segunda-feira, 19 de outubro de 2020

BMW K 1600 GT à prova (por Estradas Nacionais)

Paradoxo. Em plena sociedade da informação e comunicação, nem sempre é fácil encontrar a ontologia, o ser em si, das coisas. Da letra K, ou kappa, pouco se sabe, nomeadamente quanto à sua origem e verdadeiro significado. Sabemos que a letra provém do grego, adaptado por sua vez do kap ou kaf das línguas semitas, símbolo que representava uma mão aberta. Esta, por sua vez, com muita probabilidade teria sido adaptada pelos povos semitas que teriam vivido no Egipto, a partir do hieróglifo que representa “mão”. E, assim de repente, é tudo. 

Foto: Gonçalo Fabião

Uma mão cheia de inspiração, encontraram os engenheiros da BMW Josef Fritzenwenger e Stefan Pachernegg, no já longínquo ano de 1983. Quando muitos fabricantes ainda apostavam em motores em linha refrigerados a ar, os motores de quatro cilindros refrigerados a líquido representavam o derradeiro patamar tecnológico. Nos anos oitenta do século passado, Fritzenwenger e Pachernegg desenvolveram um, à época, novíssimo conceito técnico voltado para o futuro; e que posteriormente foi aprimorado até atingir uma qualidade de produção regular. Nascia assim a Série K da BMW Motorrad que se afirmou inovadora e polivalente em termos técnicos e não só. 

K RUMO A 40 ANOS DE HISTÓRIA 
A série K da BMW nasceu então em 1983 com um único modelo, a K 100 “despida”. Esta não tinha outras designações como 'RS' ou 'LT', que chegaram mais tarde. Aquela nova e radical BMW surgia com um espirito ultramoderno para o seu tempo, sendo impulsionada por um novo conceito de motor: uma linha longitudinal de 4 cilindros de 987cc, motor apoiado no lado esquerdo. 

Foto: Gonçalo Fabião

A actual BMW K 1600 GT não é propriamente uma moto nova. Anunciada em Julho de 2010 – sim, há mais de dez anos (?!?!) – é apresentada no Intemot de Colonia do mesmo ano e colocada no mercado em Março de 2011. Hoje, depois de mais de três mil quilómetros na 1600 GT que a J&M Motos, empresa do Grupo Jomotos, cedeu no passado mês de Setembro a este ESCAPE, “rezo” todos os dias aos Deuses do Motociclismo, para que o lamentável Euro5 não seja mais castrador e, pelo contrário, seja uma oportunidade para desenvolver e evoluir esta jóia da coroa bávara. 

PORTUGAL “UBER ALLES” 
A Prova de que agora vos quero falar envergonha os menos de cem quilómetros que fiz aqui (link) em 2016 de 1600 GT. Na verdade, em posse de um período de férias no passado Setembro, decido seguir um sonho antigo: uma verdadeira volta a Portugal pelas belas e únicas Estradas Nacionais. Uma viagem que parecendo difícil não é nada fácil. 

Exigia, no tempo disponível – pouco mais de uma semana – uma moto rápida, confortável e preferencialmente, muitooooooooooooooooo divertida. Assim, vesti o meu melhor fato de atrevimento e contactei a Jomotos na busca de uma mão cheia, uma kappa… Em vídeo e fotografia encontram essa viagem manifesta e honestamente documentada na página de facebook que suporta este blogue. Mas não posso deixar de acrescentar algo mais. 

6, O NUMERO DA UNIÃO, HARMONIA E PODER 
É absolutamente incrível como uma moto já com uma década de história ainda nos consegue surpreender. Só aqueles seis cilindros em linha já seriam o bastante para que qualquer motociclista preste a sua vénia a tamanho descaramento. Seis? Em linha? Quantas motos conhecem com esta motorização? E quantas tiveram o prazer de provar? 

Foto: Gonçalo Fabião

O motor - colosso de binário e potência, que tanto adorei explorar quer em rotação dita normal, quer lá em cima entre as sete e oito mil rpm onde a sonoridade é absolutamente celestial – surge montado num quadro solido e assistido por aquelas deliciosas suspensões electrónicas da Motorrad de que tão confesso fã sou. Com uma protecção aerodinâmica tendencialmente perfeita, a BMW K 1600 GT assume-se, ainda hoje sublinho, como a referência incontornável no adormecido – não por muito mais tempo – segmento sport tourer. Permitindo a elasticidade do conjunto abraçar suavemente “sempre em sexta” uma estrada curvilínea ou, explorando a agora suave transmissão auxiliada por um quickshift, atacar de forma agressiva terrenos idênticos levando a travagem para além do limite do razoável e curvando sem fim. 

DINAMISMO E CONFORTO 
Sendo verdade que senti naquela viagem a falta de uma top case que me facilitasse o dia a dia na estrada – pode ser adquirida como extra -, de um painel de instrumentos actualizado e até de uma pequena cura de emagrecimento (na moto) para que as pequenas manobras com a moto parada fossem mais acessíveis, verdade é que a BMW K 1600 GT da a J&M Motos me ofereceu uma viagem inesquecível por este nosso Portugal, onde pude alternar entre uma condução suave de puro turismo ou mais ou menos travessa consoante o meu capricho ou dinâmica das Nacionais que abraçam o nosso território como poucas estradas o fazem por esse mundo fora. 

Foto: Gonçalo Fabião

Dinamismo e conforto foi o que esta Preto “Storm” da afamada Casa Bávara me ofereceu. Equipada com, entre outras funcionalidades, DTC (controlo de tração dinâmico), ESA Dynamic, ABS Pro, sistema áudio com kit de preparação para sistema de GPS, rádio ECE (Software), marcha atrás, faróis adaptativos, Luzes diurnas, controlo de pressão dos pneus, condução sem chave, assistente à passagem de caixa Pro, fecho centralizado, luzes auxiliares em LED, sistema de alarme antirroubo, sistema de chamada de emergência, a BMW K 1600 GT pode custar 30.100€ já com todos os impostos e despesas incluídas, tendo os seis cilindros solicitado seis litros certos do tal líquido inflamável que tanto amamos, por cem quilómetros de condução hedonística e luxuosa.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Honda X-ADV à prova (segundo volume)


Alguns dizem que a memória é a capacidade de adquirir, armazenar e recuperar informações disponíveis, seja internamente, no cérebro (a denominada memória biológica), seja externamente, em dispositivos artificiais (a memória artificial). Memória é ainda o armazenamento de informações e factos obtidos através de experiências ouvidas ou vividas. Foca em realidades específicas, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se com a idade. Hoje, como auxiliar da memória biológica dispomos de elevada quantidade de memória artificial. É também para isso que serve um blogue, este ESCAPE em particular. Uma quantidade infinita de memória artificial suporta e aviva a memória biológica. Querem ler? 

Foto: Gonçalo Fabião

Há pouco menos de três anos (link) tínhamos enfim a possibilidade de realizar a primeira prova à Honda X-ADV, uma moto que julgávamos, à época, inaugurar um novo segmento e que descrevemos a partir de duas palavras-chave: divertimento e versatilidade. A actual versão da agressiva proposta da Honda, para além do controlo de tracção, em pouco difere daquela que foi a primeira versão provada. Todavia, a demanda por uma segunda opinião pode ser muito útil no sentido de confirmar ou infirmar um primeiro olhar. E este ESCAPE quis ir mais longe. Fazer reportagem. Sair para a rua da contemporaneidade e questionar alguns dos utilizadores diários X-ADV: “a que vos sabe a vossa moto”, indaguei. 

PERSONALIDADE CARISMÁTICA 
De 2017 para hoje ficámos a saber que, em bom rigor, a Honda X-ADV não inaugurou qualquer novo segmento porque as demais marcas não correram atrás do exemplo da Honda e, assim, a X-ADV mantém-se como um produto único, muito próprio, cheio de personalidade e mesmo carisma. Notável! 

Foto: Gonçalo Fabião

É a própria marca que assume que esta moto se apresenta como um SUV e convida-nos a conhecerem esta “crossover”. Compreendo o piscar de olho a outras realidades que não o motociclismo na busca de “cristão novos” mas os termos não me agradam e até fico um pouco baralhado, confesso. Se ainda se compreende a opção da marca já quando faço uma pesquisa na grande memória virtual da Internet por “Honda X-ADV” e vou para aos sítios do costume com as pessoas do costume a papaguearem as banalidades do costume que a informação oficial da marca lhes indica…, capoto…, sejamos honestos: é apenas ridículo, para ser simpático. 

SONHAR É PRECISO 
Na verdade, se estivermos atentos e pensarmos pela nossa cabeça, notamos que a X-ADV transpira carisma. Na condução diária desperta os sentidos. O swing muito próprio com que se movimenta no bulício da cidade e das vias rápidas que a rodeiam, faz disparar os químicos certos no cérebro. No dia-a-dia esta moto faz-nos ainda sonhar com o lazer. Por um lado, ansiamos pelo fim-de-semana para aquela volta com os amigos pelo campo, fora de estrada. Por outro, faz nos sonhar mais além, porque esta Honda também foi feita para viajar, e os grandes espaços estão sempre no nosso horizonte

Foto: Gonçalo Fabião

Stop! Um dos objectivos deste segundo volume Honda X-ADV aqui no ESCAPE era uma prova mais agressiva no fora de estrada. Sejamos mais uma vez honestos. A moto mantém altos padrões de divertimento quando o alcatrão acaba e o pó começa. E tais incursões devem ser encaradas como um agradável passeio. Serão necessários outros pneumáticos e algumas pequenas alterações para que a condução de pé nos entregue mais segurança e eficácia. O divertimento e a versatilidade que em 2017 a X-ADV me ofereceu estavam assim confirmados. Mas, como vos disse acima, importava ir mais longe e ouvir quem com ela convive no diariamente. 

Foto: Gonçalo Fabião

VOX POPULI A PALAVRA AO UTILIZADOR 
O João Mestre é proprietário de uma X-ADV desde maio de 2017. “Uma das primeiras a ser entregue. Quarenta e cinco mil quilómetros em cerca de 3 anos. Como pontos fortes destaco a excelência para o dia-a-dia, não se nega a nada. Travões e suspensões de primeira, e um ecrã que não sendo TFT é bastante completo. Ponto menos positivo é a autonomia, um depósito de treze litros é curto, mesmo sendo a moto razoavelmente económica, para o dia-a-dia chega, mas em viagem não satisfaz. O pneu traseiro de 15” polegadas também limita muito a escolha na hora de trocar. Felizmente a Bridgestone já tem os Battlax AX41S, que mudam a moto para muito melhor”, disse. 

Foto: Gonçalo Fabião

Malheiro Almeida destaca a costela de viajante que encontramos na Honda X-ADV. “Estou muito satisfeito com ela. O ano passado, pela costa de Itália, nem dei pelos 5200 quilómetros da viagem. Se tivesse que alterar alguma coisa, era baixá-la. Mas não é defeito da moto eu com 1,77m chego ao chão com os dois pés mas apenas pela metade. Se fosse comprar outra vez era a mesma marca e modelo. A viagem a Itália ofereceu-me uma experiência que não consigo expressar por palavras…, as paisagens magníficas que nos enchem a vista. Em cima da mota temos excelentes sensações. Deixou saudade…, Pireneus, Passo do Stelvio, toda a costa azul. Itália para andar de moto é um gosto. Muita scooter e gente de todas as idades, mesmo de fato e gravata na sua 125cc. Viagem inesquecível”.

Foto: Gonçalo Fabião

Por outro lado, o João Lopes destacou o prazer de condução, mas pedia mais cavalos, o Laurentino Coelho destaca o conforto e a qualidade dos materiais, o Carlos Reis concorda sublinhando a segurança e já leva 62 mil quilómetros na sua. E um dos relatos mais interessantes que ouvi foi o do “jovem” Mário Ferraz que com os seus quase setenta aninhos, em dois anos já fez 37 mil quilómetros o que ainda se torna mais impressionante quando sabemos que a sua base é na ilha da madeira, viajando uma vez pela Andaluzia e outra por Marrocos onde segundo ele a “X-ADV ombreou com motos de cilindrada superior”. 

Foto: Gonçalo Fabião

Singular, temperamental, carismática. É assim esta Matte Moonstone Silver Metallic (NH-378) pela qual a Honda solicita uma transferência de 11.975€, tendo exigido ao bolso deste ESCAPE o correspondente em euros de 3,9 litros daquele liquido constituído por hidrocarbonetos e cujo consumo abusivo tanto nos satisfaz, por cem quilómetros de diversão.

domingo, 4 de outubro de 2020

Novidades Trail 2021- Aprilia, Benelli, Ducati e Honda

Ducati. “Quatro é mais leve do que dois. Também pode ser mais compacto. 15 de Outubro. Estejam prontos para mudar o paradigma“. Não é preciso ser bruxo. Tudo indica que a Multistrada V4 vai ser revelada já no próximo dia 15. De recordar que o V4 fez a sua estreia na superdesportiva Panigale dando depois origem à Streetfighter V4 – aqui (link) recentemente provada por este ESCAPE. Claudio Domenicali nunca escondeu que o foco seria a Multistrada receber este motor. Alguns dizem que estaremos perante uma moto praticamente nova e não apenas uma versão revista e ampliada da actual Multistrada. Úúúééépáááhhhhh…, a especulação por essa Rede fora aponta para um motor a debitar 180 cavalos, ou até um pouco mais. Desejamos tanto, mas tanto que tudo isto seja verdade. Dia 15 <3  



Aprilia. Tuareg, o modelo lendário da Aprilia parece estar de regresso. Já lá vai cerca de um quarto de século desde que em Noale se produziu a última Tuareg. Nesse dia começou a espera. E a espera parece estar a chegar ao fim. Ainda em testes, as imagens vindas a público sugerem jantes de raios de 21 e 18 polegadas, suspensões de longo curso, motor bicilindrico paralelo 660cc que já equipa a RS e a Tuono (100Cv?) e electrónica contemporânea tudo adicionado num conjunto que visa ombrear com Yamaha Tenere 700, BMW F 750 GS, KTM 790 Adventure R e, quem sabe uma possível Honda Africa Twin 800cc. Alguns dizem que aqui a espera pode ainda demorar. Ninguém sabe se a versão final a comercializar estará disponível já em 2021 ou apenas no ano seguinte. 



Benelli. A QJ Motor, marca chinesa com a qual a Zhejiang Qianjiang, proprietária da Benelli vende algumas das suas motos, tem estado muito ativa nas últimas semanas. Uma das novidades é a QJMotor SRB750 que ao que tudo indica será muito mais do que a base da tão aguardada nova Benelli TRK 800. Esta deverá partilhar quadro e motor da irmã QJ. Podem contar com inspiração no desenho da bem sucedida TRK 502, suspensões de longo curso seguramente de origem Marzocchi e um motor bicilindrico a debitar cerca de oitenta cavalos. 


Honda. Young Machine é a publicação que todos consultam e ninguém, consegue ler. Porque é escrita em…, japonês. Há dias os nipónicos levantaram o rumor que a Honda estava a trabalhar numa versão 250cc da Africa Twin. Os caçadores de cliques não perderam nem um segundo e partiram rapidamente para a clássica “invenção”. Faz parte. E até é divertido, no fundo. O que sabemos, porque o passado nos ensina, é que em tempos tivemos uma (saudosa) Honda NX 250 que era uma verdadeira pequena africana e mais recentemente assistimos até a uma Honda XL 125 Varadero. O Rumor de uma CRF em versão 800cc mantém-se também activo – até neste texto. Mas nada se sabe para além da mera especulação. 

Nota final para dar conta do cancelamento do Salão de Tóquio agendado para Março de 2021 devido a atual crise sanitária.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

O Escape no Rock e o Rock no Escape

Diz que é uma espécie de Tertúlia. Ao ar livre, com o suave aroma da fresca maresia do tejo por companhia e um fim de tarde banhado por aquela luz que só Lisboa nos sabe oferecer e conforta os sentidos. 

A Estação fluvial de Belém foi Inaugurada em 1940, no âmbito da Exposição do Mundo Português que tinha por objectivo a comemoração do denominado Duplo Centenário - a data da Fundação do Estado Português (1140) e da Restauração da Independência (1640) - foi projectada pelo arquitecto Caetano Carvalho e recentemente restaurada. 


Aquela pequena jóia da arquitectura modernista que continua ao serviço da olvidada ligação fluvial entre Belém e a Trafaria juntamente com o seu espaço adjacente é o local ideal para uma conversa em formato inédito em directo no Facebook. Já amanhã, dia 29 de Outubro. Rui Belmonte - com bem mais de duas décadas de ligação ao motociclismo nacional e internacional iniciou a sua carreira como jornalista na revista Motojornal, depois de uma curta passagem pelo extinto Jornal Duas Rodas; no presente é jornalista na Sport TV na área do motociclismo - junta o seu RockOn Moto ao Escape Mais Rouco e juntos convidamos todos aqueles que andam de moto a intervir, a participar. Venham ter connosco, o local é excelente. 

Nada temos para oferecer, apenas conversa sobre motos e motociclismo. Como desbloqueador de conversa temos uma pequena provocação. “E para ti, perante a nova realidade em que vivemos, qual é afinal a melhor moto?”. 

Vá! Andem dai. Venham respirar. Juntem-se a este ESCAPE e ao RockOn Moto para um fim de tarde diferente e bem animado.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Flávia ou um sonho de uma madrugada de verão

O amor à primeira vista existe? Por esse mundo fora há quem jure que sim, o amor à primeira vista existe, podendo a qualquer pessoa bastar uma fugaz troca de olhares para que tal aconteça. Já os cientistas, esses seres aborrecidos como uma velha e abandonada bota militar, são peremptórios: o amor à primeira vista não é possível, mas a paixão sim. A atracção é sobretudo química, dizem. O aspecto físico e o cheiro podem desencadear uma reacção imediata que nos faz apaixonar. Mas na escolha para uma relação estável, são as referências culturais e sociais que fazem a diferença, dizem os putativos especialistas. Geralmente o que acontece com a maioria das pessoas é um atracção inicial que é puramente sexual. Ei, ei, ei…, calmaaaaaaaa, láá…. 

Foto: Gonçalo Fabião

FOGO QUE ARDE SEM SE VER 
Apaixonei-me pela Flávia por foto. Não tenho vergonha de o dizer. Quem nunca…, no Tinder e assim. Pois, é não é?!? Eu cá, foi no instagram, quando vi umas imagens de Tiago Almeida, O Senhor Tigas, (link) realizadas para ele e para a Unik Motorcycles (link). Booooooomm! Naquele momento senti uma explosão. Mesmo!! Eu tinha de cheirar e tocar a Flávia

O que eu não poderia saber era…, não ser o único. Não, eu não era o único nesse estado catatónico, ridículo, patético: o amor. E com este veio o ciúme. Quando vi a Flávia na capa da REV #58 de Julho/Agosto passados. Ao menos ela, a Flávia, estava bem entregue, à Maria e à lente do Manel. Menos mal para o mal que eram os meus pecados. 

Foto: Gonçalo Fabião

“FERIDA QUE DOÍ E NÃO SE SENTE” 
Dorido, enraivecido, triste, deprimido e humilhado. Dizem que é assim que se sente o ciumento. Não tive tempo para tanta coisa. Eu cá só queria um fugaz abraço da Flávia e sentir o seu hálito a octanas. Fiz por fazer acontecer num sonho de uma madrugada de verão. 

A história de Shakespeare com nome idêntico é desafiadora para glosar, pois são diversas as histórias, que, de alguma maneira, se entrelaçam na obra. De forma divertida, o célebre poeta e dramaturgo inglês explora em “Sonho de Uma Noite de Verão” a idolatria amorosa em oposição ao amor verdadeiro. Pelo menos em Shakespeare, que ao que se sabe nunca foi cientista, as paixões súbitas, tão ardentes como passageiras, são mesmo reais. A leitura de “Sonho de Uma Noite de Verão” permite uma reflexão sobre os não-amores e sobre a valorização da arte e dos seus profissionais. 

Foto: Gonçalo Fabião

CONTENTAMENTO DESCONTENTE 
Foi, pois, assim, numa noite de verão, já de madrugada, uma espécie de after hours - como havia antigamente quando o Novo Fascismo Covideiro não existia e éramos livres para sair à noite -, que dancei com a Flávia e lhe senti o forte odor a carburante que me embriagou ainda com mais desejo. Numa madrugada limpa e luminosa na Lisboa de fim de verão. Iluminados por aquela luz apalermada e inebriante como só Lisboa nos sabe oferecer. 

Exercícios e jogos de palavras à parte, a realidade é feroz. Flávia é possuída por outrem. Simpático, o seu dono e senhor cedeu-a por momentos para esta experiência. Fez bem, pois o sentimento de posse vai ficando cada vez mais vetusto, até nas relações humanas quanto mais nas demais relações. Na verdade, Flávia foi enfim por mim escolhida para substituir a incrível Hulk que tão bem tomou conta deste blogue durante dois anos, captada pelo olhar mágico do Manuel Portugal, a quem agradeço uma vez mais a sessão “UNIKA” que deu origem à imagem agora decaída. 

Foto: Gonçalo Fabião

Chegou assim o tempo de renovar a cara desta página. Também para saudar de forma inequívoca o excelente trabalho do Gonçalo Fabião, exercício esse que os mais atentos têm conhecido e reconhecido, aqui, nos meses recentes. 

DOR QUE DESATINA SEM DOER 
Flávia, variante feminina de Flávio, tendo raiz no nome romano Flavius, significa "dourado, louro". Tal como muitos outros nomes a sua origem decorre de uma característica física. Assim, teria sido o nome utilizado para nomear indivíduos que tivessem os cabelos claros. O original em latim Flavius foi utilizado no Império Romano como nome próprio por vários imperadores, sendo o mais conhecido Constantino, o Grande. Flávia é também o nome de uma santa católica e ortodoxa: Santa Flavia Domitilla, que terá vivido no século I d.C. 

Foto: Gonçalo Fabião

Flávia é aqui a décima sétima criação da Unik Motorcycles foi transformada durante o ano de 2019 com o intuito de homenagear uma senhora, partindo de uma histórica Honda CBX 750 de 1986. Flávia apresenta como principais detalhes uma traseira encurtada cerca de 16 centímetros, suspensão da frente original (bainhas invertidas) da Kawa Ninja ZX9, amortecedor traseiro no lugar da suspensão a gás original, jantes Honda CBR de 17’, pinça traseira Brembo, avanços adaptados ao espaço disponível, mesa de direcção desenhada e cortada a laser, manómetro digital no painel original, piscas led, filtro de ar cónicos, caixa de bateria por baixo do motor recolocando todos os competentes electrónicos, guarda-lama e pintura custom sem uso de vinis. 

Parecendo difícil não é nada fácil fazer a quadratura de círculo de tudo o que vai dito. É óbvio, há aqui emoção. Flávia nascida e criada prateada para homenagear uma senhora, acabou assim como podem ver nas excelentes imagens do Gonçalo – este camarada não pára de nos surpreender – por fazer jus ao nome e brilhar dourada como o seu nome nos braços da Lisboa que alguns dizem ser de Ulisses e todos sabemos ser um lugar simbólico de fronteira e de passagem. 

Foto: Gonçalo Fabião

Ou…, não terá passado tudo isto de um mero sonho de uma madrugada de verão…

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

BMW F 900 R à prova

Estrada Nacional 247. Da Malveira da Serra ao cruzamento com a Estrada do Cabo da Roca são cinco quilómetros certos e bem contados pelo muito útil Google Maps. Cinco quilómetros feitos para cima e outros tantos para baixo, por mim e por todos os motociclistas da Grande Lisboa. Trajecto há muito a evitar ao domingo, mas a percorrer sempre que possível durante uma fresca manhã de verão como são (quase sempre frescas) as manhãs de qualquer estação do ano por aquelas bandas. No dia em que fui com o Gonçalo para aquela zona fotografar a F 900 R, já no fim da sessão, fiquei ali como nunca tinha ficado. Para cima, para baixo, para cima, para baixo, para cima, para baixo…, não cheguei à meia dúzia de voltinhas naquele carrossel mágico, mas quase. Foi até o alerta de reserva iluminar o colorido TFT que equipa a BMW. Juro. Nunca tal me tinha ali acontecido. E se me leram com atenção quase podia acabar aqui o texto sobre a prova desta moto que tanto me encheu de surpreendente prazer.

Foto: Gonçalo Fabião

Como bem sabem os mais fiéis e atentos, este ESCAPE anda cá pelo hedonismo, pelo prazer. O ESCAPE não tem agenda. Assim, salvo as devidas excepções, sempre que solicito uma moto a uma marca para prova, faço-o despido de pretensões que não sejam o gozo que essa moto me dará e a sensação que me faz partilhar esse prazer convosco. A meu pedido, quando a BMW me “ofereceu” esta F 900 R, ingenuamente encolhi os ombros. Estamos sempre a aprender… - já aqui voltamos… 

BICILÍNDRICO COM PERSONALIDADE 
O tal segmento sem nome, ao qual podíamos chamar “as quase mil” ou “falta aqui um bocadinho [assim] para um litro de cilindrada” de que vos falava aqui a propósito da Tiger 900 da Triumph (link), ganhou também argumentos este ano com a chegada destas novas novecentos da Bayerische Motoren Werke. 

Foto: Gonçalo Fabião

A BMW F 900 R parte do motor que equipa a F 850 GS (link) e a F 750 GS (link). De recordar que apesar do nome das coisas, ambas as motos estão equipadas com o mesmo bicilíndrico paralelo de 853cc de capacidade – na BMW F 750 GS a debitar 77cv e 83Nm e na F 850 GS a produzir 95 cv e 92Nm da F 850 GS. Aqui, na novecentos, o propulsor é então revisto e ampliado para 895cc a produzir 105 cv de potência às 8500 rpm e um binário de 92 Nm às 6500 rpm.  

ROADSTER DE NATUREZA DESPORTIVA 
Na afamada casa alemã, temos notado um esforço efectivo por tentar comunicar esta moto a destinatários mais jovens e começamos a perceber tal destino no primeiro contacto com a moto. De linhas esdrúxulas e complexas, a F 900 R é bem mais sedutora ao vivo que em imagem, em especial neste lindo tom vermelho e branco que a marca denomina Style Sport. Ainda parado, investindo alguns minutos a compreender toda a informação disponibilizada pelo eficaz ecrã TFT de excelente leitura, apreciamos a qualidade superior de acabamentos. Mas a tal indiferença que vos falei no início deste texto desaparece por completo quando montamos na moto e saboreamos a sintonia que o corpo assume desde o primeiro momento. A BMW F 900 R assume-se como uma roadster de inspiração desportiva e isso sente-se na posição de condução. Que é, todavia, como toda a moto, de escala humana. Quero dizer: aqui há conforto e até luxúria.

Foto: Gonçalo Fabião

Para além do equipamento de série com ABS e ASC (controlo automático de estabilidade), modos de condução RAIN e Road, a F 900 R chegou até mim em modo full extras onde se inclui (para além do GPS e do importante sistema de chamada de emergência) o modo de condução PRO com ABS Pro, DTC (controle de tração dinâmico), DBC (controle dinâmico de travagem), MSR (controle dinâmico do travão-motor), Dynamic ESA, assistente na passagem de caixa de velocidades de dupla via e, enfim, farol adaptativo. Esperem…, não me posso esquecer ainda do Pacote Conforto que inclui sistema Keyless Ride e punhos aquecidos e do Pacote Turismo que oferece descanso central e Cruise Control - uffffffff…, perdoem-me este “parágrafo MotoJornal” mas apeteceu-me…, sorrisos

Foto: Gonçalo Fabião

AQUELA NOVA VIZINHA QUE NOS FAZ DESVIAR O OLHAR… 
Ok?! Vamos tratar do que interessa: prazer. Que rica surpresa meus queridos amigos. Desde o primeiro momento deixei-me encantar pelo espírito e dinâmica que a F 900 R inspira. Este comportamento que nos faz sorrir é potenciado pelas tendencialmente perfeitas suspensões electrónicas de que tão confesso fã sou. Ficando apenas a faltar uma voz grossa, não para fazer mais barulho porque sim mas essencialmente para que toda a experiência de condução se torne mais intensa e envolvente, é todavia, a tal escala humana que faz desta nova miúda do bairro um factor de desejo e cobiça.

Foto: Gonçalo Fabião

A BMW F 900 R é pois uma moto para todos também por culpa do preço e consumos. Reclamou 5,3 litros daquele líquido inflamável que faz a delícia dos dias por cada cem quilómetros de boa disposição adicionada aos nossos sentidos. A marca alemã pede 8.925€ pela versão base da F 900 R, sendo que a unidade provada que inclui os packs Active, Comfort, Dynamic, Touring tem um preço de 11.943€ .

terça-feira, 25 de agosto de 2020

A vitória de Oliveira vista lá fora

Domingo brilhou na pista austríaca. Ontem e hoje brilha nos cintilantes ecrãs dos aparelhos que nos ligam ao mundo. São palavras cheias, bonitas e inteiramente merecidas para quem tem dedicado uma vida inteira a um só ambicioso objectivo: vencer ao mais alto nível no motociclismo de velocidade. 


Vale desde logo a pena ler o influente jornalista Nacho Gonzaléz que escreve assim na MOTOCICLISMO espanhola (link): Fue una victoria más que merecida. Una carrera es lo que pasa desde que se apaga el semáforo hasta que cae la bandera ajedrezada, no hasta la última curva. Y en ese lapso de tiempo Oliveira tardó menos tiempo que nadie en base a una sencilla fórmula: fue tan rápido como los que más y cometió menos errores, una actuación perfecta que rubricó con una última curva magistral para dejar boquiabiertos a Miller, Espargaró y todo el mundo. No fue solo una victoria merecida, fue más que eso. Fue el triunfo de la humildad, del trabajo, de la dedicación de un tipo que procede de un país sin tradición en las dos ruedas, que carga sobre sí mismo el peso de una bandera y que ha pasado por momentos realmente duros en su trayectoria

Já o decano Mat Oxley escreve no MotorSport aquele que para alguns é o mais rasgado elogio feito até agora por parte da comunicação social estrangeira (link). Oxley explica aos menos atentos que Oliveira “não caiu do céu”. São muitos anos de trabalho, esforço e empenho. De Miguel e do seu pai Paulo. E remata: The 25-year-old is the new Andrea Dovizioso: highly intelligent, very thoughtful and cool, calm and collected. This is the attitude you need to succeed in MotoGP. And just like Dovizioso, he crashes very rarely – collisions excluded – because he knows when it’s worth taking risks and when it’s better to stay healthy and wait for better times.

Em países com cultura desportiva para além do futebol, os heróis são tratados assim. Este ESCAPE recomenda a leitura completa e atenta dos textos originais. 

domingo, 23 de agosto de 2020

Onde estavas quando choraste com a primeira vitória do Miguel Oliveira em MotoGP?

Dia de puxar dos lenços. E dos galões também. Dia difícil. Porque não é fácil traduzir por palavras o que sentimos no curto espaço que medeia entre aquela última curva do circuito austríaco e a bandeirada de xadrez. 


Sim, gritei. Pulei. Bati na parede. E chorei. E voltei a emocionar-me com o a subida ao pódio e o hino. O hino de um país que despreza o motociclismo. O mesmo hino do país de um rapaz de Almada que tem passado toda a sua vida a trabalhar árdua e honestamente para momentos como o de hoje: vencer, vencer de bandeira portuguesa ao ombro. Que lição! 

Puxar dos galões. É inevitável. São pouquíssimos aqueles que como eu acompanham desde sempre a carreira do Miguel. 2005, aqui (link) já acompanhava a carreira do Miguel, tinha ele 10 anos. 2008, aqui (link) escrevi que Miguel Oliveira seria no futuro o primeiro português campeão mundial de MotoGP. Não foi hoje, é verdade. Duvidei muito que essas minhas palavras se efectivassem. Hoje fiz as pazes. Fizemos as pazes com tanta coisa. E é tão bom fazer as pazes.

Puxar dos lenços. Nas últimas voltas da épica corrida de hoje o Miguel tinha dois objectivos. Segurar aquilo que seria o seu primeiro pódio. E, acontecendo, aproveitar a luta pela vitória que se desenhava bem na sua frente caso acontecesse um erro. E tudo o Miguel levou. A palavra chave até já tinha sido por ele enunciada: inteligência. 

Foi em casa. Entre um mergulho matinal na eterna Caparica e um almoço rápido antes de ir para o trabalho - sim, trabalho, ao domingo não e só para o Miguel, o rapaz honesto– que gritei, pulei e chorei. 

Apaixonante. Emocionante. Inesquecível. Revendo a corrida com a frieza possível, sabemos que esta é uma vitória não do momento mas sim do trabalho, do esforço, da dedicação, da paixão. De anos e anos a fio. Uma vitória inteiramente justa. Uma vitória do melhor piloto em pista neste dia. Uma vitória que sabemos será repetida no futuro, Uma vitória que nos faz sonhar. Ousar o aparentemente impossível. Em 2008 como hoje, escrevo: Miguel Oliveira será o primeiro português campeão mundial de MotoGP. 

Parabéns Miguel. Mas como bem sabes o trabalho ainda só agora começou. Como Camões escreveu um dia no canto X dos Lusíadas: que nunca te “falte na vida honesto estudo”.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

CFMoto 650MT Adventure à prova

O JP Cruz tinha uma Suzuki Gs 500. Tal como o Mano Mitra. O Markulinio uma Yamaha XJ 600S Diversion. E o Moniz a versão anterior, XJ 600 que com a sua semi-carnagem e farol quadrado…, parecia saída de um dos episódios da saga Mad Max. A minha primeira vez numa moto de verdade foi inesquecível, à pendura de uma Kawa GPz 550. E mais tarde tive uma Honda NTV 650.

Foto: Gonçalo Fabião

Motos como estas, médias cilindradas honestas, fáceis de utilizar e económicas, fizeram de nós e de toda uma geração belos motociclistas. Gente mais nova que nós teve oportunidade de conhecer e amar a Honda CB 500. Muitas ainda por ai andam, diariamente, em entregas e outros trabalhos. Uma passou por mim hoje de gás aberto a fazer inveja… 

Foto: Gonçalo Fabião

Não gostando de produzir este tipo de afirmações, pois cada um de si melhor saberá, desta feita o ESCAPE arrisca: comprar, desfrutar, viajar até, numa moto de média cilindrada boa e barata é um passo absolutamente fundamental para o ser em si de todo o motociclista. Notem: têm aqui uma bela e honesta oportunidade de o fazer. É pois para todos aqueles que um dia desejam ser motociclistas que a marca chinesa produz e comercializa esta bonita CFMoto 650, aqui provada na versão que ambiciona ser o mais abrangente possível. 

PRAGMATISMO RUMO AO FUTURO 
Antes de continuar, convém elucidar os menos atentos que a CFMoto tem cerca de três décadas de experiência no desenvolvimento de soluções de mobilidade de duas e quatro rodas designadamente naqueles estranhos veículos denominados de ATV e SSV, segmento onde proclama a liderança no mercado europeu. No mais, a CFMoto estabeleceu um largo acordo de parceria estratégica com a austríaca KTM, permitindo às duas gigantes, europeia e chinesa, crescerem de mãos dadas. O Mercado começará a conhecer os resultados desta surpreendente Joint Venture ainda este ano e…, preparem-se amigos: 2021 promete revelar uma pequena revolução a partir do trabalho conjunto entre estes dois colossos. 

Foto: Gonçalo Fabião

Mas…, e há sempre um mas…, tem de haver sempre um ponto de partida para o caminho ser realizado. Esta 650MT agora provada tem de ser interpretada como um passo necessário rumo a um Admirável Mundo Novo. Desenhada pela famosa casa austríaca Kiska Design, a CFMoto 650MT Adventure mostra roupagens modernas e evoluídas rumo ao futuro. Por baixo do manto e nalguns detalhes vamos, todavia, encontrar soluções já com alguns anos como é o motor de origem Kawasaki – Versys 650 – bem como o quadro que o suporta

Foto: Gonçalo Fabião

ESCOLA DE MOTOCICLISMO 
Com uma posição de condução demasiado conservadora (guiador pouco largo), o conforto de um banco demasiado estreito e de uma suspensão algo seca penaliza o comportamento agradável do conjunto onde a nota muito positiva vai para um bicilindrico sempre disponível e alegre - com injecção parametrizada pela Bosch, o motor oferece uns belos 70 cv às 8.750 rpm, e 62 Nm às 7.000 rpm - bem como para uma surpreendentemente precisa transmissão inicial e final. Já a protecção aerodinâmica é ineficaz e ruidosa e a travagem apenas cumpre. Como aspectos amplamente positivos, para além do motor e caixa, encontramos um grupo óptico que faz inveja a muita moto de classe e uma economia que é uma delícia

Foto: Gonçalo Fabião

Esta bela escola de motociclismo chamada CFMoto 650MT, solicitou apenas 4,3 litros daquele líquido inflamável que tanto adoramos por cem quilómetros de honestidade. A marca pede uma transferência bancária de apenas 6.990€ para levar esta sonhadora estrada fora nas aventuras do dia-a-dia, quem sabe até umas pequenas férias fora do país, como eu fiz a minha primeira aventura fora de Portugal, de NTV 650, em 1997, pelos belos Picos da Europa das Astúrias e Cantábria.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Mercado: a recuperação avança

São boas noticias. Confirmando o sinal positivo dado em Junho, mês onde o desconfinamento se fez notar nos números de vendas de forma bem positiva, Julho encerrou a confirmar a tendência. Em alta! 

Mas importa olhar com algum detalhe para os números – até porque este ESCAPE já não fazia este curioso exercício há alguns meses. Números que sublinho desde já são números oficiais ACAP, Associação Automóvel de Portugal. 

Julho passado fica então marcado por um crescimento de quase 11% face a Julho de 2019 no cômputo geral do mercado. No acumulado do ano – Janeiro a Julho – temos uma queda de menos de dez por cento face a igual período do ano passado, o que se pode considerar bem positivo pois durante dois meses as actividades comerciais estiveram praticamente paradas o que afectou duramente a venda de ciclomotores, motociclos, triciclos e quadriciclos em Portugal. 

Olhando apenas para o mercado das “cento e vinte e cinco” vemos um forte aumento de vendas face a julho de 2019 (mais 18%) o que confirma a chegada até nós de mais “cristão novos” convertidos ao motociclismo. O acumulado do ano aproxima-se do acumulado de 2019 com um decréscimo de apenas cerca de 3%. São números muito positivos tendo em conta a crise sanitária que ainda vivemos. Neste segmento de mercado a Honda mantém a liderança confortável, mas está vender menos quase 20% que no ano anterior e perde mercado de forma algo significativa para Keeway e Yamaha, ambas a crescer mais de dois dígitos. 

No que diz respeito aos motociclos como nós os conhecemos, isto é, acima dos 125cc, vale a pena olhar com maior atenção para os números, sendo precisamente estes que vão aqui apresentados em quadro. 


Na opinião deste ESCAPE, o numero a reter são os 13,2% de quebra do mercado nos primeiros sete meses deste ano face a igual período de 2019. Um número razoável tendo em conta a realidade da pandemia. 

Ora…, cotejando este número com o desempenho das diferentes marcas temos a Honda a manter a liderança mas a perder cota de mercado para Yamaha, que quase já vende tanto este ano como em 2019, e para a BMW que tem um desempenho excelente pois vende mais quase 9% face a idêntico período no ano passado, consolidado assim um lugar no podium de vendas 

A Benelli mantém um espantoso quarto posto estando em linha com o mercado, tal como Suzuki, Ducati e Husky. Negativo está a ser o exercício de Kawasaki, KTM, bem como de H-D e Triumph, estas últimas fora do top-ten e com penetrações de mercado inferiores a 2%. 

Última nota para a grande surpresa desta tabela: Zontes. A marca chinesa nascida já neste século está a duplicar as vendas face ao ano passado, tendo já um lugar no top-ten ameaçando mesmo alguns emblemas históricos

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Ducati Streetfighter V4 S à prova

Quão difícil será escrever sobre uma moto? Quão fácil será escrever sobre uma moto? Nunca saberemos, se não experimentarmos. Depois da primeira, segunda, terceira, será sempre fácil? Ou continuará difícil? Não sei, experimentem. Enquanto enrolava o punho direito da Streetfighter V4 S contra o vento, pensava nestas e noutras inquietudes. E recordava…, um dia em mil novecentos e noventa e três. Ou terá sido noventa e quatro? 

Foto: Gonçalo Fabião

Esse dia, algures numa manhã de domingo de Janeiro frio e cinzento como costumavam ser os domingos de Janeiro no passado, está gravado a ouro na minha memória. Gravado também nesse blogue. Aqui (link). 

Relembrando o essencial do que prevalece na minha memória, estava com um grupo de motociclistas do Moto Clube de Lisboa em Missão Pingüínos. Não me lembrando de todos os detalhes, todavia recordo-me bem de quando o Miguel me passou os comandos da luminosa Ducati 888 para as mãos, algures perto da espanhola Ciudad Rodrigo. De repente parecia que tinha novamente oito ou nove anos e era noite de Véspera de Natal, ou de Dia de Reis já que estávamos no país do lado. 

Foto: Gonçalo Fabião
De Ciudad Rodrigo arranquei num ápice até à fronteira portuguesa. À época terão sido os vinte ou trinta quilómetros mais felizes da minha curta vida de motociclista. A posição de condução estupidamente agressiva contrastava com a aborrecida quietude da minha Yamaha XV 250 Virago; o ronco poderosíssimo do V-twin desmodrómico esmagava o som palerma do meu “V2zinho” japonês. O violento mas preciso safanão daquela transmissão italiana ridicularizava a desafinação da corrente do meu “piano”. Não era um sonho de adolescente. Não, eu abria gás até onde podia e sabia num míssil italiano vestido de vermelho garrido. 

Foi assim a minha primeira vez. De Ducati. Inesquecível. Como tendencialmente são todos os momentos “ducatisti”. Sim! São poucas as fábricas de motos que nos arrebatam assim. 

DESPIDA PARA A LUXÚRIA 
Sejamos honestos. A Ducati Streetfighter V4 S é uma Panigale V4 despida para a luxúria. Despida e fofinha. Pois face à Panigale as peseiras estão recolocadas, os avanços trocados por um guiador no lugar certo e, enfim, encontramos um banco digno desse nome que surpreende pelo conforto. Estes três pequenos detalhes seduzem motociclistas como eu, mais habituados a outras posturas. São aconchegos que acabam por nos matar…, de paixão!

Foto: Gonçalo Fabião

Nesta gladiadora puro-sangue, o motor V4 de 1103cc oferece uns dramáticos 208 CV e outros tantos apaixonantes 123 Nm às 11.500 rpm. A unidade motriz está montada num minimal quadro de alumínio servindo (o motor, recordamos) de elemento estrurante de todo o conjunto. A travagem é tanto ou mais luxuosa que o propulsor: Brembo com pinças Stylema monobloco de montagem radial de quatro êmbolos. Sempre muito eficazes. 

QUANDO O DIGITAL NOS AMA 
Dotada de IMU de seis vias, a eletrónica tem obviamente forte presença e organiza, disciplina e oferece segurança a todo o conjunto, a saber: ABS Cornering EVO; Ducati Traction Control (DTC) EVO 2; Ducati Slide Control (DSC); Ducati Wheelie Control (DWC) EVO; Ducati Power Launch (DPL); Ducati Quick Shift para cima/para baixo (DQS) EVO 2; Engine Brake Control (EBC) EVO. 

Foto: Gonçalo Fabião

A Streetfighter V4 existe em duas versões. Esta versão S provada difere da versão base (três mil euros mais acessível) pois monta suspensões eletrónicas Öhlins – forquilha NIX30 e amortecedor TTX36 - com controlo do software Öhlins Smart EC 2.0 e ainda amortecedor de direção também ele eletrónico, para além de jantes Marchesini de suave alumínio luxoso . 

O PRAZER COMO BEM SUPREMO 
Tudo isto revelou uma moto sem apetite por estar imóvel e muito menos apetite por ténues andamentos. A Ducati Streetfighter V4 S clama por andamentos vigorosos em estradas de curvas largas, rápidas e desafiadoras ou, em alternativa, dias de pista à beira da paixão e do abismo, como a vida deve ser vivida. Um café, pela calada da noite com aqueles amigos de sempre, ou uma rápida viagem de fim-de-semana por exóticas montanhas ondulantes também estão no seu horizonte. Hedonismo. Hedonismo é o nome de código desta jóia de Borgo Panigale, inspiradíssima nos Grandes Prémios, como afirmam corajosamente as suas asas laterais. 

Foto: Gonçalo Fabião

Se notam embargo nos meus caracteres, notam bem. É difícil, muito difícil plasmar em palavras o que esta deslumbrante Ducati Streetfighter V4 S me ofereceu nos dias que me encantou, solicitando apenas cinco litros e meio do tal líquido inflamável que o nosso sangue pede para nas veias latejar. São necessários debitar à nossa conta bancária 23.545€ para nos fazermos notar como vos acabo de contar, de forma inolvidável.
Site Meter