Tal como aconteceu no anterior Confronto publicado pelo O Escape Mais Rouco aqui (link), este texto existe porque foram os leitores que o pediram. Desde que a CFMOTO 1000MT-X e a Moto Morini X-CAPE 1200 chegaram ao mercado português, as perguntas repetiram-se vezes sem conta: qual escolher? Qual delas comprarias? Qual é, afinal, a melhor?
A resposta mais cómoda seria dizer que não faz sentido colocá-las frente a frente. Tecnicamente, até seria uma resposta defensável. Não pertencem exatamente ao mesmo segmento, não foram concebidas com a mesma filosofia e nem sequer procuram conquistar o motociclista pelos mesmos argumentos. Todavia o mercado raramente respeita fronteiras desenhadas em catálogos. Quem procura hoje uma grande Adventure olha inevitavelmente para ambas. Estão no mesmo momento, geram a mesma curiosidade e acabam por disputar o mesmo lugar na garagem de muitos motociclistas.
É precisamente por isso que este texto não é um comparativo. Não pretende medir fichas técnicas ao milímetro, nem transformar números em vencedores. Também não é um encontro diplomático onde todas acabam empatadas para que ninguém fique incomodado.
É um Confronto. E um Confronto implica assumir uma posição, explicar porquê e aceitar que nem todos concordarão com ela. Continuo a acreditar que a escolha mais importante é aquela que cada leitor fará depois de perceber quem é enquanto motociclista e aquilo que realmente espera de uma moto. Mas seria intelectualmente desonesto esconder a minha própria decisão quando são precisamente os leitores que ma pedem há meses.
AFINAL O QUE É ISSO DO CONCEITO ADVENTURE?
A CFMOTO 1000MT-X e a Moto Morini X-CAPE 1200 representam duas interpretações muito diferentes do conceito Adventure. Curiosamente, essa diferença percebe-se antes mesmo de rodar um metro. Basta aproximarmo-nos de cada uma delas. A CFMOTO transmite imediatamente uma sensação de robustez e maturidade. A frente larga, o depósito generoso, a proteção aerodinâmica desenvolvida, as linhas sólidas e a postura imponente fazem-nos perceber que estamos perante uma moto construída para viajar muito. Não procura chamar a atenção através do excesso de exuberância estética. O seu discurso é outro. Tudo parece ter sido desenhado para servir um objetivo muito concreto: transformar milhares de quilómetros numa experiência confortável, estável e despreocupada. É uma moto que transmite confiança antes mesmo de se carregar no botão de arranque.
A Moto Morini X-CAPE 1200 segue um caminho completamente diferente. Também impressiona pela presença, mas fá-lo através da personalidade. Existe uma evidente paixão italiana em cada linha daquela moto. O enorme bicilíndrico em V domina visualmente todo o conjunto e deixa desde logo claro qual é o verdadeiro protagonista deste projeto.
A estética Adventure existe, naturalmente, no entanto rapidamente percebemos que estamos perante uma estradista de posição elevada, construída em torno de um motor cheio de carácter e não de uma ambição de conquistar trilhos difíceis. Quando o V2 Corsa Corta EVO ganha vida, tudo aquilo que os olhos antecipavam confirma-se. A sonoridade grave, cheia e profundamente mecânica envolve imediatamente o condutor e cria uma ligação emocional rara nos dias de hoje. Foi precisamente por isso que, durante a apresentação ibérica realizada no Douro, me ocorreu uma definição que continua a parecer-me perfeita: a X-CAPE 1200 é uma superbike de saltos altos. Tem porte de Adventure, mas alma de grande desportiva de estrada.
É precisamente aqui que nasce a grande diferença entre estas duas motos. A CFMOTO foi desenhada para colocar a viagem em primeiro lugar. Tudo nela trabalha para reduzir o cansaço, aumentar a confiança e permitir que o motociclista pense menos na máquina e mais na estrada que tem pela frente. É uma moto que quase desaparece debaixo do condutor. Parece uma contradição, mas numa grande viajante isso é um elogio enorme. Quanto menos a moto exige a nossa atenção, mais liberdade temos para apreciar a paisagem, acumular quilómetros e viver a experiência da viagem.
A Moto Morini faz exatamente o contrário. Nunca desaparece. Está constantemente presente. O motor faz questão de recordar a sua existência em cada aceleração, a ciclística convida a explorar mais uma curva e a personalidade mecânica acompanha permanentemente a condução. Não é uma moto construída para ser discreta. É uma moto construída para fazer sentir. Cada quilómetro tem um sabor próprio, cada saída de curva é acompanhada por uma resposta viva do V2 e cada viagem transforma-se inevitavelmente numa experiência mais emocional do que racional.
IDENTIDADE ASSUMIDA
É curioso verificar que ambas cumprem muito bem aquilo a que se propõem, precisamente porque recusam seguir o mesmo caminho. Enquanto muitas motos modernas parecem procurar um equilíbrio universal que agrade a toda a gente, estas duas assumem claramente a sua identidade. A CFMOTO acredita que uma grande Adventure deve ser uma extraordinária companheira de viagem. A Moto Morini acredita que uma grande Adventure deve continuar, acima de tudo, a emocionar quem a conduz.
A diferença entre estas duas propostas torna-se ainda mais evidente quando deixamos a contemplação estética para trás e começamos verdadeiramente a conduzir. É aí que percebemos que, apesar de partilharem a designação Adventure, cada uma interpreta essa palavra de forma muito própria. A CFMOTO 1000MT-X encara a aventura como uma viagem longa, feita de dias consecutivos em cima da moto, onde o conforto, a estabilidade e a facilidade de condução acabam por valer mais do que uma explosão ocasional de adrenalina. Não é uma moto construída para impressionar nos primeiros cinco quilómetros. É uma moto que vai conquistando o motociclista à medida que os quilómetros se acumulam. Quanto mais tempo passamos aos seus comandos, mais percebemos o cuidado colocado na ergonomia, na afinação da ciclística e na forma como toda a moto trabalha para reduzir o desgaste físico do condutor.
Foi precisamente essa a sensação que retirei do ensaio completo realizado pelo O Escape Mais Rouco. Existe uma enorme honestidade naquele projeto. A CFMOTO não tenta parecer mais desportiva do que realmente é, nem procura convencer através de soluções artificiais. Assume-se como uma grande viajante, robusta, tecnologicamente muito bem equipada e preparada para enfrentar praticamente qualquer estrada sem transformar a condução numa prova de resistência. É uma moto que transmite serenidade. E essa serenidade acaba por contagiar quem a conduz. Ao fim de algumas horas percebemos que deixámos de pensar na posição de condução, na proteção contra o vento ou no comportamento da ciclística. Estamos simplesmente a viajar. Parece um detalhe, mas talvez seja o maior elogio que se possa fazer a uma moto desta categoria.
A Moto Morini X-CAPE 1200 segue um caminho quase oposto. Também ela sabe viajar, naturalmente. Também oferece conforto, uma posição de condução muito conseguida e um equipamento capaz de enfrentar grandes distâncias. No entanto nunca permite que nos esqueçamos da máquina que estamos a conduzir. O enorme V2 italiano faz questão de marcar presença em cada aceleração. Existe uma ligação quase física entre o punho direito e a resposta do motor. Não é apenas uma questão de potência ou binário; é uma questão de personalidade. Hoje, numa época em que muitos motores parecem afinados para cumprir normas de emissões e agradar a folhas de cálculo, encontrar um bicilíndrico com este carácter acaba por ser uma lufada de ar fresco. A X-CAPE 1200 lembra-nos constantemente que conduzir uma moto também pode ser um exercício emocional.
Essa personalidade sente-se igualmente na ciclística. Durante a apresentação ibérica, realizada nas extraordinárias estradas do Douro, a italiana revelou um comportamento muito convincente. Inscreve-se em curva com naturalidade, transmite confiança desde os primeiros quilómetros e deixa perceber que existe qualidade na forma como quadro, suspensões e travões trabalham em conjunto. O quickshifter revelou-se eficaz, contribuindo para uma condução particularmente fluida nas sucessões de curvas. Não é difícil imaginar esta moto a devorar estradas nacionais, serras ou percursos de montanha, onde o prazer da condução acaba por ser tão importante como o destino.
E NÃO HÁ MOTOS PERFEITAS
Seria, contudo, injusto transformar qualquer uma destas motos numa sucessão de elogios. Ambas têm limitações e, curiosamente, essas limitações ajudam-nos a compreender ainda melhor a filosofia de cada projeto.
Na CFMOTO, o peso existe e faz-se sentir quando o piso desaparece ou quando as manobras exigem maior precisão. Apesar de surpreender pela facilidade com que esconde os seus quilogramas em andamento, continua a ser uma moto grande, pensada sobretudo para privilegiar a estabilidade e o conforto. É perfeitamente capaz de enfrentar estradões, pisos degradados e caminhos de terra sem dramatismos, mas nunca tenta convencer-nos de que nasceu para procurar trilhos técnicos ou obstáculos difíceis. O seu território natural continua a ser o grande turismo, aquele que liga cidades, países e horizontes.
Na Moto Morini, a principal limitação surge precisamente onde menos gostaríamos que surgisse: o peso e os consumos. As manobras a baixa velocidade exigem atenção, porque a massa da moto está sempre presente. Não chega a intimidar, mas obriga a respeitá-la. Também os consumos registados durante esta primeira apresentação deixaram algumas reservas, ultrapassando os oito litros por cada cem quilómetros. É verdade que as unidades de ensaio tinham ainda muito poucos quilómetros e que só um teste completo permitirá confirmar esses valores, mas a questão fica naturalmente em aberto. Não chega para colocar em causa o enorme potencial da X-CAPE 1200, mas é um aspeto que qualquer futuro comprador deverá acompanhar com atenção.
No fundo, aquilo que este confronto começa a revelar é uma realidade muito simples: estas motos não estão a disputar o mesmo conceito de aventura. Estão, isso sim, a disputar dois tipos completamente diferentes de motociclistas. É precisamente aí que este Confronto ganha verdadeiro sentido.
QUAL DELAS É PARA TI?
É precisamente aqui que este Confronto deixa de falar de motos e começa a falar de pessoas. Ao longo dos anos habituámo-nos a discutir potência, binário, suspensões, peso, eletrónica ou consumos, como se a escolha de uma moto pudesse ser reduzida a uma folha de especificações.
Pode parecer estranho dizê-lo num espaço dedicado ao motociclismo, todavia continuo convencido de que a ficha técnica raramente escolhe a moto certa. Quem escolhe é o motociclista. A sua experiência, a forma como conduz, aquilo que procura quando veste o equipamento e, sobretudo, a honestidade com que consegue responder a uma pergunta muito simples: que utilização vou realmente dar à moto? É precisamente por isso que duas motos aparentemente próximas podem fazer sentido para pessoas completamente diferentes.
A CFMOTO 1000MT-X é a escolha natural para o motociclista que olha para um mapa e vê possibilidades. Para quem sonha com viagens de vários dias, férias sobre duas rodas, travessias internacionais e jornadas onde o conforto deixa de ser um luxo para passar a ser uma necessidade. É uma moto para quem gosta de acumular quilómetros sem acumular cansaço, para quem transporta passageiro com frequência, uma ciclística previsível e uma máquina que transmite serenidade mesmo quando o destino ainda está a centenas de quilómetros de distância.
É também uma excelente opção para quem utiliza a moto de forma muito regular e procura uma companheira versátil, capaz de enfrentar a cidade durante a semana e desaparecer rumo a outro país ao fim de semana seguinte. Não exige que o motociclista esteja constantemente concentrado na máquina; pelo contrário, trabalha para que toda a atenção seja dedicada à viagem. Existe nela uma maturidade difícil de explicar, mas muito fácil de sentir.
A Moto Morini X-CAPE 1200 dirige-se a um perfil diferente. É a moto de quem continua a acreditar que conduzir é muito mais do que deslocar-se. De quem ainda valoriza um motor cheio de carácter, uma resposta imediata ao acelerador, uma sonoridade capaz de provocar um sorriso debaixo do capacete e uma personalidade mecânica que nunca desaparece da experiência de condução.
É uma moto para quem aprecia estradas nacionais bem desenhadas, serras repletas de curvas e viagens onde o prazer de conduzir vale tanto como o destino. Não é a escolha mais racional, nem pretende sê-lo. Também não procura agradar a todos. Procura seduzir um tipo muito específico de motociclista: aquele que continua a procurar emoção sempre que liga a ignição.
Apesar da estética Adventure, convém não interpretar mal a sua missão. A X-CAPE 1200 não foi concebida para andar permanentemente à procura de trilhos difíceis. Aceita perfeitamente um eventual caminho de terra, uma estrada degradada ou um desvio ocasional, mas o seu verdadeiro palco continua a ser o asfalto. É aí que o seu motor, a sua ciclística e toda a sua personalidade encontram espaço para respirar. No fundo, este Confronto demonstra que a escolha entre estas duas motos não depende da cilindrada, nem da potência, nem sequer do equipamento. Depende da forma como cada um vive o motociclismo.
Se a viagem é o centro da experiência, se a prioridade passa por chegar mais longe, mais confortável e com a sensação de que a moto trabalhou sempre a nosso favor, a CFMOTO 1000MT-X apresenta argumentos extremamente difíceis de contrariar.
Se, pelo contrário, aquilo que verdadeiramente nos faz sair da garagem é o prazer de conduzir, a ligação emocional ao motor e a sensação de que cada curva faz parte da viagem tanto quanto o destino, então a Moto Morini X-CAPE 1200 tem uma capacidade de sedução muito rara no panorama atual.
SE FOSSE EU A ESCOLHER
Chega finalmente a pergunta que motivou este texto. Se tivesse de abrir a carteira e escolher apenas uma destas duas motos para viver comigo durante os próximos anos, qual levaria para casa?
A resposta é clara. Escolheria a CFMOTO 1000MT-X. Não porque seja a mais potente. Não porque seja a mais barata. Não porque seja tecnicamente perfeita. E muito menos porque a Moto Morini tenha desiludido. Muito pelo contrário. A X-CAPE 1200 foi uma das motos que mais prazer me deu conhecer este ano e trouxe para o mercado uma personalidade que faz falta num tempo em que demasiadas motos parecem ter sido afinadas para agradar a folhas de Excel. Todavia quando afasto a emoção do primeiro contacto e penso na utilização real que dou às minhas motos, a resposta torna-se inevitável.
Utilizo a moto na cidade. Viajo com frequência. Gosto de turismo. Gosto de percorrer estradas nacionais sem destino definido. Gosto de desaparecer durante dias. E, quando abandono o asfalto, faço-o para explorar, não para competir. Não procuro trilhos extremos nem desafios físicos. Procuro liberdade. É precisamente aí que a CFMOTO 1000MT-X responde de forma mais completa ao meu perfil.
É uma moto que me pede muito pouco e me entrega muito. Não tenta ser o centro das atenções. Trabalha para que eu desfrute da viagem, para que chegue menos cansado ao destino e para que cada quilómetro seja vivido com naturalidade. Essa competência discreta acabou por conquistar-me mais do que qualquer explosão de carácter.
NOTA FINAL
Este Confronto termina da mesma forma que começou: sem proclamar uma verdade absoluta. A CFMOTO 1000MT-X e a Moto Morini X-CAPE 1200 não representam apenas duas motos. Representam duas formas muito distintas de entender a aventura.
Uma acredita que viajar é acumular horizontes, quilómetros e memórias, oferecendo ao motociclista conforto, equilíbrio e uma confiança quase inesgotável. A outra acredita que viajar também é sentir, ouvir, acelerar e criar uma ligação emocional com a máquina que conduzimos. Nenhuma anula a outra. Nenhuma torna a outra irrelevante. Pelo contrário. São precisamente as suas diferenças que enriquecem um segmento cada vez mais interessante.
No fim, a CFMOTO 1000MT-X conquista o meu voto porque responde melhor àquilo que hoje procuro numa moto. Não é a mais apaixonada, nem a mais exuberante. É simplesmente aquela que melhor se adapta à forma como vivo o motociclismo.
E talvez seja essa a maior conclusão deste Confronto. A melhor moto nunca é a que vence uma discussão na Internet. É aquela que, muitos anos depois da compra, continua a fazer-nos ter vontade de abrir a porta da garagem, colocar o capacete e partir sem saber exatamente quando regressamos.















Excelente comparativo. Não sei qual escolheria. Provavelmente também à CFMOTO, porque seria uma compra cerebral e não emocional… as saudades que tenho ainda hoje da minha Monster…
ResponderEliminarUm abraço.
uma pequena ressalva: o que fizemos aqui foi mesmo só um confronto e não um comparativo profundo, até porque um comparativo real e detalhado com testes de estrada exigiria outro tipo de trabalho técnico! Abraço.
EliminarExcelente comparativo. Era interessante uma comparação da voge,qj, Morbidelli e kove... Motores 900cm3. Todas elas viradas para viagens.
ResponderEliminar..., tereiamos de ter as motos connosco, todas elas alguns dias ;)
EliminarRealmente para mim também foram esses argumentos que me levaram a escolher a MTX, digo de coração, que grande máquina mesmo.
ResponderEliminarExcelente comparativo, provavelmente eu iria na Morini
ResponderEliminarViva Pedro, fui experimentar a X cape e posso dizer que a sua descrição foi exatamente o que senti, superbike de salto alto. Isso apanhou-me de surpresa, estava à espera de outro tipo de mota, tudo nela é exagerado e com “personalidade”. Quem vem de uma África twin como eu, não é o isso que procurava.
ResponderEliminarViva! É exactamente isso que me aconteceu também: a X-CAPE 1200 surpreende porque, à primeira vista, esperamos uma coisa e, quando começamos a andar nela, percebemos que estamos perante outra.
Eliminar“Superbike de salto alto” acabou por ser a forma que encontrei para traduzir essa sensação. 😁 Há ali motor, resposta, travagem, atitude e uma presença muito mais agressiva do que a imagem de uma grande Adventure poderia fazer supor.
E compreendo perfeitamente o que diz vindo de uma Africa Twin. São filosofias bastante diferentes. A Africa Twin transmite aquela ideia de ferramenta para viajar, explorar e fazer quilómetros com uma enorme naturalidade. A X-CAPE 1200 parece querer constantemente lembrar-nos que tem um V2 de 1.187 cc debaixo das pernas. 😂
É precisamente isso que achei mais interessante nela: não tenta ser discreta. Tudo nela parece ter personalidade — às vezes até personalidade a mais.
E talvez seja essa a questão fundamental: não é necessariamente uma questão de ser melhor ou pior, mas de perceber qual delas conversa melhor com aquilo que procuramos numa Adventure.
Obrigado pelo testemunho. É exactamente este tipo de experiência de quem vem de outra moto que ajuda a completar a história. 🏍️
Ainda não experimentei a CF Moto 1000 MT-X e acredito que seja um excelente produto. Contudo, olho para ela e não consigo vê-la como uma moto para longas viagens. Aquele guarda-lamas frontal tão elevado remete-a, no meu imaginário, para o fora de estrada, que não faço (só muito raramente e em estradões de terra, onde qualquer moto passa). Não gosto desse componente, esteticamente. Também não estou a vê-la equipada com os acessórios indispensáveis para longas viagens - as malas laterais e a top case à cabeça. Nem sei se esses acessórios estão disponíveis, nos concessionários da marca e/ou nas listas dos fabricantes da especialidade (Givi, SW Motech, etc.). Acredito que seja muito boa para voltas na cidade e fora dela, para percursos improvisados ou planeados, mais ou menos extensos mas, pelo que já disse, não a imagino a fazer grandes viagens, de vários dias e milhares de quilómetros. Eu possuo uma Moto Morini X-Cape 1200, na qual já fiz cerca de 2300 kms. E garanto: não é a moto ideal para circular na cidade (embora eu o faça frequentemente, por imperativos do quotidiano), mas é uma moto muitíssimo sólida, fantástica para fazer grandes viagens: é espaçosa, curva muitíssimo bem (o chassis é magnífico), trava bem, tem uma belíssima suspensão, aguenta muito bem baixas rotações com pendura e carga, em estradas de serra e, em autoestrada, é um verdadeiro expresso: faz 140, 160, 180 kms/h (e mais...) com uma estabilidade espantosa, quase totalmente indiferente aos ventos laterais, proporcionando, nesse contexto, uma tranquilidade muito difícil de igualar pela enorme maioria das motos (e seguramente superior à de todas as motos com preço até mais 3 ou 4 mil euros). Além disso, possui muito boa iluminação, o que é uma grande ajuda nas viagens nocturnas. Mas, o mapeamento da injecção é bastante deficitário, provocando soluços em abundância a muito baixas rotações (com o motor frio, chega a ser perigoso...), o que prejudica imenso a experiência de condução em determinados contextos - designadamente, em cidade. O motor é portentoso, mas percebe-se que tem ali potencial que o mapeamento da injecção não permite explorar. A moto acelera bem, mas nunca de forma fulgurante; atinge facilmente velocidades elevadas, mas nunca dá aquele 'coice', aquele empurrão nas costas. Se lhe abrirmos completamente o punho, ela acelera mas, provavelmente, a um ritmo muito idêntico ao que adoptaria se abríssemos apenas metade do acelerador. É estranho. O binário é bem mais do que suficiente, nos regimes de rotações mais usados, sendo bastante elástica. Contudo, não dá para fazer (algumas) ultrapassagens sem preparação porque, lá está, há por ali potência (e binário) que pode não vir a jogo quando precisarmos dele. Claro que, se explorarmos as rotações acima das 6500 rpm, o comportamento mecânico é diferente, a aceleração é mais fulgurante, mas não é o tipo de condução que eu mais gosto, nem sempre (ou quase nunca...) há condições para conduzir a esses ritmos, nem será o uso mais adequado à natureza da moto. E, depois, há os consumos, que não podem ser ignorados: em todos os depósitos que já atestei, o consumo nunca foi inferior a 8,0, e nunca foi superior a 8,9...independentemente do ritmo aplicado. É estranho: dá a impressão que tanto faz andar muito rápido como usar um andamento mais contido. Mas, há algo que a X-Cape 1200 tem em abundância e que muito poucas motos têm: carácter, personalidade, diferenciação e uma condução incrivelmente envolvente e recompensadora. É uma máquina emocionante!
ResponderEliminarObrigado pelo testemunho — e, sobretudo, pela honestidade da análise. É exactamente este tipo de comentário, de quem já fez 2300 km com a X-CAPE 1200, que acrescenta valor à discussão.
EliminarE confirma uma das minhas conclusões: a X-CAPE não é uma moto consensual, mas é uma moto com carácter. E isso, hoje, não é coisa pouca. 🏍️
Este comentário foi removido pelo autor.
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