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quarta-feira, 13 de maio de 2026

A estrada, a moto e o telefone esperto – Estrada Nacional 250

O asfalto da Estrada Nacional 250 (N250) impõe-se como uma cicatriz antiga que teima em não fechar, um cordão umbilical de alcatrão que liga o sal do Tejo à lama do Trancão. 


Quem a percorre hoje, entre o ruído suburbano e as rotundas que tentam domesticá-la, talvez não perceba que está a cavalgar o dorso de uma entidade que já viu tudo. A Estrada Nacional 250 é a estrada que não quis ser autoestrada, a via que preferiu manter-se rés-do-chão, colada à terra, serpenteando por onde a geografia mandou. 

Tudo começa no choque térmico e visual de Caxias. Ali, a estrada nasce sob o olhar vigilante da Linha de Cascais e da Estrada Nacional 6, a Marginal (link), essas vizinhas ricas e litorais que olham para o horizonte. 

Todavia a Estrada Nacional 250 vira as costas ao mar. Ela prefere a sombra densa da Quinta Real de Caxias, onde os jardins geométricos e as águas domesticadas tentam projetar uma ordem que a estrada, uns metros à frente, se encarregará de desmentir. É um início de contrastes: o luxo barroco das estátuas contra o cinzento do asfalto que começa a trepar o vale.

O quilometro zero da N250 está praticamente paredes meias com esta quase esquecida Quinta. A Quinta Real de Caxias é um exemplar notável da arquitetura de lazer da aristocracia e da família real portuguesa, tendo sido construída entre os séculos XVIII e XIX. O conjunto destaca-se pela sua harmonia entre o edificado e a natureza, com especial relevo para os seus jardins geométricos de estilo francês, repletos de elementos escultóricos, lagos e cascatas. A quinta é ainda famosa pela sua imponente cascata e pelos grupos escultóricos em terracota atribuídos à escola de Machado de Castro, que conferem ao espaço uma atmosfera barroca e cénica única à beira-mar. 


A estrada mergulha então na Ribeira de Barcarena e no seu vale, importante área natural e histórica. Aqui, o território deixa de ser postal ilustrado e passa a ser músculo. O vale aperta, a humidade sobe pelas encostas e a estrada torna-se cúmplice da água. É este curso que dita as regras. A N250 curva porque a ribeira curva; ela desce porque a geografia exige. O musculo de que falamos é hoje ainda tão forte que a estrada está aqui cortada por um dos muitos abatimentos provocados pelas chuvas do passado inverno. Não é apenas o interior que sofre com o desdém da classe politica. Esta só quer saber do seu bolso. Profundamente corrupta, abandona as populações que a elegem. E isso acontece em todo o país. 

EXPLOSÃO DE HISTÓRIAS 
A Ribeira de Barcarena, também conhecida em parte do seu percurso como Ribeira dos Jardins, é um curso de água que nasce na Serra da Carregueira, em Sintra, e desagua no Rio Tejo, junto a Caxias, em Oeiras. Esta ribeira atravessa diversas localidades e desempenhou, historicamente, um papel vital para a região, alimentando várias dezenas de moinhos de água e fábricas, com destaque para a Fábrica da Pólvora de Barcarena. Apesar da pressão urbanística e dos desafios ambientais que enfrenta, continua a ser um elemento central da paisagem e do património das zonas de Queluz e Barcarena. 

É pois neste abraço entre o caminho e a linha de água que surge a Fábrica da Pólvora, um gigante de pedra e memória que explica por que razão esta estrada teve de ser forte. Ali não passava apenas gente; passava o poder explosivo que alimentava impérios e guerras. A estrada era o sistema circulatório de uma indústria que precisava de isolamento e, simultaneamente, de uma via rápida para o mundo. O cheiro a salitre parece ainda impregnado nas curvas que nos levam em direção ao Norte. 

Um par de quilómetros passado e nova surpresa na estrada. As Ferrarias del Rey, situadas no recinto da atual Fábrica da Pólvora de Barcarena, em Oeiras, representam o mais importante e duradouro empreendimento metalúrgico real na história de Portugal, mantendo-se em operação ativa entre 1487 e 1695. 

Fundadas por iniciativa de D. João II, estas oficinas constituem um marco essencial da arqueologia industrial, onde estudos científicos identificaram estruturas cruciais como azenhas e oficinas de produção de ferro. Com uma longevidade notável de 208 anos, o complexo foi mais tarde adaptado, no século XVIII, para o fabrico de pólvora, mas o seu legado tecnológico permanece preservado e pode hoje ser explorado por visitantes através de trilhos de caminhada que revelam a importância histórica e industrial desta zona de Barcarena. 

A SELVA DE PEDRA 
Ao chegarmos ao Cacém, a estrada sofre uma metamorfose por implosão. O silêncio do vale de Barcarena é atropelado pela densidade urbana, por prédios que cresceram encostados ao asfalto como se quisessem apanhar boleia. No Cacém, a N250 deixa de ser caminho de fábrica para ser a espinha dorsal de uma cidade que nunca para. É um caos organizado de paragens de autocarro, passadeiras e comércio de proximidade, onde a estrada serve de sala de estar para milhares de vidas que cruzam o seu asfalto todos os dias. 


Esperem. Nova supressa na estrada mesmo à saída do horrível Cacém. A Anta de Agualva, localizada na freguesia de Agualva-Cacém, em Sintra, é um monumento megalítico do período Neolítico (datado de aproximadamente 3000 a.C.) que se destaca por estar integrado num cenário plenamente urbano. Classificada como Monumento Nacional desde 1910, esta anta de corredor foi originalmente identificada pelo arqueólogo Carlos Ribeiro em 1875 e preserva ainda sete esteios verticais da sua câmara poligonal original.

Após décadas de abandono e degradação devido ao crescimento habitacional da zona, o monumento foi alvo de uma profunda reabilitação pela Câmara Municipal de Sintra em 2017, sendo hoje o ponto central do Jardim da Anta, onde passadiços de madeira e painéis informativos permitem aos visitantes coexistir com este vestígio pré-histórico de 5.000 anos no meio da cidade. 

QUILÓMETRO MAIS DOCE 
E a redenção vem logo a seguir, em Belas. Aqui, a N250 cruza-se com a Nacional 117, um nó de comunicações que cheira a história e a fofos de Belas. É um ponto de pausa, onde o território respira um pouco antes da grande obra de engenharia humana. O Fofo de Belas é um doce tradicional português com origem na centenária Fábrica dos Fofos, em Belas, no concelho de Sintra. Esta iguaria destaca-se pela sua massa leve e esponjosa, semelhante ao pão-de-ló, que é recheada com um suave creme de ovos e levemente polvilhada com açúcar. A sua história remonta ao século XIX (1850), mantendo-se até hoje como um símbolo da doçaria regional, muito apreciado pela textura delicada que justifica o seu nome carinhoso. 

Rumo a Este, a N250 recupera enfim o perfil de Estrada Nacional que acompanha o desnível do terreno. E, nova surpresa. Num ápice a N250 curva-se perante a Mãe de Água Velha e a Mãe de Água Nova. É aqui o início do épico Aqueduto das Águas Livres. Olhar para estas estruturas é perceber que a Estrada Nacional 250 não viaja sozinha; ela corre paralela à sede de Lisboa. Enquanto o aqueduto levava a água, a estrada trazia o resto. São infraestruturas irmãs, moldadas pelo mesmo relevo acidentado, ambas escravas da gravidade e da necessidade de ligar o interior ao centro do poder. 

AGUADEIROS E LAVADEIRAS 
O caminho torna-se mais sinuoso, mais rural, quase bucólico, ao entrar em Caneças. Caneças foi durante muito tempo território de água. Nascentes, poços, circuitos de distribuição informal e formal. Era daqui que se organizava parte do abastecimento diário a Lisboa através dos aguadeiros. As famosas fontes e a tradição das lavadeiras ainda ecoam no ritmo da estrada. Caneças, hoje totalmente descaracterizada, é o pulmão da Estrada Nacional 250, um lugar onde a estrada parece refrescar-se antes de descer para o vale de Loures. 

Historicamente, a crónica escassez e a baixa qualidade da água em Lisboa forçaram as elites do século XIX a recorrer a aguadeiros, que traziam de Caneças águas reconhecidas pela sua pureza e propriedades tónicas, conforme atestado pela Sociedade Farmacêutica Lusitana em 1842. Esta exploração evoluiu para uma relevante indústria de águas de mesa no início do século XX, centrada na comercialização em bilhas de barro típicas da região saloia, enquanto os excedentes sustentavam a agricultura e as lavadeiras locais. Contudo, apesar da sua importância económica inicial, o setor entrou em declínio a partir da década de 1940, vítima da generalização da água canalizada e da forte concorrência das águas minerais industriais, restando apenas, até aos anos 60, o eco da sua venda tradicional nas ruas da capital. 

À saída de Caneças a N250 parece querer acompanhar a água e fugir para lisboa. Só que não. Na Ponte da Bica vira à esquerda para Montemor (nem Velho nem Novo) e contorna a Norte a pequena e famosa Serra da Amoreira que tem vistas incríveis para a capital e para o seu Tejo. 

RUMO À “ESTRADA REAL” 
Dali descida. E que descida. Loures aparece como um tabuleiro de xadrez onde a N250 encontra as suas primas, a Nacional 8 (link) e a Nacional 115 (link). É um cruzamento de destinos, um hub histórico onde as hortas de outros tempos deram lugar a um entreposto logístico vital. Aqui, a estrada sente o peso dos camiões, o pulsar do abastecimento da capital. 


De novo para sul, de Loures até Ponte de Frielas, a N250 partilha um troço com a Nacional 8. E partilha ainda um dos segredos mais bem guardados das estradas portuguesas. Estamos em território da antiga Estrada Real. E esta já foi a principal ligação entre Lisboa e Porto. A transição para o regime republicano alterou a nomenclatura das vias, substituindo o termo "Estrada Real" por "Estrada Nacional". Em 1926, o plano rodoviário integrou aquela que era então a Estrada Nacional 10 (1.ª classe), que ligava o Porto (Circunvalação) a Lisboa (Carriche) e cruzava aqui a Várzea de Loures. Aqui o território abre. A Várzea de Loures estende-se larga, plana, agrícola na origem, domesticada hoje, mas ainda legível. 

A Várzea de Loures é uma bacia hidrográfica e planície aluvial com cerca de 1.700 hectares que une Loures a Sacavém. Delimitada por colinas e percorrida pelos rios de Loures e Trancão, esta região abrange diversas freguesias. Com uma herança cultural profundamente ligada à tradição saloia, a Várzea combina solos férteis e quintas seculares, fundamentais para o abastecimento hortícola de Lisboa, com uma biodiversidade vital que inclui pauis e sapais, servindo de habitat a espécies prioritárias e atuando como reguladora natural de cheias. 

SOL AVESSO
Junto a Ponte de Frielas corre o Rio de Loures, discreto, quase apagado na paisagem atual, mas estrutural no desenho do vale. Mais à frente, junta-se ao Rio Trancão, como sempre fez, ignorando completamente tudo o que foi sendo construído à sua volta. Aparentemente seria lógico a N250 seguir esse pequeno vale. Seria fácil. Seria previsível. E não foi isso que aconteceu. Os engenheiros do plano rodoviário de 1945 fizeram outra coisa. Em vez de acompanharem o curso de água, decidiram cortar a lógica mais evidente e subir. Subir pela encosta, pela chamada Apelação — ou, como alguns registos lhe chamam, a colina da Apelação. E é aqui que a estrada muda de tom. 

Durante quatro, cinco quilómetros, a N250 deixa de ser apenas funcional e ganha carácter. A subida desenha-se em curvas que não são forçadas, mas também não são suaves. São naturais. São de adaptação ao terreno. Se o piso estivesse à altura do traçado, este seria um daqueles troços que se guardam. Não pela velocidade, mas pela leitura do espaço. 

À medida que se sobe, a várzea fica para trás — não desaparece, abre-se. Fica inteira à vista. Um plano largo que revela o que este território foi antes de ser comprimido pela expansão urbana. É um dos raros momentos em que a estrada oferece distância. E depois, em nova mudança abrupta e dramática, corta. Do outro lado, a paisagem muda literalmente sem pedir licença. A Apelação de hoje não é a que a estrada encontrou. Bairros densos, construção sem grande diálogo com o traçado original, fragmentação. A estrada atravessa isto como quem já estava lá antes. E continua. Pouco depois surge um daqueles nomes de localidade que parecem ficção, mas não são: Sol Avesso. Não há explicação evidente. E talvez ainda bem. Há nomes que não precisam de ser traduzidos. Basta passá-los. 

A ÚLTIMA PEÇA DO PUZZLE
A estrada segue por ali, já a sentir a proximidade do vale do Trancão. O terreno começa a ceder outra vez. A humidade regressa, mesmo quando a água não se vê. E depois, finalmente, o encontro. 

O Rio Trancão aparece como limite e ligação ao mesmo tempo. As margens, muitas vezes marcadas por lamas, por zonas de transição entre o que foi natural e o que foi ocupado, dão à estrada um fim que não é exatamente um fim. É mais um encaixe. 


Porque poucos metros à frente, já em Sacavém, a N250 encontra a Estrada Nacional 10 (link). E isso fecha o desenho. A Nacional 10 é outra história — e das grandes. Muita gente conhece-a para sul, entre Cacilhas e Azeitão. No entanto essa é apenas metade da leitura. Daqui a estrada continua, atravessa o Tejo em Vila Franca de Xira, percorre as planícies abertas da Infantado, desce até Águas de Moura e fecha um arco que durante muito tempo funcionou como verdadeira cintura externa de Lisboa. 

E é aqui que tudo encaixa. A Nacional 250 não é um eixo principal. Nunca foi. É sim uma peça. Uma peça que liga o litoral ao interior imediato, que cruza sistemas maiores, que contorna Lisboa sem a atravessar, que sobe quando seria mais fácil seguir a direito, que revela vales, rios, produção, e depois desaparece dentro de um território que já não se organiza como antes. O que ela faz, no fundo, é simples — e raro. 


A Estrada Nacional 250 não é apenas uma estrada de ligação; é uma leitura transversal de Portugal. Começou real e marítima em Caxias, foi industrial em Barcarena, urbana no Cacém, hidráulica em Belas e rural em Caneças, para terminar operária e fluvial em Sacavém. 

Quem a percorre de ponta a ponta não atravessa apenas quilómetros; atravessa as camadas de um país que se construiu à beira do caminho, sempre à espera da próxima curva, sempre agarrado ao asfalto que lhe dá sentido. Ela continua lá, rugosa e persistente, ignorando as autoestradas que passam por cima, preferindo o contacto direto com o chão de quem realmente a vive.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

No Próximo Alentejo de Triumph Tiger 1200 GT Pro

Com fotografia de Gonçalo Fabião

Vamos dar uma volta de moto? Certamente. Todavia em que pensa o motociclista da grande Lisboa quando lhe falam em “dar uma volta de moto”? Marginal, Serra de Sintra, Cabo da Roca. É o clássico dos clássicos. Contudo o denso trânsito local e o crescente turismo massificado acabaram por transformar esta outrora jóia em algo que pode ser bastante desagradável. O encanto continua intacto todavia pode ser difícil de negociar. 

Nos últimos anos a Nacional 2 assumiu-se como a clássica das Estradas Nacionais

Com o tempo outro cabo mágico próximo da capital acabou por emergir. O Espichel, a sul da cidade, juntamente com as estradas próximas de Sesimbra e da deslumbrante Serra da Arrábida, pode ser as mais das vezes uma alternativa estimulante para a tal “volta de moto”. O excesso de tráfego lento, aborrecido e até potencialmente perigoso, em especial aos fins-de-semana e em tempo de verão, fazem muitos abandonar este possível plano B. 

Como diz "o outro" ir é o melhor remédio 

Plano C? Outra opção válida, todavia algo menosprezada, são as estradas do Oeste. Com infinitas possibilidades, é muito bom saborear a brisa atlântica e temperá-la com as abundantes vinhas da região. Há serra, montes, vales. Asfalto épico e também trânsito rural. Rude e imprevisível. Há dias em que cada curva é uma lotaria. 

É QUE É JÁ ALI ALÉM 
Urge pois encontrar alternativas. Mais seguras. Mais estimulantes. Mais bucólicas. Será possível? Claro que sim. É o que procuramos revelar neste texto. Entendam-no como uma mera sugestão de passeio. Não vamos certamente aqui “descobrir a roda” ou revelar a derradeira “volta de moto” da Região da grande Lisboa. É uma sugestão. Um escape, Uma fuga. Uma opção. Estas não serão as melhores curvas da vizinhança. É Alentejo. É Alentejo, todavia próximo. Aquele Alentejo que está perto. Imediato Vizinho. Um descanso. 

Ainda há sombra de Islão em Alcácer do Sal

A enorme vantagem desta volta de moto pelo Próximo Alentejo é que pode ser feita, em bom português, “à vontade do freguês”. Ou seja, quando e como muito bem desejarem. Um passeio de domingo que inclua a gastronomia da região. Ou simplesmente uma tarde de sábado bem passada entre vinhas e chaparros. Querendo, também podem passar um fim-de-semana pela estrada fora, a conhecer em detalhe as estórias da história, usos e lendas da região. No limite, quando os dias ficarem maiores, esta volta de moto até pode ser uma rápida fuga de fim de tarde apenas para rolar, sentir o calor do asfalto, a brisa tépida na cara e os suaves cheiros adocicados do estio. 

Cada um terá a sua...

Derrubando fronteiras meramente administrativas e burocráticas, o Próximo Alentejo começa logo ali, atravessada que seja a Ponte Vasco da Gama rumo a sul e rumo à Estrada Nacional 5, por nós denominada de “Estrada para Nenhures” (link). Hoje é mesmo por aí que vamos. Para já, para lado nenhum. 

ROAD TO NOWHERE 
É (era) Fevereiro. O dia amanheceu frio, seco e luminoso. Todavia rapidamente cumpriu-se o destino. “De Espanha nem bom vento nem bom casamento”, dizem. Ao atravessar para sul a sempre espectacular Ponte Vasco da Gama, os elementos castigaram-nos. Sol nos olhos e sobretudo aquele vento gelado de leste, o tal de Espanha. 

Tempo de fazer uso da útil pala do meu Nexx X.Wed 2 Vaal Carbon. O ecrã de protecção aerodinâmica facilmente regulável manualmente (com apenas uma mão) em altura da Triumph Tiger 1200 GT Pro foi puxado para cima e os punhos aquecidos ligados, ainda que apenas na primeira posição. Num ápice a Vasco da Gama, violentamente castigada pelo off-shore, estava vencida e lá rumávamos a nenhures. 

Rumo a sul ainda bem perto da capital

Abandonados os primeiros vestígios da Nacional 5 (N5) na zona do Montijo, a estrada mergulha rapidamente numa sequência de rectas demasiado estreitas todavia rápidas, entre vinha - nesta altura do ano aparentemente morta - e montado. Uma paisagem bucólica pontuada por animais pachorrentos e que nos faz esquecer que ainda há minutos abandonávamos o habitual caos lisboeta. 

O dia no seu inicio 

Em Águas de Moura prestamos a nossa devida homenagem a um dos sobreiros mais antigos do mundo, a denominada árvore do assobio ou sobreiro assobiador. São 235 anos de vida, dizem. A partir daqui e até Alcácer do Sal a N5 surge travestida de IC1, a antiga “estrada do (para o) Algarve”. Descaracterizada, optamos por ligar o cruise control da Tiger 1200 GT Pro nas longas retas e evitar surpresas com radares e afins. 

Mais que uma árvore um monumento 

A última secção da N5 liga Alcácer do sal à Barragem do vale do Gaio. É um troço de estrada nacional clássico, surpreendentemente desafiante e sem viva alma. Tempo de usar o modo de condução Sport e abusar das novas suspensões Showa semi-activas que equipam a Triumph e garantem conforto, eficácia e prazer na condução. Assim se passou num ápice uma manhã a fazer das coisas que mais gostamos. 

O fim da Nacional 5

BEIJAR A FOFINHA NACIONAL 2 
Confessamos que o objectivo inicial seria almoçar em Montemor-o-Novo. Mas perdemo-nos entre azinheiras, sobreiros, fotografias e conversa. Assim, quando chegamos ao Torrão e à agora popular Nacional 2, optamos por guardar telemóveis e lentes e aproveitar as longas e abandonadas retas alentejanas para dar alimento ao novo motor tricilíndrico Triumph (150 CV, 130Nm) agora dotado da nova cambota denominada “T-Plane”, motor que produz uma sonoridade distinta. Se havia por ali alguma cegonha a cumprir uma sesta…, certamente acordou com o rugido feroz do tigre. 

Nacional 2 ou a nossa endless road...

De certa forma Montemor-o-Novo marcava o início do regresso casa, O manto de nuvens não convidava à fotografia. Atacamos a Nacional 4 (link) rumo a oeste e afinal descobrimos que existem curvas naquele troço de estrada até Vendas Novas. Após a clássica bifana – muito mais lanche que almoço – até o sol voltou a brilhar para um adeus alentejano rumo à lezíria. 

A ÚLTIMA PEGA NA N10 
A nossa opção de regresso a Lisboa, nesta volta de moto pelo Próximo Alentejo, foi a opção à maneira antiga: pela Nacional 10 (link) rumo à Ponte Marechal Carmona - inaugurada a 30 de Dezembro de 1951 e foi a primeira ponte a ligar as duas margens do Rio Tejo na região de Lisboa - e a Vila Franca de Xira. 

Há mais do que bifanas em Vendas Novas

E por falar em clássicos, não foi possível resistir a fotografar as ruínas daquilo que em tempos foi uma referência da região e não só, a velha estalagem Gado Bravo. O que resta deste edifício localizado na denominada reta do cabo – entre Porto Alto e Vila Franca de Xira – são os vestígios de uma estalagem inaugurada a 2 de Outubro de 1952. 

Mandada edificar por Joaquim Augusto Faria tinha como objectivo tirar partido da inauguração da referida Ponte Marechal Carmona, que tornou à época esta estrada como a principal via de acesso não apenas ao Alentejo como também ao então longínquo e exótico Algarve. 

Aqui nada será como dantes

Os poucos que naquela época se atreviam a fazer, por exemplo, uma ligação rodoviária do Porto ao Algarve, encontravam ali uma espécie de referência da lezíria ribatejana. A “Gado Bravo” serviu ainda de ponto de encontro a lavradores, ganadeiros, toureiros, espiões, polícia e ladrões. Até Isabel II, Rainha de Inglaterra, por lá passou em 1957. Os salões decorados com motivos ribatejanos, o pátio e até uma pequena praça de touros concorriam para este oásis do passado se transformasse num liliputiano parque de diversões. Hoje restam ruínas. 

Quantos livros ficaram por escrever...?

Já com a borracha da Triumph Tiger 1200 GT Pro a beijar o Tejo junto a Vila Franca, perdermo-nos em imagens na golden hour. O dia tinha sido longo e rico. Todavia resistimos à auto-estrada e cumprimos a missão até ao fim. Em Alverca aproveitamos para subir até Bucelas desfrutando de uma mão cheia de curvas apimentadas na Estrada Nacional 116 (link). 

Golden hour, tejo e tudo

Da auto denominada capital do arinto - casta de uva branca presente de maneira geral, em todas as regiões de Portugal, e em especial nas encostas de Bucelas que formam um micro-clima com grandes variações diárias de temperatura, na época de maturação das bagas, e que lhes confere um especial sabor – foi um “salto” pela N115 (link) até Loures e enfim chagada à casa da partida. 


A TRIUMPH TIGER 1200 GT PRO 
A moto escolhida para este passeio alternativo pelo Próximo Alentejo foi a Triumph Tiger 1200 GT Pro. Moto de jante 19’’ em liga na roda dianteira e que monta num quadro em aço tubular com apoios em alumínio o motor tricilíndrico (150 CV, 130Nm) agora dotado da nova cambota com configuração denominada “T-Plane” que faz assemelhar a unidade motriz do funcionamento de um V2. 

Uma pequena paragem e uma surpresa na aldeia de Palma

Nesta versão recente da Triumph Tiger 1200 contem com o novo braço oscilante Tri-link (substancialmente mais leve que o anterior) que incorpora as vantagens de um veio de transmissão de baixa manutenção. O conjunto é parado por pinças Brembo Stylema conjugadas com uma bomba central dos travões Magura e ABS de origem Continental com função de auxílio em curva. 

Claro que há curvas no Alentejo

O enorme destaque na opinião deste ESCAPE vai para as novas suspensões Showa semi-activas (standard em toda a gama) que, para além de realizarem uma constante modelação da compressão e extensão – trabalho que a marca afirma ser elaborado ao milissegundo –, tem associadas as funções de anti afundamento na travagem, ajuste automático da pré-carga e controlo de transferências de massa (denominado sistema skyhook). Contem ainda com um novo painel de informação TFT de 7’. O conjunto pesa 240Kg com depósitos cheios. 

Já fazíamos tudinho outra vez...

A Tiger 1200 GT Pro revelou-se de forma obvia, naturalmente talhada para um dia de motociclismo assim, isto é, um dia longo onde não foram realizados muito mais de trezentos quilómetros, todavia uma jornada com potencial para “moer” com o para-arranca, sobe e desce constantes para fotografar a pequena viagem. No fim do dia o motociclista não apresentou cansaço digno desse nome e sim vontade de continuar a viagem após uma noite de sossego. A Triumph apenas precisou de reabastecer, tendo solicitado uns muito interessantes cinco litros e meio de sumo de dinossauro por cem quilómetros de sorriso nos lábios.

domingo, 3 de abril de 2022

A estrada, a moto e o telefone esperto – Estrada Nacional 247

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim. 
A tua beleza aumenta quando estamos sós 
E tão fundo intimamente a tua voz 
Segue o mais secreto bailar do meu sonho. 
Que momentos há em que eu suponho 
Seres um milagre criado só para mim. 

Sophia de Mello Breyner Andresen 

Mar de Atlas. Ou como todos o conhecem hoje: oceano Atlântico. É o segundo maior oceano em extensão, com uma área de cerca de um quinto da superfície da Terra. A gigante porção de água que separa a Europa e a África a Leste, da América a Oeste. Alguns dizem que a menção mais antiga sobre o seu nome é encontrada em Histórias, de Heródoto, por volta de 450 a.C.. 

Foto: Gonçalo Fabião

Antes dos europeus descobrirem outros oceanos, o termo "oceano" foi sinônimo de todas as águas que circundam a Europa Ocidental, as quais os gregos acreditavam ser um grande rio que circundava toda a Terra conhecida até então. Esta denominação desapareceu, no entanto, na Idade Média. O responsável pelo reaparecimento do nome "Atlântico", foi o geógrafo Mercator ao colocá-lo no seu célebre mapa-mundo em 1569. A partir deste momento a nomenclatura da idade média foi gradualmente sendo substituída por este nome, que subsistiu até hoje. 

Apesar de ser superado pelo Pacífico em tamanho, o Atlântico é o único oceano que comunica com os outros quatro oceanos (Pacífico, Índico, Árctico e Antárctico). Num certo sentido, e em tempo de absoluta globalização, podemos dizer que o Atlântico é o novo Mare Nostrum ("o nosso mar", em latim), que foi o nome dado pelos antigos romanos ao mar Mediterrâneo. 

Foto: Gonçalo Fabião

Como todos sabemos, Portugal está localizado no extremo sudoeste da Europa. Portugal Continental faz fronteira apenas com um outro país, Espanha a Este e a Norte. A Oeste e a Sul é precisamente limitado pelo Atlântico. O que poucos notam é que temos uma Estrada Nacional, a 247, que beija todo este “mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim”. A Estrada Nacional 247 (N247) não é mas podia muito bem ser conhecida “The Atlantic West Coast Road”. E todo este oceano vem ter convosco hoje, aqui, no ESCAPE. 

MUITO MAIS QUE UM SEVEN MILE MIRACLE PORTUGÊS
A N247 parte dos arredores de Peniche, cujo nome, presume-se, provém do latim vulgar pinniscula (península), o que significa que o termo se refere a um lugar e não a um povoado e que terá tido origem ainda durante a Conquista romana da Península Ibérica. Após a épica etapa do circuito mundial de surf, o notável rip curl pro search 2009, Peniche passa a ser conhecida em todo o mundo pela qualidade soberba das suas ondas para a prática do surf e bodyboard, entre outros desportos ditos de acção, exibindo orgulhosamente a “bandeira” de Capital da Onda. 

Foto: Gonçalo Fabião

Sempre rumo a sul, esta estrada nacional cruza campos agrícolas emoldurados pelo azul profundo do oceano. Este belo “template”, perto da Praia da Areia Branca, é abandonado para que cruzemos a Lourinhã, vila portuguesa agora conhecida pelo seu Dino Parque, um parque temático dedicado aos dinossauros que se arroga como o maior museu ao ar livre em Portugal. 

Adiante, cruzada que esteja a povoação da Maceira, a estrada volta a amar o oceano, seu denominador comum, nas ainda belas e pouco conhecidas praias de Porto Novo e Santa Rita. Alguns quilómetros mais à frente voltamos a encontrar surf de qualidade na mais conhecida Praia de Santa Cruz - que curiosamente tem uma homónima com surf de ainda maior qualidade na norte americana Califórnia. 

Foto: Gonçalo Fabião

Dali voltamos a fazer uma incursão pelo interior, aqui descaracterizado até que as narinas se encham de novo de maresia já bem perto da Ericeira. Consagrada como Reserva em 2011, a Ericeira é um dos destinos de eleição para a prática de desportos de ondas e deslize. Além das sete ondas que formam a Reserva Mundial de Surf, existem muitas outras que podemos parar para experimentar nos onze quilómetros de costa e nas treze praias do Concelho. Notem que na Ericeira, a R 1250 RT da BMW aproveitou para abraçar o quilometro zero da Estrada nacional 116 que podem conhecer aqui (link) já fotografada pelo Gonçalo Fabião. 

Foto: Gonçalo Fabião

Já na Foz do Lisandro e na sua praia de areia grossa, a N247 volta a virar costas ao Atlântico percorrendo mais um troço de pais desordenado. Em Sintra deixamos outra Nacional já percorrida pelo ESCAPE para trás, a N9 (link) e vamos devagarinho em modo curva contracurva pelo Parque Natural de Sintra-Cascais em busca do bucolismo de Colares. 

IN VINO VERITAS
Colares, reclinada sobre duas colinas da Serra de Sintra, é conhecida - lamentavelmente pouco conhecida – pela classe dos seus vinhos, sendo mesmo região demarcada desde 1908. Aqui é produzido o famoso Vinho de Colares, de sabor aveludado. 

Foto: Gonçalo Fabião

Não se sabe quando foram plantadas aqui as primeiras vinhas. Todavia no foral afonsino de Sintra (1154) consta que se cultivava, já naquele tempo, a vinha na região. D. Afonso III pretendeu animar a cultura da vinha e, em 1255, concede Reguengo de Colares a Pedro Miguel e sua mulher, Maria Estevão. Como retribuição era obrigado a plantar vinhas. 

Foto: Gonçalo Fabião

As vinhas desta região, situadas próximo do mar e sujeitas aos ventos marítimos muito fortes, são protegidas por paliçadas de canas, conferindo um aspecto invulgar a esta paisagem vinícola. O vinho de Colares só atinge a sua máxima qualidade passados vários anos, embora o estágio mínimo seja de 18 meses. Dado ao longo estágio a que o vinho é obrigado, a comercialização é muito limitada, podendo a região de Colares tornar-se uma espécie de santuário para os conhecedores deste vinho. 

ASFALTO SAGRADO
Já tivemos um pouco de tudo nesta pequena grande viagem: o sabor do sal do oceano, o calor do asfalto da estrada, a brisa fresca na cara, surf no corpo, história no pensamento e vinho na alma. Todavia o último terço da N247 ainda vai ter tempo para nos levar a alguns lugares especiais, entre eles o cada vez mais famoso Cabo da Roca, o ponto mais ocidental de Portugal e da Europa continental que Luís Vaz de Camões descreveu-o como o local “Onde a terra se acaba e o mar começa” (Os Lusíadas, Canto III). 

Foto: Gonçalo Fabião

Que viagem gloriosa, não acham? E está aqui a todo o momento disponível, mesmo ao nosso lado. É tão bom parar e ver a realidade com outro olhar. Foi o que fizemos na Roca, neste dia. Fotografamos, uma vez mais. E seguimos dali, sempre a descer, para a Praia do Guincho e o seu cordão dunar em constante mutação. Acenámos ao Cabo Raso e ao seu Farol que neste dia já ameaçava iluminar o fim de tarde. Uma última fotografia, uma última imagem ao fim do dia, um dia de motociclismo glorioso numa estrada lindíssima que termina já ali em Cascais, precisamente onde encontramos a velha Marginal, a Nacional 6 (link) que nos traz enfim de regresso a casa, de sorriso aberto.

Quem, o quê, onde, como, quando e porquê – não necessariamente por esta ordem 

A Estrada Nacional 247 – por nós percorrida no final do passado mês de Janeiro aos comandos da BMW R 1250 RT (link), cedida pela Santogal Motorrad - não é mas podia muito bem ser conhecida qualquer coisa como “The Atlantic West Coast Road”. Pindérico e azeiteiro, sim, eu sei... :)


A N247 encontra o seu início de olhos postos na Reserva Natural das Berlengas, concretamente na cidade mais ocidental da Europa continental, Peniche, não muito longe do Cabo Carvoeiro, local onde se inicia também a peculiar Estrada nacional 114 – já percorrida por este ESCAPE (link). 

Após quase uma centena de quilómetros enamorada pelo Atlântico Norte, a N247 cruza o Parque Natural Sintra-Cascais tendo o seu terminus nesta última bem conhecida vila portuguesa, no mesmo ponto onde termina também a Estrada Nacional 6 (link) por todos conhecida como Marginal. 

Foto: Gonçalo Fabião

Perfumada todo o ano pela brisa atlântica, que no verão por vezes se transforma em forte nortada – este vento típico geralmente leva na área costeira a uma ressurgência de água fria, o que, por sua vez, frequentemente leva ao fortalecimento do próprio vento - a N247, apesar de esquecida por quase todos, desempenha ainda hoje papel importante no desenvolvimento social e económico das populações que serve. Seguramente se localizada noutras paragens do nosso planeta, teria destino bem mais glorioso que o parcial esquecimento.

terça-feira, 6 de abril de 2021

A estrada, a moto e o telefone esperto – Estrada Nacional 116

Mafra, manhã do dia 5 de Outubro do ano de 1910. Uma revolução organizada pelo Partido Republicano Português, iniciada no dia 2 de Outubro e vitoriosa na madrugada desse mesmo dia 5, destituía a monarquia constitucional, implantando o regime republicano que hoje vigora em Portugal. 

Naquela manhã cinzenta, o Rei decaído procurava um modo de chegar ao Porto, acção complexa de levar a cabo por terra devido à paupérrima, mas ainda assim eficaz acção dos revolucionários. A solução aparece quando chega a notícia de que o iate real "Amélia" fundeara ali perto, na Ericeira. Tendo a confirmação da proclamação da República e o perigo próximo da sua prisão, D. Manuel II decide embarcar com o objectivo de se dirigir ao norte de Portugal. 

Foto: Gonçalo Fabião

A família real dirigiu-se então à Ericeira de onde, com recurso a dois barcos de pesca e perante os olhares de numerosos curiosos populares – como mostram as imagens da época -, embarcaram no iate real. Aí, D. Manuel II, terá sabido que também o Porto tinha aderido à causa republicana. O local de destino escolhido para esta atabalhoada missão de fuga acaba por ser Gibraltar. Nobre, D. Manuel ordenou que o navio, por ser propriedade do Estado português, voltasse a Lisboa. O Rei deposto, no entanto, viveria o resto dos seus dias no exílio. 

Foi assim, por aqueles caminhos, de Mafra à Ericeira, trajecto hoje parte integrante da Estrada Nacional 116 (N116), que desta maneira tremenda, quase trágica, terminaram setecentos e sessenta e sete (767) anos de Gloriosa História de Portugal. Parece impossível? Mas esta é uma página da História de Portugal. E quantas estradas assim encontramos na nossa vida? Pequenas, escondidas, empobrecidas e até abandonadas. Todavia inesquecíveis. 

NEBLINAS MATINAIS 
A Estrada Nacional 116 nasce pois na Ericeira. Naquela que é, provavelmente, a rotunda mais bonita de Portugal (se é que tal coisa pode existir), rotunda essa que mergulha cabeça tronco e membros na frescura do atlântico e intercepta a Nacional 247, uma das mais belas estradas costeiras aqui do rectângulo. Será caso para dizer que até para ser estrada há que ter sorte ao nascer?

Foto: Gonçalo Fabião

Dali, a N116 parte para o interior e logo atravessa a localidade do Sobreiro, muito popular entre os alfacinhas pela sua Aldeia Típica José Franco. Construída pelo oleiro com o mesmo nome, ali encontramos algumas construções que visam representar as ocupações típicas do Portugal de antanho em cenários de miniatura, com os respectivos instrumentos de trabalho. É um verdadeiro museu etnográfico e popular que vale a paragem e a visita para quem aprecia tais manifestações culturais. 

Até Mafra e ao cruzamento com a Estrada Nacional 9 (link) é um instante. A Vila e o seu monumental Palácio Nacional são conhecidos por todos e desta vez paramos só para a foto fácil. Abandonada Mafra a estrada mantém o seu perfil descaracterizado. Só um par de quilómetros mais adiante, já no troço que nos conduz à Malveira e ao encontro com a Estrada Nacional 8 (link), com a qual partilha algumas centenas de metros, recupera a alma de velha Estrada Nacional que suavemente acompanha o relevo do terreno. 

Foto: Gonçalo Fabião

QUANDO A ESTRADA ENSINA 
Chega enfim o melhor do que esta curta estrada tem para nos oferecer. Ultrapassada a disforme localidade de Venda do Pinheiro, entre Vale de São Gião e Bucelas, vamos encontrar cerca de uma dezena de quilómetros de asfalto de qualidade, pouco tráfego e sobretudo curvilíneas formas desenhadas no traçado que nos vão fazer sorrir e respirar fundo de prazer quando chegamos à auto-proclamada Capital do Arinto. 

Gostam de vinho? Este ESCAPE adora. Com moderação. Mas confessa que até este momento desconhecia que o Arinto é mesmo uma casta originária daqui, deste ponto da estrada onde estamos, Bucelas, concelho de Loures, distrito de Lisboa. 

Foto: Gonçalo Fabião

Também designada por Pedernã na região norte de Portugal, a casta arinto é uma uva de cor verde-amarelada, de bago pequeno/médio e arredondado e de sabor e aroma citrino. 

Sendo de maneira geral cultivada em todas as regiões de Portugal, é, todavia, em especial nas encostas de Bucelas - que formam um microclima com grandes variações diárias de temperatura, na época de maturação das bagas, e que lhes confere um especial sabor – que encontramos a sua “casa”. Ainda que mal, podemos comparar o arinto a um Riesling, Pinot Blanc ou mesmo ao seco Chenin Blanc. 

GRANDE FINAL 
É assim a vida…, uma estrada que nem aos cinquenta quilómetros chega, esquecida nas “traseiras” da capital, e com tanto para contar. Abandonamos Bucelas e o peculiar e estreito cruzamento com a “Rainha do Oeste” - a irmã Nacional 115 que podem conhecer aqui (link) – e continuamos a rumar a leste para mais uma pequena surpresa.

Passadas que sejam as encostas da Quinta da Romeira podemos encontrar uma acanhada estrada de terra, junto ao Morgado Lusitano, que nos convida a sair do asfalto. Sem temor devemos aceitar o convite. É um par de quilómetros que deve ser feito com a devida precaução em especial na sua zona final e inclinada. 

Foto: Gonçalo Fabião

O marco geodésico que vamos encontrar é a cereja no topo deste verdadeiro “petit gateau” que é a Estrada Nacional 116. Dali, temos uma vista soberba de toda a região, para norte os montes do Oeste, para sul o Tejo e a lezíria lá até onde a vista alcança. Aos nossos pés espalham-se as ruínas Forte da Portela Pequena, obra das Linhas de Torres - o maior e mais eficaz sistema defensivo da Europa. De formato em undecágono, integrava a denominada segunda linha de defesa das Linhas de Torres Vedras, tendo por objectivo bater a via que ligava São Tiago dos Velhos e o Casal da Portela, no sopé da Serra da Aguieira e Portela Pequena, bem como, alguns pontos da antiga Estrada de Alverca entre o referido Casal, a Romeira e a subida da Serra. Por incrível que no local nos pareça, este Forte do qual hoje só restam vestígios contava com 350 homens de Infantaria e 6 peças de Artilharia pesada.

Rica e intensa a Estrada Nacional 116 está a chegar ao fim. E a sugestão que este ESCAPE vos deixa é muito simples. Chegados que sejamos, em Alverca, à rotunda que encontra a Nacional 10 (link), voltemos para trás de regresso à frescura do atlântico na Ericeira. Acreditem que o caminho inverso vos vai parecer uma estrada substancialmente diversa daquela que agora acabaram de percorrer. 

Foto: Gonçalo Fabião
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Quem, o quê, onde, como, quando e porquê – não necessariamente por esta ordem 
A Estrada Nacional 116 - percorrida por este ESCAPE no verão passado aos comandos da Kawasaki Versys 1000 SE (link) e fotografada pela lente do Gonçalo Fabião - não é mas podia muito bem ser conhecida qualquer coisa como a “A Última Estrada do Reino de Portugal”.


A N116 encontra o seu início na deliciosa e atlântica velha vila da Ericeira, hoje primeira Reserva Mundial de Surf da Europa e segunda do Mundo. O episódio da fuga de D. Manuel II para o exílio, da Praia dos Pescadores, tornou-se num marco da história da vila que deve o seu nome à lenda que dita a sua origem enquanto "terra de ouriços", devido aos numerosos ouriços-do-mar que abundavam e ainda habitam algumas das suas praias. Sem glória, podemos encontrar o terminus desta icónica estrada numa rotunda em Alverca do Ribatejo que intercepta a Estrada Nacional 10 também ela já percorrida por este ESCAPE. 

Apesar de olvidada por quase todos, a N116 desempenha ainda hoje papel importante no desenvolvimento social e económico das populações que serve. Da fresca, sonora e intensa maresia do atlântico ao Tejo largo que se aproxima dramaticamente da sua foz, cruza os seculares montes do Oeste numa diagonal fulgurante que beija outras belas Estradas Nacionais da região entre elas a 247, 9 (link), 8 (link), 115 (link) e 10 (link). 

Se localizada noutras paragens deste nosso globo terrestre, teria por certo outro destino que não a ignorância e o esquecimento, tantos os episódios históricos que tem para contar.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

A estrada, a moto e o telefone esperto – Estrada Nacional 115

Era mais uma madrugada de inverno. Mil novecentos e noventa e cinco. Ou seis. Não me recordo se saíamos da Kapital, do Alcântara ou do Kremlin. É indiferente. Os anos dourados do clubbing estavam as ser vividos intensamente, como quaisquer anos dourados devem ser vividos. Mas nem no auge da noite se esquecia o motociclismo. “Vou para casa”, dizia me o Mano Mitra. Estás parvo, questionava eu com veemência, que eram apenas cinco da manhã. “Dormir, almoçar que amanhã vamos às curvas do Sobral, beber um chã antes do anoitecer”. 

Foto: Gonçalo Fabião

Fartinhos já à época das enchentes e dos “cromos” na estrada de acesso ao Cabo da Roca – a Nacional 247 – a minha geração (e o meu grupo de amigos), foi das primeiras a desbravar a Estrada Nacional (N115), aquilo que para nós à época era apenas uma estrada agrícola com traçado de autódromo e cheia de maquinas de trabalho e outra chicanes móveis varias que, todavia, ouvíramos ser muito utilizada pelo “pessoal das revistas” para fazer as imagens dos “andamentos”.

PARQUE DE DIVERSÕES 
Ainda hoje, sempre que cruzo a N115, fico perplexo como é possível uma estrada tão exuberante estar quase por completo despida de motociclistas. Mais a mais não sendo esta a única perola da região Oeste, muito pelo contrário. A N115 permite múltiplas combinações com outras estradas na zona, proporcionando tardes ou mesmo dias plenos e apaixonantes de motociclismo em modo curva contra curva, um verdadeiro parque de diversões.

Foto: Gonçalo Fabião

Com o quilómetro zero numa rotunda a sul da cidade das Caldas da Rainha, rotunda essa que faz a ligação com a nossa já bem conhecida Nacional 8 (link), a cento e quinze corre a região do Oeste que se localiza entre o Oceano Atlântico e a Serra do Montejunto e é marcada por dois vectores fundamentais. Um histórico, as Linhas de Torres, e outro social, o tecido agrícola. Já a paisagem é sublinhada pelo diálogo serra/mar e pelos campos cultivados com vinha e árvores de fruto, sendo o Oeste uma das maiores regiões produtoras de fruta de Portugal.


Foto: Gonçalo Fabião

Estas terras foram palco de inúmeras batalhas que decorreram durante as Invasões Napoleónicas e a marca mais visível dessa época são as “Linhas de Torres”, ou as ruínas que dela sobram. As Linhas de Torres Vedras (ou simplesmente Linhas de Torres) que alguns especialistas sugerem ter sido o maior sistema defensivo da Europa, foram erguidas a norte de Lisboa, entre 1809 e 1810, no mais profundo secretismo, pelo futuro duque de Wellington. Arthur Wellesley traçou uma estratégia de defesa que consistiu em fortificar pontos colocados no topo de colinas, para controlar os caminhos de acesso à capital de Portugal, reforçando os obstáculos naturais do terreno. Este sistema, constituído por três linhas defensivas, estendia-se entre o oceano Atlântico e o rio Tejo, por mais de 85 km. Quando concluído contavam com cento e cinquenta e duas obras militares, armadas com seiscentas peças de artilharia e defendidas por cerca de cento e quarenta mil homens, tornando-se, segundo alguns, no sistema de defesa mais eficaz, mas também o mais barato da história militar. Brilhante! 

IN VINO VERITAS 
De regresso ao bucolismo da paisagem, a vinha e o vinho bordejam o asfalto quase a tempo inteiro. A Quinta do Gradil é apenas um exemplo. Situada em Vilar, paredes meias com a própria estrada, o enorme palácio setecentista marca os duzentos hectares de propriedade, dos quais cerca de sessenta por cento estão plantados com vinha. A quinta passou, em 1999, a fazer parte do Grupo Parras Vinhos, de Luís Vieira, altura em que foi feita a reabilitação das vinhas e constituída a equipa de enologia. Além dos vinhos, alguns premiados, há́ grande número de actividades de enoturismo disponíveis a começar pela tradicional e clássica visita e prova de vinhos.

Foto: Gonçalo Fabião

Toda a N115 é merecedora da nossa atenção. Mas as secções entre a Merceana – onde encontramos a N9 (link) - e o Sobral, bem como desta até Bucelas, são um absoluto clássico regional a fazer até que os pneus das nossas motos doam. Notem contudo o seguinte alerta. Troços há em que o asfalto se encontra abatido por pequenos aluimentos o que pode provocar acidentes de consequências dramáticas. Aqui, mais uma vez, mesmo às portas da Lisboa, encontramos abandono sinalizado de forma insuficiente. Cuidado! 

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Quem, o quê, onde, como, quando e porquê – não necessariamente por esta ordem… 

A Estrada Nacional 115, não é mas poderia muito bem ser conhecida como “Estrada dos Montes do Oeste” ou porque não “A Rainha do Oeste”. Tem o seu início nas Caldas da Rainha (numa junção com a N8), histórica cidade portuguesa do distrito de Leiria, situada na província da Estremadura e terminus em Loures (curiosamente também numa junção com a N8), cidade do Distrito de Lisboa, pertencente à Área Metropolitana da Capital, cruzando ainda a N9 (link) na Merceana e a Nacional em Bucelas – a próxima a ser desbravada por este blogue. 

Foi pelo ESCAPE percorrida, em parte ou no seu todo, para cima e para baixo, para baixo e para cima, dezenas se não mesmo centenas de vezes. A última das quais no mês de Junho de 2020 como uma das motos cá da garagem, a Honda CRF 1000L DCT Africa Twin de 2016 que reclamou 5,1 litros de liquido inflamável por cem quilómetros de boa disposição. 

A N115 não é uma estrada qualquer e deve ser credora do nosso respeito. Oferece um traçado de Classe Mundial que só peca pela sofrível qualidade do asfalto nalguns traçados. Conduz-nos da aragem fresca do oeste ao bulício dos arredores lisboetas por montes que se pintam com as cores fortes e carregadas dos campos nas suas diferentes interpretações e estações. Tem vinho, gastronomia, história, cultura, beleza natural e está mesmo aqui ao lado de tantos, tantos motociclistas da região da Grande Lisboa.
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