A CFMoto 1000MT-X não é apenas mais uma novidade no segmento das trail de grande cilindrada. É sim o modelo com que a marca chinesa assume, sem rodeios, a ambição de competir no patamar mais exigente do mercado adventure europeu.
Até aqui, a CFMoto construiu grande parte da sua reputação oferecendo um nível de equipamento difícil de igualar pelo preço pedido. Com a 1000MT-X, a estratégia evolui. O foco deixa de estar apenas na proposta de valor e passa a centrar-se na credibilidade técnica, no comportamento dinâmico e na capacidade de enfrentar rivais estabelecidas de igual para igual.
Olhar para esta moto apenas como “uma chinesa inspirada na KTM” é uma leitura redutora. O que está verdadeiramente em causa é a tentativa da CFMoto de consolidar uma plataforma adventure de alcance global, apoiando-se na experiência industrial adquirida ao lado da KTM, numa engenharia cada vez mais madura, numa forte capacidade de integração tecnológica e numa agressividade comercial que muitos fabricantes tradicionais parecem ter perdido.
RUMO AO TOPO
Dentro da gama MT, a CFMoto 1000MT-X assume naturalmente o lugar de topo. É a nova referência da família adventure, a montra tecnológica da marca e, provavelmente, o modelo que mais irá influenciar a perceção da CFMoto na Europa. Porque lançar uma trail de pequena cilindrada é relativamente simples; convencer motociclistas experientes a atravessar continentes, enfrentar pistas remotas e acumular dezenas de milhares de quilómetros numa maxi-trail é um teste de outra dimensão.
A estratégia é clara. Enquanto algumas marcas continuam a empurrar o segmento para motos cada vez mais caras, sofisticadas e pesadas, a CFMoto apresenta uma proposta que procura combinar a presença e o desempenho de uma maxi-trail com um posicionamento económico significativamente mais competitivo. Se resultar, poderá obrigar muitos concorrentes a repensar a sua oferta.
Também a configuração da moto revela intenções sérias. As rodas de 21 polegadas à frente e 18 atrás, as suspensões de longo curso, a ergonomia vertical e a distribuição das massas denunciam uma verdadeira vocação para utilização fora de estrada. A 1000MT-X aproxima-se mais da filosofia de uma adventure preparada para enfrentar terra e longas expedições do que de uma simples estradista com estética aventureira.
O motor, um bicilíndrico paralelo de 946,2 cc com cerca de 113 cv e 105 Nm de binário, evidencia igualmente essa abordagem. Mais do que procurar números impressionantes no topo da rotação, privilegia uma entrega de força consistente nas médias rotações, precisamente onde uma moto deste género passa a maior parte da sua vida útil.
PONTO DE VIRAGEM?
Na ciclística, o quadro tubular em aço cromomolibdénio, as suspensões KYB totalmente ajustáveis e o sistema de travagem Brembo com ABS em curva suportado por uma IMU Bosch colocam-na num nível técnico que já não admite condescendência. Não se trata de equipamento surpreendente “para uma moto chinesa”; trata-se, objetivamente, de equipamento de topo.
O mesmo se aplica à eletrónica. Modos de condução, controlo de tração, quickshifter bidirecional, cruise control, monitorização da pressão dos pneus, painel TFT de oito polegadas, conectividade, punhos e assento aquecidos fazem parte de uma dotação que rivaliza diretamente com motos substancialmente mais caras.
Apesar disso, a verdadeira prova não será passada na ficha técnica. Será decidida na estrada. A reputação continua a construir-se com quilómetros, fiabilidade, disponibilidade de peças, qualidade da assistência e confiança conquistada junto dos proprietários. É precisamente aí que a CFMoto ainda tem de demonstrar que consegue competir com marcas cuja credibilidade foi construída ao longo de décadas.
Há riscos que não devem ser ignorados. A elevada complexidade eletrónica levanta dúvidas sobre o comportamento a longo prazo, os 222 kg em ordem de marcha continuam a fazer-se sentir quando a moto vai ao chão e, como acontece com qualquer plataforma nova, só o tempo permitirá avaliar a sua robustez e o valor residual no mercado.
Por outro lado, o potencial é enorme. A combinação entre equipamento, desempenho e preço torna a 1000MT-X uma das propostas mais competitivas do segmento, precisamente numa altura em que muitos motociclistas mostram saturação perante a escalada de preços e a crescente elitização do mercado.
Se corresponder às expectativas em utilização real, a CFMoto 1000MT-X poderá marcar um ponto de viragem. Não apenas para a marca, mas para todo o setor, demonstrando que os fabricantes chineses deixaram definitivamente de ser vistos como alternativas económicas para passarem a ocupar um lugar entre os protagonistas do universo adventure.
QUATROCENTOS QUILÓMETROS PARA PRIMEIRO CONTACTO
Fomos então convidados pela Multimoto para conhecer a moto e levantar a unidade de prova nas instalações da Oliveira de Azeméis. Foi um dia agradável, rodeado de pessoas que vivem intensamente o motociclismo e de uma empresa que há muitos anos se mantém entre os principais protagonistas do mercado nacional.
E quando finalmente encontrei a CFMoto 1000MT-X nas instalações da Multimoto, percebi imediatamente que as fotografias não lhe fazem justiça. A moto é grande. Muito mais imponente ao vivo do que parece nos ecrãs. É alta, larga, cheia de presença e transmite uma sensação de solidez difícil de ignorar. As suspensões totalmente ajustáveis, a travagem Brembo e o enorme depósito de combustível compõem um conjunto que parece dizer, sem necessidade de palavras, que veio para jogar noutra divisão.
A partir daí começava aquilo que realmente interessa. A estrada. Decidimos regressar a Lisboa por estradas nacionais. O dia estava quente, muito quente, e a ideia era simples: conhecer a moto sem pressas, procurar o litoral e deixar que os quilómetros revelassem aquilo que nenhuma ficha técnica consegue mostrar. E revelaram.
Logo nos primeiros 150 quilómetros começaram a surgir as primeiras certezas. E também os primeiros pontos que merecem ser revistos. Vamos começar pelo mais evidente. O calor. É um tema que não vale a pena esconder porque existe. Em determinadas circunstâncias, sobretudo em cidade, a baixa velocidade ou quando as temperaturas exteriores são elevadas, existe calor a chegar à zona das pernas. Não acontece constantemente. Não transforma a experiência numa tortura. E durante a esmagadora maioria do tempo, sobretudo em andamento normal, simplesmente desaparece. Todavia quando aparece, nota-se.
E sendo um modelo tão competente em tantos outros aspetos, é um detalhe que merece atenção da marca em futuras evoluções. Outro aspeto que encontrámos prende-se com algumas pequenas indecisões eletrónicas ao nível da gestão da entrega de potência. Nada de dramático, nada que comprometa a utilização, no entanto existem momentos pontuais em que se percebe que ainda há margem para afinar determinados comportamentos nomeadamente a nível da entrada do controlo de tração.
Já no capítulo da instrumentação, encontramos um painel TFT de oito polegadas extremamente completo, moderno e rico em informação. Pessoalmente, continuo a preferir soluções menos dependentes da digitalização absoluta de todas as funções da moto. E também tenho de reconhecer aquilo que encontrei aqui. Pela primeira vez em muitos anos de testes, consegui emparelhar rapidamente o meu telefone e utilizar o Apple CarPlay sem dramas, sem complicações e sem perder tempo. E isso permitiu-me fazer toda a viagem até Lisboa com navegação integrada de forma simples e eficaz. Uma pequena vitória tecnológica que merece ser assinalada.
QUALIDADE INQUESTIONÁVEL
Passemos ao essencial. Àquilo que verdadeiramente define esta moto. O motor impressiona. Tem força em toda a faixa de utilização, responde com vigor sempre que solicitado e apresenta uma sonoridade agradável, ainda que inevitavelmente condicionada pelas exigências da norma Euro 5+.
As suspensões são excelentes. A travagem é excelente. A afinação geral do conjunto transmite uma maturidade surpreendente. Apesar da sua dimensão, a 1000MT-X nunca parece excessivamente pesada. A baixa velocidade mantém-se previsível e fácil de gerir. Em andamento ganha uma leveza inesperada para uma moto desta categoria.
E depois surgem as curvas. E é aí que muitos preconceitos começam a cair. A 1000MT-X curva muito melhor do que a sua aparência sugere. Os Pirelli Scorpion Rally STR assentam-lhe de forma distinta e ajudam a criar uma confiança imediata. Tanta, aliás, que em vários momentos dei por mim a imaginar esta moto equipada com pneus puramente de estrada. Na minha opinião, a verdadeira vocação da CFMOTO 1000 MT-X não está nos trilhos apertados nem nos caminhos técnicos. Está na viagem. Está nas estradas secundárias. Está nos milhares de quilómetros percorridos com conforto, estabilidade e prazer. Utilizei vários capacetes diferentes durante o ensaio e nunca senti razões para criticar a proteção aerodinâmica do conjunto. Também realizei bastantes quilómetros com pendura e a sensação geral foi sempre muito positiva. Como em qualquer moto, a carga e a presença de malas vão obrigar a pequenos ajustes de ritmo e afinação, mas o conforto geral esteve sempre a um nível elevado.
Outro aspeto que merece destaque é o consumo. Porque a MT-X consegue algo raro: combinar prestações muito convincentes com consumos surpreendentemente baixos. Em utilização normal, pouco mais de quatro litros por cada cem quilómetros são perfeitamente alcançáveis. Mesmo quando o ritmo sobe, ultrapassar os cinco litros exige já alguma determinação.
E QUANTO AO FORA DE ESTRADA?
Aqui importa ser honesto. Fiz pouco. Muito pouco. Não porque a moto não seja capaz. E sim porque, para o tipo de utilização off-road que encontramos habitualmente em Portugal, existem soluções mais leves, mais simples e mais adequadas. Agora, se falarmos de grandes viagens, de estradões rápidos, de travessias continentais, de Marrocos, ou até quem sabe da Rota da Seda, da Ruta 40 ou de qualquer aventura onde a distância pesa mais do que a dificuldade técnica, então a conversa muda completamente.
E aí a MT-X revelará ter argumentos muito sérios. Há ainda uma ideia que merece ser desmontada. A de que esta moto é simplesmente uma evolução da 800. Não é. Não estamos perante uma 800 maior. Estamos perante uma moto diferente. Com outra missão. Outro posicionamento. Outro nível de equipamento. Outro nível de acabamentos. Outra ambição. A 1000 MT-X não substitui a 800. Convive com ela. E dirige-se a um motociclista diferente.
É ESTA A MOTO COM QUE SONHAVAS?
Talvez seja precisamente aqui que reside a sua importância. Porque esta moto não representa apenas um novo modelo. Representa uma declaração de intenções. A CFMOTO está a dizer ao mercado que pretende sentar-se à mesma mesa das referências históricas do segmento por um preço de 10.490€. E, mais importante ainda, está a apresentar argumentos para o fazer. Ainda é cedo para saber se será a moto do ano. Todavia seria um erro não a colocar imediatamente nessa conversa. Porque poucas motos lançadas recentemente conseguiram provocar tanto debate, tanta curiosidade e tanta reflexão.
E depois de vários dias e centenas de quilómetros na sua companhia, uma conclusão tornou-se inevitável. Se hoje estivesse à procura de uma grande viajante para ocupar a minha garagem, a CFMOTO 1000 MT-X entraria imediatamente na lista de finalistas. E não entraria por ser chinesa. Nem por ser diferente. Entraria porque é, simplesmente, uma moto muito competente.
Raterometro ******** (8/10)














Análise muito boa e isenta, tal e qual nos tem habituado. Cumprimentos e saúde.
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