal objetivo: transmitir ao leitor aquilo que realmente senti ao guiador da moto, sem exageros, sem preconceitos e sem me deixar levar pela ficha técnica ou pela marca que está no depósito.
A Zontes 368G foi uma dessas motos que me surpreendeu positivamente. Não é perfeita, como nenhuma o é, mas obrigou-me a olhar para este segmento e para a própria evolução da indústria chinesa com outros olhos. E, para quem escreve sobre motociclismo, isso é sempre um bom sinal.
Um grande abraço e obrigado por acompanhares o trabalho d’O Escape Mais Rouco. São comentários como o teu que dão ainda mais vontade de continuar a fazer quilómetros… e a transformá-los em histórias. 👊🏍️
Excelente ensaio, como de costume. Mas a nota adicional ao texto tem aqui um pormaior bastante interessante na postura das "novas marcas" que chegam ao mercado com os tais argumentos de "galinha gorda por pouco dinheiro": A constante evolução dos modelos que oferecem, fazendo com que modelos com 1-2 anos de mercado pareçam obsoletos, e portanto, com uma desvalorização muito maior, e quiçá uma dificuldade de manutenção a médio (e já não vou falar de longo) prazo.
ResponderEliminarObrigado. E levantaste aqui uma questão que, sinceramente, merece muito mais atenção do que aquela que normalmente recebe quando se fala das novas marcas.
EliminarA evolução rápida dos modelos é uma faca de dois gumes. Para quem compra novo, é excelente: mais equipamento, mais tecnologia e, muitas vezes, mais moto pelo mesmo dinheiro. Mas para quem comprou há dois anos, pode significar que a sua moto perde rapidamente a perceção de novidade e, consequentemente, valor no mercado de usados.
E há depois a questão da longevidade. Não basta uma marca conseguir fabricar uma excelente moto hoje. Tem de garantir peças, assistência técnica, software, componentes específicos e suporte durante muitos anos. É aí que as marcas tradicionais ainda têm uma vantagem importante, construída ao longo de décadas.
Por isso, acho que esta é uma das grandes perguntas que o mercado chinês terá de responder nos próximos anos: conseguirá transformar a extraordinária velocidade de evolução dos produtos numa verdadeira cultura de longevidade?
No caso concreto da 368G, a chegada da versão 2026 mostra precisamente essa dinâmica. A 2025 continua a ser uma moto muito competente — e agora até aparece com um preço de campanha extremamente interessante — mas já existe uma geração seguinte com mais equipamento. Para quem compra, é uma oportunidade. Para quem comprou, é uma questão que merece ser ponderada.
E é precisamente por isso que, nos nossos ensaios, tentamos olhar para além da ficha técnica e do preço de aquisição. Comprar uma moto é uma decisão de vários anos, não apenas uma fotografia do catálogo no dia da compra.
Sinceramente, vendo a postura do "descartável" do que vem da China, fico de pé muito atrás.
EliminarE como já li "por aí", será que queremos motas descartáveis mas com uma data de specs de encher o olho, ou queremos motas verdadeiramente sólidas?
Eu, para já, vou-me mantendo "fiel" aos tradicionais.
Mas se esta invasão a baixo preço (e com qualidade) fizer com que se traga mais gente para o motociclismo, acaba por ser bom para todos!