domingo, 2 de novembro de 2025

EICMA — O Espelho do Mundo Moto numa antevisão diferente

A cidade respira moda, design e arte, mas uma vez por ano, o epicentro do seu fascínio muda para as duas rodas. A EICMA (Esposizione Internazionale Ciclo Motociclo e Accessori) não é apenas uma feira; é o coração pulsante da indústria motociclística, o palco onde o futuro se revela, no meio de um ruído ensurdecedor de motores e, paradoxalmente, um silêncio elétrico que promete mudar tudo.


É aqui que as grandes marcas jogam os seus trunfos, que as tendências estéticas se definem e que a tecnologia — do ABS em curva à inteligência artificial — atinge o seu expoente. Ao contrário do mais contido Salão de Tóquio ou do Intermot de Colónia (que luta para manter a sua relevância), a EICMA é uma festa total: uma mistura de glamour italiano, engenharia alemã, arrojo japonês e a energia incansável do que está a chegar de Leste. 

É a nossa Meca anual, o ponto onde o público, a imprensa e os grandes executivos medem o pulso ao que vem aí. E o pulso, meus amigos, está rápido, febril e cheio de contradições. Milão é, hoje, a vitrina onde o mundo observa, de uma só vez, o avanço chinês, a consolidação indiana e a inevitável disrupção elétrica. 

O VETOR CHINÊS - A INVASÃO INVERTIDA 
Durante décadas, a China foi o outsider, o fornecedor de peças baratas e, sejamos honestos, o especialista em cópias descaradas. Nas últimas EICMAs, no entanto, o discurso inverteu-se, dando lugar a uma invasão invertida. 


O volume de produção chinês é colossal, todavia o que realmente se vê em Milão é a passagem da cópia para a criação original. Marcas como a CFMoto, QJMotor, Benda, VOGE ou Zontes já não se limitam a replicar; elas exportam identidade e design próprios, muitas vezes com níveis de equipamento de série que envergonham alguns nomes europeus mais estabelecidos. Painéis TFT, conectividade, componentes KYB, Bosch ou Brembo – os chineses montam tudo, a preços que, até há pouco, eram impensáveis. 

Aqui no Ocidente, ainda resiste um preconceito persistente. O nosso instinto petrolhead teima em desconfiar do preço baixo, da longevidade e da alma. Mas a dúvida tem envelhecido mal. A qualidade de construção melhorou exponencialmente, o design cativa e as parcerias estratégicas (pense-se na CFMoto com a KTM, ou na QJMotor, dona da Benelli) cimentam a sua legitimidade. A EICMA não esconde: o dragão acordou, e a única pergunta justa a fazer é: o nosso preconceito ainda é sobre qualidade, ou apenas sobre a nossa dificuldade em aceitar que o mapa-múndi da moto mudou?

O VETOR INDIANO — A TRADIÇÃO QUE GANHA FÔLEGO 
O olhar europeu é muitas vezes míope. Tendemos a focar-nos nas hypernakeds e nas adventure bikes de 150 cv, ignorando que o verdadeiro mundo das duas rodas se move na faixa dos 125 cc a 450 cc. E é aqui que a Índia domina. Como o segundo maior mercado de motociclos do mundo, o que a Índia produz é, acima de tudo, durabilidade e engenho mecânico. 


Marcas históricas como a Royal Enfield – a mais antiga marca de motos em produção contínua – ou gigantes como a Bajaj, TVS e Hero, constroem motos concebidas para sobreviver décadas nas estradas caóticas e poeirentas do subcontinente. São máquinas onde a robustez vale mais do que a velocidade máxima. 

Em Milão, a Royal Enfield exibe com orgulho as suas novas plataformas bicilíndricas e a ofensiva de concepts e modelos de maior cilindrada (como a possível Himalayan 750), provando que querem mais do que o nicho vintage. A aliança Triumph-Bajaj é outro exemplo fulminante: tecnologia britânica com capacidade de produção indiana a um preço agressivo. Estão a entrar na Europa de forma discreta, mas consistente. É um aviso: o valor não é apenas o preço, mas a combinação de durabilidade, história e acessibilidade. Ignorar as propostas indianas por mero preconceito de origem é, no mínimo, ignorância. 

O VETOR ELÉTRICO — ENTRE O CHOQUE E O SILÊNCIO 
Não há EICMA sem a tensão palpável entre os defensores do motor de combustão e a crescente ala dos veículos elétricos. Para o petrolhead convicto, falar de motos elétricas é ainda sinónimo de ódio, negacionismo e a destruição da “alma” da moto – o Escape Mais Rouco. O ruído, a vibração, o cheiro a gasolina. A EICMA, porém, força-nos a encarar a realidade: o futuro tem de ser explorado. 


Sim, as soluções elétricas ainda são imperfeitas: autonomia limitada, peso da bateria e um som que nunca será o de um V4. Mas são um caminho legítimo de exploração tecnológica e ambiental. As start-ups audazes e até as grandes marcas (Honda, sem duvida) estão a investir milhões em baterias mais eficientes, carregamentos mais rápidos e designs mais leves. 

O motociclismo, na sua essência, sempre foi sobre emoção, descoberta e, acima de tudo, liberdade de escolha. Condenar algo antes de o experimentar, de o sentir em curva, não é ser tradicionalista – é ser retrógrado. O verdadeiro espírito do motociclista é a curiosidade. É tempo de trocar o negacionismo pela curiosidade e ver o que esta nova energia tem para nos oferecer. 

MILÃO COMO METÁFORA 
A EICMA é o espelho exato do nosso mundo contemporâneo: global, conflituoso, em mutação e irremediavelmente híbrido. É o palco onde a velha guarda europeia e japonesa se sente pressionada pelo volume chinês, pela robustez indiana e pela inevitabilidade do silêncio elétrico. O cheiro a café, couro e gasolina da EICMA está hoje misturado com a ansiedade da inovação e o aroma do lítio. O que levamos de Milão não são apenas as fotos das novas superbikes. Levamos a inquietação. 


O mundo das duas rodas está a mudar, e a mudança nunca é silenciosa, mesmo quando é elétrica. Os motociclistas mais inteligentes não são os que se agarram ao passado, mas os que procuram a emoção, seja ela movida a gasolina, hidrogénio ou eletrões. Abrace a mudança, porque ela vai acontecer. E se o futuro nos roubar o escape mais rouco, temos de garantir que ele nos devolva, pelo menos, a liberdade de aceleração. 

A EICMA mostra que a moto está mais viva do que nunca. A questão é: estamos nós abertos a todas as suas vidas?

1 comentário:

  1. Bom dia, também estou entusiasmado, pode ser a minha próxima aquisição. O site da BMW refere 7200€ (espero que seja verdade) https://www.bmw-motorrad.pt/pt/models/adventure/f450gs.html

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