Há uma pergunta que me acompanha há muito tempo e à qual nunca encontrei uma resposta simples. Quem paga a independência?
Durante décadas, a resposta parecia evidente. Os jornais vendiam jornais. As revistas vendiam revistas. O leitor comprava um produto porque acreditava que ali encontrava informação, análise, opinião ou investigação. A relação era relativamente simples: quem escrevia respondia, acima de tudo, perante quem o lia.
Hoje, o modelo mudou profundamente. O papel praticamente desapareceu. As bancas perderam relevância. A informação tornou-se gratuita ou quase gratuita. No entanto há uma verdade que nunca mudou: produzir comunicação continua a ter custos. Há alguém que paga sempre a conta. E é precisamente aqui que a discussão começa.
Não escrevo isto para atacar ninguém. Muito menos para dar lições sobre jornalismo. Não sou jornalista, nunca quis ser jornalista e também não quero ser confundido com um jornalista. Sou apenas alguém que escreve sobre motociclismo há varias décadas e que, por isso, observa o setor de diversos ângulos.
Ao longo destes muitos anos fui percebendo uma realidade que me parece inevitável: o modelo de financiamento influencia sempre o modelo editorial. Não determina automaticamente o que se escreve, todavia condiciona prioridades, escolhas, agendas e, por vezes, até silêncios. Não é uma questão de boa ou má fé. É da natureza humana e das organizações. Foi precisamente essa constatação que me levou, há muitos anos, a seguir um caminho diferente.
O Escape Mais Rouco nunca quis competir por ser o primeiro a publicar um comunicado de imprensa, nem o primeiro a reproduzir uma ficha técnica ou um catálogo de especificações. Esses conteúdos têm o seu espaço e a sua utilidade. E, sinceramente, nunca achei que fossem suficientes para explicar um setor tão rico como o motociclismo.
Um mercado não é feito apenas de motos novas. É feito de pessoas. De empresas. De decisões. De reguladores. De sucessos. De erros. De conflitos. De mudanças. E também de perguntas incómodas. É aqui que entra aquilo a que gosto de chamar comunicação relacional.
Não escrevemos apenas para transmitir informação. Escrevemos para criar relação com uma comunidade que pensa, discorda, questiona e participa. Não esperamos que os leitores concordem connosco. Esperamos apenas que encontrem espaço para refletir.
Isso tem um preço. Por vezes, esse preço é receber um telefonema difícil. Outras vezes, é publicar um texto sabendo que pode desagradar a pessoas com quem mantemos boas relações. E, noutras ocasiões, é reconhecer publicamente que podíamos ter feito melhor, corrigir o que havia para corrigir e seguir em frente.
Na nossa perspetiva, independência nunca significou infalibilidade. Significa apenas não deixar que o receio de desagradar determine aquilo sobre que escrevemos. É evidente que um blogue independente nunca terá os meios de uma redação. Nunca terá equipas, ou grandes estruturas. Mas também não precisa de pedir autorização para levantar uma questão que considere relevante para a comunidade.
É por isso que continuo a acreditar que o futuro da comunicação especializada não passa apenas pelos meios tradicionais nem apenas pelas redes sociais. Passa, sobretudo, pela confiança. No dia em que um leitor acreditar que escrevemos porque alguém nos mandou escrever, perdemos tudo. No dia em que acreditar que deixámos de escrever porque alguém nos pediu silêncio, perdemos ainda mais.
É por isso que o Escape Mais Rouco continuará a fazer o que sempre procurou fazer: escrever quando considera que há algo que merece ser discutido, reconhecer os erros quando eles existem e nunca esquecer que a única fidelidade que verdadeiramente importa é para com os leitores. No fim de contas, é isso que nos trouxe até aqui. E é isso que nos fará continuar.

É por isso que sigo!!
ResponderEliminarPelo excelente trabalho que fazez!