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quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Saltos para o perigo

Há um movimento que vejo, todos os dias, nas entradas das vias rápidas de Lisboa: o condutor que chega à denominada faixa de aceleração e, sem integrar-se no fluxo, “salta” cedo demais e sem velocidade adequada para a faixa 1. Se não há “rampa”, faz o mesmo da faixa 1 para a faixa 2. É um gesto curto, instintivo — um abrir de portas numa sinfonia de latas —, mas as consequências são longas e às vezes trágicas. Para quem vai de moto, esse salto pode ser sobretudo uma sentença: espaço reduzido, diferenças de velocidade, ângulos mortos — e, nalguns casos, impacto frontal ou lateral numa travagem em cadeia. 


A evidência não é só minha: o IC19 foi identificado como a via com mais pontos negros em Portugal (relatórios ANSR/2018), com vários troços onde os acidentes são persistentes; isso não é coincidência, é sinal de problemas estruturais e comportamentais que convergem. 

O PROBLEMA — EXPLICADO SEM RODEIOS 
Quando um veículo abandona prematuramente a faixa de aceleração e entra na faixa 1 sem ter alcançado uma velocidade adequada ou sem ter espaço suficiente para se inserir, cria-se: 
1. Diferença de velocidade entre o veículo que entra e o fluxo principal — risco direto de colisão.
2. Travagem súbita em quem vem atrás quando tenta evitar o corte — efeito “concertina” que se propaga rio acima. 
3. Manobras evasivas em sucessão (faixa 1 para 2, 2 para 3…) — multiplicam-se zonas de conflito e ângulos mortos onde as motos ficam invisíveis. 

Os números mostram um quadro preocupante: o relatório anual da ANSR 2023 regista dezenas de milhares de acidentes com vítimas em Portugal e um aumento generalizado de sinistralidade em vários segmentos. 

POR QUE RAIO É QUE ISTO ACONTECE? UMA LEITURA MULTIDISCIPLINAR
Psicologia: pressa, stress e overconfidence 
A pressa quotidiana — hora do trabalho, prazos, ansiedade — empurra condutores a atalhos arriscados. A literatura sobre comportamentos de risco no tráfego associa pressão temporal e impaciência a violações e mudanças de faixa precipitadas; muitos condutores também exibem excesso de confiança (acham que “cabem” onde não cabem). Estas não são desculpas, são explicações que ajudam a desenhar soluções. 

Engenharia: rampas curtas, visibilidade limitada, geometria conflituosa 
Muitas entradas urbanas (VCI a norte, 2.ª Circular, IC19, acessos à Ponte 25 de Abril) têm rampas curtas, ângulos de visibilidade reduzida ou troços onde se exige cruzar várias faixas em pouco espaço. Estudos técnicos repetem o mesmo: faixas de aceleração curtas aumentam a probabilidade de conflitos e de acidentes, porque não dão tempo suficiente para acelerar e procurar “gap” seguro. A solução passa por redesenho e dimensionamento racional das rampas. 


Cultura e prática social: “ninguém facilita” e a corrida por posição 
Há uma lógica social nas estradas: se eu não me adianto, o outro fecha-me a porta. Isso gera competição por espaço — um feed-back negativo que incentiva cortes e “fechos”. A perceção de impunidade (fiscalização ténue, pouco civismo) reforça o comportamento. 

Dinâmica de tráfego: o efeito concertina / shockwave 
Uma entrada mal coordenada cria uma ondulação de travagens — a famosa onda que viaja para trás no trânsito (“traffic shockwave” ou efeito concertina). Esses “pulsos” de travagem aumentam o risco de colisões traseiras e amplificam o caos em frações de segundo. Para quem vai de mota, essa ondulação é traiçoeira: menos tempo de reação, menos margem para evitar um veículo que corta a faixa. 

PROVAS LOCAIS (LISBOA) — EXEMPLOS QUE CONHEÇO BEM 
• IC19: repetidamente apontado como troço crítico, com vários “pontos negros” identificados em relatórios e análises nacionais; alguns troços concentram acidentes graves por baixa visibilidade e entradas conflituosas. 
• 2.ª Circular: acidentes multiplicam-se em rampas e zonas de confluência; notícias recentes mostram colisões com vários veículos e impacto direto na fluidez da cidade.
• Ponte 25 de Abril / acessos: os nós de entrada/saída são locais críticos — a presença de câmaras e tráfego intenso confirma o risco operativo nesses pontos. 

O QUE PODE (E DEVE) SER FEITO — RECOMENDAÇÕES PRÁTICAS 
Para condutores (carros)
1. Usar a faixa de aceleração como foi pensada: acelerar para o fluxo, observar, sinalizar com antecedência e só integrar quando existir “gap” adequado. 
2. Evitar fechamentos agressivos: facilitar quem entra quando possível; a cooperação reduz tempos e acidentes. 
3. Planear a manobra: se a rampa é curta, reduzir a necessidade de corte antecipado — ganhar tempo e espaço antes da confluência. 
4. Mentalidade defensiva: assumir que há motos nos ângulos mortos e reduzir velocidade se houver qualquer dúvida. 

Para motociclistas 
1. Posicionamento visível: circular mais à direita da faixa (quando seguro) para aumentar a visibilidade lateral e reduzir o risco de ser “fechado”. 
2. Evitar “filtrar” arriscado em troços de confluência — escolher momento de passagem com margem lateral e velocidade compatível. 
3. Sinalizar cedo e usar equipamento de alta visibilidade, especialmente em túneis e rampas com má luz. 4. Antecipar turbulência: ao aproximar-se de entradas com muito tráfego, diminuir a velocidade de forma controlada para ganhar margem de manobra. 
5. Formação contínua: cursos de condução defensiva específicos para motociclistas, com ênfase em inserções e interações com tráfego pesado. 

Para autoridades e planeadores 
1. Revisão do desenho das rampas: alongar e redesenhar faixas de aceleração onde possível; melhorar visibilidade e ângulos de inserção. Estudos mostram que aumentar o comprimento da aceleração reduz conflitos. 
2. Fiscalização focalizada em nós críticos (IC19, 2.ª Circular, acessos à Ponte 25 de Abril, VCI). 
3. Campanhas de sensibilização que enquadrem a condução como acto colectivo — “facilitar salva vidas”. 
4. Intervenções de tráfego (sinalética, iluminação, marcações e dispositivos de redução de velocidade nas zonas de confluência). 
5. Monitorização por vídeo e mapas de risco: identificar troços com frequência de travagens súbitas e corrigi-los sistematicamente. 

Checklist rápido (para colocar no “dash” da tua moto) 
• Posiciono-me para ser visto? 
• Tenho espaço lateral suficiente?
• Sinalizo cedo?
• Evito mudanças bruscas de faixa em confluência? 
• Reduzo velocidade antes de zonas de entradas? 

Se a resposta a alguma destas perguntas for “não”, ajusta — a diferença pode ser entre chegar a casa e não chegar. 


Não é só incompetência ou azar. É um nó de causas: pressa, infraestruturas mal pensadas, cultura de estrada e dinâmica física do tráfego. Quando um condutor “salta” cedo da “rampa”, pode não imaginar que está a puxar a mola de uma reacção em cadeia que acerta sobretudo em quem tem menos blindagem — os motociclistas. Conhecer o fenómeno, olhar para os mapas, exigir melhores estradas e treinar condutores é o mínimo que se deve esperar de uma cidade que se diz moderna. 

Fontes (seleção) 
• ANSR — Relatórios e identificação de pontos negros (IC19).
• Relatório Anual ANSR 2023 — sinistralidade e evolução de vítimas. 
• Notícias e análises sobre o aumento de vítimas em motociclos (2023). 
• Estudos técnicos sobre comprimento de faixas de aceleração e segurança de fusão. 
• Conceito e efeitos das ondas de tráfego / efeito concertina (FHWA, teoria do fluxo). 
• Artigos e notícias sobre colisões na 2.ª Circular e pontos críticos locais.

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Experiência Moto Morini Douro 2023

A lenda do arco-íris assume diferentes dimensões consoante o tempo, povos e lugares. Normalmente dizemos que lá no fim do arco-íris existe um pote cheio de moedas de ouro. Para nós, motociclistas, o fim do arco-íris, onde vamos encontrar fortuna e glória, costuma ficar em lugares distantes onde vamos em busca de estradas idílicas e momentos de condução inesquecíveis. Sucede, que por vezes nos esquecemos de procurar bem em locais próximos, não muito longe de casa. Esta é a micro história de um pequeno grupo de motociclistas que encontrou o seu pote de ouro. E afinal, o fim do arco-íris estava bem mais perto de casa do que imaginávamos. 


Rumo à fortuna, em tempo de canícula, saímos de Lisboa por volta da hora de almoço no conforto do ar condicionado de um comboio que podia ser mais rápido. Chegados à cidade do Porto, tínhamos logo ali à porta da estação, os veículos alados que nos iriam oferecer uma viagem tão simples quanto épica e quem sabe inesquecível. 

De forma sucinta, este ESCAPE já vos contou (aqui) a história da famosa Moto Morini. Na verdade a aventura da Moto Morini inicia-se em 1937 em Bolonha sendo que hoje, e desde Outubro de 2018, a empresa é uma subsidiária do Zhongneng Vehicle Group, normalmente conhecido como grupo ZNEN. De sublinhar que apesar do capital ser chinês a empresa mantém a sua operação onde sempre esteve: Itália. De sublinhar que a Moto Morini está neste momento a mais do que triplicar as vendas no mercado nacional, face igual período do ano anterior (Janeiro-Julho) – é pois provável que estejam a fazer as coisas bem feitas, como se exige a qualquer marca histórica. 

DOURO FAINA FLUVIAL 
Neste dia as motos à nossa disposição eram três Moto Morini X-Cape 650, todas elas ligeiramente diferentes entre si. Aqui no ESCAPE já conhecíamos o modelo (link). Para além destas tivemos ainda oportunidade de provar a despida Seiemmezzo nas suas duas versões, Seiemmezzo STR - de inspiração urbana e estradista - e Seiemmezzo SCR, uma naked com alma scrambler com pretensões inclusivas e polivalentes. Fichas técnicas? É aqui por favor (link). 

Rumo à fortuna que ainda não sabíamos que iríamos encontrar, a saída do Porto foi feita junto à margem esquerda do Douro, rio intenso que nos iria acompanhar nas horas seguintes pela sinuosa Nacional 108. Neste dia a N108 apresentou-se tão rápida quanto quente. Entre-Os-Rios recebeu-nos já em modo “40 graus à sombra”. Tempo para hidratar. E trocar a já conhecida X-Cape pela Seiemmezzo STR. Esta acompanhou me pela primeira incursão na agora famosa Nacional 222, já na margem esquerda do Douro, até Porto Antigo, onde o Rio Bestança encontra Douro. A STR foi uma das surpresas da jornada. Com base idêntica à trail, a moto foi muito bem trabalhada na electrónica e nas relações de caixa de velocidades. O resultado é uma medida cilindrada fácil de entender, rápida, eficaz e muito divertida.


Já com o sol a cair no horizonte, ainda tínhamos pela frente cerca de hora e meia de viagem até um segredo demasiadamente bem guardado chamado Quinta das Tecedeiras. Até lá, lambemos o troço da N222 que parte de Resende. Acenamos ao longe a Peso da Régua, deixamos um até amanhã ao Pinhão e rumamos às “portas do Éden”. 

A subida para Ervedosa do Douro já se fez com o sol a beijar o cume das montanhas eternas do Alto Douro Vinhateiro. O forte odor a vinha e os tons alaranjados do horizonte juntavam se às sensações que a agora Seiemmezzo SCR, a scrambler, me oferecia. A pele começou a arrepiar e os meus colegas de viagem sentiram, tal como eu, a energia mágica que ali dançava. 

E FEZ-SE MAGIA
Mesmo antes de iniciar a descida estreita e dramática para a Quinta das Tecedeiras que fica junto à margem esquerda do Douro, parámos para beijar o por do sol. E fez-se magia. Ainda há cerca de oito horas estávamos no monótono centro de Lisboa e agora estávamos ali, a encher os bolsos com as moedas de ouro que tínhamos encontrado no tal pote do “arco-íris” do dia. Ricos, eufóricos e inebriados, descemos que nem loucos a estrada torta como as serras. Dei graças aos deuses do motociclismo por ter escolhido para este troço a Seiemmezzo SCR com jante de raios e uma posição de condução correta oferecida por um guiador algo elevado que até permite a condução apeada

Já nas Tecedeiras a noite veio ao nosso encontro. Um ambiente familiar. Vinhos da terra. Comida honesta. Motociclismo falado. Dia épico? Sim, no mínimo brindamos a este dia provavelmente inesquecível. Por falar nisso e antes que me esqueça: obrigado a todos. E vamos ali tomar uma banhoca e dormir um bocadinho. 

VALE ENCANTADO 
No dia seguinte o sol no vale do Douro nasceu cedo, fresco e docemente doirado. Pequeno-almoço tomado subia agora o que ontem tínhamos descido. Rapidamente demos um abraço ao Pinhão. Voltei a optar pela trail, claramente apta para o terreno misto e sinuoso. Na Régua despedíamo-nos da agora reconhecida mundialmente 222, rumando a mais uma gema, um snack de Estrada Nacional 2. Um luxo aquela subida incrível para Santa Marta de Penaguião. 

Voltei aos comandos da Seiemmezzo STR e desta vez abusei. Deixei uns riscos profundos, em curvas para a esquerda, no asfalto da espinha dorsal rodoviária portuguesa. Este troço é absolutamente incrível. Há muitos anos que não o fazia para Norte, a subir, onde todos nós sentimos mais confiantes.

Todavia o banquete de curvas e asfalto estava longe de terminar. A Nacional 15 foi o destaque seguinte. Atravessar aqui a lindíssima Serra do Marão, é respirar o oxigénio produzido por aquele que é provavelmente o último pedaço de floresta pré histórica de Portugal continental. Este troço de N15 é verdadeiramente bíblico. Uma viagem no tempo. E decidi fazê-lo na SCR. Curva, gás, toque ligeiro no travão traseiro, curva, gás, uma, outra e outra vez. Já disse bíblico?

TRABALHO E PAIXÃO 
De alma e barriga cheia, num ápice sentimos que o nosso sonho realidade estava a prestes a findar, quando perto de Amarante entramos na auto-estrada, que tínhamos conseguido evitar até aqui. Aproveitei um abastecimento para voltar à X-Cape. Rapidamente me descobriram “a careca”, pois em moto despida é tudo muito bonito, todavia a via rápida pede protecção aerodinâmica. E assim fomos até Matosinhos. De sorriso nos lábios e rumo à francesinha que não pode faltar para qualquer alfacinha que visite a Invicta. 

Já nas instalações da Puretech - agora responsável pela importação e divulgação da histórica Moto Morini - ficamos a conhecer melhor os cantos a uma casa que se faz de trabalho e paixão. 


Esta foi a micro história de um pequeno grupo de motociclistas que encontrou o seu pote de ouro numa viagem rápida todavia intensa e até deslumbrante, onde a qualidade e desempenho das Moto Morini ficou claramente demonstrado. Afinal o fim do arco-íris estava mais perto de casa do que imaginávamos. Encontrá-lo exige, no entanto, trabalho e paixão, como encontramos na Puretech. O ESCAPE só pode agradecer. Obrigado a todos.

segunda-feira, 28 de março de 2022

Experiência Honda NT1100 Tour Ibérico – primeira parte

O que é um cético? É uma pessoa que não acredita, que duvida ou se apresenta como incrédulo e descrente; um indivíduo que questiona uma ideia ou teoria com base na sua popularidade ou na autoridade que anuncia ou impõe essa ideia. Numa palavra, o cético é aquele sujeito que costuma questionar as verdades absolutas ou popularmente aceites. Relativizar é um bom hábito, diria… 


A nova Honda NT1100 tem, de forma natural, sido um dos destaques dos últimos tempos. Uma moto que assumiu rapidamente uma posição dominante nas conversas entre motociclistas, desde logo porque a marca japonesa a anunciou como “uma nova referência para o segmento Touring”, aquela que é uma fatia de mercado bastante relevante (ao arrepio do que alguns dizem…). 

Num primeiro texto aqui no ESCAPE (link), este vosso cético escriba colocava alguns pontos de interrogação na novidade nipónica, ao mesmo tempo que afirmava que “a nova era do Touring não o é por si própria (…) ou então, provem-me apenas que estou errado. E deixem-me entender que esta moto com as cores dignas da tal perfeita monotonia eficaz, inaugura de facto um novo tempo para o turismo de moto”. 

Passados quatro meses tive enfim oportunidade de provar a NT1100 na sua versão DCT (link). Dessa prova “resultaram duas consequências: primeira, hoje, o conceito de mototurismo alterou o seu centro geodésico deixando cair alguns aspectos como o carácter de superação e a própria genuinidade. Segunda consequência: pelo sim pelo não encomendei uma NT 1100 DCT à Honda Portugal cá para casa…, não vá eu estar profundamente enganado e a marca ter mesmo razão quando afirma “só tem de pensar numa coisa. Para onde, e até onde, quer ir?”.”. 


Tudo certo. Nada errado. No ceticismo científico existe a necessidade de certificação de crenças a partir da submissão destas a diferentes métodos científicos que possam confirmá-las ou não. Agora em português cognoscível: digo e repito, a ideia que tinha naquele momento é que na Honda NT1100 “não há deslumbre, todavia há uma sensação de competência, dever cumprido, e acima de tudo de uma facilidade de utilização que chega a ser desconcertante”. 

Foi neste estranho enquadramento de moto que anuncia uma nova era das quais (moto e era) eu duvido…, de moto por mim encomendada…, de moto sucesso imediato…, de moto nova que nunca mais chega…, que surgiu o simpático convite por parte da marca para integrar, com outros elementos da comunicação especializada, um Tour que se assume como "iniciativa ímpar a nível ibérico que permita evidenciar todos os atributos da NT1100 (…) aproveitando ao máximo estradas e paisagens merecedoras de todos os encómios e distinções, como as escolhidas para este evento que nos levou do Porto a Madrid”. Meus caros: sejam pois muito bem-vindos à Honda NT1100 Iberia Tour Experience.

[O que vão ler a partir daqui é um texto por nós adaptado que parte de um comunicado de imprensa, boletim de imprensa ou press release, como lhe quiserem chamar. Isto é, uma comunicação feita por um indivíduo ou organização visando divulgar uma notícia ou um acontecimento] 

A REAL COMPANHIA DO DOURO 
No primeiro dia desta experiência fomos do coração do Porto até à belíssima aldeia de La Alberca, em viagem de 346 quilómetros plenos de motivos de interesse, bordeando o rio Douro. O mesmo que, em tempos idos, servia de autoestrada para o transporte do vinho desde o Alto Douro Vinhateiro até às caves do Vinho do Porto. Relicários de uma história de paladar realmente único que, provado na véspera, nos acompanhará ao longo do primeiro dia de viagem. 

Saídos do hotel Eurostars Porto Douro com tempo seco, um último olhar sobre a vista privilegiada para o Douro e para as caves de Vinho do Porto, aproveitando para uma última imagem tendo por pano de fundo um dos mais importantes símbolos do Porto, a Ponte Luiz I. Deixamos a cidade para trás, ganhamos tempo rumo a algumas das mais divertidas estradas nacionais através da autoestrada, rapidamente chegados a Amarante através da A4, via que demorou décadas a cumprir o prometido ponto final ao isolamento do interior. 


Saímos da A4 rumo ao verdadeiro início deste majestoso périplo, com cerca de 75 km rodados, descendo a deslumbrante Estrada Nacional 101 em direção a Mesão Frio, um dos pontos fulcrais na produção dos melhores e mais encorpados vinhos tintos e do Porto. A estrada que vai rasgando a encosta nascente da Serra da Aboboreira, sempre de olhos postos na Serra do Marão, leva-nos para o coração do Alto Douro Vinhateiro, através de troços bem conhecidos do ciclismo, com os famosos altos de Teixeira ou do Carneiro, como dos ralis e a não menos famosa “Especial” de Carvalho de Rei ou da Aboboreira, em tempos pontos decisivos do Rali de Portugal. 

Chegados a Peso da Régua (com tempo surpreendemente quente) já a 110 km do Porto, tempo para perceber que tudo aqui vive em redor da vinha e do vinho. Do vinho e do cada vez mais turístico Douro. Passemos pela marginal para apreciar um interminável rodopio de gentes dos quatro cantos do Mundo, transformando a outrora pacata localidade transmontana numa autêntica Babel. As origens perdem-se no tempo, é certo, mas o seu grande desenvolvimento está bem marcado na história, com crescimento acentuado após 1756, data da criação da Real Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro. 

Obra do Marquês de Pombal que viria a instituir a primeira região demarcada de produção vitivinícola do Mundo, estendendo-se ao longo de mais 250 mil hectares que se prolongam até Freixo de Espada à Cinta e Barca d’Alva. 

Atravessemos o Douro beijando a Nacional 2 e, pela sua margem esquerda, vamos subir rumo ao Pinhão, onde já não navegam os tradicionais barcos rabelos que transportavam o vinho até às caves de Vila Nova de Gaia, substituídas pelos camiões-cisterna que podemos apanhar pelo caminho, criando procissões de grande lentidão. Nada como uma boa dose de paciência, aproveitando para apreciar o laborioso trabalho de homens e mulheres ao longo de centenas de anos, criando uma paisagem única onde os socalcos são degraus de uma escalada única rumo aos melhores vinhos. 


E, serpenteando de forma insinuante por uma das mais belas regiões do País, uma estrada que permitirá ver não uma, mas duas áreas que mereceram classificação como Património Imaterial pela Unesco: a região Vinhateira do Alto Douro e o Parque Arqueológico do Vale do Côa. 

PELA ESTRADA NACIONAL 222 
Entorno paisagístico que ajudou a Estrada Nacional 222 (N222) a conquistar, em 2015, o estatuto de World Best Driving Road à frente de estradas famosas como a Big Sur (na Califórnia, EUA), a Bad Urach (Hohenzollern, Alemanha) ou a A535 (centro de Inglaterra). Um estudo promovido pela Avis Rent-a-Car e que assenta numa fórmula matemática que determinou a N222 como a melhor estrada para conduzir, tendo em conta o comprimento das retas e os raios das curvas. Ou seja, uma junção do prazer de conduzir, com retas que permitem ao condutor deixar apreciar a bonita paisagem duriense em seu redor. Sobretudo neste troço, entre o Peso da Régua e o Pinhão, considerado perfeito para conduzir ao longo dos seus 27 quilómetros com um total de 93 curvas. 


Uma fórmula complexa, criada pelo engenheiro Herman Tilke, famoso pelas pistas de Fórmula 1 desenhadas nas duas últimas décadas; pelo criador de trajetos radicais e algumas das montanhas-russas mais excitantes do mundo, John Wardley; e pelo físico quântico, Mark Hadley, responsável do departamento de Física da Universidade de Warwick, uma das principais universidades do Reino Unido. E que diz, a fórmula, que a estrada ideal tem uma relação 10:1. Ou seja, dez segundos de reta para cada segundo utilizado a curvar. Ora a N222 tem um rácio de 11:1, ficando assim muito próximo da perfeição, enquanto a californiana Big Sur regista 8,5:1. 

Uma estrada que, segundo Wardley, que ajudou nos efeitos especiais de cinco dos filmes de James Bond, “transmite ao condutor uma confusão de sentimentos, que vai da emoção à intimidação, culminando depois na diversão e prazer”. Sensações e emoções que assentam na multiplicidade de variações na experiência que se pode sentir ao conduzir na N222, com “velocidades diferentes, uma mistura de curvas e retas e mudanças nos pontos de vista que são, afinal, comuns à condução e à experiência de uma montanha-russa”. 


Estrada que ora se aproxima ora se afasta do Douro, contornando os vales de alguns dos afluentes do rio por onde descia o precioso néctar até às caves do famoso Vinho do Porto. E cuja configuração teve nota de excelência na análise científica que combina a geometria da estrada, o tipo de condução, a aceleração média e aceleração lateral, o tempo de travagem e as distâncias. O resultado é materializado num Índice de Condução, cuja nota depende do equilíbrio entre as quatro fases, permitindo desfrutar de velocidade e aceleração, o teste à capacidade de condução ao longo das rectas e o usufruto da paisagem envolvente. Índice que permitiu perceber o equilíbrio ideal entre esses componentes para, cientificamente, comprovar qual a melhor estrada do mundo para conduzir. 

VIAJAR NO TEMPO 
Já se disse, mas nunca é demais repetir tudo o que a N222 tem para oferecer, incluindo o acesso à Grande Rota do Vale do Côa (GR45) que, ao longo de cerca de 200 quilómetros, permite acompanhar e entender o rio onde o homem ‘assentou arraiais’ há mais de 25 000 anos. A arte paleolítica existente no Parque Arqueológico do Vale do Côa é explicada no Museu do Côa, espectacular estrutura inaugurada em 2010, concebida pelos arquitectos portuenses Camilo Rebelo e Tiago Pimentel. 

Edifício perfeitamente integrado na paisagem – onde encontrámos almoço reconfortante - sobranceiro aos vales que unem o Côa e o Douro, e onde os mais de 300 mil visitantes registados desde a sua abertura, puderam ter uma visão da arte rupestre do Vale do Côa com ajuda das mais modernas tecnologias. 


Para lá da arqueologia, o Museu do Côa é, essencialmente, um museu de arte, abordando a expressão artística na compreensão das origens da civilização e da sua importância no ordenamento dos espaços vivenciais das sociedades pré e proto-históricas. E onde ressalta enorme rigor científico, como uma mostra explicativa dos ciclos de arte rupestre do Baixo Côa e Douro superior. Com obras dos caçadores-artistas do período Gravetense, quer dos últimos moleiros rupestres da Canada do Inferno, aqui estão patentes as mais diversas sensibilidades expressas na rudeza dos painéis de xisto que há milhões de anos moldam a geomorfologia regional, com mais de mil rochas trabalhadas pelo Homem dispersas por todo o vale. 

ALMENDRA, MUITO MAIS QUE UM PONTO FINAL 
Deixemos este belo espaço arquitectónico para trás, enquanto vamos aproximando da fronteira com Espanha. Estamos já em Almendra que sem títulos ou candidatura na UNESCO, não deixa, ainda assim, de exibir um riquíssimo património edificado, com casas, solares e monumentos que a tornam numa das mais bonitas vilas históricas de Portugal. Freguesia do município de Vila Nova de Foz Côa que, em 1849, tinha 2420 habitantes e que, segundo os Censos de 2021, conta apenas 386 residentes (sendo exactamente igual o número de homens e mulheres…) já foi sede de concelho entre 1298 e 1855. 

Vitalidade social e económica que sustentou assinalável importância histórica, geradora de casas como o Solar do Visconde de Almendra, também conhecido por Solar dos Viscondes do Banho, palácio barroco que albergou, por muitos anos, os viscondes de Almendra e, por casamento, os viscondes do Banho. Edifício palaciano de dois pisos, exemplar ditoso da arquitectura setecentista do interior português, conserva o seu austero estilo barroco que se revela nas janelas ‘rocaille’, com as típicas vieiras invertidas e a marcante varanda com balaústres. O brasão de armas da ilustre família, enquadrado por um frontão curvilíneo, permanece em cima da varanda. 


Curiosamente, o brasão nunca foi devidamente terminado de esculpir, sendo no entanto evidente o coronel (a coroa que encima o escudo) de Marquês. Marco histórico da localidade de Almendra, a par do Cruzeiro e da Capela de Nossa Senhora do Campo, que ficará registado na memória fotográfica deste evento, tela de excelência para uma moto que se presta à descoberta turística dos mais recônditos e surpreendentes locais. 

RUMO A ESPANHA
Com a fronteira luso-espanhola a ficar paulatinamente mais próxima à medida que a caravana se deslocava agora para sul, a passagem por Almeida revelou apenas uma pequena parte da imponência da fortaleza, que, com uma forma única de estrela de doze pontas, representa um dos mais espectaculares exemplares europeus dos sistemas defensivos abaluartados do século XVII. É, no entanto, muito mais antiga a História daquele que é actualmente o Concelho de Almeida, com vestígios de ocupação humana desde o Paleolítico, sendo conhecidos núcleos castrejos da Idade do Bronze e do Ferro. Existe, ainda, informação inequívoca da presença romana, embora seja no período medieval, sobretudo na época da formação da nacionalidade, que ganhou importância acrescida, pela localização no limite fronteiriço do território português e pela criação dos concelhos, como forma de garantir o povoamento da fronteira. 


A importância de Almeida foi reforçada com a assinatura do Tratado de Alcañices, em 1297, com a integração definitiva no Reino de Portugal dos territórios a este do Rio Côa, até então limite fronteiriço entre o Reino de Leão e o território português. Uma presença marcante na História que, por si só, obriga a um regresso atempado à praça-forte que é candidata à categoria de Património Mundial da UNESCO. Estatuto de referência universal que acompanhou esta viagem ao longo de toda a sua extensão em território português, do Centro Histórico do Porto, Ponte Luiz I e Mosteiro da Serra do Pilar, dos Sítios de Arte Rupestre no Vale do Côa ao passando pela Região Vinhateira do Alto Douro. E de Portugal nos despedimos através de Vilar Formoso, posto fronteiriço em funções desde 1859 e sempre muito movimentado ao longo de todo o ano. Ou não fosse, ainda e sempre, esta estrutura aduaneira inaugurada em 1961 pelo Presidente da República, Almirante Américo Tomaz, o ponto de passagem da maior parte do volume de importações e exportações nacionais realizadas por via terrestre. Além das mais de cinco milhões de pessoas que cruzam anualmente a linha entre a vila beirã e terras espanholas, seja por meios rodoviários ou através do comboio, pela Linha da Beira Alta, inaugurada em 1882. 

Local de forte carga histórica, por aqui passaram milhares de refugiados judeus com vistos de passaporte atribuídos por Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul de Portugal em Bordéus, e também por aqui regressou a Rainha Dona Amélia para a primeira visita a Portugal, em 1945, depois do seu exílio em Inglaterra e França. 

PELA VIZINHA SERRA DE FRANCIA 
Já em solo espanhol e com o céu a escurecer e o termómetro a baixar, depois de 270 km em estradas portuguesas, o mapa da viagem conduziu-nos ao coração da salamanquina Sierra de Francia, e àquela que é, sem dúvida, uma das aldeias mais representativas da Espanha. La Alberca foi declarada local de interesse histórico e artístico em 1940, sendo a primeira localidade espanhola a conseguir esta menção. Tudo graças a uma malha urbana que que preserva como poucas os traços da idade média, como bem preservadas estão as suas tradições centenárias, transmitidas de geração em geração. Depois de uma viagem tão intensa de História e paisagens, nada como uma caminhada pelo intrincado labirinto de ruas e praças de La Alberca, com perspectivas surpreendentes em cada esquina. A arquitectura típica assenta, de forma natural, nos materiais mais abundantes na serra de Francia, juntando a solidez da pedra granítica e as trabalhadas madeiras de formas geométricas. Isto sem perder de vista os lintéis esculpidos com a data de fundação das casas, as diversas inscrições, sinais e anagramas religiosos, que se apresentam como uma bem visível profissão de fé. 


Com os andares superiores a salientarem-se em relação aos inferiores, os telhados dos dois lados da rua quase se tocam, criando um curioso jogo de sombra e luz ao longo de uma estrutura urbana intrincada, labiríntica, como que escondendo segredos centenários, que muitos assemelham a um bairro judeu. Destaque para a Plaza Mayor, ponto central de La Alberca, com as fachadas marcadas por duas fileiras de varandas, arcadas e colunas de granito, numa união secular das culturas cristã, islâmica e judaica. E foi aqui mesmo que nos deliciamos com os sabores e delícias gastronómicos do país vizinho. Era enfim hora de relaxar, jantar e conviver. 

[CONTINUA…]

terça-feira, 26 de outubro de 2021

CFMOTO e MITT em apresentação ibérica

Como todos sabemos a vida é um jogo de adaptação. E há cada vez menos dúvidas que vivemos novos tempos. Assim, a Puretech, empresa que representa em Portugal um conjunto de marcas de veículos e acessórios, entre elas a CFMOTO e a MITT, levou a cabo um esforço assinalável no sentido de comunicar de forma eficaz a gama 2022 destas últimas marcas. Para tal, decidiu reunir media e concessionários numa operação de envergadura que fez deslocar cerca de 250 pessoas para Matosinhos e Baltar, servindo o Kartódromo local como centro de operações. 


Antes de mais quer este ESCAPE sublinhar a coragem, sim coragem, da Puretech ao envolver nesta operação não apenas os media vetustos – com o seu papel histórico e referencial, mas ainda assim vetustos – e também alguns daqueles que se têm destacado numa forma diversa de comunicar o motociclismo. Parabéns Puretech, o caminho é por aqui. Sem dúvida! 

De comboio rumo ao norte, aproveitei a entediante viagem para rever amigos de longa data e colocar a conversa em dia com um ou outro que me são mais próximos, ao mesmo tempo que estranhei a malta mais nova não se apresentar de forma eficaz…, alguns são tão desenvoltos nas suas personas quanto tímidos no contacto cara a cara… (sorrio…). 


Da viagem fiquei ainda com a ideia que o clima de quem faz disto profissão é de ebulição. Algumas mudanças importantes nas publicações tradicionais parecem estar iminentes. É o tal jogo de adaptação a ser jogado. Havendo tempo, pode ser que o ESCAPE fale nisso mais tarde. 

CFMOTO 800MT 
Já em Baltar, cujo Kartódromo se assumiu como um surpreendente parque de diversões, foi a novíssima 800MT a roubar a cena. Nas últimas semanas o frenesim em torno desta moto parecia uma imparável bola de neve que só culminou com o primeiro olhar, o primeiro toque, a primeira volta à pista e, sobretudo, com o revelar de equipamentos e preço. 

Como já terão percebido este texto não é uma prova à CFMOTO 800MT e sim um mero contacto. A unidade disponível não estava matriculada sendo mesmo um veiculo de pré-produção, um dos primeiros a ser revelado no mundo ocidental. Não estando matriculada, o contacto decorreu apenas no traçado fechado da simpática pista do norte do país que revelou de imediato uma moto de qualidade contemporânea, evoluída no motor, ciclística e electrónica. 


De recordar que a 800MT possui unidade motriz idêntica à KTM 790, bloco LC8 aqui com 95 cavalos de potência e um equipamento de série que inclui suspensões Kayaba totalmente ajustáveis e sistema de travagem J.Juan - empresa agora propriedade brembo - com dois discos de 320 mm de diâmetro e pinças de fixação radial na dianteira. Esta última, a travagem, surpreendeu muito positivamente. 

A posição de condução é excelente e o conforto é directamente proporcional à surpreendente diversão que o conjunto oferece, mesmo num terreno para o qual não foi desenhada e construída. O equipamento surpreende e podemos contar com acelerador electrónico Bosch, ABS com função de auxílio em curva Continental, cruise control, protecções dianteiras e suportes para malas. Este será o equipamento da versão Sport com jantes em alumínio a custar uns muito simpáticos 9.900€. 


Optando pela versão Touring com jantes de raios, podemos contar ainda com quikshift bidirecional, sistema de monitorização de pressão de pneus, amortecedor de direcção, punhos e bancos aquecidos, protetor de cárter, descanso central e sistema sem chave, tudo por 11.990€. 

Para ambos os modelos uma muito aguardada prova mais a sério terá, pois, de ficar para mais tarde, estando previsto que a moto possa chegar em força ao mercado nacional no próximo mês de Fevereiro, apesar de já poder ser encomendada num qualquer concessionário da marca. 

CFMOTO 700CL-X 
A Puretech aproveitou ainda para revelar em primeira mão a “despida” 700 CL-X Sport, moto inspirada em diversos estilos urbanos de natureza cafe racer. Pude rodar em estada não com aquela e sim com a 700CL-X Heritage que atira para o universo scrambler, onde se destaca a elegância do conjunto. 


Com motor de dois cilindros paralelos com 692cc e a debitar 74 CV de potência e 68 Nm, a Heritage equipada com acelerador electrónico, embraiagem deslizante, sistema de travagem J.Juan com disco dianteiro de 320 mm e pinça radial de 4 pistões e forquilha invertida regulável, revelou toneladas de diversão numa posição de condução neutra e agradável. 


No final da incursão pelas pitorescas estradas da região não resisti a um final em grande na pista de Baltar, onde os pneus Pirelli MT60, montados de origem em jantes anodizadas, revelaram uma aderência absolutamente perfeita no asfalto do Kartódromo nortenho. 


Para além da restante gama CFMOTO, houve ainda tempo para ter algum contacto com a gama MITT onde destaco a divertida e exemplar ao nível do desempenho scooter 125 XRS (uma novidade na gama) e a Legend 301, monocilíndrica de inspiração retro que pisca o olho a novos motociclistas, os tais cristãos novos.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

A novíssima CFMOTO 800MT em apresentação Ibérica no Porto

É uma das mais aguardadas novidades do ano e vai ser revelada aos media e concessionários ibéricos em Portugal, reforçando assim a boa imagem que a CFMOTO vai construindo no mercado nacional.


Em evento organizado no distrito do Porto e com epicentro operacional no Kartódromo de Baltar, a novíssima 800MT, trail do segmento intermédio com elevado nível de equipamento e um motor que promete muita animação, vai ser desvendada perante os jornalistas portugueses e espanhóis no dia 21 de outubro, De notar que a 800MT possui motor idêntico à KTM 790, o bloco LC8 aqui com 95 cavalos de potência e um equipamento de série que inclui suspensões Kayaba totalmente ajustáveis e sistema de travagem J.Juan com dois discos de 320 mm de diâmetro e pinças de fixação radial na dianteira. 


Além da CFMOTO 800MT – cujo preço definitivo será divulgado nesse mesmo dia - a Puretech vai ainda mostrar pela primeira vez a naked 700 CL-X Sport, interpretação moderna da intemporal e rebelde filosofia café-racer, dona de uma imagem marcante. 


De sublinhar ainda que as redecoradas 650GT e 650NK estarão também presentes nesta apresentação.

Notem que este vosso ESCAPE também estará presente e irá contar-vos tudinho aqui e nas redes sociais associadas deste blogue!

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Sábado dia 16 todos na estrada em mega manifestação de motociclistas

Recentemente o tema da implementação das inspecções periódicas obrigatórias (IPO) às motos regressou à praça publica (link). A resposta dos motociclistas foi imediata. Só há uma justificação aceitável para a implementação de tais inspecções: o incremento da segurança rodoviária. Isto é praticamente consensual. 


A realidade é que o item veículo está presente apenas em 0,3% dos acidentes. Muito longe sequer do 1% e sem relevância que justifique a relação custo-benefício das IPO. Assim, vem o Grupo de Acção Motociclista uma vez mais apelar à mobilização para a demonstração do próximo sábado dia 16. Este ESCAPE partilha e divulga a mensagem. E lá estará. Obviamente, sempre presente! 

Longe de podermos dizer que o assunto ficou resolvido com as anteriores manifestações, aquilo que ninguém pode negar, é que em termos práticos travámos as inspecções às motos que nos quiseram impor em 2016 e 2018. Conseguimos dar voz aos motociclistas e vincamos a nossa posição nos meios de comunicação social e nas mais altas instâncias governamentais. 


Estamos em 2021, numa altura em que o assunto da obrigatoriedade das inspeções às motos voltou à baila na comunicação social do costume. Nada que já não estivéssemos à espera. A "bota" que o lobby das inspeções às motos "calçou" aos centros de inspeção em 2012 continua por descalçar, sem que se investiguem os verdadeiros interesses que estiveram por detrás da medida que obrigou os centros de inspeção a gastar avultadas quantias de dinheiro na compra de equipamentos... negócio que apenas serviu quem lhos vendeu. 

Dinamarca, Irlanda, Finlândia e França já assumiram que não vão implementar a futura diretiva comunitária das inspeções. Por cá não desistem da ideia, mas nós também não desistimos de lutar pela defesa das motos e do motociclismo e, sobretudo, não aceitamos algo que não vai alterar nada em termos de segurança rodoviária e apenas representará mais uma despesa e perda de tempo para os motociclistas. 


A manifestação nacional de motociclistas de protesto contra as inspeções às motos, com inicio às 15:00, irá decorrer nos seguintes locais:

PORTO - Av. dos Aliados até ao regresso à Av. dos Aliados;
COIMBRA - Parque do Choupalinho junto ao Exploratório Centro de Ciência Viva de Coimbra até à Praça da República;
LISBOA - EXPO no Estacionamento junto à foz do Rio Trancão até ao Rossio;
FARO - Estacionamento frente ao Estádio do Algarve até ao Jardim Manuel Bivar; 
FUNCHAL - Av. Sá Carneiro até ao Palácio de São Lourenço;
PORTO SANTO - Praça de Táxis - Av. Manuel Gregório Pestana Júnior até ao Parque de Estacionamento da Escola de Nossa Senhora da Conceição. 

Slogans e cartazes estarão brevemente disponíveis para download. Vamos, à semelhança de anos anteriores, passar a nossa mensagem imprimindo-a e colando-a nas nossas motos, ou em qualquer outro local bem visível. 


O nosso Manifesto ficará também disponível para download. Este Manifesto Motociclista pretende esclarecer os fundamentos da nossa indignação e consequente protesto relativamente à implementação da obrigatoriedade das inspeções às motos. Será entregue aos órgãos de comunicação social e na Assembleia da República a todos os grupos parlamentares. 

Apreciamos e agradecemos o entusiasmo de todos na defesa das causas que nos unem. É importante a participação de todos na manifestação. Não se desloquem apenas para o local de chegada. Marquem também presença no ponto de partida.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Décima Tertúlia do Escape

O numero 10 (dez) é a soma dos primeiros quatro números cardinais, (1+2+3+4), e também a soma dos primeiros três números primos, (2+3+5). Platão terá chamado o “dez” de número perfeito, porque a Natureza havia formado as mãos com dez dedos. Há quem diga ainda que o número 10 (dez) representa completude, perfeição e totalidade. Certo é que o número 10 (dez) serve de base para muitos sistemas de contagem. Representa um ciclo, seja de começo ou fim. 


A Décima Tertúlia do Escape decorreu no passado sábado na Ton-up Garage no Porto. E…, nem tudo correu bem. Por um lado, a acústica da sala revelou-se uma miséria e nem todos nos conseguiam ouvir, por outro, alguns tertulianos acabaram por desistir de vir ao nosso encontro pois não era possível parquear mais motos nas proximidades da Ton-up. O ESCAPE pede desculpa a uns e a outros e promete esforçar-se para que numa próxima Tertúlia a Norte encontremos audição e espaço para todos os que simpaticamente nos venham visitar e ouvir. 

No mais…, foi outra tarde deliciosa, de sorriso nos lábios e até “pele de galinha” a falar de motos, motociclismo e viagens. Repetimos o painel que já tinha estado em Évora no passado mês de Janeiro (link) e para além deste ESCAPE (que viajou de Lisboa), da Batalha vieram a Patrícia e o João autores do blogue Quilometro Infinito (link) - já presentes na Tertúlia no verão passado (link) - e dos arredores do Porto vieram a Petra e o Sérgio, viajantes passionais e autores de uma das mais estimulantes contas de instagram que vão encontrar por cá (@wanderlust.africatwin). A nós juntou-se ainda o Rad Raven (link) que não perdeu tempo e perpetuou esta Décima Tertúlia do Escape num pequeno mas delicioso vídeo realizado quase em tempo real – ou por outras palavras, a Tertúlia servir de laboratório nas novas fronteiras da comunicação no que ao motociclismo diz respeito. Muito obrigado a todos!! 


E, como tenho vindo a sublinhar, porque a Tertúlia não se esgota no seu momento formal, foi também muito bom ficarmos por mais umas horas à conversa e na partilha de recordações e pequenas histórias. Houve tempo para, por exemplo, dar uns valentes abraços ao Ricardo - velho amigo motociclista do Porto – e rever a Sofia que praticamente vi nascer e “já está a tirar a carta”, mas também conhecer o André (@voltaamericademoto), o “louco jovem turco” que correu a América do Sul numa humilde 125cc, e beber da sua energia contagiante. 

Dez Tertúlias, dez! Fim ou início de novo ciclo? Não vos sei responder neste momento. Para já uma pausa. Que com passagem em Évora (link), Lisboa (link) e agora Porto a Tertúlia tem encontrado um início de 2019 absolutamente frenético; e precisa de recuperar o folego. 

Até breve Tertulianos…

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Tertúlia do Escape na Cidade Invicta

Já há algum tempo que sou fã do trabalho desenvolvido a Norte pelos rapazes da Ton-up Garage que, de certa forma, até é mais conhecido e reconhecido fora do que dentro de Portugal. Cenas nossas… 


Paixão, dedicação e autenticidade são algumas das palavras-chave para caracterizar o labor da Ton-up. Um exemplo disso mesmo é a sua “OutRun”. A moto teve apresentação no "Wheels and Waves" de 2018 como uma das seis XSR700 integrantes do projecto Yard Built da Yamaha com o tema "regresso ao futuro". A "OutRun" da Ton-up Garage chamou verdadeiramente a atenção de todos e venceu na respectiva categoria a clássica competição Punk's Peak.

Assim, visitar e conhecer melhor a Ton-up Garage e o seu trabalho há muito que estava nos planos deste ESCAPE. Este dia (link) – quando corri a Nacional 1 - foi apenas um deles. Mas por um ou outro motivo nunca conseguia concretizar o objectivo. 

Por outro lado, estava ainda a Tertúlia do Escape em plena fuga alentejana (link) e já tínhamos começado mesmo na estrada, algures na planície, a planear nova “deslocalização” agora para Norte. Ao discutir o possível local, logo que alguém sugeriu o Food & Fuel Ton-up Garage (aberto desde o verão passado no 792 da Rua de Camões no Porto) senti que os planetas estavam a começar alinhar-se. 

E alinharam mesmo! Esta que será a décima Tertúlia do Escape, vai realizar-se na Cidade Invicta. E tal como em Évora ao ESCAPE volta a juntar-se a Patrícia e o João, autores do excelente blogue Quilometro Infinito (link) e a Petra e o Sérgio, viajantes passionais e autores de uma das mais estimulantes contas de instagram que vão encontrar por cá (@wanderlust.africatwin) e que vai muito além das bonitas imagens. 

É, digamos, um cartaz de luxo que se volta a reunir. A vibrante cena da customização pode muito bem ser o ponto de partida para mais uma excelente tarde a conversar sobre motas, motociclismo e viagens. 

É já no próximo dia 16 de Março, sábado, e estão todos convidados para aparecer no Food & Fuel Ton-up Garage no Porto a partir das 15h30. Venham dai, contamos convosco!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Moto Clube do Porto apela à mobilização para o próximo dia 3

A mobilização dos membros de moto clubes e outras associações de motociclistas é fundamental para o sucesso da importantíssima jornada de defesa de direitos e interesses que se aproxima. O Moto Clube do Porto é um dos históricos clubes nacionais e como sempre está e estará na linha da frente 

Tal como há um ano, no protesto contra a implementação descabida das inspecções obrigatórias aos motociclos, o Moto Clube do Porto volta a mobilizar-se no apoio à Manifestação Nacional de Motociclistas promovida pelo Grupo Acção Motociclista (GAM) no dia 3 de Fevereiro. A discriminação que as motos e motociclistas continuam a sofrer nas mais diversas áreas são o motivo do protesto, sobretudo a reivindicação de uma classe de portagens nas auto-estradas, com valores inferiores em 50% aos praticados para os automóveis ligeiros da Classe 1. Solução óbvia atendendo à menor ocupação e sobretudo ao muitíssimo menor desgaste provocado pelas motos nas vias rodoviárias face aos carros e outros veículos. 

A manifestação terá o ponto alto na Praça dos Restauradores, em Lisboa, com os motociclistas do Norte a marcarem encontro na Área de Serviço (AS) de Antuã na A1, partindo, às 10 horas, rumo a Lisboa em marcha lenta, entre os 40 e 60 km/h. À mesma hora partirá outra caravana da Área de Serviço de Almodôvar, na A2, estando previsto o encontro sincronizado das duas caravanas à entrada norte de Lisboa, na Encarnação. 

Para todos aqueles que vão participar – e esperemos que sejam muitos! – aconselhamos a chegarem com alguma antecipação à AS de Antuã, atestarem o depósito para cumprir a ligação até Lisboa sem paragens, e levarem alguns alimentos de fácil utilização, nomeadamente água e barras energéticas, para se alimentarem, em andamento, durante a viagem. Conduzir de forma serena e descontraída ajudará a manter a velocidade constante no seio do pelotão, circulando a distância segura dos outros motociclistas. 

Pelo caminho, seguindo a auto-estrada A1, outros motociclistas de diversas regiões do País vão juntar-se à medida que a caravana vai passando pelas várias Áreas de Serviço onde estarão elementos do GAM devidamente identificados. Motociclistas que irão engrossar a coluna, mostrando a força dos motociclistas nas reivindicações também sobre a redução do IUC e, não menos importante, o protesto contra o elevado preço dos combustíveis. 


Recordemos que, há um ano, com a manifestação do dia 18 de Fevereiro 2018, conseguimos parar a anunciada implementação das inspecções e a intenção de se retirar a equivalência imediata da Licença de condução B e A1, que permite conduzir as 125cc com carta de carro. Demonstrámos então ao País a nossa capacidade de mobilização enquanto cidadãos/motociclistas, na participação activa em questões fundamentais a uma sociedade mais justa para todos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

A week in a paradise called Portugal (II)

Se bem se recordam, eu esforcei me para encontrar tempo e meter-me à estrada. Fui parar ao Porto. E pelas suas ruas carregadinhas de beleza e história andei a deambular num magnífico fim de tarde, início de noite (link). 

O dia seguinte, sábado, 21 de Julho, começou preguiçoso mas novamente luminoso. Porque os próximos dias seriam longe do mar, aproveitei para um refrescante passeio nas margens do Douro e uma ida até à foz, encher os pulmões com a fresca e limpa maresia nortenha. 

Dai, voltei a colocar as borrachas na auto-estrada, rumo a Ponte da Barca. Após o check-in no Hotel dos Poetas e um almoço rápido mas delicioso numa das muitas novas casas que animam a bela Barca, o Petisc’art, primeira incursão no Parque Nacional Peneda-Gerês, 

O único Parque com classificação “Nacional” em território Português, situa-se no extremo noroeste de Portugal, na zona raiana entre Minho, Trás-os-Montes e Galiza. O seu perímetro territorial abrange todo o território florestal que se estende desde a Serra da Peneda até a Serra do Gerês, englobando ainda a Serra do Soajo e a Serra Amarela, sendo recortado por dois grandes rios, o Lima e o Cávado, numa área total de cerca de 70 290 hectares.

Finalmente tinha chegado às “outras estradas” como lhes chamam os políticos. Nossa Senhora da Peneda, Castro Laboreiro, descida para Lindoso e regresso à Barca pela curvilínea N203 fizeram parte do menu da tarde. E por falar em menu, o jantar foi de classe superior no restaurante O Moinho; salpicão, bolinhos de bacalhau, posta barrosã acompanhada de arroz de feijão e legumes, leite-creme e um bagaço caseiro com aquela suavidade dos deuses. Depois de um dia tão cheio, ainda houve tempo para assistir, de sorriso no rosto, a um mais ou menos espontâneo Vira do Minho, dançado por quem o faz há décadas na velhinha Praça da República na Barca. 

[continua…]

terça-feira, 31 de julho de 2018

A week in a paradise called Portugal (I)


“Porque, enfim, tudo passa; / Não sabe o Tempo ter firmeza em nada; / E a nossa vida escassa / Foge tão apressada. / Que quando se começa é acabada" (Luís Vaz de Camões). 

Tempo. O que é o tempo? Uma ilusão como terá dito um dia Einstein? “Quando pomos a mão num fogão aceso por um minuto, parece uma hora; mas quando estamos sentados ao lado de uma rapariga bonita durante uma hora, parece um minuto”. Não há uma única definição, pacífica, de Tempo. O que todos sabemos, ou devíamos saber, é que o Tempo é o recurso mais escasso de todos. O maior dos luxos. E o nosso maior património. 

Há anos que não tinha tempo para viajar de mota, apenas (ou quase), em Portugal. Aqui, sem sair do cantinho. Quer dizer. Tempo tive. Mas investi-o noutras paragens. E eu já não me recordo bem de quando foi a última vez que apliquei uma semana da minha vida a viajar de mota neste “pequeno paraíso” mototuristico. E a nossa vida escassa…, que quando se começa é acabada. Chega disto. Vamos andar de mota em Portugal!

O guião já tinha sido esboçado há algumas semanas atrás. Ainda antes mesmo da “road trip” à Sardenha e Córsega (link). O objectivo? Um possível best-off de Portugal Continental. Das suas estradas. Montanhas. Planícies e praias. Da sua gastronomia. Os vértices do rectângulo seriam para além de Lisboa, ponto de partida e chegada, a minhota Ponte da Barca, a transmontana Chaves e, por fim ao sul o Sotavento algravio. Pelo meio, um fino risco na cada vez mais clássica Estrada Nacional N2, a ser percorrida na íntegra. Vamos…, venham daí, desta feita em modo relato.

Sexta-feira, dia 20 de Julho. Mota e bagagem no ponto já há algum tempo, foi enfim chegado o momento de rumar a Norte, rapidamente, pela A1. Chegado à Invicta momento de improviso. Em boa hora troquei a programada ida a um dos velhos clássicos locais, a posta na grelha do Assador Típico, por um programa de rua com cerveja fresquinha na mão e petiscos diversos como o delicioso cachorrinho no Gazela da Batalha e a clássica bifana no Conga. A sorte decidiu premiar a minha audácia e brindou-me, no alto Jardim do Morro em Gaia, com um por de sol limpo e espectacular, som a condizer, e mais cerveja fresquinha. Aliás, a música parece ter invadido a cidade, e a noite continuou já na Ribeira ao som de quem por ali vai parando para nos animar. O Porto vive um momento fantástico, animado, limpo e com muita vibração positiva. Merece a nossa atenção. Sempre mereceu. 

[continua…]

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A estrada, a mota e o telefone esperto – Estrada Nacional 1

Era uma manhã fresca de céu azul em Julho. 1978. É fácil recordar o ano. É fácil recordar muito mais. Ainda o sol não tinha nascido, seriam pouco mais do que seis da manhã, e a minha avó veio despedir-se de lagrima no canto do olho, como se fossemos para muitoooooooo longe. E íamos mesmo. 

portugal estrada nacional 1 honda crf1000l africatwindct n1Primeiro a Avenida Almirante Reis absolutamente deserta. Após poucos quilómetros de auto-estrada, igualmente deserta, a Nacional 1. A memória já só guarda a outrora temível subida ao Alto da Serra, alí para as bandas de Rio Maior. Depois, Leiria e o seu castelo a saudar-nos lá do alto. Coimbra e o mondego. O calor, já dia largo. E o caos, fumo, transito e muitos camiões em Águeda, Oliveira de Azeméis e sobretudo na lentíssima travessia de São João da Madeira. Chegámos. Ponte da Barca. Não sem antes termos passado Porto, Braga e Vila Verde. Uma verdadeira aventura de mais de doze horas. 

1978! É fácil recordar o ano porque eu tinha acabado de fazer seis anos. O meu pai tinha comprado o seu Volkswagen Carocha 1300. Amarelo. Pleno de personalidade e lentidão. 34 CV para quase tonelada e meia de engenheira alemã da boa. E um consumo absurdo na casa dos nove litros de Galp Super. 

Eu tinha vivido o dia intensamente. Não adormeci um único segundo e ainda bem. Recordo. Esta e muitas outras viagens, anos a fio, sempre para Norte. Um denominador comum: Nacional 1. É a minha “estrada mãe”. No sentido em que foi nela que provavelmente encontrei o amor e respeito pela estrada. 

Ao escrever este texto, noto agora que ele serve ainda para comemorar o quadragésimo aniversário da minha primeira “road trip”. Mas uma comemoração plena é difícil, impossível talvez. Actualmente vários troços foram transformados em via expresso, como é o caso dos que atravessam Rio Maior, Leiria ou Coimbra. Noutros troços a estrada passou a ser conhecida por IC2. Para além disso, parte da travessia de São João da Madeira, por exemplo, foi convertida em zona pedonal e não mais verá os camiões fumarentos ou o GA-39-96, o Carocha do velho Lourenço. 

Ainda assim fiz-me à estrada. Novamente numa manhã fresca de Julho, mas sem o azul brilhante do céu de há quarenta anos. Não foram necessários muitos quilómetros para compreender que a estrada para mim “mãe” está hoje transformada em estrada ruina. Piso em mau estado é uma constante. Asfalto que se desfaz. Sinalização tapada pela vegetação quando não mesmo destruída. Um cenário de abandono e tristeza que se repete em muitos dos edifícios e construções à beira da estrada.

É este o estado da outrora espinha dorsal económica de Portugal. A Nacional 1, quando não desapareceu engolida pelo decrepito IC2, apresenta um grau de degradação como nem em países do terceiro mundo encontramos. No entanto resiste. Continua a ser diariamente utilizada como estrada local e até regional. E resiste ainda como prova viva do Estado mais ou menos falhado que somos. 

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Quem, o quê, onde, como, quando e porquê – não necessariamente por esta ordem… 

A Estrada Nacional 1 (N1), também conhecida como Estrada do Norte, tem actualmente o seu início em Vila Franca de Xira e o seu términus em Carvalhos. Foi pelo ESCAPE percorrida em ambos os sentidos em Julho de 2018 aos comandos de uma Honda CRF1000L DCT que gastou 4,6 litros de “líquido mágico” por cada cem quilómetros de belas memórias recordadas. A N1 é credora de respeito por parte de todos, Estado incluído, devido à sua importância histórica; pois durante 40 anos (entre 1945 e 1985) assumiu o papel de principal via de comunicação entre a Grande Lisboa e a Região Norte de Portugal. A N1 é também credora de uma urgente intervenção sob pena de, entre outras desgraças, sucumbir aos “milhões” de eucaliptos que de forma selvagem, nas bermas, crescem e eliminam tudo à sua volta.
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