Ou como continuar a ser motociclista quando o inverno teima em te fechar a estrada.
Estamos no auge do inverno. Não do inverno bonito, fotogénico, instagramavel, feito de luz dourada, couro bem alinhado e cafés estrategicamente pousados no depósito. Esse já ficou para trás. Foi em novembro, quando as primeiras chuvas ainda davam vontade de publicar qualquer coisa.
Este é o outro inverno. O verdadeiro inverno. Chove há dias, o vento atravessa tudo. Chega mesmo a empurrar a tua moto como se tivesse opinião própria. O frio instala-se e a estrada deixou de ser cenário para passar a ser obstáculo. A comunicação social, sempre ridícula, chama-lhe comboios de tempestades, rios atmosféricos, fenómenos extremos. Nós chamamos-lhe inverno. Sempre existiu. Sempre fez isto. É apenas janeiro.
E janeiro tem este momento específico — quase silencioso — em que a farsa cai. Já ninguém finge que “até é engraçado andar de moto com este tempo”. Não é. O entusiasmo esgotou-se, a tolerância encolheu e o corpo começou a fazer contas. Todavia é também aqui que surge a constatação incómoda: ser motociclista não se resume a estar em cima da moto.
No surf existe o conceito de Mind Surf. Quando a vida ou o mar não permitem entrar — por ausência de ondas, excesso delas ou simplesmente porque a vida se impõe — o surfista continua a surfar na cabeça. Visualiza linhas, revê decisões, estuda picos. Não substitui a água. Mantém a ligação.
No motociclismo acontece exatamente o mesmo, embora raramente o assumamos. Chamemos-lhe Mind Motorcycle: a prática consciente de continuar a ser motociclista quando a estrada se encerra. Não é romantizar a pausa. É maturidade — mecânica, mental e cultural.
PRATICA O MIND MOTORCYCLE (SEM SAIR DA GARAGEM)
1. Voltar a percorrer estradas conhecidas — sem capacete
Rever trajetos feitos vezes sem conta, curvas mal lidas, zonas onde o ritmo falhou. Isto não é nostalgia: é auditoria. A condução começa muito antes do movimento.
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Quem acha isto irrelevante confunde instinto com acaso.
2. Estudar técnica de condução como quem ainda não sabe
Postura, visão, leitura de piso, gestão de aderência. Não atalhos nem slogans, mas compreensão real. O inverno é o melhor antídoto para o ego.
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Os bons reaprendem. Sempre.
3. Fazer manutenção com tempo — e respeito
Limpar, desmontar, observar, perceber. Ouvir a moto sem pressa. Há ligações que só se constroem quando o motor está desligado.
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Quem conhece a máquina toma decisões diferentes na estrada.
4. Rever escolhas passadas sem anestesia
A moto fazia sentido ou apenas sustentava uma ideia de ti próprio? Aquela modificação resolveu algo ou apenas alimentou vaidade? O inverno não mente.
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Desconfortável. Necessário.
5. Planear viagens futuras com realismo
Não listas de países nem mapas coloridos. Épocas, clima, desgaste, limites físicos. Sonhar sem método é só entretenimento.
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As melhores viagens começam na contenção.
6. Reavaliar equipamento e assumir erros
Luvas que falham, botas cansadas, impermeáveis que prometeram demais. O inverno expõe decisões mal tomadas.
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Muito do sofrimento em cima da moto é evitável.
7. Escrever sobre motociclismo — mesmo em silêncio
Organizar pensamento, fixar experiências, identificar padrões. Escrever obriga a clareza.
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Quem pensa melhor conduz melhor.
8. Conversar com outros motociclistas — sem encenação
Sem comparações inúteis, sem teatro, sem bravatas. Conversas honestas sobre limites, medo, prazer e erro.
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É aqui que a cultura se constrói.
9. Perguntar, sem rodeios, por que andas de moto
Mobilidade? Controlo? Estética? Silêncio? Solidão? Se não tens resposta, alguém vai impô-la.
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Este ponto incomoda porque desmonta ilusões.
10. Aceitar a pausa como parte do ciclo
Parar não é falhar. É compreender que o motociclismo é maior do que o momento. Quem não sabe parar raramente regressa melhor.
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Aqui mede-se maturidade.
QUANDO O TEMPO ABRIR
O inverno não mata o motociclismo. Mata a ideia simplista de que ele vive apenas na estrada. Quando o tempo abrir — porque abre sempre — haverá dois tipos de motociclistas: os que apenas esperaram; e os que usaram o silêncio para afinar tudo o resto. Na primeira curva, isso percebe-se. Sem necessidade de mais explicações.




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