segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Quem é Martim Ventura?

Quando se fala em Dakar, os nomes que surgem nas primeiras linhas são, quase sempre, estrangeiros. Mas há uma história portuguesa que merece ser contada: Martim Ventura, um piloto que está a emergir no panorama mundial do Rally Raid e que, apesar do “momentum”, continua a ser praticamente ignorado pela comunicação social. É hora de abrir os olhos e perceber quem é este homem, o seu percurso e o que pode representar para Portugal. 


Martim Ventura nasceu a 6 de dezembro de 2000 e cedo encontrou na moto o seu caminho. Cresceu entre trilhos, lama e provas de Todo o Terreno nacionais, onde rapidamente se destacou pela combinação rara de velocidade, consistência e inteligência estratégica. 

No Campeonato Nacional de TT, conquistou títulos e vitórias que o colocaram no radar dos grandes. A Baja Portalegre 500, a prova mais icónica de TT em Portugal, foi o seu palco para provar que não se tratava de mais um piloto promissor: venceu, consolidando um nome que o mundo do rally não podia ignorar. 

A CAMINHO DO DESERTO 
A ambição de Martim ia além das pistas portuguesas. O próximo passo era claro: Rally Raid internacional. Em 2025, participou no Abu Dhabi Desert Challenge, terminando 12º geral e 5º na categoria Rally2, garantindo “o apuramento” para o Dakar 2026. Não foi sorte, foi trabalho, estratégia e adaptação a terrenos que poucos portugueses conhecem de facto. 


Antes disso, a vitória no Carta Rally 2025 provou que Ventura não só conseguia manter se entre os melhores, como tinha capacidade para atacar etapas longas, técnicas e extenuantes. Cada conquista consolidava o caminho para o grande objetivo: Dakar.

DAKAR 2026 — O INÍCIO DE UMA ESTRELA PORTUGUESA 
A Monster Energy Honda HRC apresenta este ano a sua estrutura alargada, com a equipa Rally2. Competindo sob o mesmo nome, identidade e visão competitiva da equipa RallyGP, esta iniciativa reforça o compromisso de longo prazo da Honda em desenvolver novos talentos e fortalecer o seu programa global de rally-raid. A equipa Monster Energy Honda HRC Rally2 conta com dois pilotos promissores, ambos representando a nova geração de talentos do rally-raid, entre eles o português Martim Ventura. 

O português e ex-piloto Rúben Faria, Team manager da equipa, mostrou-se no inico deste Dakar entusiasmado com o novo projeto e com Martim: é um piloto muito jovem na equipa que começa a dar grandes passos no mundo do rally. Estamos a desenvolver a moto e estamos muito satisfeitos com o seu desempenho. O principal objetivo para este Dakar é que tente terminar no top 5 da sua categoria e no top 15 da classificação geral. 

No prólogo do Dakar 2026 em Yanbu, Martim mostrou desde o primeiro momento que não vinha para cumprir calendário: foi o melhor português, com um 21.º lugar geral e 8.º entre os Rally2, assinando uma estreia que muitos gostariam de ter. 

Logo na primeira, Martim deixou realmente uma marca: concluindo a tirada no 11.º lugar absoluto nas motos e como segundo classificado da classe Rally2, a uma diferença de 11:31 minutos do vencedor — e isto no seu ano de estreia no Dakar. 

Hoje, dia 5 de janeiro e à segunda etapa do Dakar 2026, Martim Ventura fez 6.º lugar absoluto na etapa e venceu também a classe Rally2. Ainda houve um momento crítico em que uma penalização de dois minutos parecia ter-lhe tirado a vitória, mas acabou por ser anulada, garantindo assim o triunfo na classe. E isto é histórico por vários motivos. Desde logo porque esta é a primeira vitória da icónica HRC na a classe Rally2. “Estou muito feliz de como correu a etapa e de poder dar esta vitória à Honda e a Portugal. Continuamos focados que a corrida é muito longa”, disse o jovem piloto.


Isto não é um resultado qualquer. Um top 6 absoluto numa etapa do Dakar, num terreno tão complexo e perante uma concorrência onde há campeões mundiais e nomes históricos, diz muito sobre o seu ritmo, resistência e capacidade de leitura do deserto. Martim não se limitou a terminar — ele competiu verdadeiramente. 

QUEM É O HOMEM POR DETRÁS DO PILOTO 
Martim Ventura não é só números e tempos de prova. É alguém com disciplina, ambição e humildade. Cresceu num ambiente que valorizava esforço e perseverança, e mantém se fiel a esses princípios. Cada vitória é celebrada, mas cada falha é analisada e transformada em aprendizagem. 


É um piloto que valoriza família e mentores, reconhecendo o papel de cada pessoa que contribuiu para a sua carreira. Ao mesmo tempo, mantém uma postura reservada, focada no treino, na preparação física e mental, e na evolução contínua. 

O que Martim está a fazer é interessante. Um piloto português a conquistar resultados significativos no Dakar e noutras provas internacionais de Rally Raid. Mas há um estranho silêncio desconcertante da comunicação social. Isto revela duas realidades claras: o talento nacional é subvalorizado se não vier acompanhado de narrativa comercial ou de audiência garantida; o público perde a oportunidade de conhecer a história de quem representa Portugal no deserto mundial — e isso é um erro editorial grave. 


Não é apenas uma questão de orgulho. É reconhecer que um português está a ter andamento para níveis de destaque numa prova onde a diferença entre terminar no pelotão da frente e no fundo é de capacidade, estratégia e sangue frio. 

PARA ONDE VAI MARTIM VENTURA? 
A trajetória é clara: do nacional para o internacional, das Bajas para o Rally Raid de topo, da promessa para uma estrela emergente. O objetivo declarado? Lutar por pódios, ganhar etapas e, um dia, disputar seriamente o topo do Dakar


Se há um piloto para seguir com atenção, este é Martim Ventura. Cada quilómetro percorrido, cada etapa completada, é um passo para recolocar Portugal no mapa do Rally Raid mundial. E, por muito que a comunicação social continue a ignorar, nós sabemos o que se está a passar.

domingo, 4 de janeiro de 2026

As 12 tendências do motociclismo para 2026

O motociclismo entra em 2026 menos entusiasmado com o futuro — e curiosamente mais seguro de si. Depois de anos dominados por promessas tecnológicas, segmentações artificiais e narrativas inflacionadas, o sector começa a revelar sinais claros de fadiga. Não fadiga do acto de andar de moto, mas fadiga do discurso. E este é um ensaio sobre o fim das ilusões e o regresso ao uso real.
 

As tendências que se consolidam para 2026 não apontam para uma revolução súbita. Apontam para algo mais profundo e mais incómodo: um ajuste de contas com a realidade. Com o mercado. Com os utilizadores. Com os próprios limites da indústria. Estas são na opinião deste ESCAPE as doze tendências que, em conjunto, desenham esse momento. 

1. O SPORT TOURING AFIRMA-SE COMO A LINGUAGEM DOMINANTE DO MOTOCICLISMO MODERNO 
O Sport Touring deixa definitivamente de ser um segmento intermédio para se tornar uma linguagem transversal. Não é uma moda, nem um regresso nostálgico: é a consequência lógica de anos de polarização excessiva entre desportivas impraticáveis e maxitrail hipertrofiadas. 

Em 2026, o motociclista procura performance utilizável, conforto real e capacidade de viajar sem abdicar do prazer de condução. Motos como a neófita Honda CB1000GT, a Yamaha Tracer 9 GT+, a GSX-S1000GX ou a Kawasaki Versys 1100SE Grand Tourer não competem apenas entre si — competem com a ideia de que é preciso sofrer para andar depressa. O Sport Touring é, hoje, a resposta adulta ao uso real. 

2. VIAJAR DE MOTO TORNA-SE UM EIXO IDENTITÁRIO, NÃO UM NICHO AVENTUREIRO Viajar de moto já não é apenas ir longe. É dar sentido ao tempo, construir narrativa pessoal e partilhar experiência. A viagem deixa de ser escapismo e passa a ser identidade.

Esta tendência cruza-se com a explosão de conteúdos pessoais, com a valorização da experiência vivida e com a procura de autenticidade. Em 2026, mais pessoas querem viajar de moto — e querem contar essa viagem. A indústria acompanha: ergonomia, equipamento, fiabilidade e conforto ganham peso real. Viajar deixa de ser um argumento publicitário. Passa a ser um modo de estar. 

3. REJEIÇÃO ACTIVA DA ELECTRIFICAÇÃO NO MOTOCICLISMO DE USO RECREATIVO
A dificuldade das motos eléctricas já não pode ser explicada apenas pela falta de infra-estrutura ou pela imaturidade tecnológica. O problema é outro: não geram desejo. O fim da Moto-E como elemento central do universo MotoGP é simbólico. Sem som, sem vibração, sem identidade mecânica, a electrificação falha no ponto mais sensível do motociclismo: a ligação emocional. 

Em 2026, a electrificação perde centralidade narrativa. Continua como obrigação regulatória, mas deixa de ser vendida como futuro desejável para o motociclismo recreativo.

4. SISTEMAS ASSISTIDOS DE EMBRAIAGEM E TRANSMISSÃO TORNAM-SE O NOVO NORMAL 
Ao contrário da electrificação, os sistemas assistidos de embraiagem e transmissão avançam com naturalidade. DCT, E-Clutch, ASA ou Y-AMT não retiram controlo — retiram fricção. 

Num contexto de tráfego urbano agressivo, utilizadores mais velhos e novos motociclistas menos tolerantes ao sofrimento ritual, estas soluções tornam a moto mais acessível sem a descaracterizar. Em 2026, estes sistemas deixam de ser curiosidades técnicas e passam a ser opções legítimas e generalizadas. 


5. CONSOLIDAÇÃO DO MIDDLEWEIGHT PREMIUM COMO ESCOLHA RACIONAL E EMOCIONAL 
O middleweight premium afirma-se em 2026 como o território onde razão e paixão finalmente deixam de se excluir. Durante anos, as cilindradas médias foram vistas como degrau de acesso ou compromisso forçado. Hoje, essa leitura está ultrapassada. 

Entre os 700 e os 900 cc, as marcas encontraram o ponto exacto onde: a potência é mais do que suficiente para qualquer uso real; o peso permanece controlável; os custos (de aquisição, manutenção e consumo) fazem sentido; e o prazer de condução é constante, não episódico. 

Este segmento beneficia ainda de um dado incontornável: o motociclista médio envelheceu. Tem menos paciência para excessos, menos tolerância para desconforto gratuito e maior consciência do valor do dinheiro investido. O middleweight premium responde a isso sem pedir desculpa. 

Em 2026, estas motos deixam de ser “sensatas”. Passam a ser desejadas precisamente porque fazem sentido. 

6. MENOS POTÊNCIA MÁXIMA, MAIS CARÁCTER UTILIZÁVEL 
A obsessão pelos números atinge o seu limite. A potência máxima perde importância face à entrega, ao binário, à resposta do acelerador e ao carácter do motor. 

O prazer desloca-se do gráfico para a estrada. Esta mudança é silenciosa, mas estrutural, e atravessa vários segmentos. 

7. REGRESSO DAS CRUISERS COM NOVA LINGUAGEM ESTÉTICA E TÉCNICA 
As cruisers regressam libertas do folclore clássico. Já não precisam de mitologias americanas nem de pose rebelde. Marcas como a Benda mostram que há espaço para cruisers contemporâneas, ousadas, tecnicamente provocatórias e culturalmente abertas. 

Ergonomia descontraída, prazer mecânico e design afirmativo tornam-se argumentos fortes num mercado cansado de agressividade permanente. 

8. CANSAÇO DOS BICILÍNDRICOS PARALELOS E REABERTURA DO ESPAÇO PARA NOVAS ARQUITECTURAS 
O bicilíndrico paralelo venceu por mérito industrial: é compacto, eficiente, barato de produzir e fácil de homologar. Tornou-se, por isso, o motor dominante da última década. Mas essa hegemonia trouxe um efeito colateral inevitável: a homogeneização da experiência. 

Hoje, demasiadas motos soam, vibram e entregam potência de forma semelhante. Para um público cada vez mais informado e experiente, isso gera saturação. Não se trata de rejeitar o paralelo — trata-se de sentir que ele já não chega para diferenciar. 

É aqui que se abre espaço para novas (ou antigas) arquitecturas: tricilíndricos, pela combinação de suavidade e carácter; boxers, pelo equilíbrio e identidade; V-configurações, pelo som e pela entrega; e até soluções mais experimentais, como cinco ou seis cilindros. Em 2026, o motor volta a ser elemento narrativo. Não apenas um meio para cumprir normas, mas um argumento emocional e identitário.


9. CHINA AFIRMA-SE COMO LABORATÓRIO DE RISCO E EXPERIMENTAÇÃO NO MOTOCICLISMO
A afirmação chinesa em 2026 não se faz apenas pelo preço ou pelo volume. Faz-se, sobretudo, pela disponibilidade para arriscar onde outros hesitam. Sem o peso de uma herança histórica pesada, os fabricantes chineses experimentam arquiteturas, estéticas e conceitos que marcas estabelecidas evitam por receio de errar. 

Isto não significa que a China já domine o imaginário do motociclismo — não domina. Mas começa a moldar o debate técnico e conceptual. Boxers chineses, seis cilindros improváveis, híbridos experimentais ou cruisers radicalmente diferentes não são apenas exercícios de estilo: são testes de mercado em tempo real. 

Em 2026, a China ainda não lidera culturalmente. Mas obriga todos os outros a mexer. 

10. DESGASTE DO CONCEITO DE “PREMIUM” BASEADO APENAS EM ESTATUTO E COMPLEXIDADE 
O “premium” entra numa fase de desgaste silencioso. Durante anos, o mercado aceitou a equação simples: mais caro significa melhor, mais tecnológico, mais desejável. Essa lógica começa a ser questionada. 

O motociclista contemporâneo olha para o produto e pergunta: esta complexidade serve-me? Esta tecnologia melhora a minha experiência? Este preço traduz-se em uso real? 

Em 2026, o premium que sobrevive é o que demonstra valor funcional, coerência de projeto e benefício claro. O premium que se limita a empilhar sistemas, modos e etiquetas corre o risco de parecer distante, artificial ou até irrelevante. Não é o fim do luxo. É o fim do luxo sem propósito. 

11. FRAGMENTAÇÃO DA AUTORIDADE MEDIÁTICA NO MOTOCICLISMO 
A crise dos meios tradicionais não é uma crise de formato, e sim de autoridade. As grandes marcas mediáticas deixam de ser os centros incontestados da conversa. Já não definem sozinhas a agenda, os temas ou as hierarquias de relevância. 

Esta fragmentação não acontece porque os meios desapareceram, mas porque deixaram de ser exclusivos. O público já não depende deles para descobrir, validar ou compreender o motociclismo

Em 2026, a autoridade distribui-se por múltiplos pólos: criadores, comunidades, experiências directas, recomendações cruzadas. A narrativa deixa de ser vertical e torna-se rizomática. 


12. ASCENSÃO DOS CRIADORES INDIVIDUAIS COMO REFERÊNCIAS CENTRAIS DE CONFIANÇA 
Neste novo ecossistema, os criadores individuais ganham centralidade porque oferecem aquilo que os meios institucionais perderam: proximidade, coerência e risco pessoal. 

O público confia mais em quem: mostra a experiência vivida, assume opinião, erra em público, e sobretudo constrói relação ao longo do tempo. As marcas já perceberam que estes criadores são influentes. O problema é que não sabem controlá-los. Estão habituadas a negociar com instituições previsíveis, não com indivíduos autónomos. 

Em 2026, esta tensão torna-se estrutural. A comunicação deixa de ser um exercício de controlo e passa a ser — queira-se ou não — um exercício de diálogo.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Favoritos e apostas para o Dakar 2026

A reflexão que se segue nasce de um excelente trabalho publicado pela Motociclismo Espanhola — a partir do qual fazemos a nossa própria leitura do Dakar 2026. 


E é tempo de olhar de frente para a lista de inscritos e começar a separar o ruído do essencial. Desde logo porque há ausências que pesam. A do argentino Kevin Benavides,— marcado por um acidente grave — decidiu voltar o foco para os carros. Junta-se-lhe o chileno Pablo Quintanilla, bem como o francês Romain Dumontier, um dos melhores pilotos de Rally2 dos últimos anos e também o “nosso” alemão Sebastian Bühler. 

OS FAVORITOS
A lista podia esticar, mas a verdade nua e crua é esta: o duelo está desenhado entre KTM e Honda, sem nunca perder de vista a grande carta fora do baralho chamada Hero. 

1 Daniel Sanders - Red Bull KTM Factory Racing 
Há anos que um piloto não chegava ao Dakar com este peso específico. Daniel Sanders apresenta-se em 2026 como o homem a bater. O problema — se é que lhe podemos chamar assim — é que defender um Dakar é das tarefas mais ingratas do desporto motorizado. Ninguém o faz desde Marc Coma em 2015. Depois de um 2025 quase perfeito, coroado com o título mundial e uma sequência de vitórias quase imaculada, a questão é simples: consegue Sanders repetir? 

“A minha vida mudou pouco. O objectivo é o mesmo: continuar a andar de mota”, diz o australiano. Este ano a pressão vai ser maior. Defender o título é sempre o mais difícil. Agora todos me perseguem — mas estou preparado.” 

68 Tosha Schareina - Monster Energy Honda HRC
Se há alguém capaz de derrotar Sanders sem esperar por um erro, é Tosha Schareina. Velocidade pura, consistência, cabeça fria. O seu 2025 foi um cartão de visita sério: segundo no Dakar, vencedor no Rali de Marrocos, estragando o pleno do australiano. Apesar da juventude, Schareina é hoje para muitos o pilar desportivo da Honda HRC. 


“Ganhar o Dakar seria um sonho. Um ponto de viragem na minha vida. Mas encaro como sempre: dia a dia. No Dakar pode acontecer tudo.” 

9 Ricky Brabec - Monster Energy Honda HRC 
Uma fratura na tíbia condicionou seriamente o início de 2025, mas Ricky Brabec ainda assim terminou o Dakar em quinto. Recuperou forma, subiu ao pódio em três das quatro provas seguintes e lembra a todos porque já venceu o Dakar duas vezes (2020 e 2024). 


“Tenho de melhorar alguns aspetos para estar ao nível do Daniel e do Tosha, mas estou claramente melhor do que no ano passado.”. Brabec não corre para sobreviver. Corre para fazer história. Um terceiro Dakar colocá-lo-ia num patamar reservado a poucos. 

77 Luciano Benavides - Red Bull KTM Factory Racing 
Pode soar estranho ver Luciano Benavides tão alto na hierarquia sem nunca ter subido ao pódio final do Dakar. Mas quem acompanha o deserto sabe: o potencial está lá há muito. Quarto em 2025, duas vitórias em etapas, evolução constante. Pódios em Portugal e na África do Sul. E uma coisa importante: resiliência. 

“No último Dakar foi difícil manter a concentração. O estado do meu irmão afectou-me muito.”. Lesões? Sim. Medo? Nenhum. 

46 Ross Branch - Hero Motorsports Team Rally 
Se 2025 foi um ano para esquecer, 2026 é para recomeçar. Quedas, abandonos, avarias absurdas — até um pássaro entrou na equação. Tudo isso ficou para trás. O Ross Branch de 2024 — campeão do mundo com a Hero e segundo no Dakar — é o que importa agora.


“O desenvolvimento da moto foi enorme. O trabalho da equipa foi incrível. Agora cabe-me a mim responder na pista.”

42 Adrien Van Beveren - Monster Energy Honda HRC
Dois terceiros lugares consecutivos (2024 e 2025) confirmam o que já se sabia: Van Beveren atingiu a maturidade plena. Menos explosivo? Talvez. Mais consistente? Sem dúvida. Se quer ganhar o Dakar, precisa de um pouco mais de velocidade — ou de esperar que os mais rápidos errem. Nota pessoal, adorava ver este piloto feliz; de certa forma representa um certo Dakar que tende a desaparecer; é um lutador; anda aqui há anos. Merece tanto ser vencedor. 


“A cirurgia obrigou-me a parar. Mas sinto-me em plena forma. A experiência começa a transformar-se em resultados.”

OUTROS ASPIRANTES 
73 Edgar Canet - Red Bull KTM Factory Racing 
Tem apenas 20 anos. O que lhe falta em experiência sobra em talento. Oitavo no Dakar de estreia, vencedor em Rally2, campeão do mundo da categoria. Se há alguém capaz de baralhar o guião, é ele. E já baralhou. Vence o prologo. E assina o nome a outo na historia: mais jovem de semore vencer no Dakar.


10 Skyler Howes - Monster Energy Honda HRC 
Terceiro em 2023. Capaz de tudo. Mas o tempo passa e a concorrência aperta. Em 2026, pode ser o ano em que volta a surpreender — ou confirma que já não é o mais rápido do “rancho”. Not apesoal: tem uamimagem incrivel e uma comunicação única. Gosto e também gostava deo ver feliz. 

11 Nacho Cornejo - Hero Motorsports Team Rally 
Sete top-10 em oito Dakar dizem tudo. A mudança para a Hero não lhe retirou velocidade nem inteligência. Com mais quilómetros na moto, o pódio é um objectivo real. 

15 Lorenzo Santolino - Sherco Rally Factory 
O top-5 é a obsessão. A lesão atrapalhou a preparação, mas o percurso agrada-lhe. Se o corpo aguentar, pode finalmente lá chegar. 


7 Bradley Cox - Sherco Rally Factory 
2025 foi de aprendizagem na RallyGP. Resultados sólidos, crescimento evidente. O apelido pesa — e motiva. O pódio que o pai pisou continua no horizonte. 

98 Mason Klein - Hoto Factory Racing 
Depois de um início promissor, o deserto foi cruel. Agora, página em branco com a marca chinesa Hoto. Risco alto. Mas o talento nunca desapareceu. É o “querido” da s redes sociais. E tem muito fã por esse mundo fora 

OS CANDIDATOS EM RALLY2 

96 Tobias Ebster - Hero Motorsports Team Rally
Venceu em Original, foi segundo em Rally2, nono da geral. Agora com a Hero, o sobrinho de Heinz Kinigadner quer ganhar para subir definitivamente. 

14 Michael Docherty - BAS World KTM Team 
Velocidade não lhe falta. O objetivo é claro: top-5 da geral. Se lá chegar, Rally2 será consequência. 

26 Konrad Dabrowski - Duust Rally Team 
Ainda jovem, mas já veterano. Melhor resultado: 16.º. Dois pódios em Rally2 em 2025 mostram que a progressão é real. 

20 Harith Noah - Sherco Rally Factory
Depois de um 2025 para esquecer, quer regressar ao nível de 2024. Sabe que é preciso tudo alinhar. Mas quando alinha, é letal. 

16 Toni Mulec - BAS World KTM Team 
Crescimento silencioso, consistente, eficaz. Enduro e motocross no ADN. O pódio em Rally2 é um objectivo realista.

41 Ruy Barbosa - Honda HT Rally Raid 
Estreante no Dakar, mas longe de ser ingénuo. Dois quase-pódios em Rally2 dizem tudo. Não é exagero colocá-lo entre os favoritos. Nota: este chileno de apelido ebm português aparentemente não terá qualquer ligação ao nosso pais.

A arriscada aposta do ESCAPE em percentagem para a vitoria final à geral 

Daniel Sanders — 28% Parte como o principal favorito ao Dakar 2026. Campeão em título, chega no pico de forma, com uma KTM muito sólida e um pacote completo de velocidade, navegação e gestão de corrida, apesar do peso histórico de defender o Touareg. 

Tosha Schareina — 22% É o piloto mais bem colocado para destronar Sanders sem depender de erros alheios. Velocidade pura, consistência crescente e uma Honda fiável colocam-no como candidato real à vitória final. 

Ricky Brabec — 16% Duas vezes vencedor do Dakar, continua a ser um dos pilotos mais inteligentes do pelotão. Não é o mais rápido, mas sabe gerir corridas longas e aproveitar cenários de desgaste ou erros dos favoritos. 

Ross Branch — 12% Talento e velocidade para ganhar o Dakar não lhe faltam. A grande incógnita continua a ser a fiabilidade da Hero e a sua capacidade de atravessar duas semanas sem incidentes ou problemas mecânicos.

Luciano Benavides — 10% Está em clara trajetória ascendente e cada Dakar tem sido melhor do que o anterior. Se conseguir manter-se próximo dos líderes até à segunda semana, pode tornar-se um candidato inesperado à geral. 

Adrien Van Beveren — 7% Extremamente consistente e experiente, mas com menor capacidade de impor ritmo aos mais rápidos. A sua hipótese de vitória passa sobretudo por uma corrida marcada por erros ou desistências dos favoritos. 


Outros pilotos — 5% Inclui cenários de corrida atípicos ou extremamente caóticos, onde nomes fora do núcleo principal conseguem capitalizar desistências, penalizações ou falhas generalizadas.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Dakar já não é o que era

O Dakar já não é o que era. E ainda bem que sabemos dizê-lo sem medo. Mas também é verdade que, para a minha geração, o Dakar nunca foi apenas uma corrida. Era Janeiro. Era o som distante dos motores nos noticiários. Era o mistério. Era saber que alguém estava algures no deserto, sem sabermos bem onde, nem se tudo estava a correr bem. 

Foto: Edophoto

Crescemos com a ideia de aventura pura: atravessar dunas e tempestades de areia com mapas militares, bússolas e instinto. Rumava-se para um desconhecido que, apesar de tudo, parecia próximo, quase ao alcance da imaginação. E isso marcou-nos. 

Sou um profundo apaixonado por esta prova. Também sou crítico do seu modelo atual, das suas escolhas e da sua evolução. E há coisas que são mais fortes do que nós. Chega esta altura do ano e o pensamento vai sempre parar ao mesmo sítio: Dakar. 

Hoje acompanhamos tudo em tempo quase real, com tecnologia, dados e estratégia. Nada a ver com os primeiros tempos. Mas o fascínio continua lá. Talvez diferente. Talvez mais consciente. Mas intacto. Que venha mais uma edição. Vamos acompanhá-la com olhos críticos, memória viva e respeito por aquilo que esta prova foi — e continua, de alguma forma, a ser. 

AS ORIGENS DE UMA PROVA QUE NUNCA FOI APENAS UMA CORRIDA 
O Rally Dakar não nasceu para ser um espectáculo desportivo. Nasceu como um desafio absoluto, num tempo em que atravessar o deserto significava aceitar o risco, o isolamento e a possibilidade real de não chegar ao fim. 

As origens da prova remontam ao final da década de 1970, quando Thierry Sabine idealiza um rali que ligasse a Europa a África, atravessando territórios onde não existiam referências claras, nem infraestruturas, nem garantias. A primeira edição, disputada em 1979, ligou Paris a Dakar — com partida a 26 de dezembro de 1978 — e deixou imediatamente claro que aquilo não era uma corrida convencional. 

Na categoria de motos, o primeiro vencedor da história do Dakar foi Cyril Neveu, aos comandos de uma Yamaha XT500, num triunfo que simboliza bem o espírito da época: simplicidade mecânica, resistência humana e navegação como elemento decisivo. Não havia live timing. Não havia comunicações permanentes. Não havia estratégia de marketing. 

Havia navegação, resistência, autonomia e decisão individual. Cada piloto era responsável por si, pela sua moto e pela sua capacidade de interpretar o terreno. O erro fazia parte do percurso. O abandono era comum. Chegar ao fim era, muitas vezes, a verdadeira vitória. 

Esse ADN ficou gravado desde o primeiro Dakar: a prova não se ganha apenas com velocidade, ganha-se com inteligência, leitura do deserto e capacidade de sobreviver ao erro. 

É importante perceber isto para entender o Dakar de hoje. As motos mudaram, os regulamentos evoluíram, as equipas profissionalizaram-se. Mas a lógica profunda da prova mantém-se: o deserto continua a castigar a pressa, a navegação continua a separar os bons dos excepcionais, e o Dakar continua a premiar quem sabe pensar a longo prazo. 


Às vésperas de mais uma edição, voltar às origens não é nostalgia. É compreender porque é que, mais de 40 anos depois, o Dakar continua a ser único. Nos próximos dias o deserto volta a falar. 

THIERRY SABINE OU HOMEM QUE ENFRENTOU O DESERTO 
Fala-se muitas vezes de Thierry Sabine como o sonhador que “inventou” o Dakar. A história é conhecida, repetida e romantizada. Mas essa leitura é curta e, sobretudo, incompleta. 

Thierry Sabine não foi apenas um idealista. Foi um organizador, um estratega e um homem com uma visão clara num tempo em que atravessar o deserto africano não era uma experiência turística, nem um produto desportivo. Era um risco real, físico e logístico, assumido sem rede. 

Sabine percebeu algo antes de quase toda a gente: o deserto não era apenas um obstáculo — era o centro da experiência. Não como cenário exótico, mas como território que obriga à autonomia, à decisão individual e à responsabilidade pessoal. 

Num tempo sem comunicações em tempo real, sem GPS, sem satélites acessíveis, criar uma prova como o Dakar exigia mais do que imaginação. Exigia capacidade de organização, leitura política dos territórios, conhecimento do terreno e, sobretudo, a aceitação de que nem tudo podia ser controlado. 

Thierry Sabine nunca tentou domesticar o deserto. Construiu uma prova à sua volta, aceitando os seus riscos. É também por isso que muitos lhe atribuem, com razão, o nascimento do turismo de aventura moderno. Antes do Dakar, poucos se atreviam a atravessar África de moto, por competição ou lazer. Depois do Dakar, o deserto passou a ser visto como espaço de descoberta — dura, exigente, mas possível para quem estivesse preparado. 

Sabine pagou esse compromisso com a própria vida, em 1986, durante o Dakar, num acidente de helicóptero em pleno deserto do Mali. Não foi uma ironia trágica. Foi a consequência de estar sempre no centro da prova que criou, no terreno, onde acreditava que devia estar. 

O Dakar que hoje conhecemos mudou. Profissionalizou-se, evoluiu tecnologicamente, ganhou outra escala. Mas a matriz pensada por Thierry Sabine permanece intacta: uma prova onde a liberdade implica risco, e onde cada decisão tem peso real. Perceber quem foi Thierry Sabine não é um exercício de nostalgia. É compreender porque o Dakar nunca foi — nem será — apenas uma corrida. 

Num plano mais subjetivo, digo que há de facto figuras que não criam apenas coisas; criam eixos de gravidade. Thierry Sabine não inventou uma corrida — inventou um centro. Durante Janeiro, durante décadas, o deserto deixou de ser periferia do mundo para passar a ser o seu coração simbólico. A tragédia no Mali cristalizou-o como mito fundador, e a pergunta incómoda permanece: e se Sabine tivesse sobrevivido? Teríamos hoje o mesmo Dakar — ou apenas algo com o mesmo nome? Arrisco dizer que não. Um Sabine vivo teria sido, inevitavelmente, um obstáculo. Um obstáculo à tecnocratização excessiva, à obsessão pelo controlo, à transformação do Dakar num produto cada vez mais gerível, previsível e televisivo. Talvez nunca tivesse saído de África — ou, se saísse, seria por necessidade extrema, não por conveniência política ou económica. Talvez o Dakar de hoje não fosse este paradoxo perfeito: um deserto infinito tratado como circuito, uma aventura radical domesticada por roadbooks digitais, satélites e margens de erro calculadas. 


E no entanto, aqui está o ponto cego que poucos gostam de encarar: sem a morte de Sabine, talvez o Dakar não tivesse sobrevivido. A prova cresceu porque perdeu o seu criador — e com ele perdeu também parte da sua alma. O Dakar moderno é viável, sustentável, replicável. O Dakar de Sabine era irrepetível e, a prazo, talvez insustentável. A pergunta certa não é se o Dakar seria melhor com Sabine vivo. É se o Dakar, tal como o conhecemos hoje, teria sequer sido possível. 

A ÉPOCA DOURADA DO DAKAR 
Houve um tempo em que o Dakar não era acompanhado ao minuto. Houve um tempo em que o Dakar desaparecia. Nos anos 80, quando a prova mergulhava no deserto a sério, não havia updates, não havia mapas animados, não havia notificações no bolso. Podíamos passar três, quatro dias sem saber absolutamente nada. A prova desaparecia. Como se tivesse entrado num túnel fora do tempo. E nós ficávamos cá fora, à espera. 

À espera que acabassem as notícias “normais”, para que no canto do ecrã do telejornal surgisse uma imagem tremida, uma frase solta, um nome. À espera de uma linha no jornal do dia seguinte. À espera de qualquer coisa que nos dissesse: eles ainda lá estão. 

Os anos 80 foram a época dourada do Rally Dakar. Não apenas porque a prova cresceu, mas porque ganhou uma dimensão quase mítica. As etapas atravessavam a Argélia, a Líbia, o Níger. O deserto do Ténéré — vasto, silencioso, implacável — tornava-se o centro da narrativa. Um lugar onde tudo podia acontecer e onde nada era garantido. 

Foi também a década em que as motos marcaram definitivamente a história da prova, numa luta titânica entre dois gigantes: BMW e Honda. Durante anos, dividiram entre si o domínio do Dakar, levando para o deserto máquinas que hoje parecem quase irreais. Autênticos monstros, pesados, potentes, exigentes, que transformaram pilotos em verdadeiros condutores de resistência. 

A BMW ficou gravada a ouro na história da competição com motos que ainda hoje alimentam o imaginário coletivo. A Honda respondeu com fiabilidade, método e ambição. Era uma batalha técnica e humana, travada em condições extremas, que ajudou a elevar o Dakar a outro patamar competitivo. 

Para quem olha hoje, habituado a 450 cc afinadas ao milímetro, é difícil compreender como aquelas motos enormes eram levadas a bom porto durante milhares de quilómetros de areia, pedra e isolamento absoluto. Não havia eletrónica salvadora, nem margens largas para erro. Havia força, improviso, mecânica e cabeça fria. 


Era comum os pilotos entrarem em maratonas profundas sem comunicações, sabendo que durante dias o mundo exterior não teria notícias claras da caravana. Às vezes não se sabia quem liderava. Às vezes não se sabia sequer se a corrida seguia intacta. Esse silêncio fazia parte do Dakar. 

Foi também nessa década que a prova se tornou verdadeiramente mediática. Figuras públicas, príncipes e princesas europeus, aventureiros com nome feito, quiseram medir-se com o deserto. Não por vaidade apenas, mas porque o Dakar representava algo maior: o confronto direto entre o ser humano e um território que não se deixa dominar. 

Para muitos de nós, miúdos na altura, o Dakar era mais do que uma corrida. Era uma janela para um mundo distante e quase inalcançável. Sonhava-se, no mínimo, em conhecer o deserto. Sentir o vento quente, a areia, a solidão, a dificuldade. Durante duas ou três semanas de janeiro, quando pouco mais havia para distrair, o Dakar fazia manchete, entrava nas casas, alimentava imaginações. 


Hoje o mundo é mais rápido, mais informado, mais imediato. Mas quem viveu aqueles Dakars sabe: houve um tempo em que o deserto falava primeiro — e só depois chegavam as notícias. Lembrar essa época não é nostalgia gratuita. É reconhecer a raiz de tudo o que o Dakar ainda é. 

A REVOLUÇÃO DAS MOTOS MODERNAS
Depois da época dourada, o Dakar chegou a um limite. Limite técnico, físico e humano. As motos gigantes que marcaram os anos 80 e 90 eram fascinantes, mas também implacáveis. Pesadas, exigentes, brutais. O risco fazia parte do ADN da prova, mas a realidade começou a impor-se: o motociclismo já era perigoso o suficiente, e o Dakar precisava de evoluir se quisesse continuar a existir como desafio maior — e não como roleta russa.

Foi aí que surgiu a grande viragem: motos mais leves, mais controláveis, menos físicas, mas sem abdicar da essência competitiva. O chamado “downsizing” não foi um capricho regulamentar. Foi uma decisão estrutural para proteger os pilotos, tornar a prova mais sustentável e aproximar as motos de competição de uma realidade técnica reconhecível. 


Com a entrada definitiva das 450 cc, abriu-se uma nova era. Motos mais ágeis, mais eficazes em navegação, menos dependentes da força bruta e mais exigentes em inteligência de condução. O Dakar passou a premiar ainda mais a leitura do terreno, a gestão do ritmo e a capacidade de pensar a longo prazo. 

Foi também o período do domínio insolente da KTM, que soube interpretar melhor do que ninguém este novo paradigma. Não apenas em velocidade, mas em fiabilidade, estratégia e consistência. A marca austríaca construiu uma hegemonia que definiu uma geração inteira do Dakar moderno. 

Esta revolução coincidiu com outra mudança profunda: o Dakar deixou África e passou para a América do Sul. Um novo continente, novos terrenos, novas leituras. A prova transformou-se, mas manteve o essencial: a exigência total sobre o piloto, agora num contexto diferente. 


As motos modernas são, ao mesmo tempo, mais seguras e mais desafiantes. Bonitas, eficazes, feitas para competir durante duas semanas sem margem para falhas graves. Facilitam a vida? Em parte. Mas exigem mais precisão, mais cabeça e menos espaço para o erro grosseiro. É este Dakar que serve de base ao que hoje vemos. E é a partir daqui que se constrói a era atual da competição. 

INTELIGÊNCIA, NAVEGAÇÃO E UMA NOVA GERAÇÃO EM MARCHA 
O Dakar de hoje já não se ganha apenas com punho fechado e coragem cega. Ganha-se com cabeça fria, leitura do terreno, gestão do erro — e sobretudo com navegação. 

Na Arábia Saudita, a prova encontrou um território que combina vastidão, variedade e brutalidade técnica. Não é o deserto romântico dos anos 80, nem a selva de armadilhas da América do Sul. É um Dakar onde errar um waypoint custa minutos, onde uma decisão errada pode comprometer um dia inteiro, e onde a estratégia vale tanto como a velocidade pura. 

Foto: Edophoto

A navegação tornou-se o eixo central da competição. Roadbooks digitais, entregues momentos antes da partida, leitura em andamento, decisões tomadas a 120 km/h em terreno aberto. O piloto moderno é, simultaneamente, atleta, navegador e gestor de risco. Já não há espaço para improviso ingénuo. Há cálculo, há contenção, há inteligência competitiva. 

É neste contexto que surge a categoria Rally 2 — não como divisão menor, mas como verdadeira escola do Dakar moderno. Rally 2 é onde se aprende a sobreviver à prova antes de se tentar dominá-la. Motos próximas das de série, custos mais controlados, regras pensadas para desenvolver pilotos completos: rápidos, mas sobretudo consistentes e capazes de pensar a longo prazo. 

Hoje, Rally 2 é a porta de entrada natural para os futuros protagonistas da classe Rally GP. É aqui que se formam os pilotos que amanhã liderarão equipas oficiais. Não por acaso, os construtores olham para esta categoria como um viveiro estratégico. 

E é aqui que entra um nome que importa sublinhar: Martim Ventura. Jovem, ambicioso, tecnicamente sólido, Martim integra a estrutura Honda HRC, numa equipa de fábrica, ainda que na categoria Rally 2. Não é um detalhe irrelevante. É um sinal claro de confiança e de aposta no futuro. A Honda não oferece lugares; constrói percursos. 

Martim Ventura representa esta nova geração: pilotos formados já num Dakar inteligente, conscientes de que a prova não se ataca — gere-se. Um piloto que corre para aprender, mas aprende depressa. Que entende que terminar é tão importante como ser rápido. E que sabe que, no Dakar, cada quilómetro é um exame. 

Foto: Edophoto

A prova começa amanhã. A história que aqui revisitámos deixa de ser memória e passa a ser presente. Durante as próximas duas semanas, o Dakar volta a ocupar o centro do mapa mental de quem gosta de motociclismo levado ao limite. Agora com mais dados, mais informação, mais acompanhamento — mas com o mesmo respeito absoluto pelo deserto. O resto já não é antecipação. É corrida.
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