segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Ducati DesertX à prova

Paixão, desempenho e uma certa dose de exclusividade. São estes alguns sinónimos de Ducati. Um vermelho vivo e arrebatador que tão bem casa com o negrume do asfalto. Todavia a riquíssima vida da Ducati nem sempre foi de puro gozo e até alguma dose de luxúria. 

Foto: Gonçalo Fabião

Em 1926 os irmãos Adriano, Bruno e Marcello fundaram a Società Radio Brevetti Ducati, que no início da sua actividade produzia um pequeno componente rádio (o rádio foi há cerca de um século uma das tecnologias modernas que se espalhou mais rapidamente por todo o mundo) denominado “manens capacitor”, ao qual hoje poderíamos eventualmente chamar de condensador. 

Daquele pequeno “circuito”, a produção migrou para outras peças de rádio e de engenharia. O sucesso foi quase imediato e no espaço de uma década a Ducati forneceu trabalho com fartura, inaugurando ainda a grande fábrica de Borgo Panigale. No entanto, com o início da devastadora Segunda Guerra Mundial, a fábrica tornou-se alvo fácil dos bombardeiros aliados, tendo vindo a ser destruída a 12 Outubro de 1944. 

Com a Itália dizimada no fim do conflito e o consequente drama económico, a Ducati teve o seu renascimento. Adriano, Bruno e Marcello tiveram a ideia de instalar um pequeno motor a combustão numa bicicleta. Surge assim o popular Cucciolo, de 48 cm³ e apenas cavalo e meio de potência. E é com este velocípede de motor auxiliar que a Ducati escreve a sua primeira página na gloriosa história do motociclismo mundial. 

SONHO SELVAGEM 
O deserto nunca foi a praia da Ducati. No entanto foi precisamente no deserto americano e na suas loucas e épicas corridas californianas do final dos anos 60, início dos 70 do século XX, que nasce a moto com jantes de 21” e 18” de maior sucesso até hoje da marca italiana. 


Pouco conhecida entre nós, a Ducati 450 R/T (road/trail), uma mono cilíndrica de 436cc, foi produzida de 1971 a 1974. Construída inicialmente a pedido do importador americano da marca, a Ducati 450 R/T, que é hoje objecto de colecção, foi uma pura máquina de motocross, exclusiva do muito próprio mercado norte-americano. Contudo, foram fabricadas apenas umas poucas centenas de unidades (menos de quinhentas motos segundo algumas fontes) tendo a icónica 450 R/T assumido-se como a única moto de coração desmodrómico deste segmento. De sublinhar que um kit “road legal” foi disponibilizado para que a moto também tivesse presença no mercado europeu. 

É este o incrível e rico berço intelectual onde nasceu a DesertX, das novidades 2022 mais aguardadas que, todavia, apenas há algumas semanas está disponível em Portugal.

Foto: Gonçalo Fabião

O projecto da DesertX nasceu em 2019, quando a Ducati apresentou a concept bike do mesmo nome ao grande público, e este facto propulsionou um forte impulso positivo na marca italiana. Esta importante reacção deu ao fabricante de Bolonha o empurrão decisivo para transformar o conceito base numa moto que, segundo a marca, se assume como “funcional, competente e eficaz”. 

PASSADO, PRESENTE, FUTURO 
Ainda segundo a Ducati “o design da DesertX representa uma interpretação contemporânea das linhas das motos de enduro dos anos 80. A moto é visualmente composta por três macro elementos: um único volume que inclui o depósito e os painéis laterais, o assento e o pára-brisas que incorpora uma distintiva dupla ótica. Na DesertX podemos encontrar [ainda] todos os elementos estéticos que ajudaram a tornar lendárias as motos dos grandes ralis africanos, revisitados num estilo contemporâneo”. 

Foto: Gonçalo Fabião

Na ciclística da nova Ducati DesertX - 875 mm de altura do assento e 250 mm de altura ao solo - podemos encontrar um novo quadro de treliça em aço, que trabalha em combinação com uma suspensão Kayaba - na dianteira forquilha invertida com 46 mm de diâmetro e 230 mm de curso; no eixo traseiro um monoamortecedor com 220 mm de curso e braço oscilante em alumínio, ambas totalmente ajustáveis - tudo inserido em 202 Kg de peso a seco - 223 Kg em ordem de marcha. 

A esta nova treliça surge acoplado o Testastretta bicilíndrico em V a 11º de 937 cc, refrigeração líquida e distribuição Desmodrómica - 110 cv às 9.250 rpm e um binário máximo de 92 Nm às 6.500 rpm que já conhecemos da Monster (link) e da Multistrada V2 (link), sendo que aqui a caixa de velocidades tem relações diferentes e dedicadas, em comparação com as da Multistrada V2: são três primeiras relações de caixa mais curtas e a sexta velocidade adequadamente longa para facilitar o uso em autoestrada mantendo velocidades baixas do motor. 

Foto: Gonçalo Fabião

Graças a uma IMU de seis eixos a nova DesertX conta ainda com seis Riding Modes que trabalham em combinação com quatro Power Modes – Full, High, Medium, Low – que alteram a potência e a resposta do motor Testastretta. 

Destaque para o Riding Mode Enduro e a introdução do novo Riding Mode Rally, para além dos modos Sport, Touring, Urban e Wet. De sublinhar que o Riding Mode Enduro, graças à potência reduzida (motor limitado a 75 cv) e às definições de controlo especialmente desenhadas, permite ao condutor enfrentar o fora de estrada com maior dose de segurança, ao mesmo tempo que torna mais fácil aos utilizadores menos experientes conduzir em off-road. Já o Riding Mode Rally, com toda a potência do motor e controlos eletrónicos reduzidos, é desenhado para condutores com devidos “kites de unhas” que desejam sacar o máximo das prestações no fora de estrada. Malucos… 

Foto: Gonçalo Fabião

Na terra da confusão que são as siglas, contem ainda aqui com o Ducati Safety Pack (ou seja: Cornering ABS, Ducati Traction Control), Ducati Wheelie Control (DWC), Engine Brake Control (EBC), Ducati Quick Shift up/down (DQS), Cruise Control, iluminação full LED, DRL, Ducati Brake Light (DBL), tomadas USB e 12V, amortecedor de direcção, piscas auto-off. Uuuufffaaaaaaa!! Afinal também sabemos glosar fichas técnicas em modo prosa. 

O EXOTISMO DOS GRANDES ESPAÇOS 
O que vos trouxe até aqui foi a busca pela resposta a uma pergunta muito simples: ao que sabes tu, oh Ducati DesertX? O primeiro contacto com a moto é impactante e rapidamente deixamo-nos envolver pela atmosfera rally raid. Olhamos e tocamos na moto, e o belo sabor dos grandes espaços e das longas viagens por ambientes exóticos rapidamente nos assalta os sentidos. Um segundo olhar, ainda antes de subir na Desert, mostra-nos algumas cablagens que devem ser melhor protegidas em futuras versões desta moto. 

Foto: Gonçalo Fabião

Já em cima desta alva Ducati confirmamos que o destino desconhecido esteve na sua génese. Rapidamente nos imaginamos aventureiros e apreciamos a correta posição de condução. Abandonada a cidade e o fofinho (todavia nada entediante) modo Urban - só ficamos a desejar um centro de gravidade mais baixo no sentido de melhorar o nosso desempenho em manobras a baixa velocidade - escolhemos o apimentado modo Sport. 

Foto: Gonçalo Fabião

Modo Sport ou.., modo hooligan? Quando nos habituamos a rodar o punho em segunda velocidade até à próxima curva ou até que o painel de instrumentos pisque violentamente no sentido de nos alertar de que o limite está a chegar, rapidamente compreendemos o porquê desta moto ter feito a delícia dos privilegiados que a foram provar em primeira mão nas retorcidas estradas da Sardenha. 

ENTUSIASMO COM EQUILÍBRIO 
Em estrada o conjunto é absolutamente equilibrado e entusiasmante e aqui mais uma vez confirmamos que o peso é apenas um número, pois em estrada nunca sentimos que estejamos perante um conjunto desajustadamente pesado. 

Foto: Gonçalo Fabião

Quando a estrada termina optamos pelo Riding Mode Enduro em detrimento do Riding Mode Rally, porque somos meros mortais e aceitamos os nossos limites na condução fora de estrada. Aqui as sensações são as melhores. A Ducati DesertX mantém uma bela posição na condução em pé, lê muito bem o terreno, adapta-se e deixa-nos desfrutar da pista. 

Os Pirelli Scorpion Rally STR (60% asfalto, 40% off road) voltaram a revelar-se um compromisso incrível e juntamente com a ciclística da moto italiana transmitem a confiança necessária a quem não está habitado a estas andanças. Julgo que aqueles que têm competências no fora de estrada podem ter aqui uma moto que os delicie. Não sendo verdade que estamos perante uma pura endurista, estamos seguramente perante uma Ducati que nos pode levar com facilidade e desempenho por esse mundo fora. 

Foto: Gonçalo Fabião

Linha singular, cavalos Ducati, electrónica de referência e ciclística de consequência concorrem para que esta seja, sem margem para dúvidas, uma das motos do ano. A DesertX reclamou cinco litros certos do liquido inflamável doirado por cem quilómetros de regozijo, pedindo a marca 16.145€ para que levem uma destas italiana a passear lá até onde a vossa imaginação vos possa levar.

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