segunda-feira, 22 de outubro de 2018

A estrada, a moto e o telefone esperto – Estrada Nacional 3


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Estrada Nacional 3 (N3)? Onde fica isso?? A questão é recorrente. Ao falar na “três” ninguém sabe dizer onde fica, para onde vai ou onde nos pode levar. Todos sabemos que a N1 (link) liga Lisboa ao Porto. Todos sabemos que a N2 (link) cruza o interior português de Chaves a Faro. Mas a três, a N3…, é a primeira das últimas, das abandonadas pelo Estado e esquecidas pela Lei. 

A Nacional 3 não é uma estrada qualquer. Mas as dúvidas dos meus interlocutores são legítimas. Não é fácil compreender onde o Estado perdeu a N3. O actual Plano Rodoviário Nacional parece indicar-nos que a N3 começa no Carregado e termina em Parceiros de São João, concelho de Torres Novas, Distrito de Santarém. Tomando como boa esta informação a estrada teria pouco mais de sessenta e cinco quilómetros. Todavia, o Plano Rodoviário que nos interessa (link) é o de 1945. E neste a N3 assume uma dimensão verdadeiramente Nacional ao ligar os arredores da capital do país ao Distrito de Castelo Branco. Rodas ao caminho antes que se faça tarde. 

O quilómetro zero da N3 encontra-se assinalado na vila do Carregado, vila plena de história e intimamente ligada à comunicação em Portugal. A primeira viagem feita de comboio em Portugal começou aqui; e aqui o serviço da mala-posta no século XIX encontrou importante entreposto. 

Os primeiros quilómetros da Nacional 3 são desinteressantes com a estrada a cortar paisagem incaracterística, desumanizada pela indústria. A zona da Azambuja apresenta-se como um dos troços de estrada mais perigosos de Portugal. Todavia, atravessada que seja Santarém - apesar de ser chamada de "Capital do Gótico" é hoje uma cidade com um mero vislumbre de todo o património arquitectónico que já possuiu - a estrada ganha dimensão rural e pitoresca quando sobe e desce as suaves colinas que deixam para traz a lezíria.

Já nos arrabaldes de Torres Novas, abandonamos o rumo Norte a passamos a viajar para nascente. A estrada beija o Tejo na sua margem direita e encontra um troço absolutamente bucólico na zona de Tancos e Constância, lá, onde o Zêzere encontra o Tejo. 

Mas a grande surpresa está reservada depois de ultrapassada a cidade de Abrantes. Ali a estrada começa a subir serra acima, por locais onde nunca passamos, cortando Mouriscas e Penhascoso até chegar a Mação. São mais de trinta quilómetros de estrada deserta com bom asfalto e centenas de curvas para todos os gostos. 

Quando finalmente começa diversão à grande, o inesperado acontece em Mação. A Nacional 3, de forma absolutamente misteriosa, desaparece. E tão misteriosamente como desaparece, volta a aparecer decepada pela A23 umas dezenas de montes e vales adiante, já na zona de Fratel, E vai enfim seguindo assim, esfacelada, até Castelo Branco. 

As Obras Públicas e o Legislador de 1945 quiseram com a Estrada Nacional 3 oferecer às populações uma via principal que estabelecesse uma diagonal fulgurante entre interior e litoral, Região de Castelo Branco e Capital, aproveitando o relevo do terreno ao mesmo tempo que conectava populações. O Legislador moderno e as suas vias rápidas contemporâneas lançaram com total desprezo a magnífica, por vezes linda, N3 para o caixote do lixo da história. Como seguramente tantas outras, hoje a N3 é lamentavelmente um corpo em acelerada decomposição.

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Quem, o quê, onde, como, quando e porquê – não necessariamente por esta ordem… 

A Estrada Nacional 3, também conhecida como “Estrada da Estremadura”, apesar de retalhada por juristas engenheiros e sobretudo por gente daquela classe imprópria para consumo a que chamam políticos, tem actualmente o seu início na Vila do Carregado e o seu términus algures a norte de Castelo Branco, presumivelmente na saída número 23 da A23 (é mesmo assim e não gralha). Foi por este ESCAPE percorrida em ambos os sentidos no início de Setembro de 2018 aos comandos de uma Ducati Scrambler 1100 que gastou cinco litros de líquido inflamável do bom por cem quilómetros de bucolismo e abandono. Se não for pelo seu valor histórico, a N3 é credora do nosso respeito, especialmente do Estado, pois dela se servem diariamente populações, algumas delas muito afectadas pelo drama dos fogos florestais do passado recente. A Nacional 3 apresenta ainda um potencial turístico relevante, totalmente desbaratado pelo Estado.

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