quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Com quem irias de moto numa volta até Belém?

Falar de Presidenciais é quase sempre um exercício sisudo, carregado de solenidade e frases engomadas. Mas a estrada ensina-nos outra coisa: o carácter de uma pessoa revela-se mais depressa numa curva mal calculada do que num discurso bem ensaiado. Por isso, deixemos os palcos, os debates televisivos e os cartazes sorridentes. A pergunta é outra, bem mais simples — e talvez mais reveladora: com qual destes candidatos irias dar uma volta de mota? 


E já agora: se cada um tivesse uma moto, que moto seria? Não para decidir votos. Apenas para perceber quem inspira confiança quando o asfalto aperta, quem sabe ouvir o motor… e quem convém levar sempre à distância de segurança. 

Henrique Gouveia e Melo 
Ir de moto com Gouveia e Melo seria um exercício de planeamento quase militar. A rota estaria definida, o ponto de encontro cumprido ao minuto e o regresso previsto antes do pôr-do-sol. Nada de improvisos inúteis. Vejo-o claramente aos comandos de uma BMW R 1250 GS Adventure: grande, imponente, feita para missões longas e para transmitir autoridade mesmo parada. Não é a moto mais emotiva, mas é eficaz, segura e transmite controlo. Um passeio com ele seria fluido, disciplinado e… previsível. Para uns, aborrecido. Para outros, tranquilizador. 

Luís Marques Mendes
Com Marques Mendes a volta seria pausada, cheia de conversa e observação. Não ia acelerar sem razão nem escolher atalhos duvidosos. Preferia uma estrada nacional bem asfaltada, com tempo para comentar o estado do país e o estado do piso. A mota só podia ser uma Honda CB1100, bem construída, sem excessos, mais preocupada com equilíbrio do que com emoções fortes. Um passeio educado, civilizado, sem sobressaltos — talvez até demasiado correto para quem gosta de alguma irreverência. 

António José Seguro 
Seguro não ia para a estrada para se impor, mas para acompanhar. O ritmo seria ditado pelo grupo, não pelo ego. Parava facilmente para falar com alguém, para beber um café numa aldeia esquecida ou simplesmente para apreciar a paisagem. A sua moto seria uma Royal Enfield Himalayan, honesta, despretensiosa e mais focada na experiência do caminho do que no destino. Um passeio humano, próximo, empático — sem grandes picos de adrenalina, mas com sensação de comunidade. 

João Cotrim de Figueiredo 
Cotrim de Figueiredo é aquele que, a meio do passeio, decide mudar de rota só porque pode. Não gosta de demasiadas regras, prefere estradas abertas e escolhas individuais. A mota certa seria uma KTM 890 Duke: leve, nervosa, directa, feita para quem gosta de decidir em cima do momento. Um passeio com ele seria estimulante, rápido q.b., com desvios inesperados e a sensação constante de liberdade — mas exigia atenção e alguma confiança mútua. 

André Ventura
Ir de moto com Ventura não seria discreto. Havia ritmo imposto, presença forte e pouca margem para ambiguidades. A mota encaixa nisso: uma Ducati Monster, agressiva no desenho, sonora na atitude, feita para marcar território. O passeio seria intenso, possivelmente cansativo, sempre em modo afirmação. Não necessariamente perigoso… mas pouco relaxante. Aqui, mais do que a estrada, o desafio seria gerir a convivência.

Manuel João Vieira 
Com Manuel João Vieira nunca se sabe bem o que vai acontecer — e isso tanto pode ser libertador como um problema sério. O passeio podia transformar-se numa performance, numa história improvável ou numa sucessão de episódios absurdos. Vejo-o numa Harley-Davidson Sportster, mais atitude do que lógica, mais rock do que manual de instruções. Divertido? Sem dúvida. Aconselhável? Só para quem aceita o caos como parte do percurso.


Catarina Martins 
Catarina escolheria cuidadosamente o percurso, evitando excessos, ruído desnecessário e impactos gratuitos. A mota seria uma Zero SR/S, eléctrica, silenciosa e tecnologicamente avançada. Um passeio com ela seria tranquilo, reflexivo, com espaço para conversar e observar. Não seria sobre velocidade nem sobre afirmação pessoal, mas sobre coerência entre discurso e prática. Pode não entusiasmar os mais puristas, mas tem uma lógica própria difícil de ignorar. 

Humberto Raimundo Joaquim Correia 
Figura mais reservada, imagino-o como alguém que prefere observar a estrada em silêncio. Nada de grandes discursos nem de exibições. A mota faria o mesmo: uma Yamaha XSR700, equilibrada, com estética clássica e comportamento previsível. Um passeio discreto, sem ruído político nem acelerações gratuitas. Para quem valoriza introspeção e constância, poderia ser uma boa companhia. 

António Filipe
Com António Filipe o passeio teria sempre uma camada ideológica. Cada paragem podia dar origem a uma conversa sobre história, direitos, memória colectiva. A mota seria uma Moto Guzzi V7, cheia de carácter, tradição e personalidade própria. Não é a mais rápida nem a mais moderna, mas tem identidade. Um passeio sólido, com peso histórico e ritmo constante, mais interessado no significado do caminho do que na velocidade. 

André Pestana da Silva 
Aqui, o cuidado é outro. Pestana não é neutro nem previsível: é um radical de esquerda assumido, com uma visão muito própria do mundo e pouca tolerância para desvios ideológicos. Num passeio de mota, isso traduzir-se-ia numa escolha menos óbvia e potencialmente instável. Vejo-o numa Husqvarna 701 Enduro: leve, agressiva, capaz de sair do alcatrão a qualquer momento e entrar por trilhos inesperados. Um passeio exigente, imprevisível, onde convém manter distância e atenção constante. Não é para relaxar — é para sobreviver à mudança súbita de direcção. 

Eduardo Jorge Costa Pinto 
Eduardo Pinto parece alguém interessado em caminhos alternativos, menos óbvios. Não seguiria necessariamente a estrada principal, preferindo descobrir desvios e paisagens fora do radar. A mota encaixa nisso: uma Suzuki V-Strom 650, versátil, confortável, pronta para tudo sem grandes dramas. Um passeio honesto, curioso, com espaço para descoberta e alguma surpresa — sem radicalismos, mas também sem rotina. 

No fim, a pergunta fica no ar, como deve ficar: com qual destes candidatos confiavas o teu ritmo, a tua trajetória e a curva seguinte? Porque votar é importante, mas escolher companhia para a estrada… também diz muito sobre quem somos.

sábado, 10 de janeiro de 2026

O Dakar separa os preparados dos iludidos

O Dakar chegou ao seu tão aguardado dia de descanso — um momento que, para muitos, parece um interlúdio entre duas semanas de corrida. Mas se acreditarmos nessa leitura simplista, perdemos o ponto fundamental: no Dakar, não existe pausa verdadeira. Existe apenas um momento em que a prova deixa de ser corridas cronometradas e passa a ser um interrogatório implacável à condição dos pilotos, das máquinas e das equipas. 

Foto: Actiongraphers

É aqui que a prova diz a verdade — não sobre quem tem a melhor moto e sim sobre quem veio verdadeiramente preparado para este inferno saudita e quem ainda vive de ilusões. 

Ao fim de seis etapas duríssimas, com terrenos que já escancararam a dureza física e mental que caracteriza este rali, a classificação tem um pilar sólido. O australiano Daniel Sanders (Red Bull KTM Factory Racing) lidera a geral com uma vantagem ténue de apenas 45 segundos sobre o implacável Ricky Brabec (Monster Energy Honda HRC), depois de uma penalização de seis minutos que quase esfacelou a folga de Sanders. 

Logo atrás segue o argentino Luciano Benavides (Red Bull KTM Factory Racing), já a mais de 10 minutos, e logo depois o espanhol Tosha Schareina (Monster Energy Honda HRC), separados por menos de dois minutos num bloco que já mostra quem, à primeira vista, reúne os requisitos técnicos e físicos para permanecer em luta até ao fim. Ignacio “Nacho” Cornejo (HERO), quinto, já está perto dos 30 minutos de desvantagem, um fosso que, em Dakar, é mais do que um número — é uma indicação clara de que o futuro se comprime e os riscos começam a pesar na balança de cada decisão. 

Foto: Actiongraphers

Mas estas posições não contam o que verdadeiramente importa. Elas são um mero guia parcial — uma fotografia congelada numa corrida que é fluida, imprevisível e, acima de tudo, impiedosa. Porque no Dakar não basta ser rápido: é preciso ser preparado para gerir cada momento com cabeça fria, ler o deserto melhor do que o adversário e saber que a primeira semana foi apenas um enorme prólogo para o verdadeiro desafio que começa agora. E isso fica particularmente evidente quando olhamos para as personagens que ocupam esse top 4 que, hoje, fazem mais sentido como favoritos reais à vitória final. 

OS QUATRO QUE CONTAM — E COMO INTERPRETAM ESTE MOMENTO 
Daniel Sanders 



O actual líder não é um piloto que se destaque por espetáculos isolados — a sua liderança é fruto de consistência numa prova em que consistência vale ouro. Sanders tem sido sólido na navegação, resistente quando a física pesa e ainda inteligente o suficiente para mitigar erros que, noutros tempos, custariam minutos valiosos. A penalização recente por exceder velocidade é um exemplo clássico: quando se corre no limite, o Dakar castiga sem piedade. Ele sabe isso, e a forma como encara este descanso — com uma vantagem mínima — diz tudo sobre um piloto que já aprendeu que no Dakar não se ganha por margem, mas por gestão de risco e frio cálculo. 







Ricky Brabec
O americano da Honda é um dos três pilotos a ter ganho o Dakar pelo menos duas vezes, e isso não é um detalhe estatístico — é uma marca de quem sabe jogar esta prova como um jogo de xadrez em terreno movediço. Brabec pode ter menos vantagem no cronómetro, mas tem experiência acumulada, capacidade para reagir aos altos e baixos mecânicos e disciplina mental para atacar nos momentos certos. Ele não subestima o valor de cada segundo e sabe que, no deserto, a paciência pode ser uma arma tão válida quanto a velocidade pura. 

Foto: Actiongraphers

Luciano Benavides 
A terceira posição de Benavides é mais do que um lugar na tabela. É um reflexo de um piloto que está a fazer este Dakar por etapas — sem pressa, sem loucuras, mas com ritmo constante e leitura fina do terreno. Luciano pode não ser visto sempre como favorito óbvio, mas tem a vantagem de não estar sob pressão directa de defender o primeiro lugar. Muitas vezes, num Dakar, é exactamente essa ausência de pressão que permite ao piloto explodir no momento certo. 

Foto: Actiongraphers

Tosha Schareina 
Por fim, Schareina aparece logo atrás, a poucos minutos de Benavides. A sua capacidade de manter a calma mesmo após quedas duras e penalizações recentes mostra que este piloto tem adaptação mental e resiliência — traços que, combinados com velocidade e boa navegação, podem converter-se em resultados explosivos na segunda metade da prova. 

Foto: Actiongraphers

Estes quatro não são apenas nomes no topo da geral. São protagonistas de narrativas individuais que se entrelaçam num Dakar em que a narrativa maior não é sobre uma vitória antecipada, mas sobre quem consegue, verdadeiramente, sobreviver às contradições da prova. 

O DIA DE DESCANSO — A GRANDE ILUSÃO DO DAKAR 
Chegar ao dia de descanso não é, de facto, chegar ao fim de um capítulo. É chegar a um espelho que reflecte aquilo que cada piloto realmente trouxe para o deserto: preparação ou ilusão. Os que vieram preparados já sabem que este descanso não acalma o corpo; apenas acelera a reflexão. Cada mecânico que trabalha o motor, cada fisioterapeuta que tenta recuperar um músculo dolorido, cada piloto que revisita mentalmente os erros da primeira semana sabe que a segunda metade exige mais do que energia: exige estratégia. 

Foto: Actiongraphers

Os iludidos acreditam no conforto da classificação. Olham para os números como se a posição actual fosse sinónimo de vantagem segura. No Dakar, isso é um erro clássico. A vantagem reduzida de Sanders, a proximidade de Brabec e a presença próxima de Benavides e Schareina mostram que ninguém tem espaço para morrer de sucesso — e ninguém tem margem para facilitar. 

MARTIM VENTURA — O PORTUGUÊS QUE AINDA SONHA ALTO 
E aqui chegamos a um dos temas que mais aquece o coração dos leitores portugueses. O piloto Martim Ventura, em Honda e a competir em Rally2, tem vivido um Dakar de altos e baixos, mas com uma consistência que merece destaque. Depois de uma fase em que quase foi forçado a abandonar, Ventura renasceu, mostrando determinação e capacidade de recuperação. Nesta altura, ocupa posições sólidas e tornou-se o melhor português classificado nas duas rodas — uma evidência de classe e perseverança. 


Para muitos leitores, Martim não é apenas mais um nome na tabela: é um símbolo. É a representação de quem enfrenta a dureza atrofiada do deserto com cabeça erguida, sem sombra de ilusões e com a ambição real de ir mais longe do que todos esperavam. Ele pode não estar no top 10 absoluto, mas no contexto do que representa um Dakar moderno — onde a corrida começa a assumir contornos cada vez mais cruéis à medida que os dias passam — Ventura está a fazer mais do que apenas competir: está a acrescentar um traço de orgulho nacional a uma narrativa global já poderosa. 

O QUE VEM A SEGUIR — E PORQUÊ ISSO IMPORTA MAIS DO QUE NUNCA
Entrar na segunda metade do Dakar não é alinhar novamente para uma corrida normal. É alinhar para uma prova onde os números da geral contam menos do que as decisões tomadas em cada momento de stress, cansaço e areia profunda. Os pilotos não vão simplesmente “correr mais rápido amanhã”. Eles vão corrigir estratégias, ponderar riscos e enfrentar a verdade nua deste rali: quem domina a cabeça, domina o deserto. 

Foto: Actiongraphers

E, no fim de contas, essa é a maior lição que o Dakar já está a ensinar. Não se trata apenas de quem tem a moto mais rápida ou quem entrou nesta prova com o melhor currículo. Trata-se de quem chegou preparado para aquilo que o deserto realmente exige, e de quem teve a humildade de perceber, antes do grande salto final, que a verdadeira corrida começa agora. 

O Dakar não separa os fortes dos rápidos. O Dakar separa os preparados dos iludidos. E a segunda semana promete mostrar, sem filtros, quem de facto veio para ganhar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Quem é Martim Ventura?

Quando se fala em Dakar, os nomes que surgem nas primeiras linhas são, quase sempre, estrangeiros. Mas há uma história portuguesa que merece ser contada: Martim Ventura, um piloto que está a emergir no panorama mundial do Rally Raid e que, apesar do “momentum”, continua a ser praticamente ignorado pela comunicação social. É hora de abrir os olhos e perceber quem é este homem, o seu percurso e o que pode representar para Portugal. 


Martim Ventura nasceu a 6 de dezembro de 2000 e cedo encontrou na moto o seu caminho. Cresceu entre trilhos, lama e provas de Todo o Terreno nacionais, onde rapidamente se destacou pela combinação rara de velocidade, consistência e inteligência estratégica. 

No Campeonato Nacional de TT, conquistou títulos e vitórias que o colocaram no radar dos grandes. A Baja Portalegre 500, a prova mais icónica de TT em Portugal, foi o seu palco para provar que não se tratava de mais um piloto promissor: venceu, consolidando um nome que o mundo do rally não podia ignorar. 

A CAMINHO DO DESERTO 
A ambição de Martim ia além das pistas portuguesas. O próximo passo era claro: Rally Raid internacional. Em 2025, participou no Abu Dhabi Desert Challenge, terminando 12º geral e 5º na categoria Rally2, garantindo “o apuramento” para o Dakar 2026. Não foi sorte, foi trabalho, estratégia e adaptação a terrenos que poucos portugueses conhecem de facto. 


Antes disso, a vitória no Carta Rally 2025 provou que Ventura não só conseguia manter se entre os melhores, como tinha capacidade para atacar etapas longas, técnicas e extenuantes. Cada conquista consolidava o caminho para o grande objetivo: Dakar.

DAKAR 2026 — O INÍCIO DE UMA ESTRELA PORTUGUESA 
A Monster Energy Honda HRC apresenta este ano a sua estrutura alargada, com a equipa Rally2. Competindo sob o mesmo nome, identidade e visão competitiva da equipa RallyGP, esta iniciativa reforça o compromisso de longo prazo da Honda em desenvolver novos talentos e fortalecer o seu programa global de rally-raid. A equipa Monster Energy Honda HRC Rally2 conta com dois pilotos promissores, ambos representando a nova geração de talentos do rally-raid, entre eles o português Martim Ventura. 

O português e ex-piloto Rúben Faria, Team manager da equipa, mostrou-se no inico deste Dakar entusiasmado com o novo projeto e com Martim: é um piloto muito jovem na equipa que começa a dar grandes passos no mundo do rally. Estamos a desenvolver a moto e estamos muito satisfeitos com o seu desempenho. O principal objetivo para este Dakar é que tente terminar no top 5 da sua categoria e no top 15 da classificação geral. 

No prólogo do Dakar 2026 em Yanbu, Martim mostrou desde o primeiro momento que não vinha para cumprir calendário: foi o melhor português, com um 21.º lugar geral e 8.º entre os Rally2, assinando uma estreia que muitos gostariam de ter. 

Logo na primeira, Martim deixou realmente uma marca: concluindo a tirada no 11.º lugar absoluto nas motos e como segundo classificado da classe Rally2, a uma diferença de 11:31 minutos do vencedor — e isto no seu ano de estreia no Dakar. 

Hoje, dia 5 de janeiro e à segunda etapa do Dakar 2026, Martim Ventura fez 6.º lugar absoluto na etapa e venceu também a classe Rally2. Ainda houve um momento crítico em que uma penalização de dois minutos parecia ter-lhe tirado a vitória, mas acabou por ser anulada, garantindo assim o triunfo na classe. E isto é histórico por vários motivos. Desde logo porque esta é a primeira vitória da icónica HRC na a classe Rally2. “Estou muito feliz de como correu a etapa e de poder dar esta vitória à Honda e a Portugal. Continuamos focados que a corrida é muito longa”, disse o jovem piloto.


Isto não é um resultado qualquer. Um top 6 absoluto numa etapa do Dakar, num terreno tão complexo e perante uma concorrência onde há campeões mundiais e nomes históricos, diz muito sobre o seu ritmo, resistência e capacidade de leitura do deserto. Martim não se limitou a terminar — ele competiu verdadeiramente. 

QUEM É O HOMEM POR DETRÁS DO PILOTO 
Martim Ventura não é só números e tempos de prova. É alguém com disciplina, ambição e humildade. Cresceu num ambiente que valorizava esforço e perseverança, e mantém se fiel a esses princípios. Cada vitória é celebrada, mas cada falha é analisada e transformada em aprendizagem. 


É um piloto que valoriza família e mentores, reconhecendo o papel de cada pessoa que contribuiu para a sua carreira. Ao mesmo tempo, mantém uma postura reservada, focada no treino, na preparação física e mental, e na evolução contínua. 

O que Martim está a fazer é interessante. Um piloto português a conquistar resultados significativos no Dakar e noutras provas internacionais de Rally Raid. Mas há um estranho silêncio desconcertante da comunicação social. Isto revela duas realidades claras: o talento nacional é subvalorizado se não vier acompanhado de narrativa comercial ou de audiência garantida; o público perde a oportunidade de conhecer a história de quem representa Portugal no deserto mundial — e isso é um erro editorial grave. 


Não é apenas uma questão de orgulho. É reconhecer que um português está a ter andamento para níveis de destaque numa prova onde a diferença entre terminar no pelotão da frente e no fundo é de capacidade, estratégia e sangue frio. 

PARA ONDE VAI MARTIM VENTURA? 
A trajetória é clara: do nacional para o internacional, das Bajas para o Rally Raid de topo, da promessa para uma estrela emergente. O objetivo declarado? Lutar por pódios, ganhar etapas e, um dia, disputar seriamente o topo do Dakar


Se há um piloto para seguir com atenção, este é Martim Ventura. Cada quilómetro percorrido, cada etapa completada, é um passo para recolocar Portugal no mapa do Rally Raid mundial. E, por muito que a comunicação social continue a ignorar, nós sabemos o que se está a passar.

domingo, 4 de janeiro de 2026

As 12 tendências do motociclismo para 2026

O motociclismo entra em 2026 menos entusiasmado com o futuro — e curiosamente mais seguro de si. Depois de anos dominados por promessas tecnológicas, segmentações artificiais e narrativas inflacionadas, o sector começa a revelar sinais claros de fadiga. Não fadiga do acto de andar de moto, mas fadiga do discurso. E este é um ensaio sobre o fim das ilusões e o regresso ao uso real.
 

As tendências que se consolidam para 2026 não apontam para uma revolução súbita. Apontam para algo mais profundo e mais incómodo: um ajuste de contas com a realidade. Com o mercado. Com os utilizadores. Com os próprios limites da indústria. Estas são na opinião deste ESCAPE as doze tendências que, em conjunto, desenham esse momento. 

1. O SPORT TOURING AFIRMA-SE COMO A LINGUAGEM DOMINANTE DO MOTOCICLISMO MODERNO 
O Sport Touring deixa definitivamente de ser um segmento intermédio para se tornar uma linguagem transversal. Não é uma moda, nem um regresso nostálgico: é a consequência lógica de anos de polarização excessiva entre desportivas impraticáveis e maxitrail hipertrofiadas. 

Em 2026, o motociclista procura performance utilizável, conforto real e capacidade de viajar sem abdicar do prazer de condução. Motos como a neófita Honda CB1000GT, a Yamaha Tracer 9 GT+, a GSX-S1000GX ou a Kawasaki Versys 1100SE Grand Tourer não competem apenas entre si — competem com a ideia de que é preciso sofrer para andar depressa. O Sport Touring é, hoje, a resposta adulta ao uso real. 

2. VIAJAR DE MOTO TORNA-SE UM EIXO IDENTITÁRIO, NÃO UM NICHO AVENTUREIRO Viajar de moto já não é apenas ir longe. É dar sentido ao tempo, construir narrativa pessoal e partilhar experiência. A viagem deixa de ser escapismo e passa a ser identidade.

Esta tendência cruza-se com a explosão de conteúdos pessoais, com a valorização da experiência vivida e com a procura de autenticidade. Em 2026, mais pessoas querem viajar de moto — e querem contar essa viagem. A indústria acompanha: ergonomia, equipamento, fiabilidade e conforto ganham peso real. Viajar deixa de ser um argumento publicitário. Passa a ser um modo de estar. 

3. REJEIÇÃO ACTIVA DA ELECTRIFICAÇÃO NO MOTOCICLISMO DE USO RECREATIVO
A dificuldade das motos eléctricas já não pode ser explicada apenas pela falta de infra-estrutura ou pela imaturidade tecnológica. O problema é outro: não geram desejo. O fim da Moto-E como elemento central do universo MotoGP é simbólico. Sem som, sem vibração, sem identidade mecânica, a electrificação falha no ponto mais sensível do motociclismo: a ligação emocional. 

Em 2026, a electrificação perde centralidade narrativa. Continua como obrigação regulatória, mas deixa de ser vendida como futuro desejável para o motociclismo recreativo.

4. SISTEMAS ASSISTIDOS DE EMBRAIAGEM E TRANSMISSÃO TORNAM-SE O NOVO NORMAL 
Ao contrário da electrificação, os sistemas assistidos de embraiagem e transmissão avançam com naturalidade. DCT, E-Clutch, ASA ou Y-AMT não retiram controlo — retiram fricção. 

Num contexto de tráfego urbano agressivo, utilizadores mais velhos e novos motociclistas menos tolerantes ao sofrimento ritual, estas soluções tornam a moto mais acessível sem a descaracterizar. Em 2026, estes sistemas deixam de ser curiosidades técnicas e passam a ser opções legítimas e generalizadas. 


5. CONSOLIDAÇÃO DO MIDDLEWEIGHT PREMIUM COMO ESCOLHA RACIONAL E EMOCIONAL 
O middleweight premium afirma-se em 2026 como o território onde razão e paixão finalmente deixam de se excluir. Durante anos, as cilindradas médias foram vistas como degrau de acesso ou compromisso forçado. Hoje, essa leitura está ultrapassada. 

Entre os 700 e os 900 cc, as marcas encontraram o ponto exacto onde: a potência é mais do que suficiente para qualquer uso real; o peso permanece controlável; os custos (de aquisição, manutenção e consumo) fazem sentido; e o prazer de condução é constante, não episódico. 

Este segmento beneficia ainda de um dado incontornável: o motociclista médio envelheceu. Tem menos paciência para excessos, menos tolerância para desconforto gratuito e maior consciência do valor do dinheiro investido. O middleweight premium responde a isso sem pedir desculpa. 

Em 2026, estas motos deixam de ser “sensatas”. Passam a ser desejadas precisamente porque fazem sentido. 

6. MENOS POTÊNCIA MÁXIMA, MAIS CARÁCTER UTILIZÁVEL 
A obsessão pelos números atinge o seu limite. A potência máxima perde importância face à entrega, ao binário, à resposta do acelerador e ao carácter do motor. 

O prazer desloca-se do gráfico para a estrada. Esta mudança é silenciosa, mas estrutural, e atravessa vários segmentos. 

7. REGRESSO DAS CRUISERS COM NOVA LINGUAGEM ESTÉTICA E TÉCNICA 
As cruisers regressam libertas do folclore clássico. Já não precisam de mitologias americanas nem de pose rebelde. Marcas como a Benda mostram que há espaço para cruisers contemporâneas, ousadas, tecnicamente provocatórias e culturalmente abertas. 

Ergonomia descontraída, prazer mecânico e design afirmativo tornam-se argumentos fortes num mercado cansado de agressividade permanente. 

8. CANSAÇO DOS BICILÍNDRICOS PARALELOS E REABERTURA DO ESPAÇO PARA NOVAS ARQUITECTURAS 
O bicilíndrico paralelo venceu por mérito industrial: é compacto, eficiente, barato de produzir e fácil de homologar. Tornou-se, por isso, o motor dominante da última década. Mas essa hegemonia trouxe um efeito colateral inevitável: a homogeneização da experiência. 

Hoje, demasiadas motos soam, vibram e entregam potência de forma semelhante. Para um público cada vez mais informado e experiente, isso gera saturação. Não se trata de rejeitar o paralelo — trata-se de sentir que ele já não chega para diferenciar. 

É aqui que se abre espaço para novas (ou antigas) arquitecturas: tricilíndricos, pela combinação de suavidade e carácter; boxers, pelo equilíbrio e identidade; V-configurações, pelo som e pela entrega; e até soluções mais experimentais, como cinco ou seis cilindros. Em 2026, o motor volta a ser elemento narrativo. Não apenas um meio para cumprir normas, mas um argumento emocional e identitário.


9. CHINA AFIRMA-SE COMO LABORATÓRIO DE RISCO E EXPERIMENTAÇÃO NO MOTOCICLISMO
A afirmação chinesa em 2026 não se faz apenas pelo preço ou pelo volume. Faz-se, sobretudo, pela disponibilidade para arriscar onde outros hesitam. Sem o peso de uma herança histórica pesada, os fabricantes chineses experimentam arquiteturas, estéticas e conceitos que marcas estabelecidas evitam por receio de errar. 

Isto não significa que a China já domine o imaginário do motociclismo — não domina. Mas começa a moldar o debate técnico e conceptual. Boxers chineses, seis cilindros improváveis, híbridos experimentais ou cruisers radicalmente diferentes não são apenas exercícios de estilo: são testes de mercado em tempo real. 

Em 2026, a China ainda não lidera culturalmente. Mas obriga todos os outros a mexer. 

10. DESGASTE DO CONCEITO DE “PREMIUM” BASEADO APENAS EM ESTATUTO E COMPLEXIDADE 
O “premium” entra numa fase de desgaste silencioso. Durante anos, o mercado aceitou a equação simples: mais caro significa melhor, mais tecnológico, mais desejável. Essa lógica começa a ser questionada. 

O motociclista contemporâneo olha para o produto e pergunta: esta complexidade serve-me? Esta tecnologia melhora a minha experiência? Este preço traduz-se em uso real? 

Em 2026, o premium que sobrevive é o que demonstra valor funcional, coerência de projeto e benefício claro. O premium que se limita a empilhar sistemas, modos e etiquetas corre o risco de parecer distante, artificial ou até irrelevante. Não é o fim do luxo. É o fim do luxo sem propósito. 

11. FRAGMENTAÇÃO DA AUTORIDADE MEDIÁTICA NO MOTOCICLISMO 
A crise dos meios tradicionais não é uma crise de formato, e sim de autoridade. As grandes marcas mediáticas deixam de ser os centros incontestados da conversa. Já não definem sozinhas a agenda, os temas ou as hierarquias de relevância. 

Esta fragmentação não acontece porque os meios desapareceram, mas porque deixaram de ser exclusivos. O público já não depende deles para descobrir, validar ou compreender o motociclismo

Em 2026, a autoridade distribui-se por múltiplos pólos: criadores, comunidades, experiências directas, recomendações cruzadas. A narrativa deixa de ser vertical e torna-se rizomática. 


12. ASCENSÃO DOS CRIADORES INDIVIDUAIS COMO REFERÊNCIAS CENTRAIS DE CONFIANÇA 
Neste novo ecossistema, os criadores individuais ganham centralidade porque oferecem aquilo que os meios institucionais perderam: proximidade, coerência e risco pessoal. 

O público confia mais em quem: mostra a experiência vivida, assume opinião, erra em público, e sobretudo constrói relação ao longo do tempo. As marcas já perceberam que estes criadores são influentes. O problema é que não sabem controlá-los. Estão habituadas a negociar com instituições previsíveis, não com indivíduos autónomos. 

Em 2026, esta tensão torna-se estrutural. A comunicação deixa de ser um exercício de controlo e passa a ser — queira-se ou não — um exercício de diálogo.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Favoritos e apostas para o Dakar 2026

A reflexão que se segue nasce de um excelente trabalho publicado pela Motociclismo Espanhola — a partir do qual fazemos a nossa própria leitura do Dakar 2026. 


E é tempo de olhar de frente para a lista de inscritos e começar a separar o ruído do essencial. Desde logo porque há ausências que pesam. A do argentino Kevin Benavides,— marcado por um acidente grave — decidiu voltar o foco para os carros. Junta-se-lhe o chileno Pablo Quintanilla, bem como o francês Romain Dumontier, um dos melhores pilotos de Rally2 dos últimos anos e também o “nosso” alemão Sebastian Bühler. 

OS FAVORITOS
A lista podia esticar, mas a verdade nua e crua é esta: o duelo está desenhado entre KTM e Honda, sem nunca perder de vista a grande carta fora do baralho chamada Hero. 

1 Daniel Sanders - Red Bull KTM Factory Racing 
Há anos que um piloto não chegava ao Dakar com este peso específico. Daniel Sanders apresenta-se em 2026 como o homem a bater. O problema — se é que lhe podemos chamar assim — é que defender um Dakar é das tarefas mais ingratas do desporto motorizado. Ninguém o faz desde Marc Coma em 2015. Depois de um 2025 quase perfeito, coroado com o título mundial e uma sequência de vitórias quase imaculada, a questão é simples: consegue Sanders repetir? 

“A minha vida mudou pouco. O objectivo é o mesmo: continuar a andar de mota”, diz o australiano. Este ano a pressão vai ser maior. Defender o título é sempre o mais difícil. Agora todos me perseguem — mas estou preparado.” 

68 Tosha Schareina - Monster Energy Honda HRC
Se há alguém capaz de derrotar Sanders sem esperar por um erro, é Tosha Schareina. Velocidade pura, consistência, cabeça fria. O seu 2025 foi um cartão de visita sério: segundo no Dakar, vencedor no Rali de Marrocos, estragando o pleno do australiano. Apesar da juventude, Schareina é hoje para muitos o pilar desportivo da Honda HRC. 


“Ganhar o Dakar seria um sonho. Um ponto de viragem na minha vida. Mas encaro como sempre: dia a dia. No Dakar pode acontecer tudo.” 

9 Ricky Brabec - Monster Energy Honda HRC 
Uma fratura na tíbia condicionou seriamente o início de 2025, mas Ricky Brabec ainda assim terminou o Dakar em quinto. Recuperou forma, subiu ao pódio em três das quatro provas seguintes e lembra a todos porque já venceu o Dakar duas vezes (2020 e 2024). 


“Tenho de melhorar alguns aspetos para estar ao nível do Daniel e do Tosha, mas estou claramente melhor do que no ano passado.”. Brabec não corre para sobreviver. Corre para fazer história. Um terceiro Dakar colocá-lo-ia num patamar reservado a poucos. 

77 Luciano Benavides - Red Bull KTM Factory Racing 
Pode soar estranho ver Luciano Benavides tão alto na hierarquia sem nunca ter subido ao pódio final do Dakar. Mas quem acompanha o deserto sabe: o potencial está lá há muito. Quarto em 2025, duas vitórias em etapas, evolução constante. Pódios em Portugal e na África do Sul. E uma coisa importante: resiliência. 

“No último Dakar foi difícil manter a concentração. O estado do meu irmão afectou-me muito.”. Lesões? Sim. Medo? Nenhum. 

46 Ross Branch - Hero Motorsports Team Rally 
Se 2025 foi um ano para esquecer, 2026 é para recomeçar. Quedas, abandonos, avarias absurdas — até um pássaro entrou na equação. Tudo isso ficou para trás. O Ross Branch de 2024 — campeão do mundo com a Hero e segundo no Dakar — é o que importa agora.


“O desenvolvimento da moto foi enorme. O trabalho da equipa foi incrível. Agora cabe-me a mim responder na pista.”

42 Adrien Van Beveren - Monster Energy Honda HRC
Dois terceiros lugares consecutivos (2024 e 2025) confirmam o que já se sabia: Van Beveren atingiu a maturidade plena. Menos explosivo? Talvez. Mais consistente? Sem dúvida. Se quer ganhar o Dakar, precisa de um pouco mais de velocidade — ou de esperar que os mais rápidos errem. Nota pessoal, adorava ver este piloto feliz; de certa forma representa um certo Dakar que tende a desaparecer; é um lutador; anda aqui há anos. Merece tanto ser vencedor. 


“A cirurgia obrigou-me a parar. Mas sinto-me em plena forma. A experiência começa a transformar-se em resultados.”

OUTROS ASPIRANTES 
73 Edgar Canet - Red Bull KTM Factory Racing 
Tem apenas 20 anos. O que lhe falta em experiência sobra em talento. Oitavo no Dakar de estreia, vencedor em Rally2, campeão do mundo da categoria. Se há alguém capaz de baralhar o guião, é ele. E já baralhou. Vence o prologo. E assina o nome a outo na historia: mais jovem de semore vencer no Dakar.


10 Skyler Howes - Monster Energy Honda HRC 
Terceiro em 2023. Capaz de tudo. Mas o tempo passa e a concorrência aperta. Em 2026, pode ser o ano em que volta a surpreender — ou confirma que já não é o mais rápido do “rancho”. Not apesoal: tem uamimagem incrivel e uma comunicação única. Gosto e também gostava deo ver feliz. 

11 Nacho Cornejo - Hero Motorsports Team Rally 
Sete top-10 em oito Dakar dizem tudo. A mudança para a Hero não lhe retirou velocidade nem inteligência. Com mais quilómetros na moto, o pódio é um objectivo real. 

15 Lorenzo Santolino - Sherco Rally Factory 
O top-5 é a obsessão. A lesão atrapalhou a preparação, mas o percurso agrada-lhe. Se o corpo aguentar, pode finalmente lá chegar. 


7 Bradley Cox - Sherco Rally Factory 
2025 foi de aprendizagem na RallyGP. Resultados sólidos, crescimento evidente. O apelido pesa — e motiva. O pódio que o pai pisou continua no horizonte. 

98 Mason Klein - Hoto Factory Racing 
Depois de um início promissor, o deserto foi cruel. Agora, página em branco com a marca chinesa Hoto. Risco alto. Mas o talento nunca desapareceu. É o “querido” da s redes sociais. E tem muito fã por esse mundo fora 

OS CANDIDATOS EM RALLY2 

96 Tobias Ebster - Hero Motorsports Team Rally
Venceu em Original, foi segundo em Rally2, nono da geral. Agora com a Hero, o sobrinho de Heinz Kinigadner quer ganhar para subir definitivamente. 

14 Michael Docherty - BAS World KTM Team 
Velocidade não lhe falta. O objetivo é claro: top-5 da geral. Se lá chegar, Rally2 será consequência. 

26 Konrad Dabrowski - Duust Rally Team 
Ainda jovem, mas já veterano. Melhor resultado: 16.º. Dois pódios em Rally2 em 2025 mostram que a progressão é real. 

20 Harith Noah - Sherco Rally Factory
Depois de um 2025 para esquecer, quer regressar ao nível de 2024. Sabe que é preciso tudo alinhar. Mas quando alinha, é letal. 

16 Toni Mulec - BAS World KTM Team 
Crescimento silencioso, consistente, eficaz. Enduro e motocross no ADN. O pódio em Rally2 é um objectivo realista.

41 Ruy Barbosa - Honda HT Rally Raid 
Estreante no Dakar, mas longe de ser ingénuo. Dois quase-pódios em Rally2 dizem tudo. Não é exagero colocá-lo entre os favoritos. Nota: este chileno de apelido ebm português aparentemente não terá qualquer ligação ao nosso pais.

A arriscada aposta do ESCAPE em percentagem para a vitoria final à geral 

Daniel Sanders — 28% Parte como o principal favorito ao Dakar 2026. Campeão em título, chega no pico de forma, com uma KTM muito sólida e um pacote completo de velocidade, navegação e gestão de corrida, apesar do peso histórico de defender o Touareg. 

Tosha Schareina — 22% É o piloto mais bem colocado para destronar Sanders sem depender de erros alheios. Velocidade pura, consistência crescente e uma Honda fiável colocam-no como candidato real à vitória final. 

Ricky Brabec — 16% Duas vezes vencedor do Dakar, continua a ser um dos pilotos mais inteligentes do pelotão. Não é o mais rápido, mas sabe gerir corridas longas e aproveitar cenários de desgaste ou erros dos favoritos. 

Ross Branch — 12% Talento e velocidade para ganhar o Dakar não lhe faltam. A grande incógnita continua a ser a fiabilidade da Hero e a sua capacidade de atravessar duas semanas sem incidentes ou problemas mecânicos.

Luciano Benavides — 10% Está em clara trajetória ascendente e cada Dakar tem sido melhor do que o anterior. Se conseguir manter-se próximo dos líderes até à segunda semana, pode tornar-se um candidato inesperado à geral. 

Adrien Van Beveren — 7% Extremamente consistente e experiente, mas com menor capacidade de impor ritmo aos mais rápidos. A sua hipótese de vitória passa sobretudo por uma corrida marcada por erros ou desistências dos favoritos. 


Outros pilotos — 5% Inclui cenários de corrida atípicos ou extremamente caóticos, onde nomes fora do núcleo principal conseguem capitalizar desistências, penalizações ou falhas generalizadas.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Dakar já não é o que era

O Dakar já não é o que era. E ainda bem que sabemos dizê-lo sem medo. Mas também é verdade que, para a minha geração, o Dakar nunca foi apenas uma corrida. Era Janeiro. Era o som distante dos motores nos noticiários. Era o mistério. Era saber que alguém estava algures no deserto, sem sabermos bem onde, nem se tudo estava a correr bem. 

Foto: Edophoto

Crescemos com a ideia de aventura pura: atravessar dunas e tempestades de areia com mapas militares, bússolas e instinto. Rumava-se para um desconhecido que, apesar de tudo, parecia próximo, quase ao alcance da imaginação. E isso marcou-nos. 

Sou um profundo apaixonado por esta prova. Também sou crítico do seu modelo atual, das suas escolhas e da sua evolução. E há coisas que são mais fortes do que nós. Chega esta altura do ano e o pensamento vai sempre parar ao mesmo sítio: Dakar. 

Hoje acompanhamos tudo em tempo quase real, com tecnologia, dados e estratégia. Nada a ver com os primeiros tempos. Mas o fascínio continua lá. Talvez diferente. Talvez mais consciente. Mas intacto. Que venha mais uma edição. Vamos acompanhá-la com olhos críticos, memória viva e respeito por aquilo que esta prova foi — e continua, de alguma forma, a ser. 

AS ORIGENS DE UMA PROVA QUE NUNCA FOI APENAS UMA CORRIDA 
O Rally Dakar não nasceu para ser um espectáculo desportivo. Nasceu como um desafio absoluto, num tempo em que atravessar o deserto significava aceitar o risco, o isolamento e a possibilidade real de não chegar ao fim. 

As origens da prova remontam ao final da década de 1970, quando Thierry Sabine idealiza um rali que ligasse a Europa a África, atravessando territórios onde não existiam referências claras, nem infraestruturas, nem garantias. A primeira edição, disputada em 1979, ligou Paris a Dakar — com partida a 26 de dezembro de 1978 — e deixou imediatamente claro que aquilo não era uma corrida convencional. 

Na categoria de motos, o primeiro vencedor da história do Dakar foi Cyril Neveu, aos comandos de uma Yamaha XT500, num triunfo que simboliza bem o espírito da época: simplicidade mecânica, resistência humana e navegação como elemento decisivo. Não havia live timing. Não havia comunicações permanentes. Não havia estratégia de marketing. 

Havia navegação, resistência, autonomia e decisão individual. Cada piloto era responsável por si, pela sua moto e pela sua capacidade de interpretar o terreno. O erro fazia parte do percurso. O abandono era comum. Chegar ao fim era, muitas vezes, a verdadeira vitória. 

Esse ADN ficou gravado desde o primeiro Dakar: a prova não se ganha apenas com velocidade, ganha-se com inteligência, leitura do deserto e capacidade de sobreviver ao erro. 

É importante perceber isto para entender o Dakar de hoje. As motos mudaram, os regulamentos evoluíram, as equipas profissionalizaram-se. Mas a lógica profunda da prova mantém-se: o deserto continua a castigar a pressa, a navegação continua a separar os bons dos excepcionais, e o Dakar continua a premiar quem sabe pensar a longo prazo. 


Às vésperas de mais uma edição, voltar às origens não é nostalgia. É compreender porque é que, mais de 40 anos depois, o Dakar continua a ser único. Nos próximos dias o deserto volta a falar. 

THIERRY SABINE OU HOMEM QUE ENFRENTOU O DESERTO 
Fala-se muitas vezes de Thierry Sabine como o sonhador que “inventou” o Dakar. A história é conhecida, repetida e romantizada. Mas essa leitura é curta e, sobretudo, incompleta. 

Thierry Sabine não foi apenas um idealista. Foi um organizador, um estratega e um homem com uma visão clara num tempo em que atravessar o deserto africano não era uma experiência turística, nem um produto desportivo. Era um risco real, físico e logístico, assumido sem rede. 

Sabine percebeu algo antes de quase toda a gente: o deserto não era apenas um obstáculo — era o centro da experiência. Não como cenário exótico, mas como território que obriga à autonomia, à decisão individual e à responsabilidade pessoal. 

Num tempo sem comunicações em tempo real, sem GPS, sem satélites acessíveis, criar uma prova como o Dakar exigia mais do que imaginação. Exigia capacidade de organização, leitura política dos territórios, conhecimento do terreno e, sobretudo, a aceitação de que nem tudo podia ser controlado. 

Thierry Sabine nunca tentou domesticar o deserto. Construiu uma prova à sua volta, aceitando os seus riscos. É também por isso que muitos lhe atribuem, com razão, o nascimento do turismo de aventura moderno. Antes do Dakar, poucos se atreviam a atravessar África de moto, por competição ou lazer. Depois do Dakar, o deserto passou a ser visto como espaço de descoberta — dura, exigente, mas possível para quem estivesse preparado. 

Sabine pagou esse compromisso com a própria vida, em 1986, durante o Dakar, num acidente de helicóptero em pleno deserto do Mali. Não foi uma ironia trágica. Foi a consequência de estar sempre no centro da prova que criou, no terreno, onde acreditava que devia estar. 

O Dakar que hoje conhecemos mudou. Profissionalizou-se, evoluiu tecnologicamente, ganhou outra escala. Mas a matriz pensada por Thierry Sabine permanece intacta: uma prova onde a liberdade implica risco, e onde cada decisão tem peso real. Perceber quem foi Thierry Sabine não é um exercício de nostalgia. É compreender porque o Dakar nunca foi — nem será — apenas uma corrida. 

Num plano mais subjetivo, digo que há de facto figuras que não criam apenas coisas; criam eixos de gravidade. Thierry Sabine não inventou uma corrida — inventou um centro. Durante Janeiro, durante décadas, o deserto deixou de ser periferia do mundo para passar a ser o seu coração simbólico. A tragédia no Mali cristalizou-o como mito fundador, e a pergunta incómoda permanece: e se Sabine tivesse sobrevivido? Teríamos hoje o mesmo Dakar — ou apenas algo com o mesmo nome? Arrisco dizer que não. Um Sabine vivo teria sido, inevitavelmente, um obstáculo. Um obstáculo à tecnocratização excessiva, à obsessão pelo controlo, à transformação do Dakar num produto cada vez mais gerível, previsível e televisivo. Talvez nunca tivesse saído de África — ou, se saísse, seria por necessidade extrema, não por conveniência política ou económica. Talvez o Dakar de hoje não fosse este paradoxo perfeito: um deserto infinito tratado como circuito, uma aventura radical domesticada por roadbooks digitais, satélites e margens de erro calculadas. 


E no entanto, aqui está o ponto cego que poucos gostam de encarar: sem a morte de Sabine, talvez o Dakar não tivesse sobrevivido. A prova cresceu porque perdeu o seu criador — e com ele perdeu também parte da sua alma. O Dakar moderno é viável, sustentável, replicável. O Dakar de Sabine era irrepetível e, a prazo, talvez insustentável. A pergunta certa não é se o Dakar seria melhor com Sabine vivo. É se o Dakar, tal como o conhecemos hoje, teria sequer sido possível. 

A ÉPOCA DOURADA DO DAKAR 
Houve um tempo em que o Dakar não era acompanhado ao minuto. Houve um tempo em que o Dakar desaparecia. Nos anos 80, quando a prova mergulhava no deserto a sério, não havia updates, não havia mapas animados, não havia notificações no bolso. Podíamos passar três, quatro dias sem saber absolutamente nada. A prova desaparecia. Como se tivesse entrado num túnel fora do tempo. E nós ficávamos cá fora, à espera. 

À espera que acabassem as notícias “normais”, para que no canto do ecrã do telejornal surgisse uma imagem tremida, uma frase solta, um nome. À espera de uma linha no jornal do dia seguinte. À espera de qualquer coisa que nos dissesse: eles ainda lá estão. 

Os anos 80 foram a época dourada do Rally Dakar. Não apenas porque a prova cresceu, mas porque ganhou uma dimensão quase mítica. As etapas atravessavam a Argélia, a Líbia, o Níger. O deserto do Ténéré — vasto, silencioso, implacável — tornava-se o centro da narrativa. Um lugar onde tudo podia acontecer e onde nada era garantido. 

Foi também a década em que as motos marcaram definitivamente a história da prova, numa luta titânica entre dois gigantes: BMW e Honda. Durante anos, dividiram entre si o domínio do Dakar, levando para o deserto máquinas que hoje parecem quase irreais. Autênticos monstros, pesados, potentes, exigentes, que transformaram pilotos em verdadeiros condutores de resistência. 

A BMW ficou gravada a ouro na história da competição com motos que ainda hoje alimentam o imaginário coletivo. A Honda respondeu com fiabilidade, método e ambição. Era uma batalha técnica e humana, travada em condições extremas, que ajudou a elevar o Dakar a outro patamar competitivo. 

Para quem olha hoje, habituado a 450 cc afinadas ao milímetro, é difícil compreender como aquelas motos enormes eram levadas a bom porto durante milhares de quilómetros de areia, pedra e isolamento absoluto. Não havia eletrónica salvadora, nem margens largas para erro. Havia força, improviso, mecânica e cabeça fria. 


Era comum os pilotos entrarem em maratonas profundas sem comunicações, sabendo que durante dias o mundo exterior não teria notícias claras da caravana. Às vezes não se sabia quem liderava. Às vezes não se sabia sequer se a corrida seguia intacta. Esse silêncio fazia parte do Dakar. 

Foi também nessa década que a prova se tornou verdadeiramente mediática. Figuras públicas, príncipes e princesas europeus, aventureiros com nome feito, quiseram medir-se com o deserto. Não por vaidade apenas, mas porque o Dakar representava algo maior: o confronto direto entre o ser humano e um território que não se deixa dominar. 

Para muitos de nós, miúdos na altura, o Dakar era mais do que uma corrida. Era uma janela para um mundo distante e quase inalcançável. Sonhava-se, no mínimo, em conhecer o deserto. Sentir o vento quente, a areia, a solidão, a dificuldade. Durante duas ou três semanas de janeiro, quando pouco mais havia para distrair, o Dakar fazia manchete, entrava nas casas, alimentava imaginações. 


Hoje o mundo é mais rápido, mais informado, mais imediato. Mas quem viveu aqueles Dakars sabe: houve um tempo em que o deserto falava primeiro — e só depois chegavam as notícias. Lembrar essa época não é nostalgia gratuita. É reconhecer a raiz de tudo o que o Dakar ainda é. 

A REVOLUÇÃO DAS MOTOS MODERNAS
Depois da época dourada, o Dakar chegou a um limite. Limite técnico, físico e humano. As motos gigantes que marcaram os anos 80 e 90 eram fascinantes, mas também implacáveis. Pesadas, exigentes, brutais. O risco fazia parte do ADN da prova, mas a realidade começou a impor-se: o motociclismo já era perigoso o suficiente, e o Dakar precisava de evoluir se quisesse continuar a existir como desafio maior — e não como roleta russa.

Foi aí que surgiu a grande viragem: motos mais leves, mais controláveis, menos físicas, mas sem abdicar da essência competitiva. O chamado “downsizing” não foi um capricho regulamentar. Foi uma decisão estrutural para proteger os pilotos, tornar a prova mais sustentável e aproximar as motos de competição de uma realidade técnica reconhecível. 


Com a entrada definitiva das 450 cc, abriu-se uma nova era. Motos mais ágeis, mais eficazes em navegação, menos dependentes da força bruta e mais exigentes em inteligência de condução. O Dakar passou a premiar ainda mais a leitura do terreno, a gestão do ritmo e a capacidade de pensar a longo prazo. 

Foi também o período do domínio insolente da KTM, que soube interpretar melhor do que ninguém este novo paradigma. Não apenas em velocidade, mas em fiabilidade, estratégia e consistência. A marca austríaca construiu uma hegemonia que definiu uma geração inteira do Dakar moderno. 

Esta revolução coincidiu com outra mudança profunda: o Dakar deixou África e passou para a América do Sul. Um novo continente, novos terrenos, novas leituras. A prova transformou-se, mas manteve o essencial: a exigência total sobre o piloto, agora num contexto diferente. 


As motos modernas são, ao mesmo tempo, mais seguras e mais desafiantes. Bonitas, eficazes, feitas para competir durante duas semanas sem margem para falhas graves. Facilitam a vida? Em parte. Mas exigem mais precisão, mais cabeça e menos espaço para o erro grosseiro. É este Dakar que serve de base ao que hoje vemos. E é a partir daqui que se constrói a era atual da competição. 

INTELIGÊNCIA, NAVEGAÇÃO E UMA NOVA GERAÇÃO EM MARCHA 
O Dakar de hoje já não se ganha apenas com punho fechado e coragem cega. Ganha-se com cabeça fria, leitura do terreno, gestão do erro — e sobretudo com navegação. 

Na Arábia Saudita, a prova encontrou um território que combina vastidão, variedade e brutalidade técnica. Não é o deserto romântico dos anos 80, nem a selva de armadilhas da América do Sul. É um Dakar onde errar um waypoint custa minutos, onde uma decisão errada pode comprometer um dia inteiro, e onde a estratégia vale tanto como a velocidade pura. 

Foto: Edophoto

A navegação tornou-se o eixo central da competição. Roadbooks digitais, entregues momentos antes da partida, leitura em andamento, decisões tomadas a 120 km/h em terreno aberto. O piloto moderno é, simultaneamente, atleta, navegador e gestor de risco. Já não há espaço para improviso ingénuo. Há cálculo, há contenção, há inteligência competitiva. 

É neste contexto que surge a categoria Rally 2 — não como divisão menor, mas como verdadeira escola do Dakar moderno. Rally 2 é onde se aprende a sobreviver à prova antes de se tentar dominá-la. Motos próximas das de série, custos mais controlados, regras pensadas para desenvolver pilotos completos: rápidos, mas sobretudo consistentes e capazes de pensar a longo prazo. 

Hoje, Rally 2 é a porta de entrada natural para os futuros protagonistas da classe Rally GP. É aqui que se formam os pilotos que amanhã liderarão equipas oficiais. Não por acaso, os construtores olham para esta categoria como um viveiro estratégico. 

E é aqui que entra um nome que importa sublinhar: Martim Ventura. Jovem, ambicioso, tecnicamente sólido, Martim integra a estrutura Honda HRC, numa equipa de fábrica, ainda que na categoria Rally 2. Não é um detalhe irrelevante. É um sinal claro de confiança e de aposta no futuro. A Honda não oferece lugares; constrói percursos. 

Martim Ventura representa esta nova geração: pilotos formados já num Dakar inteligente, conscientes de que a prova não se ataca — gere-se. Um piloto que corre para aprender, mas aprende depressa. Que entende que terminar é tão importante como ser rápido. E que sabe que, no Dakar, cada quilómetro é um exame. 

Foto: Edophoto

A prova começa amanhã. A história que aqui revisitámos deixa de ser memória e passa a ser presente. Durante as próximas duas semanas, o Dakar volta a ocupar o centro do mapa mental de quem gosta de motociclismo levado ao limite. Agora com mais dados, mais informação, mais acompanhamento — mas com o mesmo respeito absoluto pelo deserto. O resto já não é antecipação. É corrida.
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