segunda-feira, 17 de maio de 2021

Ducati Multistrada V4 S à prova

Multistrada. Que é como quem diz em português, multi estrada. Multi vem do velho latim e exprime a noção de pluralidade, o maior número possível. Uma multidão, até. Estrada também deriva da velha língua morta e como bem sabemos é um caminho que atravessa determinada extensão territorial, ligando dois ou mais pontos, percursos através dos quais os veículos transitam. 

Foto: Gonçalo Fabião

Em 2003, faz agora precisamente dezoito anos, nasceu uma moto pensada, desenhada e construída com o objectivo de ligar o maior número de percursos possíveis. A infância até pode nem ter sido fácil, pois a “criança” apesar do apelido não terá nascido em berço de ouro. Já a educação foi de filigrana e a adolescência naturalmente irreverente. 

É verdade, o tempo passou e a Ducati Multistrada chega assim à maioridade, entrando na idade adulta, sendo esta a fase mais activa e produtiva da vida - pelo menos para nós seres humanos. Curiosamente, a nova Multistrada está consensualmente mais madura, sensual e até inteligente. Uma verdadeira Deusa: sedutora, enérgica, hedonista. 

Foto: Gonçalo Fabião

HARDWARE E SOFTWARE DE REFERÊNCIA 
Este ESCAPE não vai perder muito tempo com a forma e sim investir no conteúdo. A Multistrada da idade adulta é construída a partir de uma ideia de motor, o denominado V4 Granturismo - 170 cv e 125 Nm para cerca de 243 Kg com depósitos cheios. A electrónica tem um papel determinante e muitas soluções são inspiradas na competição de alto nível. Contem com modos de condução e com uma unidade de medição de inércia que auxilia na travagem em curva, controla o excessivo natural levantar inusitado da roda dianteira e ainda segura a moto em situações perversas activando o Vehicle Hold Control (VHC), oferecendo assim arranques mais fáceis, sobretudo em planos inclinados. 

Foto: Gonçalo Fabião

Até aqui nada de muito épico. Mas a Multistrada 2021 inscreve o seu nome a ouro na história do motociclismo ao se atrever a estrear, em motos de produção, o sistema de duplo radar (frontal e traseiro) que permite ao condutor desfrutar de ajudas fundamentais à condução como são os casos do cruise control adaptativo e da deteção do denominado “ângulo morto”. Confesso: fiquei rendido de forma instantânea a todo este admirável mundo novo. Princípios de segurança são sempre muito bem-vindos ao motociclismo. E neste caso serão – já estão, aliás – seguidos por outras marcas. Vamos pois ao que verdadeiramente importa, respondendo à questão, mas afinal ao que tudo isto sabe, oh ESCAPE? 

CIRCULATURA DO QUADRADO 
A Ducati Multistrada V4 S apresenta desde o primeiro momento uma leveza surpreendente. Parada, move-se com ligeireza e isso induz confiança imediata. A posição de condução é neutra, o que amamos. Na cidade em modo “urban” a moto flui surpreendentemente como se de uma média cilindrada se tratasse. Na estrada o modo “Touring” – aquele que mais usamos – revela afirmação e personalidade para as longas tiradas. Quando a estrada torce accionamos o apimentado modo “Sport” e aqui tudo acontece: a Multistrada revela toda a sua natureza de apaixonante super desportiva de referência apesar da sua arquitectura ser de Maxi Trail. E quando o asfalto termina? A tal pluralidade de caminhos de que vos falamos no início deste texto, e que está patente na nomenclatura desta Ducati, revela todo o seu esplendor. Ou seja, a tal super desportiva de aspectos trialeiro também se afirma em modo "Enduro" numa eficaz moto de qualidades “camperas”. 

Foto: Gonçalo Fabião

Obviamente motor e respectiva electrónica não vivem sós. Tudo aquilo é suportado por um sólido mas leve quadro em alumínio, suspensões semi-ativas Marzocchi orientadas pelo sistema Ducati Skyhook Suspension (DSS), travagem Brembo Stylema - com o disco traseiro a funcionar com uma eficácia soberba o que muito agradou este vosso “patudo” ESCAPE. 

SONHO ALPINO 
O terreno desta Ducati Multistrada V4 S é sem dúvida a aventura, em sentido lato. Uma aventura ecléctica e global. Nesta prova ficámos a sonhar levar esta moto por essa europa fora até encontrar uma entrada alpina. E aí ficar dias a fio a subir, descer e subir e descer uma e outra vez cols, passos e afins. É essa, a alta montanha em modo sport turismo, a derradeira fronteira desta avassaladora italiana. 

Foto: Gonçalo Fabião

Mas notem que o prazer tem um preço. Objectivamente não conseguimos aqui encontrar aspectos menos positivos e mesmo a jante dianteira 19’, não sendo consensual é, para nós, muitíssimo satisfatória. 

Já quanto ao consumo não podemos dizer o mesmo sendo mesmo communis opinio doctorum – já há muito tempo que não vos oferecia uma latinada – pela comunicação social europeia que os sete litros do combustível - feitos a partir do sumo do dinossauro - gastos são uma factura a ter em conta. 

Foto: Gonçalo Fabião

Há quem defenda que esta Ducati Multistrada V4 S é a melhor moto de estrada de sempre, sendo, neste momento, a derradeira moto sport-turismo. Não sabemos. Não conhecemos todas. Sabemos sim que estamos perante mais do que uma alternativa absolutamente credível quando o foco do motociclista é a viagem e o prazer. 

A nova Multistrada vem para desafiar e até bater os pontos cardeais do mercado, pedindo a marca italiana uma transferência de 22.195€ para que levem uma versão destas por esse mundo fora. 

Foto: Gonçalo Fabião

NOTA DO ESCAPE 
Como todos sabem, faleceu recentemente o nosso querido amigo Paulo Moniz, conhecido por ser a vida do Espaço Rod’aventura. Tive o privilégio de viver cerca de trinta anos com o Paulo sempre por perto. A tristeza é profunda. Se queremos honrar o Paulo só temos de viver o tempo que nos resta como ele sempre o fez: honestidade, paixão e motociclismo. Nesta prova envergo de forma orgulhosa o Scott Prority GTX em GORE-TEX laminado, equipamento pessoal do meu querido Paulo Moniz, que tanto teria adorado conhecer esta moto. Ride in Peace, Meu Querido…

quarta-feira, 12 de maio de 2021

BMW R nineT à prova

“Personalidade verdadeiramente artesanal” para que “cada curva te faça sentir mais vivo”. É assim, em bom português sem papas na língua, que a BMW Motorrad apresenta a sua roadster clássica. Minimal, avassaladora e apaixonante, acrescenta este ESCAPE. 

Como todos sabem a R nineT nasce em 2014. Nasce despida, clássica moderna, alma de petrolhead, corpo musculado e definido pelo ar dos tempos. Coração boxer, pulsante e pleno de personalidade. Hoje a R nineT é apenas um olhar de uma visão mais alargada da marca germânica: a gama Heritage. Motos avançadas tecnologicamente e que piscam o olho a um passado glorioso. Conhecer o passado para compreender o presente e perspectivar o futuro. Parecendo difícil não é nada fácil. 

BOXER COMO PRINCÍPIO E FIM 
No capítulo R nineT, a BMW hoje oferece para além da original, a Scrambler, a Pure e a Urban G/S. 

A este ESCAPE coube a sorte de conhecer a R nineT original nesta deslumbrante decoração que o instagram tanto amou. 

Esta Option 719 é na sua essência uma café racer minimalista e com enorme potencial de personalização, desenvolvida e fabricada, por um lado para ser vista e, por outro, para conferir prazer de utilização e condução superior ao seu ufano proprietário. 

Toda esta moto parece ter nascido em torno do clássico boxer - revisto para cumprir a norma Euro 5 - refrigerado por ar/óleo, aqui com 1170cc (109 cv, 116 Nm). 

O pequeno e sólido quadro, estrutura tubular em aço pintado a vermelho vivo, confere deslumbre ao conjunto ao mesmo tempo que o torna leve (apenas 222 kg com depósitos cheios). Numa palavra, estamos perante um objecto hedonista com um centro de gravidade muito baixo e fácil de entender

DETALHES DELICIOSOS 
Depois de admirada - aquelas jantes raíadas até podem não ser "pure" mas ficam lindas que doem e potenciam a harmonia do conjunto - os primeiros quilómetros revelam uma posição de condução clássica e confortável, apesar deste ESCAPE não ter morrido de amores por um guiador que me pareceu um pouco largo. 

A solidez do conjunto cedo se sente e não contem aqui com um conforto sublime. Esta é uma moto física pela sua natureza.

Viajamos com os elementos e amamos que assim seja. É a nossa escolha e estamos felizes. Bastante, mesmo

Mas as coisinhas boas que esta moto nos oferece não ficam por aqui. Tomem nota. Forquilha dianteira invertida totalmente ajustável - herdada da desportiva S1000RR - que torna o conjunto de uma agilidade e eficácia que nos faz sonhar com um ambiente controlado, uma pista, quero na verdade dizer. Travagem à elevada altura de todo o conjunto, auxiliada electronicamente pelo ABS Pro DBC, com controlo em curva monitorizado pela unidade de medição inercial. Por falar em electrónica, aqui podem contar contar com três modos de condução (Dyna, Road e Rain). 

E podem ainda contar com uma transmissão final por veio, que no fundo faz parte do sistema Paralever, que torna o eixo traseiro sublime e mostra ao mundo como é possível produzir uma moto soberba e de elevado prazer sem essa excrescência do século XIX chamada transmissão final por corrente. 


BECAUSE I´M HAPPY 
Nota final para um painel de instrumentos adorável: um velocímetro e um conta- rotações, separados, ambos redondos, pautados por um pequeno mostrador de cristais líquidos sóbrio e objectivo. 

Esta BMW R ninteT Option 719 encheu-me a alma de alegria, o corpo de sorrisos e o instagram de likes - o único aqui no ESCAPE que ficou triste foi o Gonçalo que, por razões de saúde, não a pode conhecer nem fotografar – tendo solicitado pouco menos de seis litros daquele líquido inflamável absolutamente vital à nossa salubridade por cem quilómetros de paixão. 

A BMW Motorrad solicita pela luxuosa versão provada um valor de 22.000€.

domingo, 9 de maio de 2021

Experiência Honda NC750X 2021

A Honda convocou os media especializados para dar a conhecer as novidades e alterações a uma das suas bandeiras: a popularíssima NC750X. E este vosso blogue de cultura motociclistica também esteve presente. 


Foi apenas a segunda vez que o ESCAPE teve a sorte de estar presente num evento desta natureza. A primeira vez tinha sido aqui (link) no Porto, já lá vão uns anos, a propósito da terceira geração de outra popular moto da marca nipónica, a Honda PCX. 

Estes são momentos intensos. Uma experiência é um ensaio ou uma simples tentativa. O acto de experimentar é ainda um momento de receber, sentir, ter. Nas esperanças que existam mais momentos como o de hoje (quinta feira da semana passada), estes passam a ser denominados neste ESCAPE como “experiência”. Na verdade, se passado algum tempo até nos olvidamos de determinada moto, nunca mais nos esquecemos destes dias. Pelo carinho, estrada, paisagem, cheiros, sabores e demais sensações vividas. 


Para além disso o ESCAPE conta ter a neófita NC em breve para uma prova mais sossegada e cuidada. Assim, fiquem apenas, para já, com o sentimento de um dia assim. Um dia de motociclismo tão glorioso como o céu azul que as imagens do Manuel Portugal revelam, dia marcado pelo ar limpo e o intenso odor a Atlântico que nos inebria os sentidos. 

UM DIA GLORIOSO
Começou então o momento numa unidade hoteleira entre Sintra e Cascais com um o pequeno-almoço que se impõem nos dias intensos. Após um breve briefing sobre a moto em causa, saímos para a estrada. Curvas da Lagoa Azul, Sintra, até à Malveira da Serra, seguindo-se a primeira paragem para recolha de imagens, no eterno Guincho. Dali até Cascais foi um salto. Para mais recolha de imagens. Depois, a não menos eterna Estrada Nacional 6 (link), a Marginal, linda, vestida de azul infinito. Lisboa ribeirinha, menina e moça e a travessia para a margem sul até Sesimbra, onde rumámos à clássica Arrábida. Lá de cima a vista é incrível: dos montes do Oeste e Montejunto até à linha de costa a perder de vista. Par o interior até ficamos com a sensação de vislumbrar Espanha: dia épico! 


Recolhidas mais imagens, almoçamos em Setúbal. E uma surpresa: uma visita a um muito especial museu Honda onde repousam centenas de motos da marca nipónica. Um conteúdo que merece um novo espaço mais amplo e um tratamento científico e museológico. 

ACTUALIZADA PARA CONTINUAR A LIDERAR 
Dia intenso, como podem ler. Tal como a nova NC750X. Um dos modelos versáteis favoritos de portugueses e europeus, recebeu uma renovação total: motor com cerca de cinco por cento de mais mais potência, sistema de acelerador eletrónico (TBW – Throttle By Wire), três modos de condução e sistema HSTC de controlo de binário melhorado e alargado. Este é equipamento de origem, tanto na versão de caixa manual, como na versão DCT da NC750X, oferendo agora uma operação mais suave e um controlo refinado, pois permite gerir o binário da roda traseira, graças ao sistema TBW, em 3 níveis, em vez de só 2.


A economia de combustível mantém se ou até talvez tenha melhorado e o conjunto apresenta menos 6 kg no peso total. O quadro foi redesenhado permitindo um desenho e estilo mais apurados. O compartimento frontal é agora maior e a altura do banco de menos 30 mm face ao modelo anterior. A Transmissão de Dupla Embraiagem continua a oferecer a tecnologia exclusiva da Honda para veículos de duas rodas. Encontramos ainda um novo para-brisas. A iluminação LED e os instrumentos LCD completam as actualizações feitas para manter a liderança no seu segmento. 


Mas afinal a que tudo isto sabe, oh ESCAPE? A Nova NC, “New Concept” é uma moto fácil de conhecer e fácil de entender. A habitabilidade é simples mas eficaz. Os primeiros metros revelam um conjunto leve, suave e dócil que satisfaz o comum motociclista dos tempos que correm. Aquele que precisa de se desenrascar no trânsito citadino durante os seus afazeres no dia a dia. 

EFICÁCIA E ECONOMIA QUE SURPREENDEM 
A viagem revela também uma moto suficientemente divertida para um passeio longe de casa. Fiquei com a sensação que o conforto pode ainda melhorar, apesar da boa protecção aerodinâmica. A moto revela um comportamento algo rijo; naquele local onde o rabo assenta a sensação podia ser mais fofinha, digamos. O motor é alegre, o DCT está cada vez mais competente. A travagem é também ela positiva. E os consumos são absolutamente maravilhosos. Não gastamos neste dia intenso muito para além do que a marca revela, ou seja pouco mais de três litros e meio do tal líquido inflamável que tanto adoramos. 


Esta Honda NC750X já esta em comercialização e pode ser levantada em troca de uma transferência bancária de 8.300€, versão caixa manual, ou 9.200€ na versão DCT que seria claramente a escolha deste ESCAPE

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Honda Forza 125 à prova

Este ESCAPE, há duas semanas, andou a provar a nova versão da Forza 125 da Honda, uma scooter distinta e com detalhes de moto superior. Eu, gostei tanto que decidi ser tempo de abandonar a PCX como “cavalo de batalha” urbano. Foram oito anos maravilhosos, duas motos, mas chegou o tempo de algo mais. Nem mais nem menos: cá na garagem já mora uma nova Honda Forza 125. Já a Susana Pereira (She’s 2 Wheeled), que assina esta prova com imagens de Gonçalo Fabião, revela um pouco mais de si mesma ao mesmo tempo que sente a nova Forza “pronta para os desafios da selva urbana”. 


Quando vim morar para Lisboa há uns anos atrás, uma das coisas que me fazia alguma confusão era o trânsito caótico, sobretudo em horas de ponta. Apesar de ter a carta de condução desde os 18 anos, só recentemente havia adquirido um carro e como tal, era muito “verdinha” a conduzir, por isso levei algum tempo a trazer o carro para a capital e a aventurar-me no trânsito citadino. Senti-me como que atirada aos leões; mas esta selva urbana acabou por ser uma excelente escola. Quando anos mais tarde resolvi concretizar o sonho de miúda de tirar a carta de motociclos e comprar uma moto, tive novamente os mesmos receios. A condução na cidade, com o seu tráfego intenso e muitas vezes complicado, consegue ser bastante desafiante, sobretudo de moto, uma vez que estamos mais expostos e vulneráveis. 

A SCOOTER COMO RESPOSTA EFICAZ AO DESAFIO DA MOBILIDADE
Os “enlatados”, como eu chamo aos condutores dos carros, vão tantas vezes completamente absorvidos na sua bolha que nem reparam nas motos, ainda meio que adormecidos em plena hora de ponta, ou distraídos pelos tantos dispositivos de que dispõem no seu cubículo. Se de carro é preciso ter atenção, de moto é preciso ter “sete olhos” para antecipar qualquer manobra repentina ou obstáculo. Sempre que conduzo na cidade de moto, dou por mim em completo modo fight or flight, no entanto, tem as suas vantagens, nomeadamente o ser mais fácil e rápido de chegarmos onde pretendemos.


A resposta ao congestionamento do tráfego urbano por esse mundo fora poderia muito bem passar pela criação de políticas de promoção do uso da moto em detrimento do carro. Um estudo levado a cabo pela consultora belga Transport & Mobility Leuven, concluiu que uma ligeira mudança na composição do tráfego dos carros para as motas, reduz significativamente tanto a questão do congestionamento, como a questão das emissões, sendo esta última bastante pertinente nos dias de hoje e que consta dos objectivos da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, bem como da norma europeia Euro5, em vigor desde o início de 2020 e pela qual todas as motos têm que ser homologadas. 


As scooters são sem sombra de dúvida uma excelente opção para enfrentar o trânsito na cidade e a nova Honda Forza 125 é um bom exemplo disso, graças à sua elevada performance, sendo líder na sua classe desde o seu lançamento em 2015. 

CONFORTO DE TOPO 
Uma das primeiras coisas de que me apercebi ao conduzir esta scooter GT desportiva da Honda, foi o conforto que proporciona, bem como a sua eficácia aerodinâmica, tendo sido (este novo modelo) alvo de alguns ajustes cosméticos no que respeita à carenagem frontal, aos painéis laterais e traseiros, passando pelos espelhos e a própria cobertura do motor. 


Este modelo vem equipado com um painel de instrumentos mais clássico e simétrico que combina o digital com o analógico, pormenor que eu apreciei bastante, mas que poderá não ser do agrado dos mais aficionados das modernidades digitais. Dispõe ainda de iluminação LED premium que assegura uma presença distinta e boa visibilidade nocturna. 

DETALHES QUE CONTAM 
A carenagem frontal, para além de oferecer uma melhor aerodinâmica, proporciona também uma excelente protecção do condutor, aliada ao renovado para-brisas eléctrico extensível, com 40mm extra, 180mm no total, que eu adorei, maximizando assim a protecção contra o vento, chuva e ruído, proporcionando mais estabilidade e conforto, sobretudo a maiores velocidades. 


A Forza 125, à semelhança de outros modelos da marca, vem com o sistema Smart Key que permite manter a chave guardada no bolso, enquanto se acciona o motor, abre o assento, ou se bloqueia e desbloqueia a Smart Top Box de 45L, esta opcional. No porta-luvas podemos encontrar uma entrada USB Tipo C para carregar dispositivos, pormenor que parece começar a ser quase que obrigatório, tal é a nossa dependência nos telemóveis e afins. Uma particularidade interessante neste pequeno espaço, é a possibilidade de se poder colocar uma pequena garrafa de água, que a meu ver dá imenso jeito, pois ando sempre com uma por perto. 


Apesar do seu aspecto mais desportivo e agressivo e do potente desempenho do seu motor, relativamente a outros modelos da Honda, a Forza 125 não deixa de ser elegante e cheia de charme, oferecendo uma posição de condução espaçosa e bastante confortável, mesmo para o pendura. Sendo uma scooter um pouco mais alta, os condutores mais baixos poderão não se sentir tão confiantes quando têm que parar. No meu caso, com os meus fantásticos 168cm, de cada vez que tinha que parar, ficava em pontas feita bailarina, o que não dá muita confiança. No entanto, é bastante fácil de manobrar à mão ao estacionar (162kg), aumentando também a sua agilidade e facilidade de utilização. É uma moto que responde facilmente ao rodar do acelerador e oferece confiança nos pisos mais degradados ou escorregadios, oferecendo uma boa tracção, com o benefício do ABS para um controlo de travagem extra, dando confiança até aos menos experientes. 

MAXIMIZADORA DE UTILIDADE 
Por baixo da sua nova roupagem, o chassi mantém-se inalterado, sendo que o motor de 15cv se adaptou à nova norma Euro5, tornando-o menos poluente e mais eficiente. A Forza 125 dispõe também do controlo de binário seleccionável da Honda (HSTC), a nova funcionalidade aplicada ao redesenhado e renovado motor eSP+ (enhanced Smart Power Plus) de 4 válvulas refrigerado a líquido, bem como o sistema de Idling Stop, que desliga o motor quando parado mais de 3 segundos, poupando combustível e reduzindo as emissões, bastando acelerar de novo para o motor regressar à vida, podendo ainda verificar-se o estado da carga da bateria. 


Na minha opinião, uma das mais-valias da nova Forza 125, é sem dúvida o espaço de armazenamento debaixo do assento, que me surpreendeu pela positiva, permitindo guardar o meu capacete e o meu saco do ginásio, ou até mesmo 2 capacetes integrais, incluindo uma pequena divisória para bolsas mais pequenas ou objectos soltos. 


ECONOMIA E AUTONOMIA SURPREENDENTES 
Outro dos pontos fortes é a sua autonomia que é bastante generosa, cerca de 480 quilómetros para cada depósito de 11,7L, graças à eficiência no consumo de combustível do motor que assegura um consumo de 2,3L/100KM. Durante os dias em que testei a Forza 125, os meus consumos rondaram os 1,9 litros, números bastante simpáticos. Engraçado pensar que apenas um depósito me levaria à minha terra no Douro, já o mesmo não posso dizer da minha moto. 


A Honda Forza 125 foi mais uma bela surpresa nesta minha exploração pelo universo scooter e partilha com as minhas anteriores experiências a comodidade, a funcionalidade e agilidade com que se conduz, combinando a performance, o estilo e conforto de uma Grand Touring com a natureza oferecida pelas motos mais pequenas, tanto a nível da facilidade na condução, como do seu manuseamento, proporcionando uma condução prazerosa e eficiente.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Aprilia Tuono 660 à prova

Thunder! 6 de julho de 1996. Estádio do Restelo em Lisboa. Uma multidão - há quem fale em cinquenta mil pessoas - aclama os, já naquele tempo, velhos AC/DC. Foi naquela quente noite de verão dos gloriosos anos 90, o primeiro concerto da consagrada banda em Portugal. E, por incrível que possa parecer, seguramente um dos últimos concertos a que assisti. 

Foto: Gonçalo Fabião

Thunder! Eu adoro música ao vivo e confesso que a minha carreira de festivaleiro terminou antes de começar. Naquele tempo assistamos a um concerto como se de um cerimonial se tratasse, tão raro era o fenómeno. Depois a cena azeitou, digamos. E hoje as pessoas vão a um concerto por variadíssimas razões, sendo a música, em regra, a última delas. Foi tão inesquecível aquele primeiro concerto em Portugal da banda de Sydney, que até se tinha varrido da minha memória ter sido a primeira parte feita por um tal de Joe Satriani, o inconsequente mago nova-iorquino da guitarra eléctrica. 

Rode down the highway 
Broke the limit, we hit the town 
Went through to Texas, yeah, Texas 
And we had some fun 
We met some girls Some dancers who gave a good time
Broke all the rules, played all the fools 
Yeah, yeah, they, they, they blew our minds 

Thunder! Impossível esquecer a energia deste clássico do rock and roll assim que me apercebi que a Tuono é isso mesmo: um trovão. Sim, eu sei. É daquelas coisas parvas. Mas quanto da vida no geral e do motociclismo em particular não é feito de coisas parvas? 

Foto: Gonçalo Fabião

Thunder! A Tuono 660 da Aprilia não me levou ao Texas (“yeah, Texas”) nem me ofereceu “some dancers who gave a good time”, mas ainda teve tempo de me colocar a tremer – e não foi apenas os joelhos – nalguns momentos de condução mais afiada. Thunderstruck, diria? Lá iremos… 

DESPIDA MAS POUCO
A Aprilia Tuono 660 é uma espécie de irmã mais nova da Aprilia RS 660, recentemente provada aqui (link) por este ESCAPE - moto que me fez viver dias de sonho e me fez questionar se estava perante engenharia ou relojoaria. E, como qualquer irmã mais nova que se preze, apresenta-se com um traje diferente – neste caso de menores dimensões – e mais civilizada que a mana mais velha. E também, digamos, um nada mais easy going

Foto: Gonçalo Fabião

Este ESCAPE confessa a sua perplexidade quando vê que alguns teimam apelidar esta Tuono 660 de moto despida. Como compreender tal qualificação se estamos perante uma moto com alguma protecção aerodinâmica? E mesmo detentora de apêndices aerodinâmicos que manifestam a sua presença a certas velocidades, fazendo desta uma moto bem mais equilibrada e eficaz do que uma naked pura e dura.

Foto: Gonçalo Fabião

A Tuono 660 é estrutural e mecanicamente muito idêntica à sua mana, RS660. Quadro de dupla trave em alumínio onde o motor bibilindrico, aqui com 95 CV, se assume como elemento da estrutura, sendo o braço oscilante assimétrico. Tudo a pesar 183kg em ordem de marcha. E mantém boa parte da luxuosa electrónica Aprilia - aqui o aPRC oferece cinco modos de condução (incluindo dois modos para os dias de pista); dois dos quais totalmente personalizáveis, controlo de tracção ajustável em oito níveis, sistema anti levantamento da roda dianteira ajustável em três níveis, três modos de potência do motor, ajuste independente do efeito travão motor, e ainda "cruise control" para aqueles momentos de condução mais sossegada. 

Foto: Gonçalo Fabião

Notem, contudo, que a Tuono 660 não conta com a unidade de medição inercial, num esforço legítimo de suavizar o preço final, tendo ainda assim, como objectivo último oferecer um conjunto que se assuma como referência perante a feroz concorrência. 

DÓCIL E CONFORTÁVEL 
Estranho, muito estranho mesmo…, é o guiador que a Tuono 660 apresenta. Esteticamente desenquadrado do conjunto, acabamos rapidamente por claudicar nas dúvidas perante a posição de condução dócil e confortável que ajuda a oferecer. Estamos na verdade face àquele clássico: primeiro estranha-se e depois entranha-se. 

Foto: Gonçalo Fabião

Confesso. Foi, todavia, impossível esquecer a RS nesta prova a Tuono. Apesar da alma desportiva a dimensão humana mantém-se. Sentimo-nos seguros e capazes face ao conforto oferecido pela posição de condução e por toda a ciclística afinada. Desejamos mais motor a rotações mais baixas e vertemos uma lágrima pela ausência do quickshift que lança a RS no caminho da perfeição. Mas lá está. Será pueril ambicionar o melhor de dois mundos. E para ter uma moto a um preço mais simpático, devemo-nos satisfazer com o que a nossa carteira pode pagar. E que fique claro, a Aprilia Tuono 660 tem tudo para nos proporcionar momento de prazer intenso satisfazendo ainda aqueles que optam por uma posição de condução mais conservadora e que ainda assim nos pode conduzir a dias de pista emocionantes. 

ATORDOADO 
I was shakin' at the knees 
Could I come again, please? 
Yeah, the ladies were too kind 
You've been thunderstruck, thunderstruck 
Yeah, yeah, yeah, thunderstruck 

Foto: Gonçalo Fabião

Thunderstruck, disse. Numa tradução livre: atordoado, assombrado, estupefacto. Já tinha acontecido com a RS 660 e voltou a suceder com o pequeno trovão de Noale – caso ainda não tenham dado conta eu sublinho: Tuono é uma palavra italiana que quando traduzida para a nossa língua designa trovão. Um flash intenso e pouco guloso que pediu nesta prova quatro litros e meio do tal líquido inflamável do preço do ouro, carregadinho de impostos, por cem quilómetros de hedonismo. A Aprilia solicita 10.990€ para levarem este trovãozinho simpático para vossa casa.

domingo, 18 de abril de 2021

Honda PCX 125 2021 à prova

Susana Pereira é She’s 2 Wheeled. Foi apresentada aqui (link) neste ESCAPE. É agora tempo de assumir que este blogue de cultura motociclistica está cada vez menos pessoal e cada vez mais passional. À colaboração ímpar do Gonçalo na imagem, juntamos agora a colaboração da Susana na escrita. Apesar do seu sorriso bonito, a Susana não está cá por esse motivo, ou pelo menos apenas por esse motivo. Está cá porque adora motos, motociclismo e viagens e, acima de tudo, porque escreve bem e de forma comprometida com o motociclismo. 

Ora leiam lá a sua visão da novíssima versão de uma das motos mais marcantes da última década no mercado português. Chave no bolso e GOOOooo!!! Com fotos de Gonçalo Fabião. 


Curiosa, entusiasmada e expectante, assim fiquei quando recebi o desafio para ir experimentar a tão popular Honda PCX 125, isto porque ela está para as scooters como o Taj Mahal para a Índia. Desde o seu lançamento em 2010, a Honda vendeu mais de 140 000 exemplares deste modelo na Europa, um número que impressiona. Que privilégio! Não é todos os dias que temos a oportunidade de passear com uma celebridade. Queria saber quais as razões de tanto sucesso! Desafio aceite! Capacete, check! Luvas, check! Nervoso miudinho, check! Vamos a isso! 

FACILIDADE COMO PALAVRA-CHAVE 
É a minha segunda vez numa scooter e confesso que continuo a sentir a mesma estranheza assim que me sento e arranco. Estranheza na leveza, estranheza na fácil manobrabilidade, estranheza no baixo centro de gravidade, estranheza no facto de não ter que me preocupar com pontos de embraiagem ou mudanças, estranheza na facilidade com que se conduz. Mas como diz o slogan do poeta Fernando Pessoa, “Primeiro estranha-se, depois entranha-se!” E assim foi! Não tardei a andar de sorriso rasgado de tão deliciosa e fluída que é a condução da Honda PCX 125


Muita gente parece ter uma espécie de aversão às scooters, eu própria nunca me senti seduzida por elas, confesso. No entanto, dou o braço a torcer, e admito que este género de moto é sem dúvida ideal para a condução na cidade. Extremamente leve – 130kg - e fácil de manobrar à mão, mesmo para uma miúda como eu, e muito prática para se chegar a qualquer lado nas nossas rotinas do dia-a-dia citadino, conseguindo sempre um lugarzinho para a estacionar, tal é a facilidade de a enfiar literalmente em qualquer cantinho, mesmo para mim que sou muito esquisita nos lugares onde estaciono. 

UM JOGO DE ADAPTAÇÃO, AGILIDADE E DIVERSÃO 
A Honda PCX 125 é realmente um regalo de conduzir e facilmente a pessoa se adapta. Detentora de uma estética urbana e dinâmica, com linhas futuristas que se evidenciam no design dos seus faróis e piscas LED, os quais proporcionam uma boa iluminação nocturna, esta mota tem tanto de ágil como de divertida. Tem uma posição de condução bastante confortável e relaxada, possibilitando esticar as pernas, quase parecendo que nos estamos a sentar confortavelmente no sofá lá de casa para ver um filme, só que neste caso, nós estamos a viver o filme e somos os protagonistas. 


O facto de possuir pneus de medida superior também permite mais segurança e conforto na condução. Esta é uma mota em que facilmente se chega com os pés ao chão, dando confiança aos menos experientes e proporcionando uma condução agradável e segura.


São de realçar algumas características interessantes, nomeadamente o sistema Idling Stop, pioneiro desde 2010, e que permite uma redução simpática no consumo de combustível, respondendo depois muito bem ao toque do acelerador quando arrancamos, mesmo em subidas inclinadas

TECNOLOGIA ÚTIL 
Esta nova Honda PCX125 dispõe ainda de sistema contactless ‘Smart Key’, em que apenas necessitamos de andar com a chave no bolso e não temos que nos preocupar mais com ela, quer queiramos accionar a ignição como para aceder ao espaço de arrumação existente por baixo do banco, que é fabuloso - 30,4L - permitindo arrumar o meu capacete modular, sobrando ainda espaço para muito mais. No entanto, uma dica importante. Nunca colocar a chave na mala e de seguida colocar a mesma debaixo do banco, apesar de óbvio pode bem acontecer aos mais distraídos e será uma chatice.


Este modelo conta também com uma tomada USB, incorporada no porta-luvas, para permitir carregar dispositivos, o que nos dias de hoje dá sempre muito jeito. Dispõe também pela primeira vez neste modelo, do sistema HSTC (Honda Selectable Torque Control), ou seja o sistema de controlo de tracção seleccionável da Honda. Outro pormenor que achei bastante engraçado e muito prático, foi a existência de um pequeno suporte para a tampa do depósito de combustível, assim não corremos o risco de não sabermos muito bem onde o colocar, bem como o risco de o perder. 


Como aspectos menos positivos, tenho a apontar o facto de se sentir tanto os buracos como as lombas, sobretudo como é óbvio, se a velocidade for maior e também achei que poderia oferecer uma maior protecção contra o vento. 

UMA MOTO QUE DESEMPENHA UM PAPEL ACTIVO NA SOCIEDADE 
De facto, posso dizer que fiquei rendida à Honda PCX 125, tanto em termos da sua estética como da sua condução e praticabilidade. A sua fama de facto a precede! Permitam-me até que faça uma analogia acerca da popularidade deste modelo. O escritor, filósofo e dramaturgo francês Jean-Paul Sartre, maior expoente da filosofia existencialista, parte do princípio que a existência precede a essência. 


Com isso, quero dizer que primeiro a Honda PCX 125 existe no mundo e só depois se define e realiza pela sua performance no dia-a-dia e pelas respostas aos desafios que lhe são propostos, aos quais tão bem responde. Assim, posso afirmar que o balanço a este desafio de a experimentar é bastante positivo.

terça-feira, 6 de abril de 2021

A estrada, a moto e o telefone esperto – Estrada Nacional 116

Mafra, manhã do dia 5 de Outubro do ano de 1910. Uma revolução organizada pelo Partido Republicano Português, iniciada no dia 2 de Outubro e vitoriosa na madrugada desse mesmo dia 5, destituía a monarquia constitucional, implantando o regime republicano que hoje vigora em Portugal. 

Naquela manhã cinzenta, o Rei decaído procurava um modo de chegar ao Porto, acção complexa de levar a cabo por terra devido à paupérrima, mas ainda assim eficaz acção dos revolucionários. A solução aparece quando chega a notícia de que o iate real "Amélia" fundeara ali perto, na Ericeira. Tendo a confirmação da proclamação da República e o perigo próximo da sua prisão, D. Manuel II decide embarcar com o objectivo de se dirigir ao norte de Portugal. 

Foto: Gonçalo Fabião

A família real dirigiu-se então à Ericeira de onde, com recurso a dois barcos de pesca e perante os olhares de numerosos curiosos populares – como mostram as imagens da época -, embarcaram no iate real. Aí, D. Manuel II, terá sabido que também o Porto tinha aderido à causa republicana. O local de destino escolhido para esta atabalhoada missão de fuga acaba por ser Gibraltar. Nobre, D. Manuel ordenou que o navio, por ser propriedade do Estado português, voltasse a Lisboa. O Rei deposto, no entanto, viveria o resto dos seus dias no exílio. 

Foi assim, por aqueles caminhos, de Mafra à Ericeira, trajecto hoje parte integrante da Estrada Nacional 116 (N116), que desta maneira tremenda, quase trágica, terminaram setecentos e sessenta e sete (767) anos de Gloriosa História de Portugal. Parece impossível? Mas esta é uma página da História de Portugal. E quantas estradas assim encontramos na nossa vida? Pequenas, escondidas, empobrecidas e até abandonadas. Todavia inesquecíveis. 

NEBLINAS MATINAIS 
A Estrada Nacional 116 nasce pois na Ericeira. Naquela que é, provavelmente, a rotunda mais bonita de Portugal (se é que tal coisa pode existir), rotunda essa que mergulha cabeça tronco e membros na frescura do atlântico e intercepta a Nacional 247, uma das mais belas estradas costeiras aqui do rectângulo. Será caso para dizer que até para ser estrada há que ter sorte ao nascer?

Foto: Gonçalo Fabião

Dali, a N116 parte para o interior e logo atravessa a localidade do Sobreiro, muito popular entre os alfacinhas pela sua Aldeia Típica José Franco. Construída pelo oleiro com o mesmo nome, ali encontramos algumas construções que visam representar as ocupações típicas do Portugal de antanho em cenários de miniatura, com os respectivos instrumentos de trabalho. É um verdadeiro museu etnográfico e popular que vale a paragem e a visita para quem aprecia tais manifestações culturais. 

Até Mafra e ao cruzamento com a Estrada Nacional 9 (link) é um instante. A Vila e o seu monumental Palácio Nacional são conhecidos por todos e desta vez paramos só para a foto fácil. Abandonada Mafra a estrada mantém o seu perfil descaracterizado. Só um par de quilómetros mais adiante, já no troço que nos conduz à Malveira e ao encontro com a Estrada Nacional 8 (link), com a qual partilha algumas centenas de metros, recupera a alma de velha Estrada Nacional que suavemente acompanha o relevo do terreno. 

Foto: Gonçalo Fabião

QUANDO A ESTRADA ENSINA 
Chega enfim o melhor do que esta curta estrada tem para nos oferecer. Ultrapassada a disforme localidade de Venda do Pinheiro, entre Vale de São Gião e Bucelas, vamos encontrar cerca de uma dezena de quilómetros de asfalto de qualidade, pouco tráfego e sobretudo curvilíneas formas desenhadas no traçado que nos vão fazer sorrir e respirar fundo de prazer quando chegamos à auto-proclamada Capital do Arinto. 

Gostam de vinho? Este ESCAPE adora. Com moderação. Mas confessa que até este momento desconhecia que o Arinto é mesmo uma casta originária daqui, deste ponto da estrada onde estamos, Bucelas, concelho de Loures, distrito de Lisboa. 

Foto: Gonçalo Fabião

Também designada por Pedernã na região norte de Portugal, a casta arinto é uma uva de cor verde-amarelada, de bago pequeno/médio e arredondado e de sabor e aroma citrino. 

Sendo de maneira geral cultivada em todas as regiões de Portugal, é, todavia, em especial nas encostas de Bucelas - que formam um microclima com grandes variações diárias de temperatura, na época de maturação das bagas, e que lhes confere um especial sabor – que encontramos a sua “casa”. Ainda que mal, podemos comparar o arinto a um Riesling, Pinot Blanc ou mesmo ao seco Chenin Blanc. 

GRANDE FINAL 
É assim a vida…, uma estrada que nem aos cinquenta quilómetros chega, esquecida nas “traseiras” da capital, e com tanto para contar. Abandonamos Bucelas e o peculiar e estreito cruzamento com a “Rainha do Oeste” - a irmã Nacional 115 que podem conhecer aqui (link) – e continuamos a rumar a leste para mais uma pequena surpresa.

Passadas que sejam as encostas da Quinta da Romeira podemos encontrar uma acanhada estrada de terra, junto ao Morgado Lusitano, que nos convida a sair do asfalto. Sem temor devemos aceitar o convite. É um par de quilómetros que deve ser feito com a devida precaução em especial na sua zona final e inclinada. 

Foto: Gonçalo Fabião

O marco geodésico que vamos encontrar é a cereja no topo deste verdadeiro “petit gateau” que é a Estrada Nacional 116. Dali, temos uma vista soberba de toda a região, para norte os montes do Oeste, para sul o Tejo e a lezíria lá até onde a vista alcança. Aos nossos pés espalham-se as ruínas Forte da Portela Pequena, obra das Linhas de Torres - o maior e mais eficaz sistema defensivo da Europa. De formato em undecágono, integrava a denominada segunda linha de defesa das Linhas de Torres Vedras, tendo por objectivo bater a via que ligava São Tiago dos Velhos e o Casal da Portela, no sopé da Serra da Aguieira e Portela Pequena, bem como, alguns pontos da antiga Estrada de Alverca entre o referido Casal, a Romeira e a subida da Serra. Por incrível que no local nos pareça, este Forte do qual hoje só restam vestígios contava com 350 homens de Infantaria e 6 peças de Artilharia pesada.

Rica e intensa a Estrada Nacional 116 está a chegar ao fim. E a sugestão que este ESCAPE vos deixa é muito simples. Chegados que sejamos, em Alverca, à rotunda que encontra a Nacional 10 (link), voltemos para trás de regresso à frescura do atlântico na Ericeira. Acreditem que o caminho inverso vos vai parecer uma estrada substancialmente diversa daquela que agora acabaram de percorrer. 

Foto: Gonçalo Fabião
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Quem, o quê, onde, como, quando e porquê – não necessariamente por esta ordem 
A Estrada Nacional 116 - percorrida por este ESCAPE no verão passado aos comandos da Kawasaki Versys 1000 SE (link) e fotografada pela lente do Gonçalo Fabião - não é mas podia muito bem ser conhecida qualquer coisa como a “A Última Estrada do Reino de Portugal”.


A N116 encontra o seu início na deliciosa e atlântica velha vila da Ericeira, hoje primeira Reserva Mundial de Surf da Europa e segunda do Mundo. O episódio da fuga de D. Manuel II para o exílio, da Praia dos Pescadores, tornou-se num marco da história da vila que deve o seu nome à lenda que dita a sua origem enquanto "terra de ouriços", devido aos numerosos ouriços-do-mar que abundavam e ainda habitam algumas das suas praias. Sem glória, podemos encontrar o terminus desta icónica estrada numa rotunda em Alverca do Ribatejo que intercepta a Estrada Nacional 10 também ela já percorrida por este ESCAPE. 

Apesar de olvidada por quase todos, a N116 desempenha ainda hoje papel importante no desenvolvimento social e económico das populações que serve. Da fresca, sonora e intensa maresia do atlântico ao Tejo largo que se aproxima dramaticamente da sua foz, cruza os seculares montes do Oeste numa diagonal fulgurante que beija outras belas Estradas Nacionais da região entre elas a 247, 9 (link), 8 (link), 115 (link) e 10 (link). 

Se localizada noutras paragens deste nosso globo terrestre, teria por certo outro destino que não a ignorância e o esquecimento, tantos os episódios históricos que tem para contar.

domingo, 4 de abril de 2021

Piaggio Beverly 300 à prova

Tabu. Palavra de origem obscura, ou seja, origem pouco clara ou mesmo confusa. Entre outras coisas mais que não nos dizem respeito, tabu é um medo ou proibição de natureza que pode ser religiosa. Um assunto que não se pode ou não deve falar, interdito, proibido. Falar de scooters entre motociclistas é um verdadeiro tabu. É, não é? 

Foto: Gonçalo Fabião

Se por um lado há cada vez mais motociclistas experientes que escolhem a scooter como veiculo diário urbano e até extra-urbano, por outro, muitos ainda vilipendiam esta maravilha do motociclismo. Os primeiros, os sábios a quem a experiência oferece a scooter como solução, evitam falar da sua racional escolha. Os segundos, os ignorantes, são apenas isso, fanfarrões de conhecimento e formação insuficiente. Uma coisa tem em comum: evitar falar de scooters. 

Foto: Gonçalo Fabião

Este ESCAPE não gosta de scooters. Este ESCAPE adoraaaaaaaaaa scooters. Pela sua simpatia, pela sua ligeireza, pela sua facilidade de utilização, pela sua beleza, pela sua economia. Bolas. Quantos argumentos são precisos para amarmos estes doces veículos. 

SEDUTORA DE CLASSE 
Rinaldo Piaggio fundou a sua companhia de locomotivas e vagões – seja lá o que isso for – em 1884. Em 137 anos a Piaggio, de aviões a funiculares, já construiu um pouco de tudo. Curiosamente é a eterna Vespa o veículo mais conhecido da muito italiana Piaggio. A mesma Piaggio que nos oferece esta contemporânea Beverly, que vai ao novo mundo, arredores de Los Angels, buscar o seu nome.

Foto: Gonçalo Fabião

A Beverly não é propriamente uma novidade. Todavia, face à norma EURO 5, o gigante italiano decidiu atualizar profundamente uma scooter de enorme relevância no mercado europeu. Se na Europa das scooters Portugal é uma particularidade - por optar pelas scooters de 125cc e roda de menores dimensões - Portugal é também uma oportunidade, pois há muita margem de evolução para estes veículos em termos de mercado. Quebrar tabus é ou não é uma delícia? 

Foto: Gonçalo Fabião

A nova Piaggio Beverly 300 é sedutora. Linhas envolventes, a nascer de uma secção dianteira a flertar com a história da marca e que terminam numa traseira urbana e agressiva que remete para um quadro de futurismo. O primeiro olhar revela detalhes de pura classe como o banco luxuoso e bem acabado e os instrumentos, num painel LCD de cinco polegadas e meia objectivo e pragmático. 

POTÊNCIA E SEGURANÇA 
O motor é um monocilíndrico de quatro válvulas (300cc, 26cv e 26NM) da família HPE já conhecido deste ESCAPE da peculiar da MP3 (link). Toda a engenharia - notem a baixa disposição do depósito de combustível - pensou num conjunto com baixo centro de gravidade e ligeiro, cerca de 185Kg. Aspecto absolutamente determinante é a dimensão das suas rodas. Com jante de 16’ na dianteira e 14’ no eixo traseiro, temos assim um conjunto pronto a dominar a cidade e os seus múltiplos obstáculos.

Foto: Gonçalo Fabião

Sucede, que a Beverly 300 impõem-se pela sua natureza como um veículo bem mais ecléctico. Gosta de sair dos centros urbanos e apresenta uma condução deliciosa, eficaz, e acima de tudo prazerosa nas estradas que envolvem as colinas dos arredores da cidade. O motor é vivo e surpreende na subida de rotação, ao ponto de quando entramos naquela via rápida do dia-a-dia, a moto nos enviar para velocidades bem acima do limite legal. A travagem também surpreende pela sua suavidade e as suspensões Showa tornam o conjunto confortável. 

Foto: Gonçalo Fabião

Cereja no topo do bolo da segurança é o controlo de tracção que tem duas funções. A primeira é garantir que algum excesso em mau piso não resulta em prejuízo. A segunda função é a pura diversão. Ou seja, podendo esse controlo de tracção ser desligado, podem os mais atrevidos fazer umas brincadeiras com o belo binário que o motor HPE nos oferece. 

DESCOMPLICADA E INTENSA
Nota muito positiva para dois destaques. O espaço debaixo do assento é generoso, cabendo dois capacetes abertos ou uma daquelas mochilas cheias de tralha para um dia de trabalho, ginásio e afazeres vários. Já o sistema Keyless, permite fazer todas as operações necessárias sempre com a chave no bolso, facilitando muito os dias stressantes - onde temos de andar de um lado para o outro, parar a moto aqui e acolá - evitando assim que nos preocupemos um segundo com trancar malas ou direcção. Uma delícia absoluta. A prova a esta novíssima Piaggio Beverly foi extensa e intensa. 

Foto: Gonçalo Fabião

Há sempre a tentação de apontar defeitos apenas por apontar. Não havendo motos perfeitas, ao contrário do que alguns afirmam, tenho dificuldade em vislumbrar sequer aspectos menos bons nesta bela italiana. Talvez o consumo pudesse ser mais simpático. A Beverly reclamou quatro litros redondos do tal líquido inflamável que faz a nossa felicidade por cem quilómetros de sorriso nos lábios. A Piaggio solicita uma transferência bancaria de 6.300€ para quebrarem o vosso tabu. Com classe!
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