segunda-feira, 27 de julho de 2020

Triumph Tiger 900 Rally Pro à prova

Sub-repticiamente. Como assim? Ninguém começa um texto sobre motos com tal adjetivo. Expressão que remete para algo obtido por sub-repção ou fraude. Mas sub-repticiamente significa ainda clandestinidade, furtividade, algo que é feito ou surge às escondidas.  

Foto: Gonçalo Fabião

E foi “às escondidas” ou sub-repticiamente que surgiu entre nós motociclistas um segmento (sem nome) de motos, ao qual podíamos chamar “as quase mil” ou “falta aqui um bocadinho assim para um litro de cilindrada”. Jogos de palavras e parvoíces à parte, a verdade é que temos cada vez mais marcas a apresentarem motos ecléticas (para não dizer polivalentes pela enésima vez), leves, económicas, usáveis para ir trabalhar, fáceis para uma praia no fim-de-semana com uma companhia jeitosa e que também fazem sonhar com outras paisagens em férias e lazer. 

Foto: Gonçalo Fabião

A Triumph não quis deixar passar esta maré e “encostou” a sua trail 800cc a este neófito segmento “diz que é uma espécie de mil”, com duas propostas distintas – para além de uma versão base -, a saber: Tiger 900 GT (e GT Pro), jante de aço 19’’ na roda da frente e Tiger 900 Rally e Rally Pro, jante de raios 21’’ na roda da frente. Obviamente, as primeiras focadas na urbe e na estrada e as segundas no fora de estrada. Logo, este ESCAPE passou o rio tejo para sul assim que sentou o traseiro na 900 Rally Pro rumo ao quente pó do verão. Asfalto numa moto assim é para meninos, e para o pouco que resta das revistas de motos, vá… 

Foto: Gonçalo Fabião

TRAJE DE GALA 
Na verdade, a Triumph Tiger 900 Rally Pro não faz a cena por menos e surge com a ambição de se estabelecer como uma nova referência do tal segmento escondido das versáteis “quase mil”. Painel de instrumentos TFT colorido de sete polegadas (parece um tablet), sistema de conectividade My Triumph, suspensão Showa Premium, ABS e controlo de tração otimizado em curva, travões Brembo Stylema, shift assist, seis modos de condução - Road, Rain, Sport, Off-Road, Off-Road Pro e Raider (personalizável) -, rodas tubless, assento aquecido para piloto e ocupante, sistema de monitorização de pressão de pneus e iluminação full LED. Tudo em desenho, arquitectura e cabedal Trail. Uffffff…

Foto: Gonçalo Fabião
  
A primeira sensação é estranha. Guiador bem largo, braços esticadooosssss…, e um encaixe de pernas que não seduz. Na cidade há dinâmica mas mesmo eu habituado aquela jante infinita de vinte e uma polegadas sinto-me em modo “you spin me right round, baby right round like a record, baby right round round round” Percebem? Aquela jante nunca mais acaba de rodar... 

I WANNA BE ADORED 
Todavia tudo muda quando o asfalto acaba e o pó começa. No fora de estrada, este tigre de casta superior deita as garras de fora e liberta-nos o sorriso ainda quando apenas apalpamos o terreno. Logo, logo vamos conquistar confiança e exploramos a electrónica ao serviço do hedonismo. Agora sim! Tudo começa a fazer sentido. As suspensões excelentes, o fino recorte da travagem, o motor sempre presente que deve inclusive ser doseado…, só desejamos ter uns pneus mistos com mais grip, pois não se leva uma “bomba” deste calibre para o mato com saltos altos. 

Foto: Gonçalo Fabião

Vamos lá ser honestos, sim! Provar, ensaiar, testar, comparar esta 900 Rally Pro no asfalto é, com todas as letras…, parvinho. A moto foi feita para sair por ai fora…, levar o motociclista do ponto A ao ponto B por estrada com um conforto assinalável. Mas sobretudo, chegados que somos ao ponto B, podemos percorrer todo o demais abecedário fora de estrada com um imenso prazer e eficácia. É esta a natureza desta Tiger 900. 

Foto: Gonçalo Fabião

No final do dia mais uma bela surpresa. O tricilindrico em linha de 95 cv e 87 Nm desta Triumph Tiger 900 Rally Pro (que ama altos regimes), solicitou menos de cinco litros do tal ouro liquido fundamental à nossa salubridade por cem quilómetros de diversão nos mais diferentes terrenos – abaixo do anunciado pela marca. Pedindo a Triumph Portugal 15.800€ por esta moto com personalidade de excelência.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Honda CRF 1100L Africa Twin (versão base) à prova

“Pedro, podes virar a moto ao contrário, quer dizer, com a frente para cá”, pergunta-me o Gonçalo que nos tem deliciado nalguns dos últimos posts com as suas excelentes imagens. “Queres ajuda?”, sublinhou. “Espera”, disse-lhe convicto. Esta nova Africa Twin move-se parada de um lado para o outro com apenas dois dedos de cada mão, e esta era mais uma oportunidade de o provar a mim e a vocês. 

Foto: Gonçalo Fabião

Realmente, esta é a primeira nota de destaque quando temos ao nosso dispor a versão 2020 daquela que muitos apelidam carinhosamente de “Rainha”. Mas a questão à qual eu procurava resposta por estes dias era: que sentido e alcance deseja a Honda, ao fazer duas versões tão idênticas, pelo menos no papel, da mesma moto? Qual a lógica? 

Se a Africa Twin Adventure Sports 2020 provada aqui (link) em Maio passado revelou alma de viajante, graças, por um lado ao seu novo hardware ao nível de motor, quadro e suspensões eletrónicas Showa EERA, por outro, ao software que anima a Unidade de Medição de Inercia (IMU) - pela primeira vez a Honda monta numa moto de aventura uma unidade de medição de inércia da Bosch, a quem aproveitará então esta versão mais leve na carteira (menos 3350€) e no “cabedal” (menos cerca de 15 quilogramas em ordem de marcha)? 

PAIXÃO PELO FORA DE ESTRADA 
Para encontrar a resposta a tais questões apenas pode haver um método: colocar a versão base da CRF 1100L Africa Twin no seu terreno natural: fora da estrada. Desde logo porque esta moto é vendida equipada com uns lindíssimos pneus mistos Metzeler Karoo Street que importava também colocar à prova. 

Rumo aos terrenos quentes, duros, secos e plenos de poeira a sul de Lisboa, esta Africa Twin revelou desde logo um conforto assinalável muito graças ao “cruise control” e ao vidro mais alto que equipa esta unidade provada. Sendo uns pneus 70-30, os Karoo Street revelam desde cedo um diálogo com o asfalto surpreendemente eficaz, permitindo graus abusados em curva. 

Foto: Gonçalo Fabião

Antes de substituir o asfalto enquanto superfície pela pedra e pó, troco o modo de utilização do motor “Tour” pelo modo “Gravilha” – confesso que não me cheguei a aventurar no modo TT (desenhado para os “profissionais da lavoura”). E chega a ser impressionante como o comportamento da moto – responsabilidade da sua arquitectura mas também dos soberbos Metzeler Karoo Street – se assemelha no fora de estrada ao comportamento da moto em superfícies mais “usáveis” como o asfalto, sendo a posição de condução em pé impressionante, muito graças à colocação do guiador numa posição elevada. 

QUANDO A ELETRÓNICA AJUDA
Aqui, a IMU de 6 eixos que monitoriza constantemente o movimento dinâmico para uma gestão rigorosa do controlo de binário seleccionável da Honda (Honda Selectable Torque Control, HSTC), controlo de levantamento da roda dianteira e travão-motor, bem como o ABS em curva, concorre para oferecer eficácia na experiência de condução mas também uma significativa maior segurança em especial quando o terreno torce e retorce. 

Toda esta equação acaba então por revelar uma moto fácil de utilizar – na cidade, em estrada, no campo - despedida de luxos tais como uma suspensão electrónica - todavia mais acessível à maioria das contas bancárias, uma moto com um potencial enorme de personalização e que oferece um gozo ecléctico. 

Foto: Gonçalo Fabião

FÁCIL E ECONÓMICA 
Esta facilidade de utilização foi maximizada com dois acessórios Honda, o já referido vidro mais alto e uma mala traseira de 58 litros, produzida numa dupla camada de plástico altamente resistente que está apta a guardar com facilidade dois capacetes integrais e transportar uma carga máxima de seis quilos – confesso que transportou seu queixume bem mais do que isso – mala esta onde existem duas notas de destaque para além do sistema de chave única Honda; primeiro um botão de abertura/fecho para facilitar o acesso sem chave, segundo, uma muito prática pega no topo da mala que facilita em muito o seu transporte e montagem/desmontagem. 

Foto: Gonçalo Fabião

Numa prova polivalente, larga e intensa esta Honda CRF 1100L Africa Twin Grand Prix Red (R-380) solicitou 5,2 litros do tal líquido inflamável que nos faz ser quem quem somos, motociclistas. Reclamando a Honda Motor Portugal uma transferência bancária de 14.550€ por esta versão de caixa manual com a qual fiz dos mais saborosos percursos fora do asfalto dos últimos tempos.

domingo, 5 de julho de 2020

Kawasaki Versys 1000 Special Edition à prova

Alguns dizem que existe uma espécie de Lei da Atração. Não sei. Mas há de facto coisas que não têm explicação científica, ou outra. O Universo é redondo e coloca as coisas no seu lugar, mesmo que nem sempre consigamos entender o porquê desse lugar, diz-se ainda. “Será que fui eu mesmo que atraí isso para mim?”, perguntamos por vezes. Talvez. Somos energia e somos química. Atraímos o que queremos… 

Foto: Gonçalo Fabião

Não sei, Não sabemos. Sei sim que enquanto entregava a Kawasaki Ninja 1000SX Tourer que provei aqui (link) e esperava que me devolvessem uma moto minha que tinha deixado no local, os sentidos perderam-se por completo na imponente Kawasaki Versys 1000 Special Edition Grand Tourer. Fiquei a imaginar como funcionaria todo o encanto da Ninja que acabava de devolver numa “arquitectura” Trail de generosas dimensões, possuidora de um motor cuja base é a mesma, ainda que “civilizado” a uma utilização mais mundana. 

E lá fui…, para casa. Pensativo. Dividido. Pode não parecer, mas sou um bocado tímido e não quis abusar solicitando logo ali um pequeno contacto…, confesso que também não sou adepto de "voltinhas ao quarteirão" quando desejo conhecer uma moto nova. Ou é, ou não é! 

O UNIVERSO É TEU AMIGO 
Todavia, dirão então alguns, o Universo terá realizado o seu trabalho. Mal tinha chegado a casa recebo uma chamada de um responsável pela marca. Agradeci a Ninja, demostrei o interesse em manter a colaboração e eis que…, “Oh Pedro, não sendo a moto nova, vamos colocar uma Versys 1000 em circulação, está interessado?”. Se estou interessado? Oh, meu rico Universo. Adoro-te! E foi assim quase por magia que nasce esta prova à Kawa Versys 1000 SE… 

Foto: Gonçalo Fabião

Nota prévia. A moto provada foi a verão Special Edition, despida de malas e demais acessórios que personalizam e dão volume à Versys 1000 Grand Tourer. Assim, sentimos desde logo falta de ocupar o espaço na traseira da moto, apresentando-se esta demasiado despida na secção traseira. Há quem ame, há quem odeie. Esteticamente sou adepto de ver aqueles espaços ocupados. 

Mas…, sejamos honestos. Apesar de inserida pela marca numa gama apelidada de Adventure Tourer e apresentado a Kawasaki Versys 1000 geometria de Trail, não contem à partida com grandes prestações fora de estrada; desde logo devido à dimensão das jantes, ambas de 17 polegadas. Lá iremos… 

VERSÁTIL E ECLÉCTICA 
O primeiro toque na moto é muito agradável. Posição de condução vertical. Bom encaixe do corpo no banco suave. Guiador largo. E aquele tetracilindrico (120cv, 102Nm) tão elástico que parece desejar levar-nos daqui ao outro lado do mundo apenas em sexta velocidade. 

Foto: Gonçalo Fabião

Muito fácil de manobrar em baixa velocidade e aveludada na condução em cidade, onde esta Versys 1000 brilha é em estrada aberta onde podemos explorar os diferentes modos de condução – Sport, Road, Rain e Rider, este ajustável ao nosso desejo. A electrónica desempenha aqui um papel fundamental graças à nossa já conhecida unidade de medição de inércia (IMU) de 6 eixos, da Bosch, que orienta o funcionamento do ABS, do KTRC (Kawasaki Traction Control) de 3 modos - sistema de controlo de tração mais avançado da Kawasaki - das “cornering lights”, e da KECS (Kawasaki Electronic Control Suspension), recebendo também a suspensão electrónica semi ativa dados da IMU o que permite uma condução absolutamente eficaz, acabando por sugerir o conjunto que estamos a curvar num carril mesmo que abusemos na inclinação e na velocidade. 

O ecletismo surge assim como característica fundamental desta Kawasaki Versys 1000 Special Edition. Também porque a protecção aerodinâmica é irrepreensível - na posição mais alta do ecrã roça a perfeição, mesmo com aquela nortada forte. Esta, aliada ao cruise control e ao conforto do banco, faz nos sonhar com a travessia Ibérica em busca de montanhas e curvas. 

Notem, contudo, que polivalência não significa aqui abuso no fora de estrada. Uso sim, com parcimónia. Pela jante 17 mas também pela posição de condução em pé que não satisfaz. Mais depressa levava esta Versys para uma tarde no Estoril ou em Portimão do que para buracos, pedras, regos e terrenos arenosos. 

Foto: Gonçalo Fabião

VAMOS A CONTAS

Esta Kawasaki Versys 1000 Special Edition, que já me está a deixar saudade, solicitou uns interessantes 5,3 litros daquele liquido inflamável precioso ao nosso sorriso por cem quilómetros de alegria, estando disponível em mais três versões. Tomem nota: i) Tourer, com conjunto de malas laterais de 28 litros cada, tampa e friso à cor da moto, suportes, bolsas interiores, kit chave única e protecção de depósito por 18.995€ (+ 800€ versão base); ii) Tourer Plus, incorporando também faróis de nevoeiro LED por 19.395€ (+ 1.200€ versão base); iii) Grand Tourer, disponível com todas a referências acima e ainda top case 47L (inclui suportes, tampa à cor da moto, encosto e bolsa interior), suporte de GPS e protecção do motor por 19.895€ (+ 1.700€ versão base) – sendo esta ultima versão, a Kawasaki Versys 1000 Special Edition Grand Tourer, a preferida de quem opta por esta Adventure Tourer da gigante nipónica.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Honda no Dakar – uma breve história da presença da marca nipónica até ao topo do rally mais difícil do mundo

"Um desafio para os que vão. Um sonho para os que ficam." 

As palavras que Thierry Sabine disse aos participantes do primeiro rally Paris-Dakar há mais de quarenta anos tornaram-se históricas. Num tempo recorde, esta prova no deserto transformou-se num dos eventos mais fascinantes e populares no mundo do desporto motorizado. A Honda também escreveu uma parte considerável nas paginas da história deste lendário rally do deserto no decorrer das décadas seguintes. 

Foi um começo tranquilo quando um total de 90 motos, 80 automóveis e 12 camiões entraram a 26 de Dezembro de 1978 na Praça Trocadéro, em frente à Torre Eiffel, para o primeiro rally Paris-Dakar. As motos pioneiras do rally pouco mais que duas rodas tinham em comum com as máquinas altamente especializadas do rally dos dias de hoje. Os motores monocilíndricos de apenas 35 CV estavam montados em quadros scrambler simples. Depósitos de alta capacidade, a maioria fabricados artesanalmente, adaptavam as motos para percorrerem grandes distâncias, Mas Thierry Sabine tinha razão: as emissões das televisões do rally Paris-Dakar imediatamente fascinaram toda uma geração de motociclistas, fazendo-os sonhar com uma aventura em África. Os pilotos que lograram vencer o Dakar tornaram-se heróis e as suas motos, verdadeiros ícones. 

1981 - A estreia da Honda no Dakar 
Em 1981, a Honda aproveitou a oportunidade e contratou o vencedor das duas primeiras edições do Dakar, o francês Cyril Neveu, então com 24 anos, para o Dakar de 1981. Mas o arranque da jovem estrela do rally não foi muito auspicioso. Durante o prólogo, realizado nos limítrofes da cidade natal de Neveu, em Orléans, a corrente da XLS 500 partiu a apenas 30 metros da linha de partida. Perderam-se 25 minutos a repará-la. Depois disso, Neveu não conseguiu nenhuma vitória numa etapa e terminou o rally na 25ª posição. O potencial da moto foi demonstrado pelos seus companheiros de equipa (Vassard, Desheulles, Rigoni), que venceram quatro etapas no total. 


1982 - A Honda vence 
Para 1982, não foi o importador francês, mas sim o departamento de competição da Honda, o HRC (Honda Racing Corporation) quem assumiu a preparação das motos do Dakar. A cilindrada do motor monocilíndrico foi aumentada para 550 cm³ e a sua potência subiu para 45 CV. Como a caixa se manteve limitada a quatro velocidades, a embraiagem também foi reforçada para se obter maior durabilidade. A capacidade do depósito passou de 32 para 42 litros. Mas o grande passo foi o novo chassis, onde os dois amortecedores da XLS 500 foram substituídos por um sistema monoamortecedor do tipo Pro-Link. Com uma suspensão progressiva e mais do que o dobro do curso de suspensão do modelo de 1981, o piloto no deserto tinha um potencial consideravelmente maior nas partes rápidas da pista e mais autonomia com o depósito cheio. O sucesso provou que o empenho da HRC estava certo. Neveu deu à Honda a sua primeira vitória no Dakar aos comandos da XL550R e o seu companheiro de equipa Philippe Vassard terminou em segundo. 


No entanto, os motores de um só cilindro perdiam cada vez mais terreno contra as motos bicilíndricas nas etapas mais rápidas da prova africana. Com uma velocidade máxima de cerca de 160 km/h, os monocilíndricos perdiam muito tempo em comparação com os 180 km/h das motos de dois cilindros. A desvantagem era demasiado grande para ser compensada pela sua maneabilidade mais ágil e nos anos seguintes a XL550R conseguiu apenas um único lugar no pódio (o terceiro lugar de Vassard em 1984) no Dakar. 

1986 - A NXR750: o começo de uma história de sucesso 
Mais uma vez, era óbvio que o caminho para a vitória só seria encontrado com uma moto completamente nova. Para o Dakar de 1986, a HRC desenvolveu a NXR750. Com um enorme depósito de 57 litros, este modelo tinha um novo protótipo de motor V2 com válvulas à cabeça, 779 cm³ de cilindrada e 70 CV de potência máxima. Com o depósito cheio, a NXR pesava 250 kg. Mas só os pilotos de fábrica sabiam disso na altura. Em termos de facilidade de condução e maneabilidade, a NXR estava muito à frente da concorrência. Neveu provou-o logo à primeira tentativa. O potencial desta moto permitiu planear a corrida de maneira inteligente e minimizar os riscos. Depois de 15.000 quilómetros, no Dakar mais longo da história, o piloto francês conquistou novamente o degrau mais alto do pódio para a Honda. Esta foi a primeira de quatro vitórias consecutivas no Dakar para a NXR. 


Após a vitória de Neveu em 1987, o italiano Edi Orioli (1988) e o francês Gilles Lalay (1989) ocuparam os primeiros lugares com este modelo V-Twin vencedor. Nenhum outro fabricante tinha escrito tal história de sucesso no Dakar e a NXR ficou imortalizada no mundo do desporto motorizado. 

1989 - A Africa Twin no Dakar 

A NXR tinha cumprido o seu papel de pioneira, mas assim que uma lenda se retirou, já havia outra à espera nos bastidores. Em 1988, a Africa Twin (650 cm³ 49 CV) foi introduzida e foi recebida de forma entusiástica pelos clientes. Para provar que esta moto de trail não só partilhava a aparência da NXR, mas também as mesmas performances potentes, o importador francês da Honda organizou uma iniciativa para o Dakar de 1989. Sob o lema "50 Africa Twin à Dakar" (50 Africas Twin até Dakar), os pilotos privados puderam participar do rally com motos Africa Twin apenas ligeiramente modificadas (dois depósito traseiros de 8 litros, e suspensões reforçadas). Conseguiram terminar 18 pilotos amadores, um número em tudo notável. A promoção da Africa Twin continuou nos dois anos seguintes e, em 1991, o italiano Roberto Boano logrou alcançar o 11º lugar na classificação geral com uma das motos de gráficos vermelhos, brancos e azuis. 


1995 – Uma dois tempos no deserto: a EXP-2 
Apesar deste sucesso, a Honda só voltou ao rally em 1995. Dessa vez, o objectivo não era vencer, mas sim mostrar novas tecnologias, a EXP-2. Esta moto experimental estava equipada com motor a dois tempos de 402 cm³, que se transformava em motor de auto-ignição em determinadas condições de carga. Esta unidade parcialmente diesel teve um desempenho excelente, conseguindo atingir um sensacional quinto lugar na classificação geral com o piloto francês Jean Brucy - e desapareceu após o rally de forma tão rápida quanto tinha aparecido. O protejo foi abandonado e a Honda fez uma pausa no rally Dakar. 


2013 - O regresso da Honda ao Dakar
Depois de 24 anos desde que o nome Africa Twin entrou no Dakar em 1989, a Honda voltou à grande prova do deserto. Como forma de dar continuidade à lenda, o objetivo era preparar o campo para a próxima Africa Twin, que seria apresentada em 2016. Mas, entretanto, as provas de rally já tinham mudado bastante. Os motores de dois cilindros foram banidos em 2005, o rally passou a disputar-se na América do Sul na edição de 2009 e, em 2011, a cilindrada foi limitada a 450 cm³. Por isso, compreendia-se que a CRF450X de off-road fosse escolhida para servir de base para o retorno da Honda ao Dakar em 2013. O motor de válvulas Unicam (as válvulas de admissão são accionadas directamente pela árvore de cames e as válvulas de escape são activadas por balanceiros) era compacto e foi projectado para ser potente a baixa rotação, em vez de rodar livremente em pistas de areia profunda e tiradas de retas rápidas. Enquanto o Dakar continuava a provar por que é o rally mais difícil do mundo, o melhor piloto da Honda foi o português Hélder Rodrigues, que ficou apenas em 7º lugar aos comandos da CRF450 Rally; no entanto, o trabalho de base foi feito. 



2014 - Novas tecnologias para a CRF 450 Rally 
Mais uma vez, a história repete-se. A HRC reconheceu que, para vencer uma prova tão exigente, era necessário conceber uma moto totalmente nova. Do ponto de vista técnico, a CRF450 Rally de 2014 pouco tinha em comum com a sua antecessora. O conceito Unicam, que tinha sido usado em todas as motos off-road da Honda até então, foi substituído por um conjunto de válvulas DOHC (Double OverHead Cam – Dupla Árvores de Cames à Cabeça). Esta unidade exclusiva de alta rotação atingia um pico de potência superior a 60 CV. O chassis também sofreu modificações extensivas. O quadro traseiro convencional foi substituído por um quadro monocoque delgado em carbono e os depósitos dianteiros também eram mais estreitos na sua parte inferior. Ambas as modificações deram ao piloto maior liberdade de movimentos e melhoraram a maneabilidade da moto. O aumento da distância entre eixos proporcionava maior estabilidade a direito, complementando o aumento da velocidade máxima para mais de 175 km/h. 


No entanto, o sistema de controlo de tração era algo de completamente novo nas motos de rally. Se a roda traseira patinasse demais, o sistema de gestão do motor reduzia a potência através da injeção e da ignição do combustível. Isto ajudava a evitar picos na rotação do motor e a proteger os pneus. Com incidência especial nas etapas maratona, onde os pneus tinham de sobreviver a duas etapas e as reparações só podiam ser realizadas com as ferramentas da moto, esta revelou-se uma grande vantagem. Comparada com a versão anterior, a CRF450 Rally era 10 kg mais leve, pesando apenas 170 kg com depósito cheio. Mas quando foi lançada nas pistas da América do Sul, os corajosos pilotos não foram bafejados pela sorte. A recém-contratada estrela Joan Barreda obteve um número recorde de vitórias em 5 etapas, mas pagou por isso com quedas frequentes. Mais uma vez o português Hélder Rodrigues foi o melhor piloto da Honda ficando no quinto lugar. 

2015 - Sistemas electrónicos para a moto de rally 
Para a prova de 2015, a CRF450 Rally foi novamente actualizada. Em vez de ter um acelerador convencional por cabo, as válvulas do acelerador agora eram controladas electronicamente por um sistema TBW de acelerador electrónico Como resultado, o sistema de controlo da tração ganhou ainda mais sensibilidade e os consumos de combustível foram diminuídos. A Honda viu-se assim com uma grande vantagem sobre os seus concorrentes em termos de potência do motor nas etapas de alta altitude, como na Bolívia. Desta vez, o plano parecia resultar. Barreda liderou a caravana até que o deserto salgado de Uyuni, na Bolívia, ditou uma viragem na sorte. Houve uma infiltração de água salgada nos componentes eletrónicos da moto de Barreda e o piloto espanhol teve que ser rebocado até a linha de chegada. O sonho de vencer ficou muito próximo, mas novamente o Dakar mostrou porque é a prova mais exigente do mundo. O seu companheiro de equipa Paulo Gonçalves terminou em segundo lugar na classificação final, naquilo que praticamente era uma repetição do que aconteceu na prova de 1982 com o duplo pódio.


O desenvolvimento da CRF450 Rally não parou por aqui. Depois de já terem sido introduzidos elementos de suspensão semi-ativos nas motos de estrada, a HRC adaptou esta nova tecnologia a algumas das quatro motos de rally CRF antes do Dakar de 2016. Inicialmente, o amortecimento só podia ser ajustado de forma manual, mas posteriormente os técnicos usavam componentes de suspensão que se adaptavam automaticamente ao terreno. Para a prova de 2018, as motos da fábrica da Honda já não usavam sistemas de suspensão eletrónica, mas agora essa tecnologia foi filtrada e adaptada à Africa Twin, o que representava mais uma vantagem para os clientes – este é apenas um exemplo de como a competição ajuda directamente a melhorar as motos de produção. 

2019 - A vitória ao alcance 
De uma forma geral, os pilotos da Honda mais recentes não tiveram a sorte a acompanhar o ritmo das suas vitórias. Apesar das muitas vitórias em prova, os inúmeros desafios do rally Dakar revelaram ser muito fortes e frustraram as vitórias finais. Em 2019, a vitória do piloto californiano Ricky Brabec parecia estar ao alcance, tal como sucedeu com Barreda em 2015. O piloto especialista no deserto liderava, mas três dias antes do final, o seu desafio terminou cedo nas areias soltas do deserto de Fesh Fesh, no Peru. Mais uma vez o destino não foi amigo da marca da asa dourada, mas o cheiro da vitória já se sentia. 



2020 - A vitória 

No Dakar de 2020 a sorte mudou. Nos desertos da Arábia Saudita, Brabec, de 28 anos, assumiu a liderança ao terceiro dia e defendeu tranquilamente essa posição durante um total de 7.800 quilómetros. Após sete tentativas em vencer o rally mais exigente do mundo, o puzzle finalmente ficou completo. A equipa da Honda regressou ao local a que subira pela primeira vez no ano de 1982, no Lac Rose, em Dakar: o degrau mais alto do pódio. 


Nota do ESCAPE: uma vez mais alerto e sublinho que neste blogue cultivam-se Valores como a honestidade e transparência. Não se assinam textos alheios. Assim, ditam as boas práticas aplaudir a excelência deste texto que é da responsabilidade da Honda Motor Portugal, bem como das imagens que o acompanham. Aqui só se fizeram ligeiras adaptações.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

A estrada, a moto e o telefone esperto – Estrada Nacional 115

Era mais uma madrugada de inverno. Mil novecentos e noventa e cinco. Ou seis. Não me recordo se saíamos da Kapital, do Alcântara ou do Kremlin. É indiferente. Os anos dourados do clubbing estavam as ser vividos intensamente, como quaisquer anos dourados devem ser vividos. Mas nem no auge da noite se esquecia o motociclismo. “Vou para casa”, dizia me o Mano Mitra. Estás parvo, questionava eu com veemência, que eram apenas cinco da manhã. “Dormir, almoçar que amanhã vamos às curvas do Sobral, beber um chã antes do anoitecer”. 

Foto: Gonçalo Fabião

Fartinhos já à época das enchentes e dos “cromos” na estrada de acesso ao Cabo da Roca – a Nacional 247 – a minha geração (e o meu grupo de amigos), foi das primeiras a desbravar a Estrada Nacional (N115), aquilo que para nós à época era apenas uma estrada agrícola com traçado de autódromo e cheia de maquinas de trabalho e outra chicanes móveis varias que, todavia, ouvíramos ser muito utilizada pelo “pessoal das revistas” para fazer as imagens dos “andamentos”.

PARQUE DE DIVERSÕES 
Ainda hoje, sempre que cruzo a N115, fico perplexo como é possível uma estrada tão exuberante estar quase por completo despida de motociclistas. Mais a mais não sendo esta a única perola da região Oeste, muito pelo contrário. A N115 permite múltiplas combinações com outras estradas na zona, proporcionando tardes ou mesmo dias plenos e apaixonantes de motociclismo em modo curva contra curva, um verdadeiro parque de diversões.

Foto: Gonçalo Fabião

Com o quilómetro zero numa rotunda a sul da cidade das Caldas da Rainha, rotunda essa que faz a ligação com a nossa já bem conhecida Nacional 8 (link), a cento e quinze corre a região do Oeste que se localiza entre o Oceano Atlântico e a Serra do Montejunto e é marcada por dois vectores fundamentais. Um histórico, as Linhas de Torres, e outro social, o tecido agrícola. Já a paisagem é sublinhada pelo diálogo serra/mar e pelos campos cultivados com vinha e árvores de fruto, sendo o Oeste uma das maiores regiões produtoras de fruta de Portugal.


Foto: Gonçalo Fabião

Estas terras foram palco de inúmeras batalhas que decorreram durante as Invasões Napoleónicas e a marca mais visível dessa época são as “Linhas de Torres”, ou as ruínas que dela sobram. As Linhas de Torres Vedras (ou simplesmente Linhas de Torres) que alguns especialistas sugerem ter sido o maior sistema defensivo da Europa, foram erguidas a norte de Lisboa, entre 1809 e 1810, no mais profundo secretismo, pelo futuro duque de Wellington. Arthur Wellesley traçou uma estratégia de defesa que consistiu em fortificar pontos colocados no topo de colinas, para controlar os caminhos de acesso à capital de Portugal, reforçando os obstáculos naturais do terreno. Este sistema, constituído por três linhas defensivas, estendia-se entre o oceano Atlântico e o rio Tejo, por mais de 85 km. Quando concluído contavam com cento e cinquenta e duas obras militares, armadas com seiscentas peças de artilharia e defendidas por cerca de cento e quarenta mil homens, tornando-se, segundo alguns, no sistema de defesa mais eficaz, mas também o mais barato da história militar. Brilhante! 

IN VINO VERITAS 
De regresso ao bucolismo da paisagem, a vinha e o vinho bordejam o asfalto quase a tempo inteiro. A Quinta do Gradil é apenas um exemplo. Situada em Vilar, paredes meias com a própria estrada, o enorme palácio setecentista marca os duzentos hectares de propriedade, dos quais cerca de sessenta por cento estão plantados com vinha. A quinta passou, em 1999, a fazer parte do Grupo Parras Vinhos, de Luís Vieira, altura em que foi feita a reabilitação das vinhas e constituída a equipa de enologia. Além dos vinhos, alguns premiados, há́ grande número de actividades de enoturismo disponíveis a começar pela tradicional e clássica visita e prova de vinhos.

Foto: Gonçalo Fabião

Toda a N115 é merecedora da nossa atenção. Mas as secções entre a Merceana – onde encontramos a N9 (link) - e o Sobral, bem como desta até Bucelas, são um absoluto clássico regional a fazer até que os pneus das nossas motos doam. Notem contudo o seguinte alerta. Troços há em que o asfalto se encontra abatido por pequenos aluimentos o que pode provocar acidentes de consequências dramáticas. Aqui, mais uma vez, mesmo às portas da Lisboa, encontramos abandono sinalizado de forma insuficiente. Cuidado! 

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Quem, o quê, onde, como, quando e porquê – não necessariamente por esta ordem… 

A Estrada Nacional 115, não é mas poderia muito bem ser conhecida como “Estrada dos Montes do Oeste” ou porque não “A Rainha do Oeste”. Tem o seu início nas Caldas da Rainha (numa junção com a N8), histórica cidade portuguesa do distrito de Leiria, situada na província da Estremadura e terminus em Loures (curiosamente também numa junção com a N8), cidade do Distrito de Lisboa, pertencente à Área Metropolitana da Capital, cruzando ainda a N9 (link) na Merceana e a Nacional em Bucelas – a próxima a ser desbravada por este blogue. 

Foi pelo ESCAPE percorrida, em parte ou no seu todo, para cima e para baixo, para baixo e para cima, dezenas se não mesmo centenas de vezes. A última das quais no mês de Junho de 2020 como uma das motos cá da garagem, a Honda CRF 1000L DCT Africa Twin de 2016 que reclamou 5,1 litros de liquido inflamável por cem quilómetros de boa disposição. 

A N115 não é uma estrada qualquer e deve ser credora do nosso respeito. Oferece um traçado de Classe Mundial que só peca pela sofrível qualidade do asfalto nalguns traçados. Conduz-nos da aragem fresca do oeste ao bulício dos arredores lisboetas por montes que se pintam com as cores fortes e carregadas dos campos nas suas diferentes interpretações e estações. Tem vinho, gastronomia, história, cultura, beleza natural e está mesmo aqui ao lado de tantos, tantos motociclistas da região da Grande Lisboa.

domingo, 21 de junho de 2020

Escape (com) Vida (V) – A moto que sem ser perfeita faz tudo bem por Orlando Salazar

Não conheço pessoalmente o Orlando Salazar. E na verdade sei muito pouco sobre ele. O único contacto que vou tendo é via redes sociais. Mas surpreende-me a sua paixão e cultura motociclista acima da média. Leio-o com atenção. E os seus textos são interessantes. Falta massa critica, muita mesmo, ao motociclismo em Portugal. E todos são bem-vindos a contribuir. Deste conjunto de fatores surge então mais um Escape (com) Vida. 

“Eu sou o Orlando Salazar e a minha paixão são as motas com alma, corpo e coração. Dispenso imitações. Mais! Em tom de brincadeira, costumo dizer “se as minhas motas fossem boas e bonitas, haveria muitas”! Mas têm um charme que me despertam paixão diariamente”. Bem-vindo a este ESCAPE, Orlando. 

Ano 2000. Saía à luz uma mota capaz de competir com a poderosa Ducati 916 que tinha conquistado cinco dos últimos seis campeonatos de Superbike. Sempre considerei a RC51 uma “cópia” elaborada para bater a Ducati. Mas resultou e bem - embora só tenha arrecadado dois campeonatos aos comandos de Colin Edwards. Sim, o binómio 916-Fogarty era imparável -se bem que em 1996 foi Troy Corser a vencer com a 916.

Bô, então eu esqueceria a RC45 e o seu audaz, astuto e divertido piloto? Impensável! John Kocinski, foi o único que conseguiu interromper a sucessão de vitórias da mais célebre criação de Massimo Tamburini - a Ducati 916. 


Pois é. A Honda tem uma história imensa e ocuparia páginas e páginas para falar de cada uma das suas criações. É verdade! Era sobre a loucura da Honda que vos queria falar. A loucura do século XXI da marca da asa dourada de Hamamatsu. Honda CRF 1000L, para mim a mota que sem ser perfeita, faz tudo bem! Só herdou o nome do modelo da primeira criação de 1988 - Africa Twin. E deixo esta nota sobre a sua designação: XRV, XR derivado das motas enduro da marca e V da configuração do seu motor. CRF-L, CRF derivado das atuais motas de enduro e o L da configuração do motor ser um paralelo (2 cilindros em linha). 

A primeira Adventure Sports, a XRV 650, tinha um motor apaixonante. Um V-twin a 52º com 3 válvulas por cilindro, capaz de chegar aos 57cv com enorme facilidade. Uma criação HRC nascida em homenagem às NXR 750, para deliciar os apaixonados pela natureza e pelo deserto africano. 

Dois anos passaram e ganha um motor de 750 cc com mais 5 cavalos conseguindo alcançar uma velocidade máxima de 160 Km/h. Esta foi a verdadeira evolução das Trail de grande cilindrada. A mota ganha nome a “pulso”. Herdado da competição pela conquista de 4 Rally Paris-Dakar e desde então nunca perdeu esse trono de “Rainha Africana”. 


Desde a RD03 lançada em 1988 até à RD07a de 2003, as alterações foram imensas. Novas carenagens, assento, amortecedor traseiro, escape; mas a coqueluche, sempre foi e será o Tripmaster. Dava um toque dakariano. Ainda hoje é referência (apesar de ser algo problemático - também pelos anos e condições a que são sujeitos). 

Chegou enfim a hora da despedida, em 2003, mas sem sucessora. Havia nascido, anos antes, um novo “engenho” que poderia ser a continuação do sucesso da Africa Twin. Nada disso. Nem algo que se pareça. Nasce a Varadero, de 1000 cc de cilindrada e com um motor verdadeiro papa-léguas. A nível estético não há nada a dizer (não se sintam ofendidos quem as tem). Apenas, uma “coisa” desajeitada (para ser uma dual-trail). Um mota indestrutível e um sofá na estrada.

A revolução chega então em 2016 depois de década e meia de “seca”, aparece a afamada CRF1000L Africa Twin. Mota que considero boa para tudo e não é perfeita em nada. 

Mas realmente foi uma revolução no mundo trail, um sucesso de vendas e uma mota com uma polivalência impressionante. Serve perfeitamente para ir ao café, ao pão (pelo atalho mais próximo), à vinha ver as cepas, viajar ao Stelvio e também fazer uma incursão pelos desertos africanos (...), (...) 

Isto até correu bem, mas a vida engorda os ricos e seca os pobres… Ela engordou e as Big Tank ou ATAS, só vieram baralhar as mentes que não pensam por si mesmas e os endinheirados que se acham crescidos ou grandes! 

Sim, neste momento custa mais 4.000€ que no seu lançamento em 2016. A partir daqui foi um tentar chegar aos mamutes menos polivalentes, mas mais galardoadas para ir ao café ao domingo ou às reuniões de amigos ao Cabo da Roca. Aqui vamos ao Sete Mares ou Barreirinha! [Nota: O Orlando vive na Ilha da Madeira]


Esta CRF 1000L tem demonstrado ser uma vencedora, mas sei que a herdeira anda por aí. Engordou uns quilos, ganhou uns ecrãs tipo Nintendo Switch, abandonando a era a preto e branco do Gameboy. Dotaram-na de uns MDCs (Merd@s para Distrair na Condução) e ainda…, sim, ainda uns 5 cavalos e mais 100cc. Uma loucura! Mas dessa não vou falar que não conheço! 

Querem que fale “daquela coisa” do DCT? Não! É melhor não, também tenho scooters! Excelente aposta da marca, sem enganar ninguém, com apodos revivalistas, conseguiram encontrar um público muito fiel. Existem tantos acessórios para a mota que dá para montar “uma outra” mota diferente com os acessórios desta! Confuso não e? 

Quem não leu tudo ou não tiver contra-argumentos, não serve o “toca e foge” de virgem ofendida nem Maria Madalena!

terça-feira, 16 de junho de 2020

FireBlade Heritage – uma breve história da superdesportiva da Honda

Com o objectivo de criar uma moto de elevadas performances que conseguisse derrotar a própria RVF750 (RC45) na prova das 8 horas de Suzuka, a Honda desenvolveu em 1992 um modelo que daria origem directamente à CBR900RR FireBlade.


Para conseguir igualar as prestações das principais motos desportivas da concorrência, a Honda aumentou o curso do seu motor de 4 cilindros em linha e aumentou a sua cilindrada de 750 para 893 cm³. Para complementar a potência deste motor, o peso a seco da moto era apenas 185 kg, com uma distância entre eixos de 1.405 mm e uma ciclística praticamente idêntica à do modelo avançado da fase de desenvolvimento. Tudo isto teve como resultado uma moto superdesportiva original e fácil de controlar, tanto que parecia "ler os pensamentos do piloto". 

Com o desenvolvimento da moto mais leve e compacta da sua classe, a Honda inaugurou assim a era das motos superdesportivas onde o que importava, mais que a potência pura, era a superior maneabilidade e controlo. 

CBR900RR DE 1994 – 2ª Geração 
Lançada dois anos após a primeira geração, a CBR900RR FireBlade de 1994 apresentava melhor eficiência ao nível do motor e da forquilha dianteira, sendo esta agora totalmente ajustável. Estas melhorias davam à FireBlade uma aderência superior e tornavam-na ainda mais sedutora. 


Elevando o design de baixo peso do modelo, todas as partes da moto foram melhoradas. O suporte da carenagem superior mudou de aço para alumínio para reduzir o peso; as tampas das válvulas passaram de alumínio para magnésio. 

O estilo da moto também sofreu uma alteração. As carenagens estavam agora à face com as linhas da moto e os dois faróis redondos e independentes do modelo original foram substituídos por unidades multirrefletoras tipo "Tiger" de formato irregular. 

CBR900RR DE 1996 - 3ª Geração 
Apesar de ter uma aparência semelhante, o quadro de dupla trave da CBR900RR de 1996 era agora mais leve e tinha maior rigidez. O novo depósito de combustível de formato revisto melhorava a posição de pilotagem e a maneabilidade, com uma nova carenagem traseira mais eficiente em termos de aerodinâmica. 


O diâmetro dos cilindros aumentou 1 mm, o que fez subir a cilindrada de 893 para 918 cm³; um novo sensor da posição do acelerador no carburador ajudava a aumentar a potência máxima para 95 kW (129,1 CV). 

Com um novo escape em aço inoxidável, um novo depósito e a eliminação da bomba de combustível, a CBR900RR de 1996 pesava 183 kg (1kg menos do que o modelo de primeira geração). 

CBR900RR DE 1998 - 4ª Geração
Para reduzir o peso ao máximo, 80% dos componentes do modelo de 1996 foram redesenhados para a CBR900RR de 1998, baixando o peso seco para 180 kg, o que permitiu melhorar as performances dinâmicas. 


A estabilidade a alta velocidade foi melhorada graças a actualizações no quadro que incluíam um novo braço oscilante cónico, mais leve e totalmente revisto, pontos de pivot actualizados e aumento de potência para 97 kW (131,8 CV) graças a novas afinações no motor. 

CBR900RR/CBR929RR DE 2000 - 5ª Geração 
Em 2000, a FireBlade foi totalmente redesenhada. Nesta geração, o modelo recebeu o sistema de injeção de combustível PGM-FI pela primeira vez e a cilindrada subiu para 929 cm³, o que provocou um novo máximo de potência, 110 kW (149,5 CV).


A parte ciclística e o quadro também eram novos. Os pontos de pivot do braço oscilante estavam fixos por uma chapa independente em forma de U, o que resultou num quadro do tipo "semi-pivot". Isto permitiu optimizar a flexibilidade do quadro, conferindo à nova FireBlade uma estabilidade superior nas curvas e uma maneabilidade ainda mais leve.

O peso total da moto caiu para 170 kg, 15 kg mais leve que a moto original de 1992. Para isso contribuiu em parte a introdução de titânio no colector de escape e numa parte do silenciador. 

CBR900RR/CBR954RR DE 2002 - 6ª Geração 
Em 2002, a FireBlade voltou a evoluir. A última a receber a designação CBR900RR, a moto de 2002 também foi a última FireBlade a ser desenhada por Tadao Baba, o criador por trás de todas as versões anteriores da moto superdesportiva de referência da Honda.


As revisões no motor incluíam a utilização de cavilhas e pistões mais leves, para além do aumento de 1mm no do diâmetro, agora para 75 mm. A cambota e o bloco do motor foram ambos redesenhados para reduzir a massa total do motor e baixar o seu atrito interno. Estas alterações aumentaram as capacidades de resposta e as performances do motor, cuja cilindrada agora aumentara 25 cm³ para 954 cm³ e debitava 113 kW (153,6 CV) de potência máxima. Outras evoluções no design reduziram ainda mais o peso a seco, desta vez 2 kg, para apenas 168 kg.

Apesar de debitar mais potência, o modelo de 2002 manteve-se fiel ao conceito de design original. Com a sua maneabilidade superior e dimensões fáceis de controlar, a CBR900RR de 2002 foi elogiada por reter os melhores aspectos do modelo de primeira geração, mas com uma vantagem extra.

Como demonstração de respeito e em homenagem a Tadao Baba, a letra "B" maiúscula na palavra FireBlade foi oficialmente retirada em 2004. Todas as gerações futuras da moto super-desportivas de referência da Honda agora teriam o nome "Fireblade" 

CBR1000RR de 2004 - 7ª Geração 
O mundo das corridas influenciou muito o modelo da sétima geração. A CBR1000RR de 2004 não tinha apenas um novo nome, mas agora também apresentava uma suspensão traseira Pro-Link e um sistema de escape centralizado, entre outras tecnologias avançadas.


Concebida para participar no Campeonato Mundial de Superbikes, o motor leve e compacto de 998 cm³ incorporava diversas tecnologias novas. O sistema de Injecção Programada Sequencial Dupla de Combustível (PGM-DSFI) apresentava dois injectores independentes por cilindro, o segundo dos quais era ativado quando o piloto abria o acelerador ¼ do seu curso a 3.000 rpm ou mais, o que resultava numa melhoria do débito de potência. O sistema de indução directa de ar ajudava o motor a oferecer respostas fantásticas e rápidas às acções do piloto sobre o acelerador a média e alta rotação.

Esta nova CBR1000RR rapidamente comprovou em pista todas as suas credenciais, vencendo três provas consecutivas logo na sua primeira temporada no Campeonato Mundial de Superbikes.


CBR1000RR de 2006 - 8ª Geração 
Apesar de manter a estrutura básica da moto de 2004, o motor do modelo de 2006 apresentava aberturas de admissão a direito na cabeça do motor, com aberturas de escape ainda maiores. Os ajustes no formato e no comando das válvulas aumentaram a eficiência da combustão, da admissão e do escape, o que resultou num motor mais avançado e de binário mais forte a baixa e média rotação. 


As melhorias na ciclística incluíram um aumento no diâmetro dos discos de travão dianteiros, 310 para 320 mm e a sua espessura reduzida de 5 para 4,5 mm. O travão traseiro apresentava uma nova pinça mais leve e compacta; estas alterações combinavam-se para aumentar o poder de travagem e reduzir o peso do veículo.

CBR1000RR de 2008 – 9ª Geração 
A nona geração da CBR1000RR Fireblade foi concebida segundo o conceito de "A melhor superdesportiva". Com a incorporação das tecnologias oriundas das motos de MotoGP vencedoras da Honda, este modelo apresentava um limitador de contra-binário adotado da RC212V, para além de uma embraiagem auxiliar deslizante que reduzia a carga na manete da embraiagem.


A nova componente ciclística viu acontecer uma redução na área de superfície da nova carenagem superior e a introdução de uma carenagem mais compacta. A capacidade de condução muito fácil que era caraterística da Fireblade também foi melhorada, agora com rodas mais leves, pinças de travão monobloco e um novo silenciador mais curto e em posição mais rebaixada, o que contribuía para um design mais leve e compacto, com a máxima centralização das massas.

Em 2009, a CBR1000RR ABS apresentou o primeiro sistema ABS combinado de controlo eletrónico do mundo para uma moto superdesportiva. Para garantir que esta adição não comprometia a maneabilidade dinâmica excepcional da moto, o sistema foi posicionado no centro do chassis de forma a reduzir o peso não suspenso e para promover ainda mais a filosofia de centralização de massas que a Honda continuava a defender. 

CBR1000RR de 2010 - 10ª Geração 
Apesar de ter por base o modelo de 2009, a décima geração da CBR1000RR foi refinada em todas as áreas. Para atenuar as variações de binário em velocidade de cruzeiro, o diâmetro do volante magnético foi aumentado e o seu ponto de fixação na cambota foi tornado mais rígido. Isto resultou num aumento de 6,87% na massa inercial da cambota e das peças relacionadas.


Outras melhorias na CBR1000RR incluíram o uso de uma ventoinha com um motor eléctrico mais pequeno, a redução na espessura da flange do colector de escape e a alteração para alumínio do parafuso de vedação da cabeça do motor – tudo para reduzir o peso geral. A capacidade de controlo no funcionamento do acelerador também foi optimizada para melhorar a experiência de condução.


CBR1000RR de 2012 - 11ª Geração 
Como forma de assinalar o 20º aniversário da CBR900RR original de 1992, a CBR1000RR de 2012 foi concebida com foco adicional na maneabilidade fácil. A FireBlade alcançou assim um novo nível de maturidade a todos os níveis.


As suspensões dianteira e traseira foram melhoradas. A suspensão traseira tinha um novo amortecedor Balance-Free (equilíbrio livre) que melhorava a consistência e aumentava o desempenho; este sistema era acompanhado pela nova forquilha dianteira do tipo Big Piston (êmbolo grande) que gerava forças de amortecimento mais suaves.

As afinações do motor de 1.000 cm³ foram revistas ao nível da injecção de combustível e apresentavam agora uma entrega de potência ainda mais suave e previsível, logo a partir do início da aceleração.

CBR1000RR de 2014 - 12ª Geração 
Continuando a evolução do modelo de 2012, a CBR1000RR de 2014 foi actualizada para melhorar a potência e o desempenho da parte ciclística. O design das portas de admissão/escape foi modificado para aumentar a sua eficiência, as afinações da suspensão foram melhoradas e a moto agora apresentava uma transmissão de relação mais curta.


Ao modelo base da CBR1000RR juntou-se a versão SP, desenvolvida segundo o conceito "The Edge of CBR" (a derradeira CBR). Esta versão SP de banco único melhorava ainda mais a experiência de condução e estava equipada com suspensões Öhlins à frente e atrás, pinças de travão Brembo dianteiras, pneus Pirelli de alta aderência, base mais leve para o banco e uma bacquet traseira especificamente concebida para reduzir o peso.

CBR1000RR de 2017 - 13ª Geração 
A CBR1000RR FireBlade de 2017 elevou o conceito "Total Control" (Controlo Total) ao próximo nível. Sendo a FireBlade mais leve de todos os tempos, o seu design permitia uma maneabilidade ainda mais fácil e ágil, graças à exaustiva redução de peso e centralização das massas e também do aumento da potência do seu motor.


Disponível em três versões – a CBR1000R apresentava suspensões Showa completas – a CBR1000R SP tinha um depósito em titânio, pinças dianteiras Brembo, suspensões Öhlins semi-ativas, uma bateria leve de iões de lítio e um sistema quickshifter de velocidades rápidas – e a versão topo-de-gama CBR1000RR SP2 era uma moto pronta para a competição, mas com homologação para a estrada e tinha a Fireblade SP como base.

CBR1000RR-R DE 2020 - 14ª Geração 
Após 28 anos, o conceito da FireBlade foi reformulado. A experiência de condução e a maneabilidade suprema continuaram a ser os pontos principais, tal como a postura, equilíbrio e estabilidade, mas estes atributos encontram toda a sua expressão nas pistas de corrida. Como resultado, esta moto recebeu um "R" na sua nova designação – a CBR1000RR-R FireBlade.


Com níveis sem precedentes de performance e de controlo, o seu motor de quatro cilindros em linha – o mais potente motor tetracilíndrico em linha normalmente aspirado de produção em massa do mundo – tem por base a lendária eficiência de combustão da RC213V-S e nas tecnologias ¬de baixo atrito, para além de ter as mesmas cotas internas.

Com um conjunto de sistemas electrónicos de ponta, um escape Akrapovič em titânio concebido propositadamente para este modelo e alhetas aerodinâmicas inspiradas nos modelos de MotoGP, a CBR1000RR-R está disponível em versão base e versão SP; a versão SP tem pinças Brembo Stylema, uma bateria de iões de lítio e suspensões Öhlins de controlo electrónico (S-EC – Smart Electronic Control) de segunda geração.

Com um design vencedor do prémio Red Dot e que reflecte as motos de corrida do Campeonato do Mundo de Superbikes pilotadas por Leon Haslam e Álvaro Bautista, a CBR1000RR-R Fireblade de 2020 é uma moto  inspiradora e sofisticada.

Nota do ESCAPE: neste blogue cultivam-se Valores como a honestidade e transparência. Não se assinam textos alheios. Assim, ditam as boas práticas sublinhar a excelência deste texto que é da responsabilidade da Honda Motor Portugal, bem como das imagens que o acompanham. Aqui só se fizeram ligeiras adaptações.
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