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segunda-feira, 1 de maio de 2023

Jerez que mal te vi!

O que terão Zarco, Binder, Pol, Lecuona, Marc e agora Fabio, em comum? Varrerem Miguel para fora da pista. Essa é que é essa. Esta semana foi este o “recuerdo” que saiu “da pena” de Jan Jan Pais. E muito, muito mais. Vénia a ele pela cedência de mais um texto de qualidade superior.

Ponto prévio, este meu espaço não é uma crónica acerca de MotoGP, para tal há por aí centos de escritos mais precisos e conhecedores, há podcasts de indiscutível qualidade, quem, sedento de conhecimento assim deseje, é ir ler outras paragens e escutar as vozes de quem sabe muito mais que eu possa querer saber!


Eu não escrevo sobre o fenómeno, podem até dizer que sou um dos tais ‘que vem da bola’, eu escrevo sobre o que vejo e sobre o que sinto e nada mais. 

Nada mais mesmo. 

Este ano, contrariamente à minha tradição recente, não fui à Andaluzia ver a corrida ao vivo, a logística forçou-me a ficar por casa, dispondo-me à emoção sentado no sofá, sozinho nessa bancada, pois cá por casa outros não há que se emocionem com tal mundo. 

Manhã bem começada, a habitual centrifugação sensorial com a corrida de Moto3, aquilo é um fartar vilanagem de voltas e reviravoltas, segui depois com a justiça de ver Sam Lowes vencer, batendo um já muito maduro Pedro Acosta que, com o tempo certo, prepara a sua entrada num mundo em que pretende subir àquele degrau que apenas os eleitos alcançam, onde o seu nome será repetido vezes, vezes e vezes, isto sendo apenas um palpite, um palpite por parte de um mero curioso destas andanças, que sou eu. 

E chegou então a hora, chegaram as quatorze horas, nem almocei antes, que nisto de apoiar o melhor é estar prontinho e seco, melhor se dominam os frios na barriga. 

Mas, ‘noblesse oblige’, sejamos dos tempos novos, saltemos ali à véspera e sua estonteante novidade, a tal de ‘corrida num instante’, AKA (as known as) Sprint Race. 

Começou bem, prometia casório, mas três baldeados na aurora do evento e tudo se baralhou e deu de novo, estaca zero, nova grelha, mais uma moeda, mais uma voltinha. 

Regressemos ao domingo. 

Semáforos com as luzes encarnadas apagadas e lá vão eles, Miguel sai por ali com a turma, na frente a coisa vai de faca na liga, nestas primeiras voltas há que redobrar cuidados em pista e dedos cruzados em casa, não é superstição, são os nervos mesmo, dá a sensação de vermos que o ‘holeshot’ dele, do nosso Oliveira, não se apresentou pontual, de fato e gravata, não segue disparado como na primeira véspera e na partida da Sprint, nova molhada a pedir mãozinhas na pista e preces na bancada e nisto quem chega, adivinhem lá quem nos entra tarde adentro, à bruta e sem aviso, foda-se que nem consigo acreditar...! 

Quem, não convidada nem pedida, nos haveria de vir atazanar???


Ela, a malvada, a cabeluda da vassoura, a prima da bruxa de Portimão, c’um caralho, perdoem-me mas é que nem sei dizer de outro modo, não posso praguejar mais leve, que eu não acredito nelas, mas lá que elas existem, lá isso existem, desta vez será Quartararo a varrer o 88 para fora de prova uma vez mais, quando vemos tantas das saídas de pista darem em orçamentos para chapa e nada mais, pois ao nosso Falcão há de vir sempre mais qualquer coisinha, a mazela física, o impedimento de correr, pergunto-me se haverá palavrão feio que me desentupa este nó que me arrasa a alma, tento todos e fico na mesmo.. repito até à exaustão ditos e contraditos, amaldiçoo tão malfadada sorte. 

Puta de malfadada cirurgia emocional, levaram-nos alma e coração desta corrida. 

Quartararo, que apertado entre apertados empurrou Miguel fora, pois ele haveria de regressar à terceira largada, eis como irónico é o destino, nada contra o homem, se há piloto dotado ele é um deles. 

Miguel não.

Eu também não, o resto olhei apenas de soslaio, tanto me doía não espreitar o 88 naquele quadro ali à esquerda no écran, onde se vê quem anda atrás de quem...! 

E por isso, por falta de muita informação em torno do sabonete que Pecco daria a Brad, não posso, nem quero, dissertar sobre a longa, longuíssima, corrida que se seguiu. 


Por isso e porque eu é mais bolos, como disse uma vez o Herman José e o País nunca mais esqueceu. 

Em escritos passados, houve quem se atazanasse com opiniões minhas, direito deles, o de não me lerem como eu escrevo, eles sabedores seculares, eles não sendo’ pessoal da bola’, tudo isso e mais um par de botas, paciência, é a vidinha, eles com a sorte de não me lerem mais, eu com a sorte de pouco lhes ligar. 

Esta semana é isto que me sai, de uma assentada recordo Zarco, Binder, Pol, Lecuona, Marc e agora Fabio, em comum varrerem Miguel para fora da pista. 

Incidentes de corrida, dir-me-ão alguns. 

Azar, mas um azar grande como a obra de arte que imortalizou as Caldas da Rainha, isto já acho eu! 

E pronto, desculpem-me lá, esta semana não me sai nada de jeito.

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Jerez e a sua magia estão a chegar

Hoje Jan Jan Pais escreve-nos sobre uma das etapas mais encantadora do Mundial. Escreve-nos sobre ausências e expectativas. Ou a vida tal com ela é numa pista de velocidade. 


A como está a precipitação? 
Anda caro, assim parece, o quilo dela. 
Da precipitação, da análise bruta, do quase ‘quero, posso e faço’! 
Tem momentos em que se pensássemos duas vezes, talvez concluíssemos que isto e talvez aquilo. Mais a mais, quando nos apercebemos que por muito que desejemos que o tempo volte um pouquinho atrás, por muito que agora víssemos que a malta em vez disto, ia com aquilo, o deus dos ponteiros assim não quer e, assim sendo, está feito, está feito, não se mexe mais. 
Que caca, pensamos, mas é assim mesmo. 
Naquela manhã, um garganeiro Marc mediu mal uma data de coisas. 
O espaço.
A velocidade. 
A trajectória, mais a travagem, a inevitável carambola. 
E, acima de tudo, pesou mal as consequências. 
Fornicou uma corrida a um Autódromo cheio de gente. 
Que se lixe, terá pensado. 
Mal. Mal e pouco. 
Deu cabo da prova e do início de época de um piloto que é um exemplo de lealdade e de correcção em pista, retirando-lhe a possibilidade de confirmar um prometedor início de Mundial. 
A Argentina foi uma miragem para ambos. 
E se nas Americas, o Falcão regressou e confirmou o que parecia ir evidenciando, a aprilia e os adversários que contem com ele na luta, já o precipitado e aludido Marquez viu fugir mais uma chance de ir à batalha, preciosos pontos que o afastam cada vez mais daquilo que afinal parece ser uma simples miragem, uma estratégia de banha-da-cobra. 
Pelo meio, foi-se chafurdando na incompetência de uns e na pouca-vergonha de outros, não se percebendo se a penalização, mais que justa, mais que garantida se fosse outro o prevaricador, se ela tomará forma ou se ficará diluída nas mazelas e na ‘não tão surpreendente e lenta’, antes previsível e avisada, recuperação de quem tudo provocou.
Pelo meio, a Honda vai olhando seu puzzle e vê as peças a desencaixarem-se, numa lógica que contraria o habitual acerto e rigor dos nipónicos, na gestão de dossiers mais complexos. 
Com um nadicazinho de especulação, poderíamos até desenhar o início de uma separação amigável, no casório MM/Honda. 
Jerez aí está, com a sua magia, tradição, com todo o seu esplendor. 
Não teremos por lá, MM. 
O custo que por estes dias vai pagando por uma curva feita ‘sem eira nem beira’, está pela hora da morte. 
Salvo seja, que semelhante palavra não a queremos pelas pistas. 
Dirão alguns que é o estilo dele, dirão outros que é sinónimo de algum desnorte. 
O facto é que não teremos 93 em Jerez, fruto de uma abordagem disparatada ali por uma curva na Mexilhoeira Grande. 
Vai alto o preço da precipitação, diríamos. 
E para o nosso 88, ‘venga de ahi un corridazo’.

terça-feira, 28 de março de 2023

Um fim-de-semana para ‘no olvidar’

Visto por Jan Jan Pais. Bem junto ao asfalto de Portimão. Ao ler estas linhas quase podemos sentir o cheiro do carburante queimado e da borracha solta. Quase podemos sentir a vibração dos motores e dos escapes verdadeiramente roucos. É motociclismo. É paixão. É também amizade. E amor. 


Dois dias de tanta coisa, para já. 
Ponto prévio. 
Isto é um mundo. 
De emoções de gente, de campeões. 
De gente que ganha e que perde. 
De gente que dá bandeiras, que apanha motas, que ampara pilotos e dá o OK à Torre. 
Um universo laranja comandado à distância, via rádio, via TV, via motas que visitam os postos. 
E no final do dia, todos chegarão a casa e dirão: preciso de mais uma dose! 

Sexta-feira, madrugada ao género das da aviação, despertador a meio da noite, duche rápido, pequeno-almoço, café e uniforme laranja, rumamos ao Retail Park, aos autocarros, aos postos, aos briefings com o Chefe de Posto. 

Tenho um, chama-se Paulo Jorge Inácio, calmíssimo, ensina com tranquilidade, tudo indica que a curva 8 está bem de liderança e recomenda-se, a este vosso escriba juntam-se dois outros comissários de pista, Miguel Jorge, que me irá fazer percorrer a distância até Almeirim para me alambazar em gabaritado local de pasto e um outro laranjinha, Nuno, Nuno Cujo Nome Não se Pode Pronunciar, private joke, deixem lá, mas a verdade é que toda a acção em pista, todos os minutos de descanso ou reservados a pequena sombra, se fará para mim junto deste trio que tão bem me acolheu, e se não vos detalho conversa é porque ela é insana, feita de opiniões em torno de pilotos e de equipas, feita de um arrazoado de tiradas meio desconchavadas que constroem uma equipa, chega a haver incautos por ali que correm a fotografar-se junto de um Bagnaia ‘mais ou menos, é o que se pode arranjar’ para gáudio dos restantes que lhe dividem a loucura. 


Gosto do T8D, é a minha casa nestes três dias, temos por vizinhança o F8A e o T8B, e se vos falo neles é porque as gentes de lá são de sorrisos e simpatias, ofereceram-me um naco de presunto, obrigado João Inocêncio, mais ainda um pouco de chouriço, acamados em bom pão, tudo por ali respira em modo ‘gourmet, o posto tem vista para todo o lado, varanda com vista para o mar, para a montanha, para o campo, creio até que para o Central Park e a 5ª Avenida, isto é, dali vê-se o final da 1, a 2 e a 3, a chegada à 4, aprecia-se a 7, a 8 e a saída para a lomba que esconde a 9, Cristo anca cá abaixo ver isto, foste tu que concebeste semelhante paraíso para se estar de laranja vestido??? A pista enche-se de motas, de todas as cores, de feitios e tamanhos, cada uma com seu piloto, cada piloto com seu sonho, cada sonho com seu caminho. 

Amanhã correr-se-á o GP de Portimão, hoje o AIA inaugurou a nível mundial, universal e intemporal as Sprint Races nesta modalidade, pela primeira vez se correu de prego a fundo até ‘tocar para a saída’, cruzes que azáfama de sensações. Miguel dedilhou alguns dos acordes com que nos encanta, sacou uma P4 na grelha, no meio de mil tubarões ducatizados e frente a um MM renascido, que mais se assemelha a Duarte de Almeida, que nem decepado entregou a bandeira portuguesa na batalha de Toro. 


Miguel sorriu a um pódio, mas este não lhe sorriu de volta, uma pequeníssima ‘não era bem assim’ fez com que terminasse em P7 e todos nós, imagine-se, quase pensássemos que estávamos tristes, 
Não, não estamos que bom é ser Oliveirista e estar ali contigo. 
Mas, meus senhores, o que mais marcou o fim-de-semana foi talvez o momento em que parecemos colocar os pés na Terra e entender que voar assim é coisa de gente quase sobre-humana, e que nem sempre os deuses da velocidade tudo amparam. 
Numa das curvas, a 11, a geometria atirou Pol ao chão. 
O paddock susteve a respiração. 
Todos nós sustivemos a respiração. 
A vida continuou, mas aprendemos talvez a dar mais valor aos dias que trazem um sorriso. Recupera rápido Pol Espargaro. 

Parte segunda de um fim-de-semana para ‘no olvidar’ 
JODER, Marquez, que mais te podemos dizer? Um gajo anda ali toda uma semana, aliás um gajo não, um milhão deles e delas, ou mais ainda, andamos a esfregar as mãos por uma boa corrida, agora até ao sábado nos assalta a adrenalina, e vais tu, aliás, vens tu, e tomem lá bolachas, marcha tudo à carambola e por aqui m’avio????? 
É isso? 

Sério mesmo, Marquez? Ando aqui agora com esta dor de alma, isto é quase como uma dor de dentes, não passa nem deixa dormir, maldita cárie que nos saíste, vai a manhã de segunda feira lançada e a pessoa aqui a ver aquele destrambelho, aquilo nem quando jogávamos ao ‘lá vai alho’ na escola, chego a pensar se andas a falhar alguma medicação, por mais que que a malta entenda e mais não sei o quê, mas acabamos a desenrolar o filme e sai-nos a mais usada e genuína expressão portuguesa, foda-se ... mas o que é isto??? 


Termino agora de falar neste assunto, é melhor, senão isto escala-me o sistema nervoso e ainda chamo o Milhazes para te aconselhar, depois é só fazeres o que ele diz e vais ver que melhoras. Espera, antes ainda deixa-me dizer-te uma coisa, ganhaste oito título mundiais, por este andar poderias ganhar outros tantos e mais ainda, que o respeito do público nunca terás, nem de quem corre nas pistas contigo, preferem andar longe do moço do ‘pinball’, o mais certo é ficares conhecido pela tua arte de campeão no bowling do que na do asfalto. 

E pronto, assunto encerrado contigo, daqui para a frente, não te desejando mal algum, para mim és apenas um pino que se move perigosamente na pista, como se fosses uma armadilha num jogo da Playstation, li agora que não irás correr na Argentina, melhor assim, é uma preocupação a menos para quem faz orçamentos e reparações , ouvi também o Puig a defender a tua acção, pois bem, pior a amêndoa que o sainete, com amigos como ele nem precisas de investir muito mais em anti-corpos. 

Quanto ao restante de toda esta jornada ..foi TOP, na classe de Moto3, Daniel Holgado deu um recital de cirurgia, Diogo Moreira estreou o fatinho de pódio, o ‘rookie’ Jose Antonio Rueda mostrou que aprendeu bem a tabuada e que está prontíssimo para a régua dos algoritmos, entre o primeiro e o quinto classificado, 0,774 segundos, sejam bem-vindos ao reino da emoção. 

Nota solta, Romano Fenati, P19, lembram-se dele??? como um gesto tão estúpido e irreflectido inverteram o sentido de uma carreira. 

Segunda corrida do dia, ei-lo, a ele o futuro, ou pelo menos grande parte dele, Pedro Acosta chegou e disse, tirou o chapéu e foi-se, permitiu a companhia de Canet até ali ao lugar de ‘terra à vista’, e então pediu a conta e saiu rumo a um P1 sem espinhas. Nem caroços. 

Duas notas, o trepador Daryn, que subiu directo de Moto 3 à classe rainha, desceu agora um degrau rumo à realidade, fez P16, é hora de mostrar se a guitarra encontra por ali unhas, mas sem aquela vertente varredora de borda fora, que há dois anos assustavam qualquer um que nas voltas finais lhe cruzasse o caminho. 

A American Racing, que vai mantendo seu importante papel de trazer para estas lides os sempre bem-vindos pilotos americanos, suscitou um pequeno ‘bruáááá’ no paddock por ser patrocinada por uma APP de conteúdos para gente adulta, que é como quem diz uma aplicação com aqueles vídeos de se verem pela calada da noite, ora bem, isto num mundo que anda à porrada por tudo o que é lado e continente nem deveria ser assunto, mas enfim, seja como for, a sua dupla de jovens Kelly & Skinner ou andam a ver material do patrocinador e dormiram pouco, ou vão ter de dar ao pedal. Neste caso ao punho, e apenas para o rodar acelerando, cappicce? 


Regressando ao cartaz do dia, vamos lá parabenizar Pecco, está feito um homenzinho com bancada de fans e tudo, uma saudação às Aprilia, que vão alapadas nas Ducati para lhes cobiçarem o pedaço de saborosa glória, um grande ‘sim senhor’ a Jack, o mais folgazão e ‘boa onda’ de todo o plantel, um ‘cavalheiro de imperial na mão’, que sacou um coelhão na P2 e deixou mundo e meio apardalado, outro positivo franzir de sobrolho a Binder, um bicho de corrida, olhemos a Marquez, o certinho, a mostrar que se calhar não é tão ‘nelinho’ como se pensava, ‘attention Fabio’ que tens de fazer contas à vidinha, esta Yamaha para levar-te à glória é bem capaz de precisar do algo ao género do cinto mágico do Sinbad, senão não estou a ver como. 

Joan Mir andou ali aos papéis para se desembaraçar de Nakagami, o que não augura grande espingarda, afinal o japonês anda mais numa de fechar a porta e apagar a luz nas corridas, fazendo dupla em semelhante tarefa com Morbidelli, mas que raio se passa com este italo-brasileiro???, parece que em vez de asas para as suas mãozinhas lhe deram um carro de mão a gasóleo, aquilo deve ser uma tormenta para o antigo cabeludo que reinou em Moto2. 

Jorge Martin, que continuo a ver como potencial vencedor de corridas, parece que ainda levou um ‘chega para lá’ do bilharista de Cervera, a verdade é que a seis voltas do fim viu-se fora de uma prova onde prometeu alguma coisinha, mas onde acabou por nem chegar à sobremesa. 

Deixo para o final o nosso 88, Oliveira, Miguel Oliveira. O Falcão. 
Novo formato em todo o fim-de-semana, com maior gestão disto e daquilo, corridas são duas, garras de fora para a Q2 é só em dois lances de escada ... muita informação a reacomodar. As P1 e P2 a trazerem alguma sombra nas bancadas sonhadoras, para mais tarde chegar à Q1 e puxar da manilha de trunfo, calma minha gente, oferecendo a Razlan Razali a segunda linha na grelha, melhor Aprilia, ah pois é, isto não é como começa, já vamos sabendo. Depois, sábado pelo início da tarde, um pequeno recital, mantendo-se no epicentro do assunto até à curva 11 da última volta, onde um nico de desconcentração o fez descer quatro posições, ainda assim P7, falhando o pódio por uma fatia de coisa nenhuma, custa um pouco, mas a malta segue em frente, é assim a vida dos pilotos. E a nossa, dos adeptos. 


Domingo, dia de sol. 
De bancadas cheias, 
De hino com o nosso Rui Veloso. 
Arranque ‘comme il faut’ e chega à liderança, o gáudio explode nas bancadas, um país acelera com ele, as ondas do mar ficam com uma espuma mais branca, as planícies enchem-se de flores e de cor, o céu torna-se azul como só ele sabe, é isto que um país entrega ao seu menino de oiro, paixão, emoção, apoio, aplauso e um amor de adepto. 

Bagnaia acaba por impor o poderio bélico das Ducati em aceleração, Miguel ajusta suas notas, irá segui-lo, dirão adeus ao bando, e no final logo se verá, prometem-se vinte voltas de coração aos pulos e unhas em processo de desbaste. 

No final da curva um, volta três, chega a enxurrada de disparates, o desvario de Marc. A tarde e o âmago da corrida terminaram nesse momento para nós, sem apelo nem agravo, foi-se ali a andorinha da nossa Primavera! Ficamos, honramos quem corre, buscamos notícias de Miguel, pouco depois chegam as boas novas, dorido, mas apto. 

Desmontámos a tenda das emoções e regressámos à vida. Antero de Quental escreveu um dia: 
‘E dentre a névoa e a sombra universais 
Só me chega um murmúrio, feito de ais... 
É a queixa, o profundíssimo gemido’ 


Já eu, não irei tão profundo, limito-me a perguntar-te: Marc, já te falei no Milhazes, certo? 

PS: acabamos de ficar a saber que Miguel não irá à Argentina, uishhhh, voltou a puta da dor de dentes, em força. JODER ao quadrado, ao cubo e por aí fora.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Um olhar diferente ao teste de Portimão

O Jan Jan Pais esteve, um fim-de-semana inteiro, de sol a sol, a fazer aquilo que todos aqueles que amam o motociclismo deviam de fazer pelo menos uma vez na vida: estar presente para que uma corrida, neste caso uma sessão de testes, se possa efectuar na máxima segurança. Não é fácil. Já o fiz há muito anos. E o sentimento no fim do dia é este que o Jan Jan nos conta. Ora leiam… 


Testes, dois dias de um regresso ansiado 
Até que enfim, roupa laranja para dentro da mala de viagem, cadeira portátil, protector solar, luvas, chapéu e outra parafernália. 
É dia, senhores, é dia, eles vêm aí! 
Sexta-feira à noite chego ao destino que me acolhe nesta volta às lides, base de apoio de dois outros comissários, pai e filho, Nuno Ricardo e Diogo, eles que nos dão boleia e oferecem guarida, gente boa e solidária é o que é este mundo laranja. 
Vale da Parra, a casa onde pernoitamos é ali resvés à Rotunda do Burro. 
Assim sendo promete, tem burros que trazem bom agouro. 
Sábado pela fresca já estou no AIA, posto T4D, junto com o André Cruz, chefe de posto, bom dia, apresento-me, homem precavido, de tácticas de intervenção e de café, a conversa sai escorreita e boa, vamos desbravando a emoção do retorno. 
É dos Olivais, diz-me! 

Não vos falei que o burro trazia sortes? Trouxe um gajo da Cidade de Bolama a juntar ao da Bafatá, dois conterrâneos de um dos bairros mais bonitos que algum dia a natureza concebeu, juro-vos que assim será, perguntem ao burro da rotunda acaso tenham dúvidas. 
Passado um tempinho, curto diga-se, junta-se-nos o Rui, mototáxi, traz vontade para o café e dois dedos de conversa, é do Bairro Pontal, gente de durezas e atrevimentos, bem-vindo sejas, junto com estes dois tornaremos a vida de quem nos quer mal num inferno, essa é que é essa, venham agora as motas e uma maré de pressões, de emoções, de atenções e outras que tais, nada tememos, é gente de bairro, e os bairros são a terra de quem é das cidades! 
Rui quê, perguntei? ... Rui dos Reis, carrega de pendura os ídolos que se esbardalham, acode aos laranjas em seus postos, corre e não pára em sua scooter, homem duro, mas cuidai de não vos preocupardes, vem do Bairro. 
Do Bairro Pontal. 
Vi logo. 
E vieram então as horas a fio, fato laranja e olho vivo, namorando a RNF com o número 88, atentando em todos os que aceleravam desabridos, vindos da curva três e atacando a esquerda cega que é a quatro, ele é preciso uma boa dose de ciência e loucura, mais um par de chiolas, eu diria, e eles que sim, que as têm. 
Ambas as duas, como diria o outro. 


Primeiro dia, ali desde as oito, quase nove, até às quatro, quase cinco da tarde, nada a registar por aquelas bandas, a não ser o sol que abrasava e a fome que apertava, andávamos amorfos na acção e eis senão quando Eneas, em seu alazão cor de sangue dispara deslizando pela gravilha adentro, chove-nos a adrenalina, extintor na mão de um, barra e cinta na do outro, piloto sai pelo seu pé, foi hora então de tratar de tirar aquela centena e meia de quilos de potência e tecnologia dali para fora, naquele momento tudo faz sentido no mundo laranja, sabemos que temos a torre, os pilotos, os outros laranjas, tudo à espera do ‘OK’ para a pista, ó diacho, é como estar em palco, de cronómetro a marcar, se te demoras o público vai patear, desta feita não pateou! 
I love this game, dizem na NBA, nós, laranjas, dizemos o mesmo. 

Chegou o dia dois, em boa verdade a curva quatro esteve anormalmente sossegada, por outros lados caíam e levantavam-se, este é o fim-de-semana onde a gravilha é o nosso terreno, para uns, a consola que manda avisos acesos para a pista é ocupação de outros, ali ao nosso lado a Jessica seguia atenta, uma quase enfermeira, que ali é doutora a enviar led’s e a dar bandeiras. 


Ah, e os pilotos, as equipas, como foi?.. perguntam .. pois disso sei pouco ... mas vamos lá tentar um resumo da coisa. 
Primeira bola a sair do saco: Ducati, Ducati, Ducati. Três bolas, aliás sete, como viria a verificar-se. Depois .. nous avons Quartararo, ce garçon é mesmo bom, já sabíamos. Binder também, é bom e isso é um facto, a gente já não quer saber dele, mas ele ainda quer saber de nós e não nos larga. Mais à frente, quem é este Marquez ali em P7? Alex! Voilà, a Ducati é um bom elevador. E as Aprilia, homem, as Aprilia? 
Então cá vão .. P10,11 e 12, tipo trigémeos, Miguel a 0,015 segs de Aleix e com 0,094 de avanço a Maverick, com o (agora) nosso Raul a fazer P16, a três décimas do seu colega de escritório. 
É bom? É mau? É o ‘kaká’ como diriam os nossos irmãos brasileiros. 


As Honda a perceberem que a escalada vai ser dura, Joan e Marc com muita tabuada por aplicar, noutra garagem a austríaca, Pol e Augusto a demonstrarem porque fugiu Miguel daquela cruz chamada GASGAS, Rins coçando a cabeça, perguntando-se que raio de mota será aquela??.. Nakagami seguindo seu tranquilo passeio pelos últimos tempos nesta classe rainha, acho eu, Miller a concluir que não abrirá muitas grades de minis para festejar pódios e Morbidelli, que continuo a considerar grande piloto, a insistir em sua atrapalhação em desembrulhar aquela Yamaha, mas será que lha entregaram sem instruções de montagem? 

E pronto, se do assunto MotoGP não espero que desatem a estar de acordo comigo, até porque eu é mais bolos, já quanto à sensação única de chegar ao AIA, depois de uns meses longe, cumprimentar e ser recebido por uma mancha laranja que nos sorri sempre, que está lá para nos ajudar em qualquer altura e que se despede com um abraço de ‘até amanhã’, mesmo que o amanhã leve duas semanas, pois nesse aspecto espero ter-vos deixado bem claro: WE LOVE THIS GAME.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Temos tantas saudades Miguel

O sol das últimas semanas fez-nos mesmo bem a todos. Para além das motos, as letras também estão de regresso ao ESCAPE. Hoje é a cronica de João Rebocho Pais (aka Jan Jan Pais) que sai da hibernação invernal. O texto não é original, pois já foi publicado nas redes sociais do Jan Jan. E não faz mal. Pois é muito bonito e passional. Merece a vossa atenção e leitura. 


Os dias vão passando. 
Às vezes parece que não, mas sim, vão! 
Dá-me até a sensação que, olhando ao fundo, já as vejo. 
Elas, as tabelas de tempos. 
Sei que não chegarão sós, bem logo de seguida, é garantido que darei de frente com os treinos livres. 
E de enfiada os cronometrados.
Pelo sim, pelo não, vou armazenar café e uns pães da véspera, são bons para as torradas. 
O sofá, apronta-se, quer aninhar-se também em frente à emoção. 
Quando chegar o fim-de-semana, aquele, o tal, ainda por cima na nossa Portimão, vai ser um ‘deus m’acuda’, o destrambelho, o desassossego, as palpitações cardíacas, os passeios a correr escada acima e abaixo, porque nem consigo olhar, quero mas faltam-me as forças, tremo, de tão bem que quero que vá correr, de tão bem que sei que vai correr. 
Desde Novembro que andamos nisto, nesta secura de lágrimas felizes, neste deserto de sábados e domingos sem ti, nosso 88. 
Agora sabemos que está quase, quase, para não dizer que já começou, já andas por aí, por esses sítios onde a magia se deita em velozes curvas de um menino homem grande.
Prometo que este ano saberei ser mais calmo.
Ou que pelo menos tentarei sê-lo. 
Ou ao menos que tentarei prometer. Sectores a laranja, sectores a vermelho, a Q2 direta, a Aprilia mais linda de todo o mundo, eis que chegam voando dois algarismos redondos, um oito e outro ao lado, credo, esse é o mundo que queremos. 
Temos tantas saudades Miguel. 
Se fosse como os tempos do antigamente, teríamos ido mil vezes à caixa de correio, ao fundo do jardim, na esperança de novas tuas. 
Hoje, neste mundo que corre tão rápido, mas tão rápido que parece um Falcão, nem conseguimos vagar para sacudir a saudade e deixar de nos lembrarmos de como é lindo quando sorris no fim de uma corrida. 
Vou fazer café. 
E sentar-me no sofá. 
Não faz mal, eu espero mais um bocado.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Um café e a conta, por favor

Hoje temos fim de festa. E mudanças também. Foi assim que João Rebocho Pais (Jan Jan Pais) viu a jornada valenciana, a última do ano. Que bela cronica… 


Terminou, não haverá com estas cores, mais uma moeda, mais uma voltinha. Por muitas curvas que se deem, foi a KTM a escolher este ‘não futuro com Miguel’. Valência, 6 de Novembro, do ano da graça de dois mil e vinte e dois, pediram um café e a conta, por gentileza. O ‘Espresso’ foi-lhes servido, ao bom jeito do nosso Miguel, forte e encorpado, com o sabor inconfundível de uma laranja espremida até ao fim. Literalmente. As laranjas, como os cavalos, também se abatem.

De P14 a P5, com a nuance de manter viva a sua derradeira batalha, MO vs JM. Explico. Vimos algumas vezes neste ano, uma corrida a ser liderada por Jorge Martin, por norma com uma gestão de faca nos dentes, que lhe custou alguns amargos. De boca. A mesma boca que transportava a faca. Se desejei que Martin caísse? Não, seria incapaz. Aliás, sim, desejei-o, confesso, mas guardo-o em segredo, uma quedazita sem maleitas, nem é pecado pedir tão pouco. Não aconteceu, está bem, aceita-se, Oliveira termina o ano em P10, na prova rainha de todos os reinos da velocidade em motas. E segue sua vida. 

Entregou à KTM tudo tudinho o que sabia, mais o muito que por ali descobriu, Poncharal ficar-lhe á eternamente grato, outros nem tanto, perdoa-lhes senhor que não sabem o que fazem. 


Nem Pol, nem Zarco, chegaram sequer perto ao busílis da questão, Brad fê-lo duas vezes, numa delas com uma receita de improbabilidades tais que em cem anos ninguém a repetirá, terminando com ‘slicks’ na chuva e cortando a meta à velocidade com que se estaciona num parque de centro comercial, ah e tal, não sejas assim, injusto, invejoso, afinal ele venceu, deixa-te de coisas… não, nem sou aquilo, nem me deixo de nada. Miguel venceu por cinco vezes, em quatro anos de MotoGP, uns há que passam lustros e lustros e nada lustram. 

Passei a corrida a correr, por virtude de estar a acompanhar esta mudança de Miguel estando eu próprio em mudanças também, já viram a ironia? Logo eu, um gajo do mundo da bola, recém-aqui-chegado, e a conseguir uma simbiose destas, isto contado ninguém acredita. 


Rei posto, Quartararo passou o ceptro a um Bagnaia que soube ser o melhor no Exército Vermelho. Marc surpreendeu-me e de que maneira, ainda bem que nunca lhe tracei destinos, quer dizer, fi-lo mas em conversas com o cão, e o cão não fala, o espanhol parece escavar muito possível nova-mina de ouro, havia de ser eu a partir assim o bracinho que nem cem anos chegariam para regressar fosse onde fosse. O campeonato acaba com a vitória de uma Suzuki que para o ano não veremos. Como pouco ou nada vimos a Suzuki de Mir, campeão do mundo há um par de anos. 

Senhores e senhoras, este é um mundo de loucos, num tempo de loucos, e nele Miguel já saboreou dois Top 10 em três anos, tivesse eu sonhado em desejar semelhante cenário alguma vez e tomar-me ia por louco garganeiro, mas Miguel transformou um oásis, numa realidade em que nos viciámos, a adrenalina de torcer os dedos, quando ele voa como um Falcão. Amanhã mudam-se-lhe as cores do fato e da mota, assim mudaremos nós também, as forras dos sofás, as tshirts, as capas para os tabliers dos automóveis, vai tudo a eito a tingir na panela, afinal a partir de agora Siamo Tutti Aprilia. 

Chega, pois, um longo inverno, sem fins-de-semana entrecortados por FP’s, Q’s e dias de corrida…, mas bem vistas as coisas vem aí o Natal, depois mete-se o Ano Novo, logo, logo, o Carnaval e quando dermos por nós aí está Portimão, que é como quem diz a Mexilhoeira Grande, com o o seu lindíssimo AIA, a fazer a estreia mundial de uma ‘sprint race’ na MotoGP. 

E nós? Oliveirando e Apriliando. Cantando e rindo. Il futuro inizia adesso.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Que novas trará Valência?

Para já, aliás para domingo, trará o campeão. Bagnaia tem o pássaro nas luvas, tem pé e meio na garrafa de champanhe. Quartararo deve ter pedido a Lourdes e a Fátima, e respectivas Nossas (Deles) Senhoras. 


Eu cá por mim tenho um preferido nesta pendenga, são cá coisas, vêm desde o tempo em que via o Marini a colocar protector nas costas de Pecco, tentando evitar-lhe alguma insolação oliveirista. Mas isso sou eu, com aqueles tiques de ‘malta da bola’, com estes fígados de ‘cá calharás’. Mas depois acalmo e ponho-me cá a pensar, ora se o Pecco anda de Ducati, se aquilo por ali parece uma romaria delas em domingo de Cabo da Roca, ora porque carga de água não haveria a fábrica mãe de todas as batalhas aconselhar caldos de galinha aquando da aproximação ao seu menino mai lindo?

Acaso o nosso 88 estivesse em posição semelhante, veria eu com bons olhos algum ataque por parte de algum Manuel da mesma equipa, ele já sem chances de disputar o ceptro e coroas reais? Pois é. 


E tenho ainda de admitir que neste mundo muito lindo as vitórias valem vendas, as vendas valem dinheiro, e o dinheiro vale um porradão de coisas, pois se calhar .. o melhor é eu aceitar, deverá doer-me menos. Mas ainda assim, nada me impede de acreditar que o mar possa dar batatas e, quem sabe, o azar de uns possa ser a sorte, grande, de outros, neste caso de Fabio, decididamente um piloto assaz invulgar em sua maestria de gabarito. 

Valência, ou o seu ‘day after’ trará também dois mundos novos a dois pilotos que seguimos atentos este ano que ora finda. BB deixará de contar com preciosas indicações à box, por parte de Miguel, Oliveira chegará de novo a uma equipa satélite recém chegada à marca, e quem sabe poderá de novo brilhar ao emprestar àquele mundo novas e precisas equações.


E se Enea tentará ainda ‘tirar o pão da boca a Aleix’, se Marc Marquez tudo fará para dar saltos de champanhe na mão, a verdade verdadinha é que muitos de nós (atenção, eu não disse todos), muitos de nós suspirarão aliviados por ver Miguel partir em nova aventura, buscando novos mundos. 

Como o fizeram Vasco, Pedro, Bartolomeu, Gil, Pêro e por aí fora. Como o Falcão, gente de conquistas, portanto.

Venga Valência.

João Rebocho Pais

domingo, 30 de outubro de 2022

Uma pescadinha...

Podia ser velocidade furiosa todavia é apenas fantasma. A Velocidade. João Rebocho Pais escreve sobre o CNV que teve a sua quinta jornada do ano este fim-de-semana (quarta da época no Estoril). CN quê? Isso, CN quê! Originalmente publicado numa rede social, este texto merece a vossa atenção e aqui está no ESCAPE. 


Uma pesacdinha, De rabo na boca. Bancadas vazias no Campeonato Nacional de Velocidade (CNV). Quando em MotoGP temos um dos nossos a brilhar, que embalo aproveitamos? Quando o Mundial de SBK dispara nas audiências, o que fazemos para apanhar a boleia? O nosso CNV parece atrair a fantástica enormidade de zero seguidores. Tirando os familiares, óbvio. Bilhetes caros? Se para o paddock são 10€ para assistir os três dias e para as bancadas é mesmo a custo ZERO, então a resposta é não. Mas pensemos bem… 

Onde é que o grande público, a tal ‘malta da bola’, a tal que alguns neste meio parecem desdenhar, onde é que essa gente obtém informação acerca das competições em causa? Descontando os meios especializados, cujo raio de acção parece não superar a área de seus quintalinhos e rivalidades, como quem disputa a atenção dos distraídos transeuntes que ainda se passeiam por aquele deserto, a verdade é que o secretismo em torno deste campeonato parece coisa ao género de Clube de Bilderberg. E nem mesmo as pessoas que os leem são vistas em dias de corrida. 

Mais, se por um acaso alguém que passe no Autódromo em dia de provas decide entrar, chega à bancada, escuta o zumbido das motas na recta da meta, não faz a mais pequena ideia de quem corre, nem para o que corre, vê passar umas dez motas a fundo e diz para o filhote que o acompanha... ‘anda vamos embora que já chega’. Claro que chega. Aquilo é uma emoçãozinha de ver o cachopo encantado a cada dois minutos, menos um pouco, mas informação que é boa, viste-la, a que chega através dos altifalantes viaja num eco inaudível e sem chance alguma de ser entendida, o seu efeito é pura e simplesmente nulo. 


Falta muito trabalho e falta esse trabalho por parte de todos os envolvidos. Federação. Autódromo. Equipas. Pilotos. Patrocinadores. Imprensa desportiva. E se nas redes sociais vamos vendo, aqui e ali, esforços esporádicos e individuais para cativar novos espectadores, a verdade é que sem a presença nos jornais desportivos e sem um programa televisivo com informação clara e atraente, sem essas premissas, mais cem anos se passarão e as bancadas vazias continuarão, no que ao CNV e assuntos similares diga respeito. 

Num país com duzentos programas em torno da bola, de bola e de mais bola, seria assim tão difícil alguém com um mínimo de capacidade e influência, alguém com um pouquinho de visão de mercado, conseguir um espaço em que se oferecesse às pessoas a emoção desta modalidade? 

É que, se não me falha a memória, só de SPORT TV’s somos aviados de seis versões, por lá se repetem programas até à exaustão, mas informação acerca desta gente que luta e que sonha em chegar longe num mundo de exigência máxima e de custos quase proibitivos, informação dessa, nicles batatóide. E começo a duvidar seriamente que algo venha a mudar num futuro próximo. Se calhar o melhor é admitirmos que por cá não passamos disto e que na vizinha Espanha nos dão ‘déjazero’ nesta matéria e que até no chinquilho enchem pavilhões! 

Post-scriptum: percebi após vários comentários, que afinal na bancada paga-se. Faz sentido…, se à borla o panorama era já meio deprimente, a cobrança deste montante servirá para aniquilar as possibilidades de algum habitante por ali. Pela receita total, que se prevê que não ultrapasse os cem paus, só se for para alguém almoçar e ir de UBER para casa. Se calhar era bem empregue esse dinheiro…, na aquisição de um DESPERTADOR.

domingo, 23 de outubro de 2022

Antes pelo contrário

João Rebocho Pais (aka Jan Jan Pais) começa aqui uma colaboração regular com este ESCAPE, o vosso blogue de cultura moto. Aproveitem a leitura pois é escrita “classe Rainha”. Obrigado João!


Tem dias em que falar da corrida do Miguel é um pouco como tentarmos agarrar a própria sombra, sabemos que anda por ali, vamos pé ante pé e quando chegamos para caçá-la ela esvai-se num ápice, estava ali já não está. 

Em boa verdade, aquela sensação de nervoso miudinho que nos assalta quando embarcamos com o Falcão em busca de sua glória, dele e, por conseguinte, nossa também, pois essa coisa boa e inquietante não chegou a assomar-nos em nenhuma das três madrugadas de enfiada que, com gosto e afinco, devotámos à causa oliveirista. 

E se a FP1 com a P1 de Binder, chegou a insinuar cenário em que as KTM se safariam ali para os lados da Malásia, já as restantes sessões tratariam de nos afrouxar ambições, a todos fazendo descer à terra, com o extra nunca desejado de assistirmos a uma Q1 em que o nosso Falcão sofreria, de novo e em parte, aquele pesadelo em que o vemos ao fundo da sala, na última carteira, tipo aluno que se distraiu. 

Não cremos ser o caso, aliás apontamo-lo improvável. 
Lá está! 

Vemos proposto por vezes em alguns palpites, sem no entanto virem assinados e carimbados com um ‘jurar jurado’, a ideia de que por comparação a Brad ou a outros pilotos a questão das décimas que valem ‘degraus escada abaixo’ na situação do 88 se deve a um menor ‘conseguimento’, chamemos-lhe assim, por parte do nosso menino homem herói.

Ora se a perfeição nem na aritmética daqueles que compõe a grelha na MotoGP funciona, sabendo nós de ciência certa que para alguns predestinados a soma de dois mais dois será bem mais do que quatro e que, para outros, semelhante adição poderá inclusive equivaler a uma cruel subtracção, pois o que podemos dizer é que Miguel raramente se engana na correcta aplicação das incógnitas e variáveis que... dele dependam para dar o expectável e máximo uso à tecnologia que o leva para a pista. 

Já das outras, variantes e outras que tais, pois aí é que a porca torce.
O rabo. 

Posto isto, e olhando à corrida propriamente dita, após uma madrugada que começou pelas cinco da matina, com a habitual farândola trazida pelos meninos da Moto3, com os seis primeiros a terminarem dentro da mesma ‘metade de segundo’ vejam-me lá, seguida de uma corrida de Moto2 em que Ai Ogura guardou para a última curva ‘a precipitação de todo um campeonato’, prescindindo de ir à última cartada com manilha, rei, dama e valete de trunfo, ao invés almejando chegar desde logo vestido de Ás da mesa e arredores, já coroado Rei do Baralho, acabando por ser vítima dos deuses da crueldade, aqueles que ‘fazem perder a frente’ sem aviso prévio nem carta registada, necessitando, agora como nunca, que uma cimeira de conjugações conspirem contra Augusto Fernandez e lhe abananem os 9,5 pontos de vantagem com que se vai iniciar Valência. 


E pronto, só pela referência mais detalhada a estas duas corridas, já podem concluir que da principal e a que mais nos interessa, pouco me inspira o teclado.
Mas vamos lá.

Arranque a prometer água na boca do nosso Falcão, crença sólida de que a madrugada se coroaria em início matinal de êxito e motivos de sorriso, até ao momento inglório, e não virgem este ano, de vermos Miguel no elevador que desce, por oposição ao que lhe observávamos até então, secando toda e qualquer pretensão ao paladar que se nos apurava para um cafezinho comemorativo. 

Ah, é sempre a mesma coisa, parece que adivinho no éter que trazem as redes sociais... 
É.
E não é.

Na realidade. Jorge Martin, ou Martinator, como já fez amiúde anteriormente, transformou uma liderança de prova em queda e tudo perdeu, se for disso que falam, aí sim…, parece repetir-se o padrão. Já Miguel, lutando por certo com algo em sua ‘demasiado bipolar KTM’, foi tratando de se manter à tona, garantindo um P13 que nos poderá parecer acinzentado mas que... acrescenta três pontos ao alforge, e que por sua vez significam a chegada a P9 na Geral, por troca com ... Martinator, isso mesmo, ess’outro montando uma Ducati daquelas que parecem reinar em terra de cegos. 

E, já que um pequeníssimo e momentâneo desânimo me levou a tergiversar por outras bandas que não as de Oliveira, algumas pequenas notas em torno do resto da turma. 


Quartararo. Inegavelmente o gajo que sai do bar e enfrenta o bando, sem medos e de punho cerrado, aviando umas biscas certeiras que lhe permitem chegar a Valência e sonhar que tudo vale a pena! 

Bastianini. Se, em corrida anterior, chegou e disse, tirou o chapéu e foi-se, já desta vez pôde apenas fazer como o golfinho, chegou ao topo, fez uma cabriola, e regressou à base a mando do treinador, na cabriola, entretanto, fez lembrar o reboque tipo ACP, passe a publicidade, tirou de aflições e levou para mais à frente o menino que o chefe mandava deixar liderar em paz e sossego… 

Bezzecchi. Mais um da esquadra Ducati, se batesse hoje Fabio na classificação poderia dar o título a Pecco. 
Pois. 
Se a minha avó tivesse rodas, era um camião, se tivesse barba era meu avô! 

Rins, para mal dos nossos pecados, renasceu nestas duas últimas corridas e vai roubando a P8 a Miguel, MM parece estar a dar os últimos retoques, em seu novo fato de pretendente ao que era dele, Binder não faz milagres, Aleix não acaba o seu milagre, e nem um milagre ensina Pol a pilotar uma Honda. 



Já Bagnaia, provável futuro campeão, inegavelmente um piloto extraordinário, o facto é que não se livrará deste manto de desconfiança, quando vemos sete pajens semeando-lhe flores em seu caminho. 

Um grande amigo meu, com quem aprendi o quase tudo do ‘pouco que sei’, em conversa que mantivemos no pós-bandeirada, defendeu-o, realçando-lhe o ‘arranque canhão’. 
Pois.
Se fosse essa a luta, Miguel e MM seriam talvez os reis de Navarone. 
Mas isto sou eu a dizer parvoíces. 

Y ahorita, venga Valência, por curiosidade em dia de meu aniversário. 
O que peço? 
Que Fabio peut gagner. 
E que vossências se mantenham por aí. 

:)

terça-feira, 18 de outubro de 2022

O voo escondido do Falcão

João Rebocho Pais escreve hoje neste ESCAPE. E isso é notícia. O João é mais conhecido no nosso meio motociclistico como Jan Jan Pais. Colaborou com a imprensa dita especializada tendo sido lá que lhe notei uma escrita absolutamente fresca e vibrante, enérgica pedrada no charco do aborrecimento, em que cada vez mais se vai transformando o panorama das letras em duas rodas – há excepções, notem; excepções que apenas confirmam a tendência. 


Segundo o João, aqui a sua escrita surge “quando um vulgar cidadão de lineu se apaixona por uma modalidade fascinante. E resolve ensaiar umas curvas mais umas acelerações em forma de parágrafos. Que não vos macem minhas palavras!”, pede ainda. 

Quem sabe não tenham notado, todavia o João não nasceu ontem e sim em Lisboa em 1962. Cresceu na zona oriental da cidade, local fértil em personalidades de vulto, de filantropos a vigaristas, de homens de ciência e cultura a comerciantes de mercadorias ilícitas. Entrou para a aviação comercial em 1985 e assume-se como leitor apaixonado que passa demasiadas horas nos aviões. Nunca imaginou escrever uma história para muita gente. Contudo estreou-se no Romance em 2012 com "O Intrínseco de Manolo”. A primeira obra foi bem recebida. Seguiu-se-lhe “Dizem que Sebastião” (2014) e “Olhando por Mr. Bergman” (2016). 

O texto que se segue foi resgatado ao MotoGP Fórum Português que conta com quase 85.000 membros na rede social Facebook que, espante-se, é frequentado por tantos que até aqueles que vilipendiam as redes sociais (essas malvadas que dão cabo da imprensa dita especializada!) não perdem tempo e oportunidade a lá publicarem as suas notícias, algumas delas em modo absurdo clickbait. Melhor sorrir. E agradecer ao João a cedência do seu belo texto que se segue.

O voo escondido do Falcão


Que corridão, senhores ouvintes, que corridão. MotoGP mascarada de Moto3, aquilo foi de torcer e destorcer dedinhos, assim sim, ora chega, chega, chega, ora arreda lá para trás, variadíssimos os candidatos à dança do rei, sustenham a respiração, não façam barulho, eles andam aí. 

Rins, o Chaplin da Suzuki que, a duas corridas de ir para casa, testa material nas motas e ganha corridas, expliquem-nos lá isto faz favor, pois Alex merece que se lhe tirem todos os chapéus, a cartola, o de côco, o de cáubói e o de sol, veio de P10, chegou-se à frente com pezinhos de lã e subiu os degraus com botas de vaqueiro australiano, muy bien chico, deu gosto ver-te chegar lá, depois de te esgueirares para a Q2 pela ínfima quantia de 0,04 segundos imagine-se, eia lá hombre, o que tiveste esta madrugada (para nós), mereceste-o e bem. 

Logo de seguida o regresso de Marc Marquez, ó diacho, será mesmo que este rapaz, depois de todos os calvários galgados e repetidos, ainda nos vai trazer novo fôlego e mais reinado no pedaço? Em boa verdade, o que mostrou foi esclarecedor, anda menos dependente de ‘saves’, redesenhou seu estilo de samurai, agora é mais régua, esquadro e punho, e menos elipses na geometria das curvas. 

Por fim, fechando o pódio, um Bagnaia que conta inegavelmente com duas vantagens gigantes em relação ao desprotegido Fabio, anda de Ducati e tem os guarda-costas da Ducati, que o diga Bezzecchi, que chegou e disse, tirou o chapéu e foi-se, não se atrapalha o afilhado do patrão, é mau agoiro e não traz felicidade, já Quartararo, se olhar a parceiro que possa ajudá-lo, esbarra num Morbidelli a quem parece ter saído a fava gigante de um bolo pouco rei chamado Yamaha. 

Bestia também subiu degrau a degrau, andou pelos confins da obscuridão que as câmaras não mostram nem a pau, já Jorge Martin, hoje por hoje um dos directos adversários de Miguel na geral, fez a Pole, depois foi como o golfinho, andou lá em cima, fez umas cabriolas, até chegar o elevador que descia, lá o apanhou e em boa hora foi deixando pontinhos sair borda fora. 

E as Aprilia, que agora tanto nos interessam, mais as KTM, que isto ainda não terminou, como foram elas? Pois bem, Aleix andou um pouco como o clima, faz que chove mas não, pouca a molha, ora coiso ora nem por isso, esgravatou lá na frente, terminaria em P9, fica agora a vinte e sete pontos do líder, em Sepang pode bem dizer adeus ao seu sonho inatingível, cheira-me. Já Maverick, depois de ser o último dos primeiros na Q2, aquilo foi um ver se te avias, acabou em P17, é a vida dura destes cavaleiros, uns dias de sol, outros de chuva miudinha, quem não entende isto bem que pode poupar-se a arrelias desnecessárias, o pelotão tem hoje uma mão bem cheia de candidatos a candidatos, essa é que é essa, aquilo à mais pequena distração cobra uma enormidade, com juros se for preciso, a este mundo chega uma sardinha a cada mil cardumes, agora, como dizia Guterres, é fazerem as contas. 


Brad Binder, arrancando de P16, engrenou o ‘Brad attack mode’ chegou a andar em P7, faca nos dentes e ‘espera aí que já vais ver’, algo porém o refreou, num repente começou a andar para trás, pouco comum nele, verdade seja dita, terminaria em P10, dois lugarzinhos à frente de Oliveira, de quem passaremos agora a falar, se nos derem licença e para tanto guardem ainda paciência na leitura. 

Pois bem Falcão voou invisível, é o que posso dizer, secura de imagens da sua corrida em ascensão, ele que pagou forte e feio um raríssimo erro de leitura em pista durante a qualificação, três posições na grelha e mais uma ‘longuelépe’, toma lá bolachas, já vi outros pecar mais feio e ‘nicles batatóide’, mas siga a banda, prá frente é o caminho, e se assim pensou, melhor acelerou, a justiça a todos guarda, mas ninguém a quer em casa, diz o povo e bem, o 88 atirou-se à sua jornada de trabalho e... galgou doze posições, chegou a um P12 que trouxe quatro importantes pontos nesta quezília de TOP8 final, temos homem, temos Miguel, Oliveira, temos Falcão, o nosso menino está e estará, pena que pouco ou nada o tenha eu visto nesta madrugada de continente a continente, logo hoje que nem o ‘livetiming’ me chegou para trazer novas ao milésimo da frente de batalha, sabem como gosto de desenhar em parágrafos as batidas das asas do nosso mais que tudo, mas hoje foi mais por adivinhação, que imagens... viste-las! 


E pronto, mais uma moeda, mais uma voltinha, MO cresceu ainda mais na adversidade, foi em seco, foi de raiva, foi em bom, para semana lá estaremos, em Sepang e na bancada gigante que é este nosso mundo de gente que acorda a meio da noite para ver um compatriota brilhar ao mais alto nível. Bora lá então!
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