segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Royal Enfield Himalayan 2021 à prova

Um dia fui à Argentina. Já lá vai mais de uma década. Talvez quinze anos. Aqui não há fundamentalismos. E numa pausa do motociclismo, despi o fato de viajante e vesti o de turista. Na Argentina perdi os óculos. Pisei o solo sagrado de La Bombonera – para quem não sabe é o estádio do Club Atlético Boca Juniors – e o gelo milenar do Perito Moreno - glaciar argentino que está situado entre os 47º e 51º de latitude sul. Da Argentina trouxe ainda um pouco de Tango, Patagónia e uns quilos a mais de tanto churrasco, “bife de chorizo e papas fritas”. Tudo isto sempre bem acompanhado por delicioso Malbec – a uva francesa que tão bem se dá a Sul e revela um tinto magnífico. E da Argentina trouxe sobretudo um sonho: Ruta Nacional 40. 

Foto: Gonçalo Fabião

A Ruta Nacional 40 é uma estrada que corre a eterna Argentina de sul a norte desde Cabo Virgenes na província de Santa Cruz até a fronteira com a Bolívia, tornando-se desta forma a mais extensa estrada Argentina. Mais ou menos paralela à Cordilheira dos Andes, inclui diversos troços em vinte Parques Nacionais. Durante os seus 5224 km chega a subir aos 4895 metros de altitude no passo de montanha denominado Abra del Acay, na província de Salta. 

Foto: Gonçalo Fabião

Desde que aquela estrada começou a ser construída, em 1935, já sofreu várias modificações no seu percurso. Ainda hoje cerca de 40 % do seu traçado não é asfaltado mas sim em “ripio”, uma espécie de cascalho que pode ser mais ou menos grosso, incluindo “los malditos 73”, um pedaço lendário pela sua dificuldade entre Três Lagos e Gobernador Gregores. 

AQUELA VELHA AMIGA
Mudando de assunto (ou nem tanto…, já lá iremos…) a Royal Enfield Himalayan é bem conhecida deste ESCAPE e foi amor à primeira “voltinha”. Deixem me recordar-vos que estou a falar disto (link) e disto (link): o notável confronto nas Linhas de Torres que o Rad Raven e este blogue fizeram no inicio de 2019. 

Foto: Gonçalo Fabião

Desse dia resultou este vídeo (link) que vai alegremente a caminho de umas incríveis duzentas mil visualizações, assumindo-se assim como o provável clip de cultura motociclista feito entre nós mais visto e aplaudido por essa Rede fora. Só lamento não termos conseguido dar continuidade a este inegável sucesso. 

Foto: Gonçalo Fabião

Mais tarde voltei a provar aqui (link) a simpática Himalayan, também para a compreender em circuito urbano. E fiquei a entender melhor as fortes palavras da marca quando defende ser esta “the only motorcycle you will ever need”. Honestamente…, estive quase a ficar com uma para mim. Trabalhá-la para a melhorar no desempenho fora de estrada, e fazer dela a minha trabalhadora para ir “ao campo”. Este projecto acabou adiado e, confesso, ainda bem. Quem muita moto toca, alguma terá de ficar para traz. Mas o bichinho Sherpa não mais me largou… 

SERÁ ESTA A MOTO MAIS COOL DO UNIVERSO?!?
Para este ano a Himalayan foi actualizada para a já conhecida norma Euro 5. Conta com novas cores e um peculiar sistema Tripper da Royal Enfield que auxilia na navegação curva-a-curva, integrado com a plataforma Google Maps podendo ser conectado com o telemóvel mediante a app da marca. São ainda novidades o ABS desconectável na roda traseira, bancos com maior dose de conforto e uma ligeira melhoria na proteção aerodinâmica. 

Foto: Gonçalo Fabião

A Himalayan, que para alguns se assume com a moto mais cool do universo, é uma jovem urbana aventureira suave e despretensiosa. Moto inclusiva, surge pronta para tudo e para todos. Temos mesmo dificuldade em encontrar moto tão abrangente. Procurada por um espectro tão alargado, que vai da jovem motociclista feminina inexperiente e cheia de gana, ao maduro e experiente motociclista que procura um momento “back to basics”. 

QUANDO ANALOGIA RIMA COM PRAZER 
Apenas como exemplo, este ESCAPE ouviu o Miguel Sala, motociclista que gosta de viajar pelos céus e por estrada em outras cilindradas maiores.

Foto: Gonçalo Fabião

Estou a gostar muito da Himalayan. E é fácil gostar-se dela! É uma moto que transpira simplicidade e vive à base de um conceito de engenharia maioritariamente analógico. Qualquer mecânico de beira de estrada ou "curioso da ferramenta", sabe mexer e solucionar eventuais necessidades - que até à data, nunca necessitei. Gosto do ar meio tosco e quase inacabado deste design. Gosto de presenciar conversas de "conhecedores" que ao passar a pé junto ao passeio, olham-na e garantem ser uma moto "antiga mas bem tratada... e pela matrícula mais recente, nota-se que a Royal Enfield foi importada". Gosto do som matraqueado de trator e típico de um monociclindrico. Do binário "grosso" e do som rouco nos caminhos fora de estrada. É uma moto que, não sendo excelente em nada, é muito aceitável em quase tudo e em quase todo o tipo de terreno. Tem um preço muitíssimo justo e competitivo. Tem pouca potência, pouca velocidade de ponta, pouco travão dianteiro mas tem uma enorme capacidade de rasgar sorrisos dentro do capacete em Estradas Nacionais e fora delas. Dá um gozo enorme fazer aqueles passeios tranquilos de evasão, sem horários, sem pressas. Tem carisma. Tem um painel de instrumentos (que mesmo com o seu problema típico de fazer às vezes condensação), não deixa de ser lindíssimo e prazeroso de olhar enquanto a pilotamos. Gosto do baixo consumo e da sua alargada autonomia. Estou a gostar da Himalayan, sim. Muito! Ainda só fiz pouco mais de 3.000km em menos de 3 meses e tenho, como sabes outras motos, mas até agora, não pestanejaria em voltar a comprá-la. 

Foto: Gonçalo Fabião

De recordar que a alma e coração se mantêm, ou seja um quadro de duplo berço que monta um motor de um cilindro só a oferecer 24Cv e 32nm. E eu adoro a coolness que esta Royal Enfield oferece assim que nos sentamos nela, colocamos a trabalhar e engatamos a primeira velocidade. Tudo é descomplicado, honesto mesmo. E rapidamente desejamos partir para o primeiro fora de estrada que encontramos junto da cidade

OS SONHOS PODEM SER HUMILDES 
A caminho do campo não devemos abusar Himalayan tentando extrair o que ela não oferece sob pena das naturais vibrações se fazerem sentir, da protecção aerodinâmica perder a sua eficácia e do consumo não nos fazer sorrir. Todavia se formos gentis com a nossa nepalesa, aquele passeio de fim de tarde à beira do oceano atlântico vai fazer-nos sonhar com outras paragens e latitudes. E sim. Se um dia partir para a argentina Ruta Nacional 40 é com uma destas que quero ir. Porque será suficiente, eficaz e, vejam lá, prazerosa. 

Foto: Gonçalo Fabião

Por uma destas Granite Black que solicitou pouco mais de três litro e meio do tal líquido inflamável, carregadinho de impostos, feito a partir do sumo do dinossauro, a marca reclama uns meros 4.495€, um valor soberbo por uma moto humilde e que ainda assim tanto nos pode oferecer.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Honda Africa Twin e Africa Twin Adventure Sports actualizadas para 2022

Passadas mais de três décadas após a introdução da Honda Africa Twin na Europa, este nome continua a ser um sinónimo de história e aventura. Para 2022, a Africa Twin e a sua irmã de longas distâncias, a Africa Twin Adventure Sports foram ambas alvo de uma série de actualizações práticas, que incluem, entre outras, uma nova caixa DTC melhorada e um novo look que a marca pretende ainda mais elegante. 


Assim, para Para 2022, a Africa Twin e a Africa Twin Adventure Sports recebem um conjunto de actualizações que visam potencializar a sua funcionalidade do dia-a-dia. A CRF1100L Africa Twin possui agora, de série, um porta-bagagens traseiro em alumínio e a CRF1100L Africa Twin Adventure Sports tem um para-brisas com 5 níveis de regulação que melhora a visibilidade e não prejudica a protecção contra os elementos atmosféricos. 


A Honda já vendeu mais de 200 000 motos com DCT em toda a Europa, desde que o sistema viu a luz do dia na VRF1200F de 2009. Sendo este é um testemunho sua enorme aceitação no mercado das motos. Assim s novas definições da caixa DCT oferecem agora maior suavidade nas primeiras duas mudanças, nos arranques e a baixa velocidade. 


Para completar as actualizações de 2022, ambos os modelos recebem cores novas e elegantes e também novos gráficos. A CRF1100L Africa Twin Adventure Sports tem gráficos novos "Cracked Terrain" e a CRF1100L Africa Twin apresenta um novo design "Big Logo’", com esquemas cromáticos revistos e tampas das malas laterais em alumínio e um sub-quadro pintado de encarnado. 


Notem que neste ESCAPE se cultivam valores como a transparência e honestidade. O que acabam agora de ler não é propriamente um post e sim um comunicado de imprensa, boletim de imprensa ou press release, como lhe quiserem chamar. Isto é uma comunicação feita por um indivíduo ou organização visando divulgar uma notícia ou um acontecimento (ao qual fiz o corte e costura que achei mais conveniente).

domingo, 22 de agosto de 2021

Tertúlia do ESCAPE no Góis Moto Village 2021

O Góis Moto Village 2021 deixou uma marca importante neste agosto que agora ameaça partir. Com o objetivo de comemorar a notável concentração de Góis, o Moto Village festejou e ainda festeja a cultura motociclista. 

O ESCAPE e a sua Tertúlia tiveram a honra de dar ao kick start do evento inédito, numa tertúlia ao ar livre à beira do rio Ceira. Num momento – passado dia 31 de Julho – em que existia ainda muita timidez face à situação sanitária que todos conhecem, contamos com umas largas dezenas de tertulianos, alguns que viajaram mesmo da Grande Lisboa de propósito, e passamos um fim de tarde fantástico a discutir motociclismo, viagens e comunicação. 

Após esse momento mais formal, digamos, a noite prosseguiu entre jantar e copo à beira rio. Pessoalmente, foi excelente ter por ali dois fotógrafos de excelência: por um lado o Manuel Portugal - também ele já protagonista no passado na tertúlia (link) - com que é sempre um prazer concordar em discordar e, por outro, o Tiago Miranda cuja exposição Ponto de Fuga inauguramos informalmente no dia seguinte. 

Espreitava o trabalho do Tiago no jornal Expresso e foi muito bom conhecer alguém verdadeiramente fora da bolha da cultura motociclista que se aventurou silenciosamente durante anos a fazer arte partindo de motociclistas. Notem que a exposição do Tiago ainda está patente até ao fim do mês na Casa da Cultura de Góis e merece a vossa atenção.

O Moto Village 2021 tem animado a vila de Góis durante este mês de agosto

Pelo Góis Moto Village 2021, para além de outras iniciativas, passou ainda o Rad Raven que aproveitou a ocasião par divulgar o seu excelente trabalho. A Tertúlia, já sabem, não é dada a transmissões on-line pois o seu propósito é precisamente que nos encontremos pessoalmente. Mas o Rad decidiu e muito bem fazer um direto com a sua comunicação que podem rever aqui (link). 

A Tertúlia do Escape é isto mesmo que fomos fazer a Góis: partilha, paixão, viagem e emoção. Obrigado a todos. Repito, foi uma honra lançar o Góis Moto Village 2021. A Tertúlia espera regressar em breve.

terça-feira, 27 de julho de 2021

Tertúlia do ESCAPE em Góis

Terminou a longa espera. A notável Tertúlia do ESCAPE está de volta. E logo em Góis, uma das catedrais do motociclismo e do mototurismo em Portugal. Que maravilha. Este blogue não podia estar mais orgulhoso! 

Esta décima quinta edição da Tertúlia surge a convite do Góis Moto Clube e está inserida no Góis Moto Village

Este será um evento que decorrerá durante todo o mês de Agosto e pretende comemorar e assinalar a concentração de Góis, oferecendo assim um tributo à cultura motociclista. A célebre concentração não terá lugar este ano, todavia é preciso “não baixar os braços e reinventar-se, criando um novo conceito de complemento ao certame”, sublinha o Góis Moto Clube. 

Para além da Tertúlia do ESCAPE, o início das actividades está pois previsto já para o primeiro fim-de-semana de Agosto, com a exposição de fotografia Ponto de Fuga, de Tiago Miranda e textos de Ricardo Marques. 

Esta mostra pretende revelar a diversidade do imaginário motociclístico de Portugal. Além da exposição, durante o mês de Agosto, o Góis Moto Village que é ainda “dedicado aos filmes, destinados aos amantes das duas rodas e do cinema”, vai “reunir construtores e customizadores de motos, pilotos, artistas, realizadores e actores, que são protagonistas de filmes cuja temática é o universo motociclista”.

No programa de actividades, “estão ainda previstas conferências sobre diversos assuntos de interesse aos apaixonados pelas duas rodas e por Góis” como ‘workshops’ de segurança rodoviária e exposições de motos e de fotografia, em locais simbólicos da vila. E no dia 13 de agosto, será “assinado um protocolo de geminação entre o Clube Motard de Chaves, o Góis Moto Clube e o Moto Clube de Faro, com o objetivo de criar relações que permitam estabelecer laços de cooperação com o mote da EN2” (Estrada Nacional 2). 


Quanto à Tertúlia do ESCAPE, convém desde já recordar que Tertúlia é, na sua essência, uma reunião de amigos, familiares ou simplesmente frequentadores de um local, que se juntam de forma mais ou menos regular, para discutir vários temas e assuntos. Nas Tertúlias do Escape pretende-se discutir motos, motociclismo e viagens. À maneira antiga. Longe dos teclados, cara a cara e com uma cafezada por companhia. 

E é tão simplesmente isto mesmo que vamos fazer já no próximo sábado, 31 de Julho, pelas 18 horas, no parque do cerejal em Góis. Ao ar livre e com a aragem fresca do Rio Ceira por companhia: discutir motociclismo, viagens e comunicação.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Será esta a primeira praia motociclista em Portugal?

Confesso. É um sonho antigo. Para quem ama motos e praia de igual forma, não haveria nada melhor do que uma praia onde o motociclismo fosse Rei. Será esta? Será agora? 

Mas deixem-me iniciar este texto de forma diversa, começando não com uma declaração de interesses mas sim com uma declaração de desinteresses. Não tenho, enquanto autor deste blogue, qualquer motivação política. Ou seja, para que fique bem claro, o ESCAPE, é totalmente apolítico. Ficou mesmo claro? Espero que sim! Escrito isto, deixem-me elogiar Setúbal e os seus responsáveis políticos, por favor. 


Ao contrário de Lisboa, onde vivo, local onde o motociclismo e os motociclistas são desconsiderados pelos loucos econtontos que nos administram, Setúbal tem marcado pontos com uma política de mobilidade racional, onde o uso do motociclo enquanto alternativa ecológica é alvo de discriminação positiva.

Em Lisboa, local onde vivo, sublinho, as faixas de rodagem têm vindo a ser reduzidas na sua largura quando não totalmente obliteradas, provocando dificuldade na circulação e até o caos nalgumas artérias fundamentais, como é o caso do crime que foi levado a cabo na Avenida Almirante Reis – nem ambulâncias e outros veículos de socorro passam. 

Já em Setúbal, desse 2018, os únicos veículos motorizados que livremente durante o verão podem aceder às melhores praias da Arrábida - por alguns considerados as melhores da Europa - são os motociclos. Parece impossível, não é? Mas é verdade. As melhores praias da Europa estão mesmo em modo “motorcycle only”. 

E agora Setúbal foi mais longe. As queixas no que toca à segurança das motos parqueadas junto das praias da região, pode mesmo ter encontrado um fim. Tudo por culpa deste parque de estacionamento, literalmente na praia, onde as motos ficam ao alcance do olhar, e se nos distraímos está por ali um segurança que pode ser útil. Alí cabem seguramente, pelo menos, umas cinquenta motos. 

É de aproveitar este raro sintoma de racionalidade dos nossos políticos. O Portinho da Arrábida, mais concretamente a Praia do Creiro, pode assim ser a primeira praia motociclista em Portugal. Usem-na com educação e respeito. Não tirando nada e deixando apenas as vossas pegadas. Obrigado!! 

Aqui no ESCAPE não somos ingénuos e sabemos que estamos em tempo de eleições autárquicas, já no fim de Setembro. Sabemos que a responsável autárquica de Setúbal concorre agora a Almada, aqui junto a Lisboa. E honestamente, que vença e continue o bom trabalho em prole dos interessa dos motociclistas e do motociclismo, a única coisa que interessa politicamente a este blogue.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Suzuki GSX 1300R Hayabusa à prova

“Então Pedro, gostaste do falcão peregrino?”. 

Eh pah, oh Zé…, faz nos um favor. Cala-te lá com a lengalenga do “falcão peregrino” da “casa de Hamamatsu”. Para onde quer nos viremos, é sempre a mesma cantiga. Até parece que me estás a perguntar qual é o melhor local no Algarve para comer “frangos da Guia”. E se julgas, Zé, que a nova Hayabusa é uma moto perfeita só porque é a forma mais barata de chegar dos zero aos trezentos km/h, estás muito enganado…

Foto: Gonçalo Fabião

A LENDA VIVE 
31 de Dezembro de 2018. Choque e espanto. A Suzuki GSX 1300R Hayabusa deixava de ser comercializada na Europa. Os ecotontos não poupam nada nem ninguém. E a entrada em vigor da norma Euro 4 em 2016 - havia uma espécie de moratória de dois anos para os modelos já em comercialização - obrigou a Suzuki a colocar um ponto final ao reinado da Hayabusa naquela data. 

Foto: Gonçalo Fabião

Apesar de para alguns se apresentar mais feia do que um besugo com três dias de praça, a Suzuki GSX 1300 R Hayabusa tinha sido a primeira mota de produção na história a superar a lendária barreira dos 300 km/h. Na verdade, superar os 300 km/h exigiu não só um esforço para apresentar um motor potente e uma ciclística à prova de bala, mas também uma aerodinâmica absolutamente competente. A engenharia da Suzuki defendeu-se quanto ao aspecto de peixe fedorento: “é uma moto esculpida pelo vento”. 

HYPER SPORT TOURER? 
Certo é que a Hayabusa recolheu uma enorme legião de fãs. Foram quase duas centenas de milhar de unidades fabricadas e vendidas por esse mundo fora desde 1999 – e não desde 1994 como erradamente referi no “live” que fiz na pagina de facebook deste blogue (link). Há mesmo muitos fãs do modelo com duas na garagem. Uma da original classe de 99 e outra da classe de 2008 (redesenho e introdução de ABS). Agora podem adicionar-lhes a classe de 2021: uma terceira geração da Hayabusa que se equipa com as mais recentes inovações tecnológicas no sentido de oferecer uma moto contemporânea, com substanciais doses de controlo, conforto, segurança e confiança. A derradeira Hyper Sport, diz-se. 

Foto: Gonçalo Fabião

Hyper quê? Pois…, aqui este vosso ESCAPE, partilha da opinião daqueles que colocam esta moto no enorme saco das sport-turismo e não no segmento das híper-mega-ulta-coiso-desportivas. E é a realidade que assim o exige. Há quem atravesse o continente europeu de Hayabusa. Não é que tal não seja possível de super-desportiva. Mas a forma como uma boa parte dos seus proprietários dá uso à GSX 1300R leva-nos a considerá-la uma verdadeira sport-tourer. Ainda que…, no limite da matriz, obviamente do lado das desportivas e não das turísticas. 

REFINADA 
A novíssima Suzuki GSX 1300R Hayabusa monta um renovado tetracilindrico de 1340cc capaz de fazer girar o centro da terra (150Nm, 190 cv), num novo quadro de dupla trave em alumínio. A electrónica é rainha e, entre outros mimos, contem com o sistema inteligente de condução Suzuki denominado Suzuki Intelligent Ride System (S.I.R.S.) que oferece o selector de modo de condução ALPHA (SDMS-α) com três modos de fábrica (A-Ativo B-Básico C-Conforto) e mais 3 modos totalmente parametrizáveis. Contem também com sistema de controlo de tração (10 modos mais o modo OFF), mapas de potência (3 modos), quick shift bidireccional (2 modos mais OFF), controlo de elevação da roda frontal (10 modos mais OFF) e ainda o sistema de controlo de travagem de motor (3 modos mais OFF). Uffffff…. 


O primeiro contacto com esta terceira geração da icónica “Busa” é revelador. A moto é encorpada, musculada, imponente, soberba e avassaladora. E se calhar mais coisas ainda que não me estou a recordar agora. Tocar, sentir, cheirar, sentar…, despertar os sentidos, colocar a trabalhar e soltar lentamente a embraiagem para sentir pela primeira vez esta lenda viva do motociclismo é daquelas sensações que nos ficam na memória…, “uma Hayabusa, mãe, é uma Hayabusa”…, estou a conduzir uma Hayabusa. É mesmo verdade! 

Foto: Gonçalo Fabião

Só que…, rapidamente o tráfego urbano e suburbano conduz-nos ao pragmatismo da realidade. A moto é comprida e tem peso substancial, apesar de distribuído de forma perfeita (50/50) pela unidade. O excesso de latas nas vias rápidas da capital pede de imediato para refrearmos os desejos e optar pelo modo de condução C (conforto), onde a besta fica dócil e dominada; ou por outras palavras o míssil passa a contar com boas maneiras. Já a posição de condução, bem, enfim…, apesar de ter sido optimizada nesta nova geração em função do conforto, continua a exigir disponibilidade física por parte do condutor – nem podia ser de outra maneira… 

A DERRADEIRA
A nova Suzuki GSX 1300R Hayabusa marca a paisagem. E no par de dias em que com ela rodei chamou a atenção de tudo e de todos, atraindo ainda alguns idiotas úteis sempre dispostos a um momento de putativa afirmação: a eles a Busa apenas deve responder com insolente desprezo, rumo à estrada o mais aberta possível.

Foto: Gonçalo Fabião

É pois ai, nos grandes espaços, que esta moto encontra o seu natural habitat e demonstra toda a sua qualidade de referência incontornável: motor sublime suportado por uma ciclística inatacável tudo sustentado por travagem e suspensões que só dignificam a obra de arte nipónica. 

Sim! A GSX 1300R Hayabusa é para motocilistas experientes, corajosos e hedonistas. Jovens o suficiente e aptos fisicamente para suportarem o desafio de uma longa tirada por essas estradas fora lá até onde a conta bancária possa pagar o consumo de combustível, que se revelou nesta prova um pouco abaixo do anunciado pela fábrica - sorvendo apenas pouco mais de seis litros, daquele liquido inflamável composto em mais de dois terços por aquela inevitabilidade pornográfica a que chamam de impostos.

Foto: Gonçalo Fabião

A lenda está de facto de volta. Solicitando a marca uma transferência bancária de 19.800€ para que possam ter esta jóia Glass Sparkle Black/Candy Burnt Gold convosco. É de aproveitar seus “petrolheads” amamentes da velocidade. Pois esta - devido à loucura dos ecotontos que está, como um vírus mortal, a infectar a vida tal como a conhecemos - é muito provavelmente a derradeira Hayabusa. No verdadeiro sentido da palavra: de-rra-dei-ra!

segunda-feira, 12 de julho de 2021

SYM MAXSYM 400 à prova

Máximo. Enorme. Que é o maior de todos. Há nomes felizes. E se o nome da marca já exprime em português afirmação e consentimento, o nome da moto aponta para o mais alto grau possível. Verdade ou consequência? 

Foto: Gonçalo Fabião

A nova SYM MAXSYM 400 ABS EURO5 começa desde logo por ser um belo exercício de estética. Ainda parada, a moto da marca de Taiwan já seduz pelas linhas contemporâneas e envolventes. O generoso ecrã que nos protege dos elementos pode ser ajustado em duas posições de forma manual, o que virá a revelar-se muito útil quando abandonamos a cidade rumo aos subúrbios ou a um qualquer passeio para ver o mar. Na verdade esta MAXSYM 400 ambiciona ser isso mesmo; uma scooter versátil que responda afirmativamente ao prazer na sua utilização diária

FOCO NA SOLUÇÃO
Tecnologicamente avançada, esta SYM monta no seu novo quadro – cerca de 20% mais leve que no modelo anterior – um cilindro único arrefecido a líquido (399cc, 40Nm, 34cv). Outros destaques vão para a travagem de disco duplo na roda dianteira bem como a suspensão traseira ajustável em cinco posições. 

Foto: Gonçalo Fabião

Contem ainda com controlo de tração, iluminação totalmente em LED e o prático sistema de ignição sem necessidade de introdução da chave de que este ESCAPE está cada vez mais fã, devido à facilidade de utilização que oferece no dia-a-dia. Apenas mais uma nota curiosa para o accionamento automático de um travão de estacionamento quando colocamos a moto no descanso lateral: uma maravilha. 

Foto: Gonçalo Fabião

Mas afinal ao que sabe esta scooter que se direcciona ao topo? A habitabilidade é desde logo um ponto que se sente e destaca. Tudo está bem dimensionado e há espaço correto para o corpo. Apenas lamentamos que a protecção contra os elementos não seja ainda melhor e a informação fornecida pelo espartano painel de instrumentos não seja mais completa e de eficaz. 

Foto: Gonçalo Fabião

COMPORTAMENTO E EQUILÍBRIO DE REFERÊNCIA 
O melhor desta MAXSYM 400 é mesmo o que interessa numa moto desta natureza, isto é, a sua dinâmica e comportamento. Na cidade o equilíbrio é tão grande que ficamos com a sensação que podíamos levar esta moto para aquele grupo de amigos que gosta de fazer a tradicional “corrida dos lentos”. Provavelmente sairíamos vencedores tal a subtileza do arranque e a agilidade a baixa velocidade para contornar os obstáculos citadinos. 

Foto: Gonçalo Fabião

Destaque ainda para um motor vivo e agradável que cumpre plenamente com os objectivos de uma moto deste segmento: transportar o seu proprietário do ponto A para o ponto B em agilidade e segurança. A potência e binários surgem sempre disponíveis, fazendo o condutor escapar daquelas sempre complicadas situações de trânsito citadinas, onde por vezes nos colocamos ou nos coloca o simples fluir do tráfego. 

Foto: Gonçalo Fabião

Tomem nota à entrada nas vias rápidas: se forem entusiastas do modo “enrolar o punho” subitamente vão cruzar velocidades para lá do limite legal. É que a SYM MAXSYM 400 pode chegar num sopro a velocidades proibidíssimas. Considerem-se alertados! 

DETALHES QUE CONTAM 
Uma última nota muito positiva para a natural capacidade de carga desta simpática scooter. Para além de dois “porta-trecos” na secção frontal - como simpaticamente se diz do lado de lá do atlântico - o banco que abre a cerca de 45 graus, permitindo assim um correto acesso ao “porta-bagagens”, oferece um baú de generosas dimensões. São quase cinquenta litros onde cabe muita tralha, ou em opção dois capacetes integrais e mais alguns itens como um fato de chuva ou um leve e útil blusão de verão que nos proteja nos dias mais quentes. 

Foto: Gonçalo Fabião

Esta cinzenta mas simpática MAXSYM 400 solicitou pouco mais de três litros e meio daquele oiro líquido inflamável - cujo preço é inflacionado por dois terços de impostos que serve para alimentar os gastos faraónicos de um Estado desmiolado e descontrolado – por cem quilómetros de agradável vida urbana e suburbana. Notem que o depósito oferece uma capacidade de treze litros, limitando assim o tempo perdido em idas ao abastecimento. A marca solicita uma transferência bancária de 7.000€ para que a vossa garagem fique mais rica.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Honda NC750X 2021 à prova

No início de Maio passado, este ESCAPE esteve aqui (link) na apresentação nacional da versão 2021 da popular Honda NC750X. Num dia glorioso que já anunciava o verão, tive oportunidade de conhecer uma moto revista e atualizada para continuar a liderar e onde as palavras-chave são uma economia e eficácia que sublinham ainda mais a natureza versátil desta utilitária com ansiedade de liberdade. Agora foi a vez da Susana Pereira (She’s 2 Wheeled)  - fotografada pelo Gonçalo Fabião - se pôr ao fresco durante alguns dias com uma “encarnadinha” equipada para viajar, tendo descoberto no fim da prova que afinal os quilómetros mesmo quando aparentemente muitos, acabam por saber a pouco. 


Liberdade. Estado ou particularidade de quem é livre. Há muito que não se falava tanto de liberdade e do direito à liberdade como nos dias que correm, em que nos vemos obrigados a sucessivos confinamentos e restrições que nos são impostos, condicionando a forma como queremos viver e que nos fazem valorizar ainda mais esse direito que tínhamos como adquirido mas que se calhar muitas vezes não o temos presente como o bem precioso que é e não desfrutamos dele como deveríamos. Tantas vezes no decurso da nossa vida nos apercebemos que apenas damos valor a determinadas coisas quando deixamos de as ter! 

Sempre dei muito apreço à minha liberdade e sempre lutei por ela e pela minha independência! A liberdade sempre me deu a oportunidade de construir novos sonhos e de apontar novos caminhos. A liberdade dá-nos autonomia e permite-nos viver pelos nossos termos sem nunca esquecermos de respeitar a liberdade dos outros! Não nascemos para estar presos ou confinados, tanto que uma das formas mais comuns de castigo é precisamente a privação da liberdade. 

URBANA ATREVIDA OU ENVERGONHADA AVENTUREIRA? 
Desde miúda que sempre olhei para as motos como uma expressão e forma de liberdade e sempre desejei sentir esse sentimento de espírito livre e até selvagem que nos proporciona o viajar de moto. Gosto imenso de viajar, de saber que cada dia me trará novos horizontes, novas sensações, novas experiências e momentos para guardar na minha caixinha das memórias, cada dia um novo desafio, cada dia um novo começo! E que melhor forma de o fazer do que de moto, em que estamos tão expostos a tudo o que nos rodeia, podendo assim absorver ao máximo tudo o que nos é oferecido. 


A nova Honda NC750X DCT pode muito bem enquadrar-se nesse espírito de liberdade, pois é uma moto multifuncional e utilitária, adaptando-se tanto ao estilo mais citadino como ao mais aventureiro. Não admira que seja um dos modelos mais vendidos na Europa, tal é a sua versatilidade, aliada ao seu inovador motor bicilíndrico, bastante económico e à sua posição de condução confortável e descontraída. Para tirar partido dela em pleno, nada melhor do que um fim-de-semana a acampar na natureza, longe de tudo e de todos, como convém, sobretudo nesta realidade que vivemos, e com a oportunidade de a testar em estrada e também um pouco fora dela, desfrutando do seu lado mais aventureiro. 

O DCT QUE AFINAL É CLICHÉ 
Tinha bastante curiosidade em experimentar este modelo da Honda, isto porque na altura em que adquiri a minha moto, este foi um dos modelos que estava na calha. Foi a primeira vez que experimentei uma moto com a tecnologia DCT (Dual Clutch Transmission) que, na minha opinião, se mostra ser extremamente prática sobretudo na cidade e se calhar para condutores menos experientes, pois com esta tecnologia nunca corremos o risco de a moto ir abaixo num semáforo ou de fazermos figurinhas ao sair da esplanada da moda com a plateia a observar-nos. É também de realçar que com esta tecnologia poupamos bastante em calçado, uma vez que deixa de haver o desgaste da utilização do pedal de mudanças. Foi por isso muito estranho para mim quando me sentei na moto e não vi nem manete de embraiagem, nem pedal de mudanças, elementos aos quais tentei recorrer muitas vezes, tal não é a força do hábito. Cheguei mesmo a questionar-me se seria capaz de me habituar e de conduzir a moto. Mas como se costuma dizer, primeiro estranha-se, depois entranha-se! 


A tecnologia DCT é pioneira e inovadora no que respeita a motos, sendo uma transmissão com dupla embraiagem, uma para a 1ª, 3ª, 5ª velocidades e START e outra para a 2ª, 4ª e 6ª velocidades. Ao contrário do que muitos pensam, não se trata de um sistema de mudanças automáticas, mas sim de um sistema com uma estrutura de transmissão manual em que as operações de embraiagem e de mudança de velocidades são automatizadas, permitindo ao condutor que se concentre apenas na aceleração e travagem da moto, muito embora possa fazê-lo também manualmente, bastando para isso accionar as patilhas existentes para o efeito no punho esquerdo. 

O EQUILÍBRIO DAS COISAS SIMPLES 
Para 2021 a NC750X apresenta carenagens dianteiras mais aerodinâmicas e com um look mais agressivo e um espaço de armazenamento ampliado (23L) onde facilmente cabe um capacete integral com “pala”, tendo a opção de vir munido de uma prática entrada USB. Este aspecto do espaço de armazenamento foi algo que sempre me fascinou nesta moto, pois dá tanto jeito no dia-a-dia! O motor também foi alvo de melhorias na sua performance com uma injecção extra de binário e um impulso acrescido de potência, em concordância com a norma Euro 5, contribuindo assim para um futuro mais limpo. 


Uma das coisas que me surpreendeu pela positiva foi que apesar do seu peso em ordem de marcha, na versão DCT, ser de 224kg (ainda assim, menos 6kg que a versão anterior), a sensação que tive ao conduzi-la foi de que era bem mais leve, o que mostra que o peso está muito bem distribuído, tendo um centro de gravidade baixo, graças também às melhorias no motor e na parte ciclística, dando uma sensação extra de segurança aos condutores menos experientes, graças à sua estabilidade, aliada ao facto de que mesmo condutores mais baixos chegam com facilidade com os pés ao chão, tendo a altura do banco sido reduzida em 30 mm (145mm de altura ao solo). 

Apresenta também um estilo mais minimalista e moderno, com destaque para o painel de instrumentos num ecrã LCD bastante intuitivo, os novos faróis em LEDs, farolim e piscas traseiros, bem como um novo pára-brisas que oferece mais proteção. O novo modelo de 2021 trouxe também a inclusão de ABS padrão e um sistema de aceleração TBW que agora permite vários modos de condução, dependendo das condições da estrada - RAIN, STANDARD e SPORT - para além de um modo USER personalizável. Para além disso, vem também equipada com o sistema HSTC de controlo de tração seleccionável da Honda, muito mais suave e refinado graças ao sistema TBW. 

QUANDO OS QUILÓMETROS SÃO SEMPRE POUCOS… 
A NC750X que tive oportunidade de experimentar, vinha equipada com três malas, bastante espaçosas, muito embora não tenha usado a maior parte do espaço, uma vez que a viagem não foi longa e foi em modo minimalista. Pessoalmente não sou muito adepta de malas de plástico e no caso destas, achei que por vezes tinha que dar um jeito extra para elas encaixarem na perfeição e as conseguir fechar. 


Um episódio caricato foi eu ir à bomba de gasolina para abastecer e não encontrar o tanque de abastecimento. Que totó me senti!! Como não quis fazer figurinhas, segui o meu caminho e fui verificar no livro de instruções. O tanque de combustível encontra-se debaixo do banco e pela minha experiência a forma como abre e fecha não é a mais prática, por vezes empancava, mas também pode ser devido à minha falta de jeito. Outro aspecto interessante que esta moto traz é uma espécie de travão de mão, que podemos accionar por exemplo quando estacionamos numa subida mais íngreme, não correndo o risco de a moto decidir fugir pela calçada abaixo. 

Esta moto proporcionou-me sem dúvida uma escapadela para recarregar as baterias, de que tantas vezes necessitamos, mostrando-se efectivamente uma moto muito funcional e versátil, de condução fácil e suave, bastante confortável e muito económica, tendo capacidade no depósito para 14 litros de combustível que me permitiu fazer um consumo de 3,5L por cem quilómetros. Só tenho pena de não ter andado com ela mais dias! 


Sem dúvida que a NC750X é uma moto bastante atractiva não só em termos de estética mas também no que respeita à sua performance e versatilidade. Não é pois de todo de estranhar que tenha tanto sucesso, sobretudo porque o preço é bastante simpático: versão caixa DCT a partir de 9200 Euros, versão caixa manual desde 8300 Euros.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Um dia épico pelas estradas do Alto Douro Vinhateiro

"O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta". 

Este é Miguel Torga, que aprendemos a ler e respeitar no nosso chamado ensino secundário. Miguel Torga no seu "Diário XII". O Douro, essa paixão inspiradora. Solo sagrado. Estradas de sonho. Dias épicos! Não consta que Miguel Torga tenha sido motociclista. Se Miguel Torga vivesse hoje ficaria espantado com a quantidade de vinha por este país trabalhada. Mas o Douro…, oh senhores, o Douro: sem margem de dúvida a maior obra portuguesa de todos os tempos! 

Na mais recente viagem realizada por este ESCAPE por este Portugal fora, contámos com a soberba Kawasaki Versys 1000 Special Edition, velha conhecida do blogue (link) e agora em versão Grande Turismo, ou seja, cheiinha de espaço para tralhas e bagagem, equipada com faróis auxiliares e protecções de motor para o caso daquelas sempre aborrecidas quedas para o lado com a moto em modo viagem. Acontece a todos… 

Todavia, em bom rigor, o que tenho para vos oferecer hoje é um texto diferente, género de prosa que muito gosto de fazer e pouca oportunidade existe para escrever. Um texto sobre um dia épico pelas estradas do Alto Douro Vinhateiro, nascido no seio de uma viagem por Portugal – mais uma – e que quase se tornou, por força da geografia e das estradas, numa das melhores jornadas de motociclismo de todo o sempre. Devo partilhar. Venham comigo… 

Provesende é uma antiga freguesia portuguesa do concelho de Sabrosa. Foi vila e sede de concelho. Situada na região do Alto Douro Vinhateiro, na margem norte do rio, entre as vinhas, os solares e as casas em pedra, Provesende oferece hoje uma absoluta viagem no tempo e a comunhão entre o passado e o presente. 

Gosto tanto de Provesende que nas últimas três viagens por este nosso Portugal por lá passei sempre. E é de Provesende que parte este pequeno roteiro mágico. Daqui é descer ao Pinhão pela Estrada Nacional (N) 323 e tomar um belo pequeno-almoço na Princesa do Douro, bom café e gente simpática. 

Atravessada a velha ponte, rapidamente abandonamos a N323 para subir até ao seu ponto final a (agora) mundialmente reconhecida N222. No inicio da subida acompanhamos o Rio Torto e, quando deixamos de ver este é tempo para uma primeira paragem na arrebatadora Quinta do Ventozelo

Situada na margem esquerda do Douro, ao chegar a Ervedosa, a Quinta de Ventozelo é das mais bonitas e apaixonantes da região. Num vasto anfiteatro sobre o rio encontramos aquilo que alguns chamam de “portas do silêncio do Douro”, onde o tempo parece correr mais devagar. A tranquilidade e a ligação plena à Natureza são o valor intangível principal desta Quinta. Imperdível! 

A viagem segue então, finalmente, desfrutando das deliciosas curvas da N222 que acompanha, como muitas das estradas nacionais, o relevo do terreno. Já depois de atravessado o Rio Coa, chegados a Almendra há que fazer opções. E a minha foi pela da aventura. Descer a velha Nacional (N332) rumo à estação e três quilómetros antes desta – a estrada apesar de velha está bem marcada – cortar à direita para um fora de estrada fácil e ainda assim desafiante que nos leva ao encontro da N221 e do Alto da Sapinha. Este fora de estrada foi realizado com sucesso, em modo viagem, por uma Kawasaki Versys 1000 que apesar da sua jante 17 e pneus de turismo abriu o xisto rumo ao asfalto. Magnifico! 

Já em terrenos de Parque Natural do Douro Internacional, o Alto da Sapinha domina a paisagem em direção a Barca de Alva onde o ESCAPE recomenda uma refeição rápida e ligeira junto ao Douro, com vista para o Reino de Espanha. Em Barca de Alva encontramos um dos mais esquecidos e ao mesmo tempo mais colossais troços de Estrada Nacional em Portugal. Dali a N221 ruma a norte junto ao Douro e a Kawa faiscou a cada curva negociada. Desta vez esqueci a vista apaixonante do Penedo Durão ou a frescura eterna da aldeia de Mazouco e foi sempre a queimar Mitas Touring Force até ao cruzamento com a N220 e respectiva descida para Torre de Moncorvo com paragem na famosa Taberna do Carró e compra de um dos seus licores caseiros que já em casa faz prolongar esta viagem pela eternidade (da dimensão da garrafa). 

Estando em Moncorvo não é possível deixar de rumar a Norte e vislumbrar lá do alto do miradouro de São Gregório a foz do deslumbrante Rio Sabor. Dali é tempo de pensar no regresso e no fim da aventura do dia. Ainda há mais faíscas para espalhar no asfalto da N215 já rumo ao oeste, e após um pouco de IC5 descer à foz do rio Tua pela não menos apaixonante N214. 

O dia estava de facto a ser épico. E assim continuará até fim nestes cerca de trezentos quilómetros que se arriscam a concorrer ao prémio “os melhores trezentos quilómetros de Portugal”.

Da foz do Tua é então necessário subir a impecavelmente bem asfaltada N212 até Alijo, dali rumar à perigosa mas deslumbrante descida do Vale de Mendiz pela N323-3 e enfim, regressar ao Pinhão terminando o dia de volta à casa de partida em Provesende. 

Tomar um banho e rumar à casa da Dona Graça que nos espera com a sua receita de Pernil em Vinho do Porto com vista para o pelourinho histórico de Provesende. Não sei. Não sei se este terá sido o meu melhor dia de motociclismo por este nosso Portugal. Mas durante a viagem senti o chamamento de o cristalizar, aqui, no ESCAPE. Na esperança que se eternize e inspire outros motociclistas como eu. Como tu. 

De facto, o Alto Douro Vinhateiro é uma zona particularmente representativa da paisagem que caracteriza a vasta Região Demarcada do Douro, a mais antiga região vitícola regulamentada do mundo. Marcado por estradas sumptuosas, a paisagem cultural do Alto Douro combina a natureza monumental do vale do rio Douro, feito de encostas íngremes e solos pobres e acidentados, com a acção ancestral e contínua do Homem, adaptando o espaço às necessidades agrícolas de tipo mediterrâneo que a região suporta. 

Esta relação íntima entre a actividade humana e a natureza permitiu criar um ecossistema de riqueza única, onde as características do terreno são aproveitadas de forma exemplar, com a modelação da paisagem em socalcos, preservando-a da erosão e permitindo o cultivo da vinha. A região produz, entre outros, o famoso vinho do Porto, representando o principal vector de dinamização da tecnologia, da cultura, das tradições e da economia locais. O grande investimento humano - onde incluímos as Estradas Nacionais - nesta paisagem de singular beleza tornou possível a fixação das populações desde a longínqua ocupação romana, e dele resultou uma realidade viva e em evolução, ao mesmo tempo testemunho do passado e motor do futuro. 

Mapa do tesouro...

Numa palavra, um poema geológico, beleza absoluta. Foi assim um dia épico pelas estradas do Alto Douro Vinhateiro. Obrigado Miguel Torga. Obrigado Portugal.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Cinco razões para falar de Miguel Oliveira

Em semana de regresso às pistas, desta vez no Sachsenring em Hohenstein- Ernstthal, para o Liqui Moly Motorrad Grand Prix Deutschland, nada como olhar de forma mais pausada para o que anda afinal Miguel Oliveira a fazer e já agora sonhar um pouco com o que poderá vir a fazer num futuro muito próximo.


No rescaldo da vitória na Catalunha o ESCAPE reagiu a quente na sua página de facebook e não se enganou. Foi uma “corrida absolutamente perfeita”, escrevi. E foi mesmo. As palavras são intensas e em bom rigor até pecam por escassas. Para além da perfeição aquela foi inequivocamente a melhor corrida de sempre de Oliveira. 

E não sou apenas eu que o digo. Num texto muito comentado na Rede, o jornalista Nacho Gonzáles da insuspeita MOTOCICLISMO Espanha explica as cinco razões pelas quais devemos falar em Miguel Oliveira. Não apenas aqui em Portugal. E sim por esse mundo fora. 

Primeira. E óbvia. O Miguel venceu uma corrida de MotoGp deixado todo o demais pelotão para trás. Nunca esquecer. Ganhar em motociclismo é isso mesmo: deixar toda a gente para traz. E o Miguel voltou a faze-lo. 

Segunda. Na verdade isto da vitória de Oliveira começa de facto a ser um hábito ou costume. Foi a terceira vez nas últimas dezassete corridas. Apenas Quartararo venceu mais, quatro em dezassete. 

Terceira. Oliveira somou uns impressionantes 45 pontos nas suas últimas duas corridas. Mais do que um resultado estamos claramente perante uma tendência. E como se diz em mercados financeiros: the trend is your friend. 

Quarta. Nas mãos de Miguel Oliveira a KTM rompeu aquela que aparentava ser uma divisão do poder e das vitórias entre os nipónicos da Yamaha e os italianos da Ducati. 

Quinta. E possivelmente a mais importante. Há que sublinhar uma vez mais a perfeição da vitória de Oliveira na Catalunha. Espaçadamente existiram pilotos mais rápidos é verdade. Mas ninguém conseguiu bater Miguel Oliveira. 

Aqui chegados só podemos estar super mega híper ansiosos pela próxima entrada em pista de Miguel Oliveira. É absolutamente histórico. Nunca tantos, cá e lá foram, estiveram de olho num motociclista português. Ah…, e já agora fica a partilha: vale a pena ler todo o texto do Nacho aqui (link).

terça-feira, 15 de junho de 2021

Voge 500DS à prova

Como bem sabem os “clientes habituais” deste ESCAPE, a página de Facebook que suporta este blogue (link) é amiúde alimentada com um vídeo em directo cujo tema é a moto que se prova. Não tive grandes dúvidas ou questões, quando decidi chamar ao directo relacionado com a Voge 500DS de “motociclismo contra o preconceito”. E hoje, neste texto que pretende relatar a primeira experiência com uma moto da marca Voge, marca satélite do gigante industrial chinês Loncin, tenho de voltar ao tema. 

Preconceito é a opinião desfavorável que não se funda em dados objectivos e sim baseada unicamente num sentimento hostil motivado por hábitos de julgamento ou generalizações precipitadas. A palavra também pode significar uma ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial. Autores definem ainda preconceito como um sentimento não baseado na verdadeira experiência. 

Foto: Gonçalo Fabião

Não deixa de ser extremamente curioso que a denominada sociedade aberta encerre em si os seus mais ferozes detractores, mesmo inimigos. É um paradoxo. E é precisamente por ser aberta, essa sociedade, que tolera e permite o seu antagonismo. Mais curioso é ainda que sendo o motociclismo um espaço de liberdade exista tanto motociclista obtuso, esdrúxulo, preconceituoso mesmo. 

Foto: Gonçalo Fabião

Deixem-me enumerar ainda dois exemplos comuns de preconceito no motociclismo para tentar ilustrar a minha afirmação: primeiro, o sentimento hostil para com os utilizadores e amantes de scooters, segundo, sentimento idêntico para com os fãs do sistema DCT da Honda. Não deixa ainda de ser curioso que os ignorantes detractores do sistema DCT da Honda digam que os motociclistas que conduzem motos equipadas com aquele inovador e eficaz sistema de dupla embraiagem são, precisamente, apelidados de condutores de scooters. A estes preconceitos com alguns anos, tem-se somado recentemente o sentimento hostil contra a moto chinesa ou fabricada na china, seja qual for a sua marca, geometria ou cilindrada. Se é chinês não presta, dizem os “entendidos”. 

DIGNIDADE, QUALIDADE, RESPEITO 
O preconceito é assim uma tábua rasa: vai tudo a eito. É a arma dos ignorantes. E contra ela temos uma arma bem mais eficaz que deve ser praticada: curiosidade natural, liberdade de pensamento, espírito critico, informação e conhecimento. Numa palavra: cultura!

Foto: Gonçalo Fabião

A Voge 500DS é o veículo ideal para levar para o campo de batalha do conhecimento e fazer frente de forma feroz ao preconceito. Nobre e distinta trail urbana, desenhada com o cuidado suficiente para transpirar personalidade sem, contudo, se fazer notar de forma demasiado exuberante, é neste momento a bandeira e farol da jovem Voge. 

Foto: Gonçalo Fabião

A 500DS monta num quadro tubular elementos de qualidade. O motor é um espartano bicilindrico em linha (Euro 5) com 471cc (47cv, 41Nm) podendo assim ser conduzida por cristão novos que chegam agora à “fé” do motociclismo. As suspensões são Kayaba (forquilha invertida na dianteira) e a travagem Nissin, sendo esta assistida por ABS Bosch. Ambas as jantes de 17’. 

O PRAZER DAS COISAS SIMPLES E EFICAZES 
A posição de condução é vertical, neutra e muito correta. Depressa nos familiarizamos com a moto. Apreciamos a elevada proteção aerodinâmica, podendo o ecrã ser regulado em altura de forma manual. Não apreciamos algum excesso de vibrações ao nível das peseiras – em especial quando rodamos em cidade com calçado mais leve -, o acabamento dos comandos e o painel de instrumentos que sendo completo é de difícil leitura nestes dias mais luminosos. 

Foto: Gonçalo Fabião

Todavia, estes aspectos a melhorar em versões futuras, são apenas detalhes que acabamos por esquecer face ao surpreendente prazer que a Voge nos oferece. O motor é vivo e disponível – podendo definitivamente a caixa ser mais longa nas suas primeiras relações – e a ciclística aprimorada. Facilidade de utilização, simplicidade e dinâmica são características que rapidamente qualquer motociclista, mesmo os menos experimentes, vão reconhecer na 500DS. A forquilha dianteira surpreende pelo conforto e assertividade; a travagem cumpre sem reparo a sua função e isso é muito bom. 

Foto: Gonçalo Fabião

Qualquer motociclista despido do negrume do preconceito vai encontrar aqui eficácia e mesmo prazer na condução. Já o motociclista preconceituoso vai ter de “despir o seu fato” para não ficar mal na fotografia, pois vai encontrar aqui uma moto objectiva que cumpre com muita eficácia as funções que lhe foram confiadas. 

BOA TAMBÉM NA CARTEIRA 
Para este ESCAPE, a Voge 500DS que agora chega até nós a um dos segmentos de mercado mais pujantes do momento, foi uma excelente surpresa. Leve – pouco mais de 200 Kg com um depósito de dezassete litros – e económica, ofereceu-me dinamismo urbano e prazer nas deslocações aos arredores da cidade. E não se “escondeu” quando foi chamada a momentos de condução mais apimentados, também porque vem bem calçada - Pirelli Angel ST. 

Foto: Gonçalo Fabião

A moto que pretende conquistar o segmento carta A2 tem um último argumento fortíssimo. Sorveu apenas quatro litros do preciso liquido feito a partir do sumo do dinossauro por cem quilómetros de boa disposição oferecida, solicitando a marca uma transferência de 6.395€ para levarem uma unidade para a vossa garagem. Notem que este preço pode ainda baixar para 5.945 em caso de promoção e para 5.295€ se optaram por uma das últimas unidades de 2020 – consultem a informação oficial da marca.
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