quinta-feira, 7 de maio de 2026

Uma tragédia chamada Cabo da Roca

Hoje de manhã, numa quinta-feira banal de maio, perto da hora do almoço, não se conseguia chegar ao Cabo da Roca. Não era domingo. Não era agosto. Não havia qualquer evento. Apenas mais um dia absolutamente normal no ponto mais ocidental da Europa continental. Ou pelo menos naquilo que resta dele. 


A estrada avançava lentamente, sufocada por autocarros turísticos, carros alugados, bicicletas, carrinhas transformadas em pseudo-tuk-tuks e um conjunto estranho de veículos improvisados para transportar visitantes até ao “fim da Europa”. Pessoas estacionavam em qualquer lado. Entravam por trilhos improvisados. Pisavam vegetação. Saltavam muros. Havia lixo espalhado em vários pontos. O cheiro a resíduos misturava-se com o odor quente dos escapes

E o mais estranho é que ninguém parecia realmente olhar para o lugar. O Cabo da Roca deixou de ser um sítio. Passou a ser uma prova fotográfica de presença. Chega-se, aponta-se o telemóvel ao horizonte, tira-se uma fotografia, regressa-se ao veículo e avança-se para a próxima paragem da excursão. Não havia silêncio. 

Não havia contemplação. Não havia sequer a sensação de fim da terra. Havia apenas movimento. Ruído. Consumo. E talvez tenha sido isso que hoje me chocou verdadeiramente: perceber que já não sobra quase nada da energia daquele lugar. 

A PRIMEIRA VEZ 
A minha primeira memória do Cabo da Roca é completamente diferente. Nem sequer me lembro da estrada como ela é hoje. A velha Nacional 247 atravessava uma Serra de Sintra ainda densa, escura, fechada sobre si própria, muito antes dos incêndios destruírem parte daquela paisagem. Passávamos ali várias vezes em passeios de domingo. O meu pai conduzia lentamente o seu carocha amarelo, cansado, esforçado, sempre com a sensação de que levava mais peso do que motor. 

E eu olhava para uma pequena placa castanha que indicava “Cabo da Roca”. Perguntava-lhe frequentemente: 
— Oh pai, porque é que nunca vamos ao Cabo da Roca?
E ele respondia sempre da mesma maneira:
— Não há lá nada.

Durante anos achei aquela resposta estranha. Hoje percebo que talvez estivesse absolutamente certa. Não havia lá nada. E era precisamente isso que fazia daquele lugar algo especial. 

Não havia animação turística. Não havia filas. Não havia trânsito. Não havia experiências imersivas. Não havia conteúdos para redes sociais. Havia apenas vento, rocha, oceano e silêncio. O fim da terra. 

MAÇARICO
Mais tarde, já no final dos anos 80, comecei finalmente a ir ao Cabo da Roca. Primeiro como passageiro de amigos mais velhos que tinham moto. Corria a ideia de que os motociclistas se juntavam lá aos domingos de manhã. 


E juntavam. E aquilo que hoje seria considerado “movimento” eram, na altura, poucas dezenas de motos. Nos dias de pior tempo, lembro-me perfeitamente de chegar lá e encontrar meia dúzia delas. Às vezes menos. Outras vezes apenas uma mota estacionada junto ao café, envolvida em nevoeiro e vento. 

Pouca gente sabe disto hoje, no entanto os encontros motociclistas no Cabo da Roca nasceram quase de forma inocente. Pessoas do Moto Clube de Sintra começaram a levar ali viajantes e amigos que vinham de fora. Tomava-se café. Conversava-se. Via-se o mar. Era simples. 

ONDE O MAR COMEÇA 
Ainda nos anos 90 havia tardes de sábado extraordinárias no Cabo da Roca. Sobretudo fora da época alta. Ia-se até lá sem plano. Sem pressa. Ficava-se encostado às motos a conversar durante horas. Com amigos. Com namoradas. Às vezes sem dizer quase nada. 

Havia qualquer coisa naquele lugar. Uma sensação difícil de explicar. Uma energia silenciosa. A ideia física de fronteira. Como se o continente acabasse realmente ali e o Atlântico começasse imediatamente a seguir. 

Depois tudo começou a crescer. Os encontros explodiram. Vieram os excessos. Vieram os acidentes. Vieram as primeiras fatalidades. Vieram os cercos policiais. Vieram também os exibicionismos habituais que aparecem sempre que um lugar íntimo se transforma em palco. 

E eu deixei de frequentar o Cabo da Roca aos domingos de manhã. Durante anos praticamente não lá fui nesses dias. Continuei, no entanto, a regressar durante a semana ou aos sábados à tarde. Ainda era possível encontrar tranquilidade. Ainda existiam momentos em que o Cabo da Roca parecia resistir ao mundo moderno. 

OS ANOS PASSARAM
E entretanto apareceu outra coisa muito maior do que os encontros de motos: o turismo massificado. 

As pequenas aldeias, Azóia e Atalaias, começaram lentamente a desaparecer debaixo de muros altos, portões, obras, vivendas de luxo e construção aparentemente sem fim. Um território que nos dizem ser parque natural foi-se enchendo de betão, propriedade exclusiva e urbanização difusa. 

Toda aquela vertente da serra parece hoje contaminada por uma espécie de luxo agressivo e descontrolado. Mas nem isso me incomoda tanto quanto a perda da alma do lugar. Porque tenho tentado voltar ao Cabo da Roca em diferentes dias e diferentes horários. E já não consigo encontrar aquilo que existia ali. Não consigo sentir aquele silêncio antigo. Não consigo sentir aquela presença do oceano. Não consigo sentir sequer a ideia de isolamento. 

BASTA! 
O Cabo da Roca transformou-se num corredor turístico permanente. E talvez tenha chegado o momento de dizer uma coisa impopular: aquilo precisa de ser fechado.

Ou pelo menos profundamente controlado. Acesso condicionado. Limites de circulação. Número máximo de visitantes. Restrições de estacionamento. Controlo real. Não é radicalismo. É preservação. 

Os Parques Nacionais americanos fazem-no há décadas. E nem é preciso ir tão longe. Ainda há poucos dias estive na Gran Canária e o acesso ao Roque Nublo faz-se de forma regulada, controlada, limitada. Porque os lugares especiais não sobrevivem sem regras. E o problema não são apenas os turistas. 


Também existe hoje um motociclismo profundamente irresponsável naquela zona. Gente que mal domina a moto e circula em modo de circuito, corpo fora da máquina, poses para vídeo, passagens sucessivas para recolha de imagens, ultrapassagens absurdas no meio de bicicletas, caravanas, trânsito lento e veículos de construção. Aquilo tornou-se perigoso para toda a gente. 

E talvez o mais triste seja isto: eu próprio faço parte da história que ajudou a transformar o Cabo da Roca num destino. Os motociclistas também ajudaram a espalhar o mito daquele lugar. Também nós o ocupámos. Também nós o transformámos em ritual. A diferença é que, durante algum tempo, ainda existia respeito pelo silêncio do sítio. 


Hoje o silêncio morreu. O Cabo da Roca continua lá. As falésias continuam lá. O vento continua lá. O mar continua lá. Mas há paisagens que desaparecem muito antes de serem destruídas. 

E talvez seja exatamente isso que aconteceu ao Cabo da Roca.

9 comentários:

  1. Viva Pedro,mas que belo texto pena é que não se olhe para a beleza e magia destes lugares singulares ✌️um abraço

    ResponderEliminar
  2. Que bonito texto. Concordo! Tem que haver restrições. É ver-se o que se vai passando em tantos sítios! Exemplos? Picos da Europa!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim; terá de existir um regime de preservação de acesso. Para ontem...

      Eliminar
  3. Excelente descrição do sentimento sentido pela manhã e partilhado ao fim do mesmo dia!
    Só por si, mostra o impacto que teve!
    Muitos e bons kms ✌️

    ResponderEliminar
  4. Ora aí está um sítio onde já deixei de ir há uns anos. Exatamente pelos mesmos motivos que enuncias (antes até dos tuk-tuks e demais carrosséis para turista).
    E outro sítio onde me recuso a passar (de mota) e que desaconselho totalmente é a N8 a norte de Torres Vedras.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Falas daquilo que a minha geração enunciava como as "curvas do bombarral"; na altura a estrada era mais lenta e mais desafiante; agora rapida e perigosa.

      Eliminar
  5. Tenho o privilégio de morar a dois passos da Ulgueira. Às vezes vou ao Cabo da Roca a correr, outras vou de mota, quase nunca ao fim de semana.
    Em 1983 acampei na Praia da Ursa uns dias. Éramos só rapazes e fazíamos nudismo. A praia estava deserta (outra miragem hoje). Um dia viemos beber café ao Cabo da Roca e viemos nus por ali acima. Só vestimos roupa já perto da estrada. Não havia vivalma, mas era Verão. Parece uma fantasia, mas aconteceu mesmo assim.
    O turismo está a matar o que veio procurar. E os vaidosos do alcatrão estão a dar cabo de uma romaria que tinha tudo para ser bonita.
    Gostei do texto. Abraço.

    ResponderEliminar

Site Meter